A
alma do futebol pertence à classe trabalhadora
Poucas
coisas conseguiram ser tão consistentemente políticas quanto o futebol. Isso se
aplica às origens populares do esporte, quando as peladas entre vilarejos
serviam de pretexto para destruir cercas que ameaçavam isolar terras agrícolas
comuns. E se aplica também a meados do século XIX, quando — expurgado de seus
elementos plebeus e codificado segundo um conjunto claro de regras universais —
o futebol se transformou em uma ferramenta para recrutar futuros membros da
classe dominante britânica para o projeto imperial e iniciá-los no culto
atlético amador do cavalheiro vitoriano.
Contudo,
o futebol é ainda mais político hoje em dia. O esporte mais popular do mundo
não é apenas uma indústria multibilionária e palco para todo tipo de interesse
econômico e político, desde fundos soberanos dos Estados do Golfo até empresas
de private equity estadunidenses, mas também é o espetáculo mais popular do
planeta. Isso fez do futebol um catalisador para lutas políticas de todos os
tipos.
O
historiador do futebol David Goldblatt ministrará uma série de seminários sobre
a história do esporte para a revista Equator. Antes dessas palestras, ele
conversou com Bartolomeo Sala para a revista Jacobin sobre como, apesar dos
esforços dos interesses financeiros por trás do esporte, as elites simplesmente
não conseguem separar a política do futebol.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Podemos afirmar que você é o maior
escritor de futebol do mundo, mas sua formação é, na verdade, em sociologia.
Seu primeiro livro, The ball is round [A bola é redonda] (2006), uma obra
monumental com mais de 900 páginas sobre a história global do futebol, começa
com uma citação de Émile Durkheim. O que despertou seu interesse pelo futebol?
DAVID
GOLDBLATT - Boa pergunta. Bem, houve vários momentos, mas se eu tivesse que
mencionar um, seria quando, em 1990, fui convidado pelo meu bom amigo Dan Levy
para a quarta rodada da Copa da Inglaterra, entre Charlton e Arsenal.
Eu não
ia a um jogo de futebol desde criança. Na época, porém, eu estava no meio de um
doutorado em sociologia em Cambridge, com foco em teoria social contemporânea e
política ambiental, então eu estava bem “sociologicamente envolvido”. Lembro-me
de sair da estação de trem para esperar por Dan em frente ao Valley, o estádio
do Charlton, e havia uma multidão se formando. De repente, todos os neurônios
sociológicos do meu cérebro explodiram simultaneamente em uma profusão de
questionamentos intelectuais e admiração pelas regras, tradições, expressões
idiomáticas, símbolos e comportamentos ocultos que estavam acontecendo diante
dos meus olhos em tempo real.
Uma das
coisas mais incríveis foi estar no setor visitante do Arsenal e presenciar,
pela primeira vez, na terceira decisão absurda da arbitragem, a torcida do
Arsenal, instantaneamente e em uníssono, cantando em coro: “Vocês não sabem o
que estão fazendo”. Ou, ainda, quando Perry Groves, o substituto cultuado pelo
time, estava se aquecendo, eles cantando “Todos nós vivemos em um mundo de
Perry Groves” na melodia de “Yellow submarine”. Foi simplesmente hilário.
Imagino
que eu já tivesse lido e refletido bastante sobre subcultura. Stuart Hall e o
Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham são a base da minha
vida intelectual. E então, de repente, eu pensei: aqui estamos.
• Na introdução de um seminário que
ministra por ocasião da Copa do Mundo, você começa citando o escritor uruguaio
Eduardo Galeano, que diz: “A história oficial ignora o futebol”. E, no entanto,
se há algo que seus livros demonstram, é como os dois estão irremediavelmente
entrelaçados. Em The ball is round, por exemplo, você escreve: “Nenhuma
história do mundo moderno está completa sem um relato sobre o futebol”. Pode
nos explicar o que quer dizer com isso? E, em segundo lugar, como é que, num
mundo como o nosso, onde tudo gira em torno do dinheiro, o futebol continua a
ser uma ferramenta política tão poderosa?
DG -
São duas questões muito importantes, então vamos analisá-las uma de cada vez.
Afirmar que nenhuma história do mundo moderno está completa sem o futebol,
certamente na perspectiva de 2026, parece uma verdade incontestável — na
verdade, óbvia — visto que o maior encontro coletivo da humanidade que existe
atualmente é a Copa do Mundo de futebol masculino. É o maior espetáculo da
Terra.
Quando
o Marrocos venceu seus jogos na Copa do Mundo do Catar de 2022, não houve
apenas comemorações exuberantes no campo e no estádio, mas em todas as cidades
do mundo árabe, de Casablanca, no oeste, a Bagdá, no leste, e em toda a
diáspora marroquina na Bélgica, Holanda e França, com dezenas, até mesmo
centenas de milhares de pessoas nas ruas. E não se tratava apenas de celebrar o
Marrocos, mas um triunfo pan-africano e pan-árabe, com a bandeira palestina e
slogans pró-Palestina como elementos centrais dessa celebração.
Então,
por que não incluir isso como parte da trama e da estrutura da vida cotidiana
que se tenta capturar? Além disso, o futebol sempre foi popular e
simbolicamente importante desde o final do século XIX. Ele adquiriu
significados e propósitos políticos muito cedo — desde a criação inicial do
futebol como uma espécie de culto atlético amador do cavalheiro vitoriano, como
uma subseção do programa educacional e político para treinar as elites do
Império Britânico. Se isso não é um programa político, eu não sei o que é, e o
futebol está no centro disso.
Na
década de 1930, o comunismo e o fascismo já haviam chegado. O ultranacionalismo
também. Todos encontraram seu espaço no futebol, seja Mussolini na Copa do
Mundo de 1934 ou os uruguaios celebrando seus cem anos de democracia na Copa do
Mundo de 1930. Há toda uma história paralela, mesmo que, é claro, não seja um
reflexo preciso.
Quanto
à sua segunda pergunta, sobre se agora tudo se resume a dinheiro… É preciso
refletir sobre o que queremos dizer quando afirmamos que o futebol é o
espetáculo esportivo profissional, de elite, masculino, no mais alto nível da
Europa Ocidental, e talvez em alguns outros lugares do mundo — e essa não é uma
posição descabida. No entanto, acho muito importante lembrar que o futebol é
muito mais do que isso. É um jogo que as pessoas praticam mais do que qualquer
outro na história. O número de mulheres — e de mulheres muito jovens — jogando
futebol é altíssimo. O espetáculo profissional ainda não está totalmente
dissociado desses mundos da vida cotidiana. Afinal, são esses espaços que criam
a cultura e o gosto pelo espetáculo.
Acho
também que outro ponto importante a lembrar sobre a comercialização é que,
embora haja muito dinheiro circulando, e obviamente os jogadores de elite do
esporte ganhem muito dinheiro, os agentes ganhem muito dinheiro, e Gianni
Infantino tenha um salário muito bom, os clubes de futebol perdem dinheiro.
Existe uma tendência a pensar que o futebol se tornou um grande negócio. Mas as
regras da economia neoclássica não se aplicam aqui.
A
Premier League britânica é a liga de futebol mais bem-sucedida e popular da
história. Seu faturamento anual é quase o dobro do da La Liga. Creio que seja
maior do que o da La Liga espanhola e da Bundesliga alemã juntas. Mesmo assim,
possui uma dívida de US$ 11 bilhões com um faturamento anual de US$ 7 bilhões.
No total, obteve lucro em apenas quatro das trinta e quatro temporadas. O
OnlyFans pagou mais impostos corporativos no Reino Unido do que a Premier
League em trinta e três anos.
Portanto,
a moeda de troca não é o lucro, mas algo mais complexo. Para Vangelis
Marinakis, dono do Nottingham Forest, e para os tailandeses, há um capital
político em seus países de origem. Além disso, existem projetos estatais
explícitos, como o Newcastle United e o Manchester City.
Quero
dizer, o clube dominante da era, o Manchester City, é um ativo central do
Estado dos Emirados Árabes Unidos. Khaldoon [al-Mubarak], o presidente do
Manchester City, possui oito ou nove escritórios no coração do Estado
emiradense. Todas essas pessoas reconhecem o futebol como a ferramenta mais
eficaz e poderosa disponível para a comunicação popular global.
• Parece improvável que o mundo esteja
torcendo pelos EUA durante este torneio.
DG - O
engraçado sobre a seleção masculina dos EUA é que eles são tão ruins que é
difícil odiá-los. Além disso, boa parte da base eleitoral do MAGA realmente não
gosta de futebol. No passado, durante as Copas do Mundo, alguns dos radialistas
mais polêmicos e artistas performáticos, como Glenn Beck e Ann Coulter,
chegaram a dizer que futebol é um jogo de camponeses marxistas do Terceiro
Mundo, homens afeminados e mulheres. Ninguém com um único bisavô nascido nos
Estados Unidos gosta desse jogo. Essa é a tática. Além disso, recentemente,
apoiadores do MAGA e [Donald] Trump criticaram duramente a seleção feminina por
ser “progressista demais”.
Então é
difícil para eles fazerem como Mussolini e apoiarem a grande seleção dos EUA
como essa grande expressão da masculinidade estadunidense. De qualquer forma, é
um grupo superdiverso e seu eleitorado é composto principalmente por
democratas: mulheres, latinos e profissionais urbanos cosmopolitas.
É
possível que, na verdade, a seleção masculina de futebol dos EUA e seus
torcedores se apresentem nos estádios como opositores de Trump. Tem havido
muito sentimento anti-ICE em faixas nos estádios. Veremos se os Estados Unidos
vão lidar com isso com a mesma tenacidade com que os catarianos perseguiram
pessoas com bandeiras do arco-íris ou faixas de protesto iranianas em 2022. Não
sei o que eles farão com isso.
• Nunca pensei no futebol como um cavalo
de Troia do marxismo cultural, mas aceito isso de bom grado. Falando em
tensões, a tensão central que você descreve em seus livros é a contradição
interminável entre o futebol como ritual coletivo — a última “religião laica”,
como foi chamada por [Eric] Hobsbawm, [Pier Paolo] Pasolini e [Jean-Paul]
Sartre — e a realidade de ser, se não uma verdadeira máquina de fazer dinheiro,
pelo menos uma expressão externa das formas mais desenfreadas e corruptas do
capitalismo. Um ótimo exemplo disso, como você mencionou, é a Premier League:
uma marca global bilionária e um campo de atuação para fundos soberanos do
Golfo, empresários gregos obscuros e financistas estadunidenses e fundos de
private equity, cujo apelo e romantismo se baseiam, pelo menos em parte, em um
apego nostálgico a expressões culturais de origem operária e, muitas vezes, a
um tipo muito específico de tribalismo. Dado o nível de mercantilização e
apropriação pelas elites, que sentido faz continuar a considerar o futebol como
uma forma de espetáculo público? Não seria melhor pensar nele como uma forma de
escapismo? Quase uma dose diária de comunitarismo descomplicado num mundo que
se torna cada vez mais individualizado, atomizado e desencantado a cada minuto?
DG - Eu
diria, por que não pensar nisso como ambas as coisas? Na maioria das formas de
arte e na cultura popular, isso é meio que a norma. Não acho que o futebol seja
uma religião, mas definitivamente é um ritual coletivo e uma novela. Só não o
chamamos de novela porque, até recentemente, era assistido principalmente por
homens. É também uma forma de espetáculo público e um espaço de êxtase
coletivo, um pouco como os festivais de música às vezes são.
É tudo
isso simultaneamente, então quando olhamos para a captura da Premier League
pela elite, por exemplo, suponho que a questão passa a ser: resta algo no
futebol que se relacione com seus elementos comunitários, progressistas e
lúdicos?
Acho
que, em certo nível, há uma batalha acontecendo dentro dos estádios da
Inglaterra entre aqueles que desejam comercializar e moldar o espetáculo em
cada detalhe, drenando dele todo e qualquer vestígio de humanidade coletiva,
inteligência, incerteza ou risco, e aqueles que insistem, com sua própria
presença e comportamento, que existe ali um conjunto de relações sociais que
não se reduz a uma transação comercial. E isso é algo muito poderoso no
capitalismo tardio. Futebol é apenas um jogo. Mas isso não justifica sua
irrelevância. Pelo contrário, a razão de sua genialidade e importância é que
ele oferece um espaço para valores e vida que resiste à lógica do dinheiro e do
poder.
Penso
também que, mesmo na sua forma romantizada, a presença e a veneração do que é,
em grande parte, uma cultura industrial da classe trabalhadora perdida são
incrivelmente importantes.
