sexta-feira, 8 de maio de 2026

4 momentos em que Trump gerou tensão e cometeu gafes ao se reunir com líderes mundiais

Os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos — Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump — se reuniram nesta quinta-feira (7/5) em Washington no primeiro encontro bilateral entre ambos neste ano.

Especialistas disseram à BBC News Brasil que o governo brasileiro quer discutir na reunião a derrubada do restante das tarifas americanas que ainda vigoram contra a importação de produtos brasileiros, convencer o governo norte-americano a encerrar investigações comerciais que miram a economia brasileira e manter aberto um canal de comunicação direto com Trump, tentando diminuir a influência da ala bolsonarista radicada nos Estados Unidos.

Já Trump estaria interessado em usar o encontro para mostrar uma imagem de relativo prestígio em um momento em que a guerra contra o Irã é contestada nacional e internacionalmente, além de possibilitar o aprofundamento de negociações em áreas consideradas estratégicas para os EUA como o barateamento do preço da carne bovina e o acesso a reservas de minerais estratégicos.

No passado, Trump e Lula chegaram a falar que possuem uma boa química — mas alguns encontros do presidente americano com outros líderes mundiais na Casa Branca se provaram imprevisíveis, após uma série de gafes e confrontos inesperados.

Confira abaixo quatro encontros de Trump com líderes mundiais que surpreenderam diplomatas, políticos e analistas.

<><> Volodymyr Zelensky, da Ucrânia

Em fevereiro de 2025, um mês após a posse de Trump em Washington, o que era para ser um encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para assinar um acordo sobre a exploração de recursos minerais acabou virando um bate-boca na Casa Branca.

Zelensky viajou aos EUA para assinar um acordo, que cederia a Washington a exploração dos recursos minerais de seu país em troca de algum tipo de apoio ou garantias de segurança contra a Rússia.

Mas o acordo acabou não assinado.

A reunião começou com cerca de meia hora de conversas cordiais e formalidades. Mas o clima de tensão se instalou no Salão Oval após o vice-presidente americano, J.D. Vance, dizer que o "caminho para a paz e o caminho para a prosperidade talvez seja se envolver na diplomacia".

"É isso que o presidente Trump está fazendo", disse ele.

Zelensky interrompeu, afirmando que os episódios de agressão da Rússia começaram antes da invasão em grande escala à Ucrânia há três anos. "Ninguém o impediu", disse ele sobre o presidente russo Vladimir Putin.

"De que tipo de diplomacia, J.D., você está falando? O que você quer dizer?", disse ele.

A troca então se tornou visivelmente tensa, com Vance respondendo: "o tipo que acabará com a destruição do seu país". O vice-presidente então acusou Zelensky de ser desrespeitoso e "litigar" a situação na frente da imprensa americana.

Em um ponto da discussão, Zelensky disse: "Durante a guerra, todo mundo tem problemas, até você. Mas você tem um oceano bonito e não sente [isso] agora, mas sentirá no futuro."

O comentário irritou Trump e o levou ao confronto que até então tinha sido limitado a Zelensky e o vice-presidente.

"Não nos diga o que vamos sentir. Você não está em posição de ditar isso", ele disse, sua voz ficando mais alta. "Você não dá as cartas agora. Você está apostando com milhões de vidas."

Trump acusou Zelensky de estar "jogando com a Terceira Guerra Mundial" e de "não ser muito grato" — em referência ao apoio dos EUA à Ucrânia na guerra contra a Rússia.

O presidente ucraniano tentou interromper Trump em alguns momentos, mas o americano continuou fazendo acusações.

O acordo entre os dois países acabou não sendo assinado e Zelensky foi instruído a deixar a Casa Branca mais cedo. Uma entrevista coletiva ao lado de Trump foi cancelada.

<><> MCyril Ramaphosa, da África do Sul

Em maio do ano passado, esperava-se que uma reunião entre Trump e o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, iria apaziguar tensões recentes entre os dois países.

Uma semana antes do encontro na Casa Branca, os EUA haviam concedido asilo a cerca de 60 afrikaners, que são sul-africanos descendentes de europeus — uma medida que irritou o governo sul-africano.

Ramaphosa chegou à Casa Branca esperando tratar de relações comerciais entre os países. Como gesto de simpatia, ele deu a Trump tacos de dois famosos golfistas sul-africanos e um livro enorme sobre os campos de golfe de seu país.

A reunião no Salão Oval começou cordialmente, até que Trump pediu que as luzes fossem apagadas para exibição de um vídeo. O clima mudou.

