'Tensão'
sobre tarifas e surpresa em terras raras: os bastidores da reunião entre Lula e
Trump na Casa Branca
A
reunião entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) atingiu, na avaliação do governo brasileiro, ao menos um dos
seus objetivos principais: ganhar tempo e evitar a imposição de novas tarifas
sobre produtos do país a pouco mais de cinco meses das eleições presidenciais.
Essa
crença foi expressada por assessores do presidente Lula após o encontro.
Apesar
de boa parte das tarifas impostas por Trump a produtos brasileiros a partir de
julho do ano passado ter sido retirada ao longo dos últimos meses, o Brasil é
alvo de duas investigações com base na chamada seção 301 da Lei de Comércio dos
EUA, que investiga supostas práticas comerciais irregulares do país.
Uma
delas tem prazo para terminar em julho e, em tese, poderia servir de base para
mais tarifas norte-americanas até mesmo antes desse tempo.
Mas,
segundo o governo brasileiro, os dois presidentes determinaram a criação de um
grupo de trabalho para discutir a questão tarifária com um primeiro prazo de
conclusão em 30 dias. Com isso, o governo brasileiro entende que ganhou pelo
menos um mês com a garantia de que novas tarifas não serão aplicadas.
Interlocutores
do presidente familiarizados com o teor da reunião afirmam que a questão
tarifária foi, de fato, o único ponto em que houve alguma discordância entre as
duas equipes técnicas que acompanharam os dois presidentes.
De
acordo com eles, o representante-geral de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson
Greer, teria sido o responsável por "tensionar" parte da reunião,
defendendo que a tarifa média brasileira sobre produtos importados dos Estados
Unidos ainda estaria em níveis elevados, o que justificaria a aplicação de
tarifas a exportações brasileiras.
Segundo
um assessor do presidente Lula ouvido pela BBC News Brasil em caráter
reservado, Greer teria atuado como o "policial mau", responsável por
colocar pressão nas negociações.
Segundo
ele, esse comportamento de Greer já era esperado pela equipe brasileira uma vez
que o oficial norte-americano é um notório defensor da política de tarifas. Sua
atuação, no entanto, segundo a delegação brasileira, teria sido parcialmente
contornada pela postura de Trump ao longo do encontro, que acatou a proposta
brasileira de criar o grupo de trabalho para debater o tema.
A
equipe econômica brasileira, liderada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan,
e pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio
Elias Rosa, intervieram pontuando que o Brasil teria um déficit de pelo menos
US$ 20 bilhões na balança comercial com os Estados Unidos nos últimos anos. Nos
cálculos dos próprios norte-americanos, segundo Rosa, esse déficit seria ainda
maior: US$ 30 bilhões.
De
acordo com o governo, os dados mostrariam que não haveria razões para os EUA
sancionar um país com quem eles têm saldo positivo na sua balança comercial.
<><>
O que é a Seção 301
O
governo dos Estados Unidos abriu uma investigação comercial contra o Brasil com
base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento legal que
permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou
discriminatórias contra empresas e produtos americanos.
O
procedimento, conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA
(USTR), pode resultar em medidas de retaliação, como a imposição de tarifas
adicionais sobre exportações brasileiras.
A
investigação envolve um amplo conjunto de temas. Entre eles estão políticas
brasileiras ligadas ao comércio digital, ao sistema Pix, regras de proteção de
dados, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado
brasileiro, às tarifas preferenciais concedidas a outros parceiros comerciais,
ao combate à corrupção e ao desmatamento ilegal.
Na
avaliação do governo americano, essas práticas podem criar barreiras ou
distorções que prejudicam a competitividade de empresas dos EUA no Brasil.
A Seção
301 autoriza o governo americano a investigar, de forma unilateral, atos,
políticas ou práticas de outros países que "onerem ou restrinjam" o
comércio dos Estados Unidos.
Se o
USTR concluir que houve prejuízo e que as medidas estrangeiras são
"injustificáveis" ou "irracionais", a lei permite a adoção
de medidas de retaliação, como tarifas, restrições comerciais ou a suspensão de
benefícios.
O
instrumento ganhou notoriedade nos últimos anos por ter embasado o
"tarifaço" imposto pelos EUA à China durante o primeiro mandato de
Donald Trump.
No caso
brasileiro, a abertura do processo ocorre em um contexto de maior tensão
política e comercial entre os dois países.
Além
das críticas de setores empresariais americanos, a iniciativa também reflete
uma estratégia do governo dos EUA de buscar bases legais mais robustas para
ações comerciais, após decisões judiciais internas terem limitado o uso de
outros mecanismos tarifários.
