Fernando
Horta: Como Messias pode ter salvado a reeleição de Lula
A
rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, ocorrida na
semana passada, foi recebida pela imprensa e por boa parte do campo governista
como uma derrota política inequívoca. E, em sentido estrito, foi. Mas é preciso
distinguir entre derrotas que sangram e derrotas que ensinam — entre o golpe
que enfraquece o adversário e o golpe que, dado cedo demais no relógio
eleitoral, oferece ao adversário aquilo de que ele mais precisava: tempo,
informação e a quebra de uma série de ilusões que o paralisavam. O episódio
Messias é, possivelmente, deste segundo tipo. E é justamente por isso que vale
a pena ler o ocorrido não como o início do fim do terceiro mandato Lula, mas
como o ponto de inflexão a partir do qual a reeleição de 2026 voltou a ser uma
possibilidade material — e não apenas um desejo do campo democrático.
<><>
As quatro hipóteses sobre o fracasso
Há, em
circulação, quatro linhas explicativas para o que aconteceu, e nenhuma delas é,
isoladamente, suficiente. A primeira aponta para uma aliança tácita — chamemos
de "demoníaca", já que opera nas sombras — entre setores do próprio
STF e a direita e extrema-direita, cujo objetivo não declarado é a contenção
das investigações em torno do escândalo do Banco Master. Aceitar Messias seria
perder uma camada de blindagem dentro do tribunal num momento em que essa
blindagem é, para alguns ministros e para uma parcela significativa do
Congresso, uma questão de sobrevivência reputacional e até patrimonial.
A
segunda linha é internamente judicial. Messias, ao longo do processo,
alinhou-se de modo perceptível à ala evangélica do STF e fez sinalizações
públicas favoráveis a um conjunto de normas internas de regência do tribunal —
propostas que parte considerável do corpo de ministros leu como ameaça ao
corporativismo da Corte. Em termos diretos: o STF aceita pacificamente quase
qualquer perfil ideológico, mas resiste com unhas e dentes a qualquer indicado
que possa, uma vez dentro, mexer nas prerrogativas do clube. Messias foi
enquadrado nessa segunda categoria.
A
terceira hipótese diz respeito aos erros do próprio indicado. Messias parece
ter calculado que o "apoio evangélico" — que é uma carta retórica
importante no discurso da direita — funcionaria também como moeda de troca real
no Senado. Privilegiou contatos eclesiais em detrimento da articulação política
tradicional, deixando ministros do Supremo e senadores sem o telefonema, sem o
café, sem aquela conversa de duas horas no gabinete que, no Brasil, ainda
decide tudo o que importa. Foi, em alguma medida, vítima do próprio mito que a
direita constrói sobre si mesma
— o de
que o evangelismo é uma das balizas decisórias do bloco — e descobriu, tarde,
que essa baliza opera apenas quando convém ao bloco.
A
quarta linha responsabiliza o próprio governo pela "falta de empenho"
na indicação. Esta é, das quatro, a única que tem um componente de cálculo
político posterior: ao incorporá-la, o Palácio do Planalto se reapresenta como
agente minimamente competente, capaz de admitir limites operacionais e corrigir
rota. As três primeiras hipóteses não se excluem entre si — coexistem e
respondem, juntas, por boa parte do fracasso. A quarta é, antes, um dispositivo
de recuperação narrativa do que uma explicação plenamente autônoma.
Por
qualquer ângulo que se olhe, no entanto, três questões emergem como
denominadores comuns. E é nelas que está o aprendizado.
<><>
Os três sintomas estruturais
Primeiro:
o presidente opera sem as melhores informações disponíveis, ao menos desde
janeiro deste ano. Não se trata de incompetência dos auxiliares, mas de uma
economia política da informação dentro do governo que tem produzido,
sistematicamente, dois efeitos perversos. De um lado, há um filtro otimista: as
informações que sobem aos despachos presidenciais tendem a ser apresentadas em
sua forma mais palatável, com cenários médios passando por cenários prováveis e
cenários otimistas passando por cenários médios. De outro, há um filtro
corporativo: cada interlocutor do presidente fala a partir do seu núcleo de
poder específico, e os núcleos competem entre si por agenda, de modo que o
presidente raramente recebe um diagnóstico unificado de qualquer problema. O
resultado é um presidente que decide com mapa cartográfico em escala errada: as
estradas estão lá, mas as distâncias e os relevos estão sistematicamente
subdimensionados. No caso Messias, isto se traduziu na convicção, evidentemente
equivocada, de que a sabatina seria controlável e que os votos estavam
contados. Não estavam, e ninguém disse ao presidente que não estavam — porque,
provavelmente, ninguém que tinha essa informação tinha, ao mesmo tempo, acesso
ao presidente sem mediação.
Segundo:
há uma análise equivocada do delineamento da oposição. Este é o ponto mais
grave, porque opera no nível do conceito e não apenas da informação. O governo
continua lendo a oposição com categorias dos anos 1990 e 2000 — "centro
democrático", "centrão pragmático", "direita liberal",
"ala mais moderada do bolsonarismo". Essas categorias, que talvez
tivessem alguma capacidade descritiva no segundo mandato Lula ou mesmo no
primeiro Dilma, hoje funcionam como obstáculos cognitivos. Não há mais um
centro político brasileiro no sentido clássico. O que existe é um espectro que
vai do fascismo declarado ao fascismo disfarçado, com diferenças de estilo e de
ritmo, mas com uma convergência de fundo sobre alguns pontos não negociáveis:
contenção das investigações, captura do Judiciário, desmonte da capacidade
fiscalizatória do Estado, e — esta é a parte silenciada — uma rejeição prática
(ainda que não retórica) à ideia de que governos democraticamente eleitos pela
esquerda devam, de fato, governar. Operar com a categoria "centrão"
como se ela ainda explicasse comportamento parlamentar é confundir o nome
residual da coisa com a coisa. Foi por isso que o governo confiou em uma
"disciplina interna do bloco de apoio" que simplesmente não existe mais
— e a sabatina de Messias revelou essa inexistência de modo cristalino. Não
havia disciplina a quebrar; o que havia era uma cobrança permanente, item a
item, voto a voto, e o governo entrou na votação acreditando que o atacado já
estava negociado.
Terceiro:
a falta consistente de crítica interna. O governo Lula 3 carrega, da
experiência traumática do impeachment de Dilma e do encarceramento do próprio
presidente, uma cultura de fechamento. Discordâncias internas são tratadas como
traição em potencial; análises pessimistas são tratadas como deslealdade; vozes
que apontam falhas operacionais são, no melhor dos casos, neutralizadas e, no
pior, expulsas do círculo decisório. Isto produz uma falsa solidez de
retaguarda
— o
governo parece, vista de fora, mais coeso do que é — ao custo, gravíssimo, de
eliminar o mecanismo que permite antecipar derrotas. Sem crítica interna não há
cenário B. Sem cenário B, cada derrota é vivida como surpresa, e cada surpresa
consome capital político que poderia estar sendo investido em outras frentes.
Foi assim com a indicação Messias: não houve, aparentemente, um plano de
retirada honrosa, nem um plano de troca de nome em curso na sexta-feira
anterior à votação, nem uma narrativa preparada para o caso de derrota. Houve
apenas a aposta — e, no dia seguinte, o desconcerto.
Estes
três sintomas estão articulados. Decisões com informação parcial geram leituras
equivocadas da oposição; leituras equivocadas da oposição não são corrigidas
porque a crítica interna foi suprimida; a supressão da crítica interna
realimenta o filtro otimista da informação. É um circuito fechado, e foi por
dentro desse circuito que o governo caminhou para a derrota Messias.
<><>
O erro estratégico da oposição
E aqui
está o ponto que a oposição — se tivesse melhor leitura histórica — não teria
cometido: este golpe foi dado cedo demais no calendário eleitoral. Lula é,
antes de tudo, um animal político de resiliência. Sua biografia política
inteira é uma sequência de derrotas absorvidas, metabolizadas e devolvidas. Dar
a Lula uma derrota grande em maio de 2026, a mais de seis meses do segundo
turno presidencial, é dar a ele exatamente o que ele precisa: tempo mínimo para
pensar, espaço para recalibrar e — sobretudo — uma justificativa interna para
reorganizar o seu governo sem que isto pareça crise. Se a oposição quisesse, de
fato, ferir a reeleição, deveria ter guardado um golpe deste porte para o
segundo semestre de 2026 eleitoral, quando o calendário não permitisse mais
correção de rota. Quis a pressa, e a pressa foi má conselheira.
<><>
Os três presentes da derrota
A
partir da rejeição de Messias, três janelas se abriram para o governo. Nenhuma
estava aberta uma semana antes. Todas as três são, individualmente, suficientes
para reposicionar a candidatura de 2026.
A
primeira é a âncora econômica na realidade vivida da população. Desde a saída
de Fernando Haddad do Ministério da Economia, a equipe econômica passou a fazer
chegar ao presidente um conjunto de informações que, antes, ficavam represadas
— endividamento das famílias em níveis historicamente altos, custo real do
crédito muito superior ao indicado pelas médias agregadas, peso crescente das
“bets” no orçamento doméstico das classes C e D, e o caráter persistente da
inflação de serviços que come o salário mês a mês. Esse conjunto de informações
é o que explica, finalmente, o paradoxo que a propaganda governista resistia em
encarar: porque indicadores macroeconômicos relativamente favoráveis (emprego,
PIB, salário mínimo real) não se traduzem em apoio político ao presidente. A
solução em desenho — chame-se Desenrola 2.0 ou outro nome — ainda não está
calibrada e muito provavelmente não estará nos próximos meses. Mas o governo,
agora, está discutindo o problema certo, e não o problema imaginado (uma
suposta “lavagem cerebral”). Esta é uma virada de eixo que a oposição
preferiria que tivesse acontecido em setembro, e não em maio de 2026.
A
segunda é o reconhecimento da natureza real da oposição. Já se argumentou aqui
que não existe mais "centrão" no Brasil — e a votação Messias é a
evidência empírica mais clara que se poderia desejar dessa tese. O que se viu
não foi um bloco indeciso negociando posição, mas um conjunto coeso de
parlamentares operando uma agenda de contenção do governo, com diferenças
apenas estilísticas entre os fascistas declarados e os fascistas disfarçados de
moderados. O presidencialismo de coalizão — se é que algum dia ele existiu como
categoria descritiva e não como ideologia das ciências políticas brasileiras
dos anos 1990 — converteu-se em algo bem diferente, que talvez se possa chamar
de presidencialismo de concessão. Nele, o governo entrega, item por item, peças
do Estado em troca de um apoio que deveria vir, em qualquer regime
presidencialista funcional, da convergência política em torno de objetivos
comuns. Não há objetivos comuns; há apenas preço, e o preço sobe. Os “radicais
da esquerda” — categoria sempre depreciativa quando aplicada por analistas de
centro — vinham apontando isso desde fevereiro de 2023. A rejeição de Messias
permite ao presidente reconhecer formalmente o que essa parte da sua base já
dizia: as categorias analíticas usadas pelo establishment político-jornalístico
para
ler o
Congresso brasileiro são, hoje, tecnicamente obsoletas. E reconhecer isso é
poder, finalmente, exigir entregas reais por concessões reais — ou romper a
lógica da concessão e construir uma maioria política sobre outras bases. Antes
tarde do que mais tarde.
A
terceira é a desidratação de duas ilusões: a do diálogo possível com o
evangelismo de direita e a do apelo automático da bandeira democrática. Indicar
Messias foi, entre outras coisas, uma tentativa de testar se a oferta de um
ministro evangélico — que afirmou, em sua sabatina, que a Bíblia era sua
bússola — seria suficiente para fissurar o bloco evangélico de oposição. Não
foi. E é importante extrair desse “não foi” a sua lição estrutural: o movimento
evangélico de direita brasileiro não é um movimento religioso que se aventurou
na política. É um movimento político que instrumentaliza a religião como
dispositivo de controle do pensamento de seus fiéis, e essa instrumentalização
opera em registro abertamente antidemocrático. Não há, dentro dessa estrutura,
espaço para “fissura por dentro” via concessão de cargos. Toda concessão é
absorvida e recodificada como tributo extraído do governo. O presidente, com o
episódio Messias, tem agora a evidência empírica de que esta porta está
fechada, e que o tempo investido em forçá-la é tempo subtraído da construção
das suas portas reais.
A
segunda ilusão a desidratar é mais delicada e mais profunda. A geração política
do presidente Lula — a minha geração também, em parte — formou-se num período
em que a palavra democracia funcionava como parâmetro inegociável. No fim dos
anos 1980 e ao longo dos 1990, a única força capaz de dobrar a democracia era a
acumulação capitalista, e mesmo essa força preferia operar em surdina, sem
afrontá-la frontalmente. Hoje, o apelo direto à democracia tem alcance muito
menor do que o presidente parece supor. Não porque a população seja
antidemocrática em sentido ativo, mas porque a categoria “democracia” deixou de
ser, no léxico afetivo de uma parte significativa do eleitorado, o nome daquilo
que a faz viver melhor. Para reforjar a estratégia de 2022 — a frente ampla em
torno da democracia ameaçada — o presidente precisaria oferecer a essa frente
outro fundamento. Como alternativa, e talvez seja a alternativa mais lúcida
disponível, ele pode reconhecer que é à esquerda — e não ao centro fantasma —
que estão seus votos, sua militância, sua força de mobilização e a
possibilidade material de modificar a sociedade. Sem a esquerda mobilizada, o
presidente arrisca não ter sequer os apoios que sempre o elegeram. Com a
esquerda mobilizada, ele conquista os poucos votos de centro que efetivamente
existem, porque esses votos sempre se decidiram menos pela “moderação” do
candidato e mais pela percepção de que ele estava ganhando.
<><>
A traição como abertura
Há um
modo cínico de ler tudo isso, segundo o qual estaríamos apenas racionalizando
uma derrota. Não é o caso. A derrota foi real, custou capital político e expôs
fragilidades operacionais sérias. Mas é justamente porque foi real e porque
expôs fragilidades operacionais sérias que ela funciona como abertura. As
traições — internas e externas — sofridas pelo presidente no episódio Messias
entregaram a ele as duas coisas das quais um político em fim de segundo ano de
mandato mais precisa: clareza sobre a realidade, sem a mediação dos analistas e
operadores que vinham embrulhando essa realidade num romantismo autoindulgente;
e tempo para agir sobre essa clareza antes que o calendário eleitoral feche.
Tempo,
aliás, que vale mais do que ouro neste momento. Não há reeleição que se
construa sem tempo, e quase toda derrota política decisiva é, no fundo, uma
derrota por tempo curto. A oposição deu a Lula tempo. Deu também o mapa. E
confiou — equivocadamente — que ele não saberia ler nenhum dos dois. Nas
próximas semanas saberemos se essa confiança da oposição era também
ela uma
análise apoiada em informações filtradas, em categorias políticas obsoletas e
em ausência de crítica interna. Suspeito que sim.
E é por
isso que Messias, contra todas as aparências da semana passada, pode ter feito
ao governo Lula o favor que nenhum aliado conseguiu fazer em quase dois anos:
forçá-lo a olhar.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário