O
maior mar interior do mundo está desaparecendo
A
jornalista ambiental iraniana Maryam passou boa parte de sua infância às
margens do Mar Cáspio. De sua casa no litoral, na cidade de Rudsar, no norte do
Irã, ela acompanhava as oscilações do nível da água — tão intensas que, nos
anos 1990, enchentes forçaram alguns de seus parentes a deixar suas casas.
O sobe
e desce constante das águas sempre lhe pareceu algo natural. Mas, em uma visita
recente à região, após anos longe, ela não reconheceu mais aquele lugar.
"Continuei caminhando para dentro do mar, mas a água só chegava aos meus
joelhos", contou Maryam, cujo nome verdadeiro a DW optou por não divulgar
por razões de segurança. "Para alguém que cresceu junto a esse mar, foi
assustador."
O Mar
Cáspio, o maior corpo de água interior do mundo, cercado por Irã, Rússia,
Azerbaijão, Turcomenistão e Cazaquistão, está encolhendo rapidamente.
Embora
o Cáspio, de águas salobras, tenha passado por flutuações ao longo da história,
cientistas afirmam que a atual queda no nível da água, iniciada nos anos 1990,
dificilmente será revertida. Projeções apontam para um recuo ainda maior ao
longo deste século, com alguns modelos indicando uma possível redução de até 21
metros.
"Para
se ter uma ideia, uma queda de 18 metros, por exemplo, é maior do que a altura
de um prédio de seis andares", explica Simon Goodman, biólogo
evolucionista da Universidade de Leeds, no Reino Unido. "Um declínio desse
porte teria impactos significativos sobre os ecossistemas, além de afetar a
saúde humana, o bem-estar e a atividade econômica."
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Por que o Cáspio está encolhendo?
Diversos
fatores explicam a retração. Vários rios deságuam no Cáspio, mas cerca de 80%
de sua água doce vem do norte, por meio do rio Volga, na Rússia. Durante
décadas, o volume de água que chega ao mar foi influenciado por represas,
irrigação e outras formas de manejo hídrico — especialmente na bacia do Volga.
Mas, segundo Goodman, o cenário atual é mais complexo.
"As
projeções para o restante deste século indicam que os declínios contínuos terão
um componente muito mais forte relacionado às mudanças climáticas",
afirma.
O
aumento das temperaturas globais, associado às emissões provenientes da queima
de petróleo, gás e carvão, está intensificando a evaporação na superfície do
mar. Somado à diminuição das chuvas e do escoamento de água para a bacia do
Volga, o resultado é que mais água está saindo do Cáspio do que entrando.
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Estoques de peixes em queda, portos bloqueados
Alguns
efeitos já são visíveis, especialmente na região norte do Cáspio, entre Rússia
e Cazaquistão. Essa área é mais rasa, e a queda contínua do nível da água tem
tornado a pesca cada vez menos viável, explica Goodman. Um recuo de dez metros,
por exemplo, secaria completamente grandes áreas dessa região, eliminado quase
um terço da superfície total do mar.
No
nordeste do grande lago, uma área que antes servia de abrigo para milhares de
focas durante a muda de pelos na primavera hoje é terra seca. "Já estamos
perdendo habitats ecologicamente importantes devido à queda do nível do
mar", afirma Goodman.
Os
efeitos são visíveis também ao longo da costa iraniana, ao sul. Maryam lembra
como os mercados eram grandes e movimentados, em contraste com o atual
movimento minguado devido ao baque na atividade pesqueira. "O litoral que
víamos quando crianças é muito diferente do que vemos hoje", afirma. Um
café que antes ficava à beira d'água agora está vários metros para dentro do
continente, relata.
Em todo
o Mar Cáspio, portos exigem dragagens frequentes para manter o acesso de
embarcações, explica o biólogo, acrescentando que esses desafios "devem se
intensificar nos próximos cinco a dez anos".
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Cáspio é o próximo mar de Aral?
Para
Goodman, há sinais de que o Cáspio pode seguir o mesmo destino do Mar de Aral,
localizado cerca de mil quilômetros a leste.
Antes
um dos maiores corpos de água interiores do mundo, entre Cazaquistão e
Uzbequistão, o Aral praticamente secou após o desvio de seus rios. Além de
destruir meios de subsistência e ecossistemas, o desaparecimento do lago teve
consequências graves para a saúde humana, incluindo tempestades de poeira
tóxica.
"Estamos,
sem dúvida, já no início desse processo", afirma Goodman.
Se o
norte do Cáspio secar, as consequências irão muito além da perda de água.
Grandes extensões do leito exposto podem alterar o clima regional e liberar
grandes quantidades de poeira na atmosfera, parte dela potencialmente
contaminada.
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Resposta política não acompanha mudança ambiental
Como o
Mar Cáspio se estende por cinco países, qualquer gestão eficaz exigirá
coordenação internacional.
Segundo
Goodman, embora "os governos pareçam estar no início do desenvolvimento de
estruturas colaborativas", esse processo ainda é incipiente.
Ele
afirma que a adaptação de longo prazo exigirá investimentos contínuos em
pesquisa científica e em estratégias que contemplem tanto os aspectos
ecológicos quanto os econômicos — e que isso precisa acontecer rapidamente.
"O
ritmo das políticas públicas precisa acompanhar a velocidade das mudanças
ambientais", conclui Goodman.
Fonte:
DW Brasil

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