Quem
você acha que construiu a Grã-Bretanha? Foram os trabalhadores que, desde a
virada neoliberal, foram excluídos da equação, tanto política quanto
historicamente. Acho importante que esse mundo seja preservado. Uma das coisas
que mais gosto no futebol inglês é ouvir o noticiário esportivo das cinco da
tarde na BBC 5 Live.
Para
mim, ouvir falar de Preston, Macclesfield, Chesterfield, Bolton e Hartlepool é
como ouvir uma ladainha da geografia da Inglaterra industrial. Não se ouve mais
falar desses lugares. É em parte por isso que todos amam a Premier League no
mundo todo. Ela conserva, apesar de tudo, culturas de torcedores,
comportamentos e atmosferas incrivelmente extraordinários que se baseiam —
embora reinventados — na solidariedade, no humor e nos arquétipos daquele mundo
perdido.
Finalmente,
sobre toda essa questão do espetáculo público, para quem duvida que o futebol
não seja um espaço absolutamente vital para a atuação da política progressista,
darei apenas dois exemplos: primeiro, Marcus Rashford, um atacante de 23 anos
do Manchester United que forçou o governo britânico a mudar as políticas de
bem-estar social e alimentação duas vezes; segundo, Gary Lineker, cuja demissão
após seu tweet sobre a linguagem da imigração levou a uma greve no programa de
futebol Match of the Day, a primeira vez que o programa não foi transmitido
corretamente em 64 anos. Ele basicamente venceu a discussão. Tipo, vamos lá,
gente, temos que entrar lá! É onde a política com “p” minúsculo acontece! Há um
certo elitismo em mim que gostaria que estivéssemos lidando com isso de
maneiras menos metafóricas. Mas este é o mundo em que vivemos.
• Que mudanças no jogo você gostaria de
ver em um mundo ideal? Quais são as coisas pelas quais nós, como esquerdistas e
fãs de futebol, deveríamos nos organizar? Estou pensando, em particular, em
novos, ou talvez antigos, modelos de propriedade.
DG -
Acho que o primeiro ponto a destacar é que os motivos para otimismo são
excelentes e a maior mudança que ocorrerá nos próximos trinta anos é o
crescimento do futebol feminino. Já vimos uma transformação enorme e acredito
que isso continuará.
Em
segundo lugar, é preciso fazer algo em relação à governança global e regional.
A FIFA, a UEFA e as demais instituições operam numa espécie de zona cinzenta do
direito internacional, onde basicamente não prestam contas a ninguém além de
seus próprios membros internos. No mínimo — e acredito que o instrumento para
isso seja a União Europeia — é preciso haver uma mudança na natureza de sua
governança. Penso que todas deveriam ser desmembradas também. Acho que são
grandes demais e tentam fazer muitas coisas diferentes. A representação de
jogadores, torcedores e mulheres, que atualmente estão ausentes ou são minorias
marginalizadas em todas essas organizações, também precisa ser ampliada.
Quanto
aos modelos de propriedade, é muito simples. Os alemães já resolveram isso. Nós
já chegamos lá — a regra 50+1. Funciona. Você ainda ganha a Copa do Mundo e a
Liga dos Campeões. Você tem estádios mais cheios do que em qualquer outro lugar
do mundo. Tipo, o que você quer? É muito, muito simples.
Nós, da
esquerda — e Trump e a direita populista nos lembram disso —, esquecemos que,
com vontade política, audácia e apoio popular suficiente, é possível realizar
todo tipo de coisa que foi considerada impossível por muito tempo. Uma dessas
coisas seria simplesmente aprovar uma lei que determine que esse deve ser o
modelo de propriedade dos clubes de futebol. Isso representa um salto enorme,
politicamente, não apenas para o futebol, mas para a política do Norte Global,
mas não é nenhum bicho de sete cabeças.
Finalmente,
vimos que os torcedores de futebol podem se organizar sem se basearem em
questões tribais. Todos nós gostamos do espírito tribal, mas também precisamos
ser cidadãos. E na Alemanha e na Inglaterra, em particular, já existem
associações de torcedores com atuação nacional que se tornaram grupos de
pressão política. Precisamos disso em todos os lugares, e precisamos de mais
associações. Você sabe quem costumam ser as figuras-chave, certamente na
Inglaterra? Sindicalistas, torcedores de futebol que também entendem de
organização. Eis o ponto principal: é preciso se organizar.
Fonte:
Entrevista com David Goldblatt - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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