O
governo brasileiro contesta a investigação e afirma que suas políticas são
transparentes, não discriminatórias e compatíveis com as regras da Organização
Mundial do Comércio (OMC).
O
Itamaraty argumenta ainda que a Seção 301 é um instrumento unilateral,
incompatível com o sistema multilateral de solução de controvérsias, e lembra
que os EUA mantêm superávit comercial na relação bilateral.
A
apuração segue um rito formal, com consultas entre os governos, audiências
públicas e coleta de contribuições de empresas e entidades interessadas. O
processo pode se estender por cerca de um ano.
Até sua
conclusão, o principal impacto tende a ser a incerteza para exportadores e
investidores, diante do risco de novas barreiras comerciais impostas pelos
Estados Unidos.
<><>
Surpresa: terras raras
Um dos
pontos que mais chamou atenção da equipe brasileira foi a postura de Trump e
sua equipe em relação a minerais críticos.
Segundo
integrantes da comitiva do presidente, Trump demonstrou um interesse mediano
pelo assunto, o que contrastou com a expectativa de que este fosse um assunto
que dominaria, pelo lado norte-americano, parte do debate.
Nos
últimos meses, técnicos brasileiros e norte-americanos vinham mantendo reuniões
sobre o assunto e uma proposta chegou a ser enviada pelos EUA a respeito do
assunto.
Desde o
início do governo Trump, o governo dos EUA vem tentando diminuir a dependência
do país em relação à China no acesso a minerais críticos como as terras raras,
usadas na produção de equipamentos para a transição energética e de produtos de
alta tecnologia como telefones celulares, computadores e armamentos.
Neste
contexto, o Brasil é visto como um potencial parceiro, pois o país detém a
segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, atrás apenas da
China. Em março, o governo dos EUA promoveu um fórum sobre minerais críticos
envolvendo empresários brasileiros e norte-americanos, além de ter firmado um
protocolo de intenções com o governo de Goiás relacionado à pesquisa e
exploração desses minerais.
Por
tudo isso, a equipe brasileira preparou documentos para atualizar os
norte-americanos sobre o andamento do marco legal para a exploração desse
material no Brasil.
Nesta
semana, por exemplo, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que cria
a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que estabelece
os primeiros parâmetros legais do Brasil sobre o tema.
Para o
Brasil, a criação da política, que deve ser chancelada pelo Senado nos próximos
dias, é vendido como um trunfo aos norte-americanos. Em entrevista coletiva, o
presidente Lula disse que o Brasil está aberto a investimentos dos EUA no setor
desde que não se limitem a explorar os minerais e a exportá-los apenas como
matéria-prima. O governo quer que os investimentos priorizem o beneficiamento
deles em território nacional.
Apesar
disso, nenhum acordo sobre o assunto foi assinado pelas duas delegações.
A
avaliação da equipe brasileira é de que a postura de Trump sobre o assunto
durante a reunião possa ser resultado do fato de que, na prática, os
norte-americanos já estejam avançando com seus projetos de extração de minerais
críticos no Brasil a exemplo da compra de uma mineradora de terras raras em
Goiás por uma empresa dos EUA, divulgada em abril.
<><>
Crime organizado
Um dos
pontos que era tido como prioridade do governo brasileiro foi a pauta do
combate ao crime organizado e a tentativa de evitar que os EUA classificassem
as facções criminosas brasileiras como Primeiro Comando da Capital (PCC) e
Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.
Segundo
Lula e um interlocutor familiarizado com o teor da reunião, a possível
designação das facções brasileiras não foi debatida na reunião.
"Não
discutimos isso. O que eu queria dizer eu entreguei por escrito. Cada assunto
que eu discuti com o presidente Trump, além dos ministros falarem, eu entreguei
a ele cada proposta nossa escrita em inglês. Pra que ele não ter dúvida sobre o
que nós queremos, porque estamos levando muito a sério essa questão do crime
organizado", disse Lula.
A
intenção de designar as facções brasileiras como organizações terroristas havia
sido expressa pelos EUA no início do ano, fazendo com que o governo brasileiro
mobilizasse sua diplomacia para convencer os governo norte-americano a recuar
pelo menos de forma temporária.
O
governo alega que é contra essa ideia porque ela abriria brechas para ações
militares, policiais e de inteligência norte-americanas em território nacional
a exemplo do que acontece em outras regiões do mundo como na costa do Caribe,
no Oriente Médio e na costa do Oceano Pacífico.
Durante
o almoço entre as duas delegações nesta quinta-feira, o Brasil entregou uma
nova proposta de cooperação internacional para o combate ao crime organizado
focado em dois eixos: o combate à lavagem de dinheiro que financia organizações
criminosas; e o tráfico de armas.