O vídeo mostrava a voz de Julius Malema, figura proeminente da oposição sul-africana, cantando: "Atirem no bôer [africâner], atirem no fazendeiro". Em seguida, foram mostradas as imagens do campo com as cruzes, que Trump afirmou ser um cemitério de fazendeiros brancos.

Trump disse não saber onde, na África do Sul, o vídeo tinha sido gravado. As cruzes, na verdade, não eram sepulturas reais, mas pareciam ser de um protesto de 2020, após o assassinato de um casal de agricultores na província de KwaZulu-Natal. Os organizadores do protesto afirmaram na época que as cruzes eram meramente simbólicas — representando agricultores mortos ao longo dos anos.

Ele entregou a Ramaphosa o que pareciam ser cópias impressas de reportagens sobre ataques a pessoas brancas na África do Sul. Trump disse que buscava uma "explicação" de seu convidado sobre as alegações de "genocídio" branco na África do Sul, que foram amplamente desacreditadas.

O presidente sul-africano manteve a calma durante a reunião e contraargumentou.

"O que vocês viram — os discursos que foram feitos... isso não é política do governo. Temos uma democracia multipartidária na África do Sul que permite que as pessoas se expressem", disse Ramaphosa a Trump.

"A política do nosso governo é completamente contrária ao que ele [Malema] estava dizendo, mesmo no parlamento, e eles são um pequeno partido minoritário, o que é permitido pela nossa Constituição."

E disse esperar que Trump ouvisse as vozes dos sul-africanos sobre essa questão. Ele mencionou os membros brancos de sua delegação, incluindo os golfistas Ernie Els e Retief Goosen, e o homem mais rico da África do Sul, Johann Rupert.

"Se tivesse havido um genocídio, esses três senhores não estariam aqui", disse Ramaphosa.

<><> Friedrich Merz, da Alemanha

Em junho do ano passado, pouco depois de ser eleito na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz visitou Trump na Casa Branca.

Diversos temas foram abordados no primeiro encontro bilateral, como guerra e comércio. Em um momento da conversa, quando Merz mencionou o dia 6 de junho como o Dia D e Trump respondeu que "não era um dia agradável" para o chanceler.

O Dia D foi o dia em que, em 1944, dezenas de milhares de soldados desembarcaram nas praias da Normandia, marcando o início da campanha dos Aliados para libertar o norte da Europa ocupado pelos nazistas.

Merz manteve-se calmo e respondeu que o Dia D "foi a libertação do meu país da ditadura nazista".

E em seguida fez referência ao conflito na Ucrânia: "Sabemos o que devemos [aos EUA]. Mas é por isso que digo que os EUA estão, mais uma vez, em uma posição muito forte para fazer algo em relação a esta guerra e pôr fim a ela".

<><> Sanae Takaichi, do Japão

Em março deste ano, Trump recebeu na Casa Branca a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi.

Na época, os EUA estavam sendo questionados por não terem alertado seus aliados sobre o ataque ao Irã em 28 de fevereiro que deu início ao atual conflito no Oriente Médio. Quando perguntado sobre isso por um jornalista japonês, Trump fez referência ao ataque japonês em solo americano em 1941.

"Quem entende mais de surpresa do que o Japão? Por que vocês não me contaram sobre Pearl Harbor?", disse Trump, diante da primeira-ministra, que parecia surpresa.

O ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, levou os EUA a entrarem na Segunda Guerra Mundial. No final da guerra, os EUA lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão. Os países se tornaram aliados próximos nos anos seguintes ao fim da guerra.

O comentário de Trump provocou alguns risos entre os jornalistas e outras pessoas presentes, mas Takaichi parecia se sentir desconfortável. Mineko Tokito, repórter do jornal japonês Yomiuri Shimbun, que estava no Salão Oval naquele momento, disse que o desconforto da primeira-ministra era "óbvio".

"A primeira-ministra Takaichi reagiu visceralmente, seus olhos se arregalaram e seu sorriso desapareceu, claramente surpresa com a menção repentina de Pearl Harbor", disse ela.

¨      O que a imprensa internacional previu para encontro entre Lula e Trump

O encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu homólogo americano, Donald Trump, realizado nesta quinta-feira (7/5) na Casa Branca, nos Estados Unidos, foi um dos destaques do noticiário internacional.

Em um artigo publicado em seu site, o jornal americano The New York Times aponta que a reunião é um momento de "trégua frágil" após um ano de grande tensão em meio à imposição de tarifas por Washington e trocas de "insultos públicos" entre os dois líderes.

"Não está claro como Trump e Lula vão interagir, visto que a relação entre os dois países tem sido marcada por momentos significativos de acrimônia", diz o periódico, em referência ao convívio áspero recente.

Mas segundo o The New York Times, temas como segurança, comércio e minerais críticos devem estar entre os discutidos na Casa Branca.

"A segurança é uma questão fundamental para os eleitores nas eleições brasileiras de outubro, com as pesquisas mostrando Lula e [o senador Flávio] Bolsonaro em empate técnico", aponta a reportagem.

Para o NYT, a designação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas por Washington pode dar mais destaque ao tema e potencialmente beneficiar Flávio Bolsonaro, que tem criticado Lula por sua gestão da segurança pública.

Segundo interlocutores do presidente Lula ouvidos pela BBC News Brasil, uma ala da administração Trump defende que facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sejam classificadas como organizações terroristas.

A agência de notícias Reuters afirma ainda que o governo brasileiro tem identificado indícios de que suas exportações podem ser afetadas por novas tarifas relacionadas a uma investigação sobre práticas comerciais desleais.

A preocupação do Brasil com o tema começou em julho do ano passado, na mesma época em que o governo Trump impôs um tarifaço de 40% — que foi posteriormente revertida.

Naquele mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) abriu uma investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio do país sobre práticas comerciais supostamente irregulares do Brasil. Entre outras coisas, o órgão incluiu o Pix entre os itens sob apuração.

Os norte-americanos afirmam que o Pix representaria uma ameaça à atuação de empresas dos Estados Unidos que operam o mercado de meios de pagamento. Do lado brasileiro, técnicos defendem que o sistema não prejudica empresas norte-americanas numa tentativa de evitar sanções.

Segundo a reportagem da Reuters, autoridades brasileiras manifestaram preocupação com a possibilidade de uma nova onda de tarifas durante uma reunião realizada há duas semanas com representantes do Departamento de Comércio dos EUA. "Segundo pessoas presentes nas negociações, os representantes americanos fizeram poucas perguntas, reforçando a percepção de que a investigação visava justificar tarifas em vez de resolver questões comerciais", diz a agência.

Outra reportagem, da agência Associated Press (AP), aponta o acesso aos depósitos de terras raras do Brasil como outro ponto fundamental que provavelmente estará na agenda da reunião.

"O país sul-americano possui a segunda maior reserva mundial de minerais de terras raras, utilizados em uma ampla gama de produtos, incluindo smartphones, veículos elétricos, painéis solares e motores a jato", diz a AP.

<><> 'Opostos ideológicos'

Segundo o jornal argentino La Nación, Trump e Lula são "opostos ideológicos" que mantêm uma "relação difícil".

O periódico relembrou o último encontro entre os dois líderes, realizado na Malásia em outubro do ano passado, que teria levado Washington "a relaxar as tarifas punitivas impostas ao Brasil pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, um aliado de Trump condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe".

Mas segundo o La Nación, muita coisa aconteceu desde então: "os Estados Unidos capturaram o líder chavista Nicolás Maduro em Caracas e lançaram uma guerra contra o Irã ao lado de Israel", diz o artigo.

A reportagem ressalta ainda que Lula critica abertamente as ações militares americanas e acusa Trump de atuar como um "imperador" do mundo.

<><> 'Lula chega à reunião politicamente enfraquecido'

A imprensa internacional também destaca o momento político delicado para o presidente Lula domesticamente.

Segundo o La Nación, o brasileiro chega ao encontro "politicamente enfraquecido após uma série de derrotas no Congresso, e empatado nas pesquisas para as eleições presidenciais de outubro com o filho mais velho de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro".

O canal de televisão France 24, em seu site, aponta ainda que ao mesmo tempo em que precisa abordar questões delicadas com Trump, Lula "tenta melhorar sua imagem no Brasil antes das eleições de outubro".

<><> Reunião organizada "na surdina" após inúmeras reviravoltas

O jornal espanhol El País tratou ainda, em reportagem em seu site, da falta de clareza sobre como a reunião na Casa Branca deve ser organizada.

"Até o último minuto, a logística do encontro, descrito pelo alto funcionário e pelo Brasil como uma reunião de trabalho, permanece incerta. Não se sabe se Lula será recebido por Trump na entrada principal da Ala Oeste, como era costume ao receber líderes estrangeiros na Casa Branca, ou se o protocolo das recentes visitas de autoridades não-chefes de Estado será seguido: chegada por uma entrada lateral e reunião a portas fechadas, como ocorreu nos casos do presidente colombiano Gustavo Petro e do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu", diz a reportagem.

Segundo o El País, o governo Trump orquestrou a visita do Brasil "na surdina" após inúmeras reviravoltas.

"Para a diplomacia brasileira, o encontro representa mais um passo na construção de confiança com o imprevisível líder da maior potência mundial", diz o jornal.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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