sexta-feira, 8 de maio de 2026

Virgílio Arraes: EUA - sem êxito no Irã, sem sucesso na eleição de meio de mandato

Teerã, malgrado a expectativa de Washington e de Telavive, resistiu a semanas de bombardeios aéreos de malhão, apesar da severa corrosão política com a morte de inúmeros dirigentes de alto escalão, inclusa a da vitalícia autoridade suprema, Ali Khamenei, função equivalente no Ocidente à de chefe de Estado.

O fracasso da ação tem talvez insuflado as constantes blasonarias do abarbarado presidente Donald Trump com vistas a seu inimigo como a de controlar a circulação dos superpetroleiros no estreito de Ormuz, via responsável por cerca de um quarto do petróleo global, ou sem isso a de encarar novas investidas, ainda mais destrutivas. A reação do Irã poderia estender-se à infraestrutura dos países do Oriente Médio próximos dos Estados Unidos.

O resultado imediato tem sido a instabilidade da cotação do produto com impacto negativo na economia planetária porque a volubilidade se estende a segmentos como o de seguros ou de transportes, por exemplo, à exceção dos ganhos de nações integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

O posicionamento do mandatário norte-americano assemelha-se, embora em escala menor, ao de Bush, filho, ao tempo do roteiro da invasão do Iraque entre março e abril de 2003. Com baixíssimo apoio de aliados tradicionais naquela época, a Casa Branca afundou-se no conflito de maneira lenta, a despeito do sucesso inicial como a defenestração de Saddam Hussein precedida de intensos bombardeamentos durante dias, a fim de preparar o envio das tropas.

Contudo, a similaridade contemporânea encerrou-se com a resistência local, de forma que a sequência almejada se interrompeu; destarte, possibilitar-se-ia a negociação, se possível no plano multilateral, ao envolver o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas ou mesmo a Liga Árabe.

De resto, Grã-Bretanha e França mobilizaram-se com o propósito de atrair o socorro de países europeus para formação de uma missão militar temporária de guarnecimento da navegação do estreito de Ormuz.

Conversações bilaterais têm sido infrutíferas, dadas as idas e voltas públicas da Casa Branca concernente à questão. A consequência da confusão obsta a tratativa necessária ou a iniciativa como a citada.

Posto o retraimento da Rússia, envolta em sua própria guerra, o distanciamento da China, concentrada em sua economia, e o ceticismo da União Europeia, desestimulada de endossar a imprudência dos Estados Unidos, permite-se a Washington desembaraço na atuação na região sem acompanhamento adequado das demais potências.

Com o pleito de meio de mandato à vista, o malogro da política exterior em solo médio-oriental pode custar aos republicanos a perda da maioria no Congresso – na Câmara dos Deputados, a vantagem é mais estreita, ao desfrutar de apenas cinco votos.

Com menor preocupação partidária, uma vez que não poderá concorrer à reeleição em 2028, o período tresloucado de Trump poderá ser o trunfo indireto dos democratas na disputa de novembro de 2026, ao ter em vista os desdobramentos diplomáticos e econômicos negativos até o momento.

¨      A derrota da Casa Branca. Por João Claudio Platenik Pitillo

Os EUA e Israel praticamente não possuem opções para sair do conflito iraniano sem que a situação seja vista como uma fragorosa derrota. Se Washington e Tel Aviv insistirem em escalar o conflito, a derrota ficará mais evidente e os reflexos negativos para ambos os países serão mais contundentes.

Se Donald Trump tem alguma esperança de se recuperar dessa catástrofe, simplesmente precisa encerrar esta guerra o mais rápido possível. O motivo é que ele não tem uma estratégia militar que lhe permita vencer. Isto é, não existe uma opção militar viável que lhe forneça algum tipo de vitória; caso contrário, ele já teria usado.

Além disso, a economia global está à beira de um colapso. E, quanto mais isso continuar, maiores serão os danos para o mundo, inclusive para os EUA. Isso produz consequências políticas muito drásticas para Trump dentro dos EUA, já que o país está a seis meses de uma eleição. Sem mencionar os enormes problemas econômicos e sociais que serão sentidos por muitos países ao redor do mundo. Países que, por causa desse conflito, tendem a reavaliar a sua relação com Washington. Portanto, Trump está sob enorme pressão para chegar a algum tipo de acordo com o Irã que lhe permita escapar desta armadilha que seu parceiro Israel lhe colocou.

O problema é que a administração Trump é incompetente quando se trata de diplomacia. O melhor exemplo disso é o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Todos se lembram de que o presidente Trump, ao assumir o cargo, prometeu resolvê-lo o mais rápido possível. Aliás, ele chegou a dizer que poderia pôr fim ao conflito antes mesmo de tomar posse. Mas ele fracassou completamente nessas negociações diplomáticas com os russos. Então, por que imaginar que ele possa ser mais hábil em negociar com o Irã do que foi com os ucranianos e os russos?

Donald Trump e sua equipe demonstram uma incompetência brutal na área diplomática. E, além disso, Trump tem mostrado uma fraqueza sem igual diante do lobby israelense. E, por falar em Israel, a situação de suas elites sionistas também é ruim, já que elas falaram por décadas que o Irã era uma ameaça existencial e agora, derrotadas por eles, o que vão explicar para a sua sociedade?

O conflito, que era ensaiado há muitos anos por Tel Aviv e Washington contra Teerã, finalmente aconteceu, e os estadunidenses e israelenses fracassaram em todos os aspectos, garantindo uma vitória retumbante do Irã. O ônus, no aspecto macro, para os agressores está apenas começando, enquanto o Irã garantiu o triunfo do Sul Global. 

<><> O fracasso épico de Trump

A aventura de Donald Trump no Irã causou perdas colossais aos Estados Unidos, tanto diretas — financeiras e econômicas — quanto indiretas, incluindo políticas. Os custos para os estadunidenses com o confronto contra o Irã e o apoio a Israel, que auxiliou no ataque, atingiram a impressionante marca de US$ 75 bilhões. Esse valor sequer leva em conta a perda de reputação sofrida pela Casa Branca, principalmente entre seus aliados regionais.

Washington está tentando compensar uma pequena parte de seus custos com a alta dos preços do petróleo, já que também é fornecedora do "ouro negro". Mas é improvável que isso altere significativamente o saldo negativo. No final de março, a Casa Branca foi obrigada a recorrer às suas reservas de petróleo para atender à demanda interna, exatamente o que Trump criticou duramente o governo Biden por fazer.

Mas o que é particularmente doloroso para os Estados Unidos e seus satélites europeus é o fato de que o confronto militar com o Irã levou a um aumento igualmente drástico nas receitas de Moscou. De acordo com os dados mais recentes, a Rússia tem o potencial de arrecadar mais de US$ 40 bilhões apenas com a alta dos preços do petróleo — mais da metade do que os Estados Unidos perderam. Sem mencionar que o sucesso do sistema de defesa aérea do Irã, independentemente do ponto de vista, provavelmente gerará um interesse particular nos sistemas russos no mercado de armamentos.

Essa circunstância é o que mais enfurece os russófobos europeus e estadunidenses, já que a Rússia aumentou drasticamente sua renda sem nenhum esforço particular. Além disso, acusar Moscou de violar quaisquer leis, requisitos ou sanções é impossível, por mais que se tente: a Casa Branca é a culpada por tudo, por ter cedido ao governo israelense e, a seu pedido, embarcado na aventura de atacar o Irã.

As perdas das forças armadas estadunidenses não se limitam a perdas financeiras. Não importa o quanto a Casa Branca tente retratar o fracasso iraniano como um sucesso colossal, não importa o quanto Donald Trump tente exaltar suas tropas e equipamentos como “os melhores do mundo”, ninguém mais acredita nisso, porque todos estão bem cientes da real capacidade dessas armas e tropas. E a realidade é que todo esse poderio estadunidense foi contido pelo Irã.