A
proposta, segundo interlocutores brasileiros, vai ser analisada pelo governo
norte-americano, mas ainda não há prazo para que uma resposta seja dada.
Lula
chegou a dizer que na entrevista coletiva que uma das ações previstas seria a
criação de uma espécie de grupo internacional com países da América Latina e de
outras regiões para atuação em conjunto contra carteis e outras organizações
criminosas. Ele citou o exemplo de um centro montado em Manaus que reúne
representantes de polícias e forças de seguranças de todos os países da região
amazônica.
"Eu
disse a ele que estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os
países da América Latina e quiçá com todos os países do mundo, para criarmos um
grupo forte de combate ao crime organizado", disse Lula.
¨
O que os jornais do mundo disseram sobre encontro de Lula
e Trump
O encontro do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump, em Washington,
nesta quinta-feira (7/5), repercutiu amplamente na imprensa internacional.
A
reunião, que durou cerca
de três horas e marcou a primeira visita de Lula à Casa Branca
durante o governo Trump,
tratou de temas como minerais críticos, tarifas americanas sobre produtos
brasileiros e estratégias de combate ao crime
organizado.
O
jornal espanhol El País destacou o tom de reaproximação entre os dois
presidentes. Segundo a publicação, apesar das tensões acumuladas nos últimos
meses, "havia muito em jogo nessa relação estratégica" e os líderes
"demonstraram clara sintonia".
A
reportagem afirmou que Lula minimizou
os atritos anteriores com Trump e que o encontro teve como objetivo "virar
a página dos desentendimentos" entre os dois governos.
O
diário espanhol também ressaltou os gestos simbólicos da recepção ao presidente
brasileiro.
Lula
entrou pela ala sul da Casa Branca, onde um tapete vermelho foi colocado
especialmente para recebê-lo, enquanto Trump saiu até a escadaria para
cumprimentá-lo pessoalmente — o que o El País classificou como um "sinal
de boa relação pessoal apesar das diferenças ideológicas".
Já o
jornal francês Le Monde afirmou que, apesar dessas diferenças, Lula e Trump
apareceram sorridentes nas fotos após "uma reunião que se estendeu muito
além do horário previsto". Segundo a publicação, os líderes buscavam
"encontrar pontos em comum em questões delicadas que afetam as duas
maiores economias das Américas".
O
periódico francês também destacou o "impulso" eleitoral que o
encontro representa para Lula, que deve enfrentar nas urnas em outubro, entre
outros candidatos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente
Jair Bolsonaro e aliado de Trump.
Na
mesma linha, o argentino La Nación observou que a reunião "durou muito
mais do que o esperado" e ocorreu sob "estrita
confidencialidade".
O
britânico The Independent, por sua vez, afirmou que o encontro teve um
"clima de mistério" e que Trump "evitou a imprensa" após a
reunião com Lula. O jornal ressaltou que uma coletiva prevista no Salão Oval
"foi adiada e depois cancelada sem explicações", após os dois líderes
permanecerem reunidos por horas a portas fechadas.
O
cancelamento da coletiva conjunta também foi destacado pela Reuters. A agência
observou que os dois líderes estavam programados para responder perguntas no
Salão Oval, mas não apareceram, "o que gerou especulações sobre um
possível fracasso nas negociações".
Mais
tarde, porém, Lula afirmou que havia pedido que não houvesse coletiva antes da
reunião para que os dois pudessem conversar primeiro.
A
Reuters ainda classificou o encontro como uma reunião entre "duas das
figuras populistas mais proeminentes do mundo", apesar das fortes
diferenças ideológicas.
Já o
Wall Street Journal afirmou que os dois líderes "buscavam reparar as
relações desgastadas" entre Brasil e Estados Unidos.
O
jornal também destacou o impacto eleitoral da reunião: "Após meses de
tensão, o líder brasileiro tenta impedir que o presidente dos EUA apoie o
candidato da direita nas eleições presidenciais de outubro", em referência
a Flávio Bolsonaro.
Na
coletiva realizada na Embaixada do Brasil após o encontro, Lula foi questionado
por jornalistas se teria conversado com Trump sobre apoio nas eleições deste
ano ou se temia que o presidente americano apoiasse o filho de Jair Bolsonaro.
Lula
respondeu que esse é um assunto interno do Brasil e que não discutiu o tema com
Trump.
"Não
existe nenhuma possibilidade de eu discutir esse assunto com qualquer
presidente de qualquer país do mundo. Esse é um assunto brasileiro e eles sabem
disso, eles também são presidentes."
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário