Everton
Antunes: Estradas adentro, povo afora
Rota
Agro, Transnordestina e Ferrogrão: o que esses três projetos de integração da
malha de transportes brasileira têm em comum são as somas de investimentos da
ordem dos bilhões de reais recebidos – ou, pelo menos, previstos – da atual
gestão. Entre os anos de 2023 e 2025, o País observou o maior número de
concessões para projetos de infraestrutura de toda a série histórica – isto é,
nesse período, houve 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos –, conforme
revela o jornal Folha de São Paulo, em reportagem de janeiro de 2026.
“No
atual governo de coalizão, as pautas ligadas às infraestruturas são
estratégicas para as legendas ‘de centro’, a exemplo do [partido de] Renan
Filho – Ministro dos Transportes –, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro)”,
explica Renata Utsunomiya, analista de políticas públicas do GT Infraestrutura.
Ela acrescenta que, frente às discussões sobre sustentabilidade, projetos de
ferrovias e hidrovias ganham cada vez mais fôlego, devido aos baixos índices de
emissão de gás carbônico, mas alerta que a escolha das rotas tem que considerar
mais do que essa variável: entram em jogo “as sensibilidades ambientais, bem
como maior transparência e participação social nas diferentes etapas”.
Além do
impacto ambiental, as vozes de povos e comunidades tradicionais somam-se a fim
de denunciar as consequências desses projetos infraestruturais para os diversos
modos de vida que resistem no campo, nas águas e nas florestas e buscam pela
subsistência e autonomia dos próprios territórios. Em meio a esse contexto,
movimentos e organizações sociais também expõem a violência que avança sobre o
campo.
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Rota Agro
Responsável
por conectar Rondonópolis (MT) e Rio Verde (GO), a Rota Agro – trecho de 490
quilômetros de extensão composto pelas BRs 060 e 364 –, deve receber quase
R$7,3 bilhões em investimentos pela empresa vencedora do leilão, é o que
declarou o Ministério dos Transportes em agosto passado. No entanto, cerca de
dois meses depois, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)
desqualificou o consórcio então pleiteado para a condução das obras, com “base
na irregularidade das certidões trabalhistas dos administradores dos fundos de
investimentos consorciados”.
Questionada
sobre o status da Rota Agro, a ANTT informou que “após a inabilitação da
empresa inicialmente vencedora do leilão, por não atender às exigências do
edital, foi convocada a segunda colocada”. A agência também orientou que,
atualmente, os documentos da empresa estão sob análise pela Comissão de
Outorgas.
Por
outro lado, Wilmar Fernandes, sem-terra do acampamento Leonir Orback,
localizado no município de Santa Helena de Goiás (GO), demonstra receio com a
ampliação das rodovias no estado. “Queira ou não, o agro só pensa na exportação
de commodities. Nós estamos no acampamento há dez anos, podemos ser assentados
aqui. Agora, imagine se nós estamos aqui, cada um com a sua parcela [de terra],
e passa uma rodovia e duplicam ela? É bom para a sociedade, mas depois começam
a vir também os pedágios caríssimos. Meu ‘chãozinho’ vai ser cortado e eu posso
perder um punhado de terra”, receia.
Em
nota, a CPT Goiás manifestou que melhorias na estrutura rodoviária federal no
estado são importantes para todos os setores da sociedade, porém “o projeto da
Rota Agro concentra seus benefícios nas mãos de poucos grandes investidores,
enquanto o Cerrado e as populações que lutam pela sobrevivência serão as únicas
a vivenciar os impactos negativos da obra”.
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Transnordestina
Segundo
o Ministério dos Transportes, a Transnordestina compreende 1,2 mil quilômetros
de trilhos e corta 53 cidades nordestinas com o objetivo de ligar Eliseu
Martins (PI) ao Porto do Pecém (CE) e, ainda, conta com um ramal até Suape
(PE). A pasta também dá conta de que, em 2025, o empreendimento recebeu R$1
bilhão para a condução de obras no Lote 08 da ferrovia, que atravessa os
municípios de Itapiúna, Quixadá, Capistrano e Baturité, no estado do Ceará.
De
volta ao Piauí, encontra-se Paulistana, município por onde passa a
Transnordestina e que abriga a Comunidade Caldeirãozinho, lar de Maria de
Fátima Delmondes e a família, todos camponeses do semiárido piauiense. “A nossa
comunidade foi muito prejudicada, a Transnordestina trouxe muitos prejuízos: a
casa da minha mãe foi retirada do lugar e colocada em outra localidade próxima;
mas houve pessoas que foram retiradas de casa mesmo, foram embora da comunidade
e precisaram ir para os povoados”, relata Delmondes.
A CPT
Piauí, que acompanhou a comunidade de Maria de Fátima em Paulistana, além de
outras nesse mesmo município e na cidade de Curral Novo, observa que, pelo
menos desde 2012, a Ferrovia Transnordestina é marcada por conflitos e
contradições, que vão desde a exclusão das famílias no processo de consulta e a
falta de diálogo até a destruição de bens nas comunidades (cisternas, açudes,
cacimbas e residências).
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Ferrogrão
Alvo de
críticas da sociedade civil, de organizações e movimentos sociais, a concessão
ferroviária que tem por objetivo ligar Sinop (MT) e Miritituba (PA) – e
corresponde a mais de 900 quilômetros de trilhos –, conhecida como Ferrogrão,
recebeu sinal verde do Ministério dos Transportes, que aprovou os estudos
técnicos do empreendimento no final de dezembro de 2025. Atualmente, o projeto
aguarda análise do Tribunal de Contas da União (TCU).
No
entanto, em maio de 2025, o GT Infraestrutura publicou parecer técnico sobre a
ferrovia, o qual prevê que “o processo de atualização do EVTEA [Estudo de
Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental] da Ferrogrão ignorou um conjunto de
estudos técnico-científicos e alertas de organizações da sociedade civil”.
Ainda
em outubro do ano passado, a ferrovia teve julgamento suspenso no Supremo
Tribunal Federal (STF) pelo ministro Flávio Dino, após votos dos ministros
Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso pela viabilidade do projeto.
Liderança
na luta contra o empreendimento no estado do Pará, Francisca Antônio Barroso,
do município de Trairão, integra a Rede Agroecológica da cidade e mora na
comunidade Santo Antônio. Para ela, a Ferrogrão tem trazido consequências não
somente para o próprio território como também para os moradores de comunidades
vizinhas, sem “qualquer respeito ao direito de consulta prévia”. Em protesto, a
agricultora afirma: “para o Governo, nós não existimos! Quem é contra [a
Ferrogrão] é porque não quer sair daqui e ir para outro lugar, tem sua história
aqui e quer permanecer”.
Diante
desse cenário, a CPT de Itaituba também salienta que o projeto, “mesmo com os
estudos finalizados, segue sendo inviável para a região, pois desconsidera os
reais impactos sofridos com a quantidade de portos instalados em Miritituba,
além de negligenciar a existência dos povos indígenas, comunidades tradicionais
e agricultores familiares às margens do rio [Tapajós] e da BR-163”.
Em
contrariedade aos relatos de trabalhadores rurais e especialistas, a ANTT
posiciona-se a respeito da Ferrogrão e argumenta que “desde a sua concepção, a
modelagem do projeto considera o cumprimento integral da legislação ambiental e
socioambiental”.
Para
Fátima, contudo, está claro que os agentes favoráveis aos grandes
empreendimentos são “os grileiros, que estão aqui cultivando soja e só pensam
em capital”. “Hoje, estão aqui; amanhã, só Deus sabe onde vão estar!”.
• ES: ‘Mais um projeto especulativo’, diz
educadora sobre Parklog Sul
O
anúncio do Governo do Estado sobre a criação do ParkLog Sul Capixaba, voltado à
integração de grandes estruturas logísticas no sul do Espírito Santo, reacendeu
críticas de movimentos sociais, pesquisadores e organizações da sociedade civil
sobre a viabilidade de megaprojetos logísticos anunciados no Estado e a função
especulativa de decisões políticas para transformar licenças e anúncios
públicos em ativos de valorização econômica.
O
momento do anúncio pelo governador Ricardo Ferraço (MDB), em ano eleitoral,
levanta dúvidas sobre as motivações do governo, destaca a educadora da
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), Clara Junger,
integrante da campanha Nenhum Poço a Mais, que avalia o projeto como parte de
uma lógica desconectada das necessidades reais da população. “Isso acontecendo
agora traz muito de um desespero eleitoral”, avalia.
Ela
observa que há uma insistência antiga na promoção de grandes empreendimentos
logísticos, como o Porto Central, em Presidente Kennedy, apesar das críticas
acumuladas ao longo dos anos por parte de comunidades tradicionais, pescadores
artesanais e movimentos sociais.
O
ParkLog Sul Capixaba foi anunciado nessa segunda-feira (4) com a proposta de
transformar a região em um cluster logístico-industrial de padrão
internacional. A iniciativa prevê a integração de infraestrutura portuária,
ferroviária, rodoviária, aeroportuária e energética, com destaque para projetos
como o Porto Central (ainda não implementado), e o Porto de Ubu, em Anchieta,
além da conexão com a Ferrovia EF-118 e a ampliação da BR-101.
De
acordo com o governo, os estudos técnicos necessários para a implementação do
programa devem ser concluídos em até dois meses. O objetivo é mapear ativos
existentes, definir diretrizes e estabelecer estratégias para aumentar a
competitividade do Estado nos cenários nacional e internacional. A coordenação
ficará a cargo da Secretaria de Desenvolvimento (Sedes), com apoio de um Comitê
Executivo formado por representantes do setor público e privado, incluindo
entidades como o Instituto Capixaba do Transporte e Logística (ICTL), a
Fetransportes, o Porto Central, a Samarco e o movimento empresarial ES em Ação.
Apesar
do discurso oficial de desenvolvimento, Clara Junger aponta uma série de
inconsistências. “É o mesmo governo que tenta se posicionar com um discurso
ambiental, climático, e que, ao mesmo tempo, insiste nesses megaprojetos
altamente impactantes”, critica. Para ela, há uma contradição evidente entre a
narrativa institucional e a prática de incentivo a empreendimentos que ampliam
a pressão sobre territórios sensíveis.
A
educadora também questiona a viabilidade econômica dos projetos portuários
previstos para o Estado. “De onde viria tanta coisa para escoar por esses
portos?”, indaga. Ela lembra que empreendimentos próximos, como o Porto do Açu,
no norte do Rio de Janeiro, operam com capacidade ociosa — cerca de 30%,
segundo dados do setor — , o que colocaria em xeque a necessidade de novos
investimentos de grande porte na região.
Esse
argumento é reforçado por análises como a do professor de economia da
Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Arlindo Villaschi, que descreve
como a “pseudo expansão portuária” no Estado não tem relação direta com o
desenvolvimento econômico local, mas atende exclusivamente aos interesses do
capital improdutivo.
Além
das dúvidas sobre a viabilidade econômica, os impactos sociais e ambientais
também estão no centro das críticas. A educadora da Fase destaca que
comunidades tradicionais vêm sendo sistematicamente ignoradas nos processos de
decisão. “Um projeto desse tamanho é anunciado sem nenhum processo de consulta.
Não há escuta das populações locais, que têm outras demandas, não mais porto e
ferrovia”, enfatiza.
Entre
os grupos mais afetados estão pescadores artesanais, que enfrentam restrições
de acesso ao mar em áreas próximas a portos e plataformas de petróleo. Esses
espaços se tornam zonas de exclusão, onde a circulação é limitada sob risco de
sanções, como observa a presidente da Associação de Pescadores Artesanais de
Porto Santana (APAPS), Rosinea Vieira, conhecida como Neia, que tem alertado
para o impacto as expansão portuária sobre milhares de trabalhadores da pesca.
Ela também chama atenção para efeitos sociais associados a grandes
empreendimentos, como aumento da violência, prostituição e degradação das
condições de vida.
Dados
levantados pela Fase já indicavam, em 2019, um cenário de forte pressão sobre o
litoral capixaba. À época, havia 11 portos em operação, além de 10 em processo
de licenciamento e outros oito previstos. Caso todos fossem implementados, o
Espírito Santo passaria a ter, em média, um porto a cada menos de 15
quilômetros de costa. Esse crescimento está associado ao avanço da exploração
de petróleo e gás e aos incentivos trazidos pela Lei dos Portos (12.815/2013),
que ampliou a participação da iniciativa privada no setor.
Para
Clara Junger, esse conjunto de iniciativas configura um “grande campo
especulativo”, voltado à captação de recursos públicos e privados, muitas vezes
sem base em demandas concretas. Ela também questiona a origem dos investimentos
que sustentam projetos que, há anos, não saem do papel: “É algo que a gente se
pergunta muito: de onde vem esse dinheiro? Como esses projetos se mantêm?”.
Outro
ponto levantado é o impacto indireto sobre cidades vizinhas, como Cachoeiro de
Itapemirim, que já enfrentam dificuldades para atender sua própria população.
Com a possível intensificação do fluxo migratório para regiões de implantação
de grandes obras, serviços públicos como saúde podem entrar em colapso.
Diante
desse cenário, organizações e movimentos sociais como a campanha Nenhum Poço a
Mais têm denunciado os impactos da indústria do petróleo e gás e defendem
modelos alternativos de desenvolvimento. Para a educadora, o debate precisa ser
ampliado e incluir efetivamente as populações atingidas. “O que está em jogo
não é só o meio ambiente, mas os direitos humanos e o direito ao território e à
consulta. Não dá para seguir anunciando projetos dessa magnitude sem ouvir quem
vive nesses lugares”, conclui.
Fonte:
CPT/Século Diário

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