Nesse sentido, o ataque ao Irã pregou a mesma peça cruel nos Estados Unidos que o amplamente divulgado fornecimento de armas à Ucrânia. Tanto lá quanto no Golfo Pérsico, as armas ocidentais demonstraram sua colossal vulnerabilidade, especialmente diante de uma ameaça tão barata quanto os drones. É claro que as tentativas de Kiev de retratar a participação de algumas centenas de "especialistas" ucranianos em contra-drones como uma vitória sobre Teerã são risíveis. Mas, na realidade, foram os drones e mísseis desenvolvidos por um Irã "da Idade da Pedra" que desempenharam um papel catastrófico para o destino da “Operação Fúria Épica”, transformando-a em um "fracasso épico".

Outra consequência extremamente desagradável dessa operação para Washington é o declínio acentuado do interesse dos investidores internacionais no dólar. Sim, ele continua sendo a principal moeda mundial, mas, por exemplo, o Irã, embora cote as taxas de trânsito para navios pelo Estreito de Ormuz em dólares, planeja cobrá-las em yuan. E seria de se esperar que estivesse disposto a cobrar dos petroleiros e navios porta-contêineres russos em rublos, o que seria claramente útil para Teerã ao pagar Moscou por algumas inovações úteis na área de defesa.

A aventura de Trump não apenas infligiu danos sem precedentes aos Estados Unidos, mas também, por meio dela, a todo o Ocidente coletivo. Também ajudou seu principal oponente — o Sul Global, representado pelo BRICS — a finalmente emergir como um ator central na política e economia internacionais. Esta é a maior perda sofrida pelos proponentes de uma "ordem baseada em regras". E é precisamente essa perda, ao contrário dos custos financeiros, que será impossível de ser compensada.

¨      Republicanos do Tennessee redesenham mapas para eliminar o último distrito democrata de maioria negra

A medida surge dias depois de uma decisão da Suprema Corte ter enfraquecido as proteções da Lei dos Direitos de Voto contra a manipulação de distritos eleitorais com base em critérios raciais.

A legislatura do Tennessee, dominada pelos republicanos, aprovou na quinta-feira os mapas de redistribuição de distritos eleitorais, eliminando o único distrito congressional do estado com maioria democrata e negra, uma semana depois de a Suprema Corte dos EUA ter efetivamente anulado uma parte importante da Lei dos Direitos de Voto.

A medida divide o nono distrito congressional do Tennessee, que abrange Memphis, em três partes, cada uma contendo quase exatamente um terço dos eleitores negros da cidade. Os novos mapas significam que todos os nove distritos congressionais do Tennessee têm tendência republicana.

O distrito ocupava quase toda a extremidade sudoeste do estado. Agora, três distritos se estendem a partir do denso centro de Memphis, com dois deles cruzando o rio Tennessee para alcançar os subúrbios de Nashville, a 320 quilômetros de distância.

“Se as políticas republicanas são tão boas, por que estamos alterando os cânones para fraudar as eleições?”, questionou Vincent Dixie, deputado estadual de Nashville, durante o debate de quinta-feira, implorando aos republicanos que se abstivessem. “Onde está a humanidade de vocês nisso?”

Enquanto os legisladores democratas discursavam, o presidente da Câmara ordenou que os policiais estaduais removessem uma parte da plateia na galeria, que havia começado a gritar.

Justin Jones, um representante democrata do estado, descreveu Cameron Sexton, o presidente da Câmara do Tennessee, como o "grande mago-chefe" e entregou uma bandeira confederada a um legislador republicano. Jones apresentou emendas ao projeto de lei, que o presidente da Câmara considerou ter sido submetido fora do prazo. Jones descreveu isso como um "processo segregacionista".

O redesenho dos distritos eleitorais ocorre oito dias após a histórica decisão da Suprema Corte no caso Callais v. Landry , que invalidou partes da Lei dos Direitos de Voto, a qual impedia os governos estaduais de criarem distritos eleitorais que deixassem os eleitores negros em desvantagem política.

Apesar das exigências de Donald Trump para que os estados conservadores realizassem um novo processo de redistribuição de distritos eleitorais no meio da década, o Tennessee havia se abstido de tomar qualquer medida antes da decisão judicial. Mas Sexton afirmou que a redistribuição “garantirá que a representação do estado em Washington reflita seus valores conservadores”.

Trump derrotou Kamala Harris no Tennessee por 64% a 34% nas eleições presidenciais americanas de 2024. Um terço dos eleitores do Tennessee votou em um representante democrata para o Congresso em 2024. Os republicanos detêm oito das nove cadeiras do estado no Congresso.

Em depoimento perante uma comissão no Tennessee, na quarta-feira, a defensora dos direitos de voto Stacey Abrams afirmou que a assembleia geral do estado foi solicitada a "desmantelar as proteções que ajudaram a enterrar a abominação das leis de segregação racial".

“Democracia é uma ação – uma ação que diz: compartilharei meu poder com aqueles com quem discordo, porque é a única maneira de garantir nosso futuro comum”, disse Abrams. “Retroceder para o autoritarismo, onde um partido e uma raça detêm o domínio, é indigno do Estado Voluntário. Seja por consequência ou intenção, é errado. É indigno de uma nação que se revoltou quando o poder estava nas mãos de poucos – uma verdade que celebramos daqui a 250 anos.”

Como é característico dos legisladores do Tennessee, pouca consideração foi dada à oposição democrata, disse Justin Pearson, representante estadual e democrata de Memphis , candidato a substituir o congressista de longa data Steve Cohen. Pearson foi um dos três legisladores democratas expulsos da Assembleia Legislativa estadual por protestarem em plenário contra uma legislação sobre armas em 2023.

Pearson descreveu a legislação como a coisa mais significativa que os legisladores do Tennessee farão em uma geração, e que está sendo feita com um debate superficial. Após cerca de meia hora, a comissão deixou a sala de audiências na quarta-feira, para se reunir novamente sem a presença do público e aprovar a votação.

“Os oradores que vieram discursar tiveram três minutos para falar. Houve perguntas e respostas, e então foram informados, mesmo havendo mais quatro projetos de lei sobre os quais poderiam falar, que aquele seria o fim”, disse Pearson. “Tivemos que forçá-los a concordar com um limite de tempo para a legislação, para que ao menos tivéssemos alguma oportunidade de falar sobre ela, ou os membros do Partido Republicano teriam levantado a questão imediatamente.”

“O que temos aqui no nosso estado é um regime oclárquico, e foi isso que aconteceu com a nossa expulsão.”

London Lamar, senadora estadual de Memphis, descreveu a votação como um insulto à sua cidade.

“Na última sessão legislativa, vocês não gostaram do nosso conselho escolar e assumiram o controle dele”, disse ela. “Vocês não gostaram da nossa autoridade aeroportuária e assumiram o controle dela. E agora vocês não gostam da forma como Memphis vota. Vocês vão tirar isso de nós também. Vocês não podem acreditar em autonomia local enquanto privam os eleitores de Memphis de uma representação significativa.”

“Não se pode alegar respeito pela democracia enquanto se alteram as regras depois de os candidatos já terem se qualificado para concorrer”, acrescentou. “Vocês estão criando o caos de propósito.”

Lamar, Jeff Yarbro, senador estadual de Nashville, e outros democratas questionaram os senadores republicanos do Tennessee sobre as intenções subjacentes dos legisladores em relação a questões raciais e partidárias.

Lamar observou que, embora os eleitores negros tenham sido divididos quase igualmente entre três distritos, 72% dos democratas brancos acabaram no oitavo distrito recém-criado.

“Não é assim que se faz um gerrymandering partidário”, disse Lamar. “Por que este mapa que estamos considerando hoje trata os democratas negros de Memphis de forma tão diferente dos democratas brancos de Memphis?”

“Este mapa proposto maximiza a capacidade dos republicanos de conquistar nove cadeiras nas próximas eleições de meio de mandato”, respondeu Johnson.

 

Fonte: Correio da Cidadania/Brasil 247/The Guardian

 

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