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momentos em que Trump gerou tensão e cometeu gafes ao se reunir com líderes
mundiais
Os
presidentes do Brasil e dos Estados Unidos — Luiz Inácio Lula da Silva e Donald
Trump — se reuniram nesta quinta-feira (7/5) em Washington no primeiro encontro bilateral entre
ambos neste ano.
Especialistas disseram à BBC News
Brasil que
o governo brasileiro quer discutir na reunião a derrubada do restante das
tarifas americanas que ainda vigoram contra a importação de produtos
brasileiros, convencer o governo norte-americano a encerrar investigações comerciais que miram a
economia brasileira e manter aberto um canal de comunicação direto com
Trump, tentando diminuir a influência da ala
bolsonarista radicada
nos Estados Unidos.
Já
Trump estaria interessado em usar o encontro para mostrar uma imagem de
relativo prestígio em um momento em que a guerra contra o Irã é contestada
nacional e internacionalmente, além de possibilitar o aprofundamento de
negociações em áreas consideradas estratégicas para os EUA como o barateamento
do preço da carne bovina e o acesso a reservas de minerais estratégicos.
No
passado, Trump e Lula chegaram a falar que possuem uma boa química — mas alguns
encontros do presidente americano com outros líderes mundiais na Casa Branca se
provaram imprevisíveis, após uma série de gafes e confrontos inesperados.
Confira
abaixo quatro encontros de Trump com líderes mundiais que surpreenderam
diplomatas, políticos e analistas.
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Volodymyr Zelensky, da Ucrânia
Em
fevereiro de 2025, um mês após a posse de Trump em Washington, o que era para
ser um encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, para assinar
um acordo sobre a exploração de recursos minerais acabou virando um bate-boca
na Casa Branca.
Zelensky
viajou aos EUA para assinar um acordo, que cederia a Washington a exploração
dos recursos minerais de seu país em troca de algum tipo de apoio ou garantias
de segurança contra a Rússia.
Mas o
acordo acabou não assinado.
A
reunião começou com cerca de meia hora de conversas cordiais e formalidades.
Mas o clima de tensão se instalou no Salão Oval após o vice-presidente
americano, J.D. Vance, dizer que o "caminho para a paz e o caminho para a
prosperidade talvez seja se envolver na diplomacia".
"É
isso que o presidente Trump está fazendo", disse ele.
Zelensky
interrompeu, afirmando que os episódios de agressão da Rússia começaram antes
da invasão em grande escala à Ucrânia há três anos. "Ninguém o
impediu", disse ele sobre o presidente russo Vladimir Putin.
"De
que tipo de diplomacia, J.D., você está falando? O que você quer dizer?",
disse ele.
A troca
então se tornou visivelmente tensa, com Vance respondendo: "o tipo que
acabará com a destruição do seu país". O vice-presidente então acusou
Zelensky de ser desrespeitoso e "litigar" a situação na frente da
imprensa americana.
Em um
ponto da discussão, Zelensky disse: "Durante a guerra, todo mundo tem
problemas, até você. Mas você tem um oceano bonito e não sente [isso] agora,
mas sentirá no futuro."
O
comentário irritou Trump e o levou ao confronto que até então tinha sido
limitado a Zelensky e o vice-presidente.
"Não
nos diga o que vamos sentir. Você não está em posição de ditar isso", ele
disse, sua voz ficando mais alta. "Você não dá as cartas agora. Você está
apostando com milhões de vidas."
Trump
acusou Zelensky de estar "jogando com a Terceira Guerra Mundial" e de
"não ser muito grato" — em referência ao apoio dos EUA à Ucrânia na
guerra contra a Rússia.
O
presidente ucraniano tentou interromper Trump em alguns momentos, mas o
americano continuou fazendo acusações.
O
acordo entre os dois países acabou não sendo assinado e Zelensky foi instruído
a deixar a Casa Branca mais cedo. Uma entrevista coletiva ao lado de Trump foi
cancelada.
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MCyril Ramaphosa, da África do Sul
Em maio
do ano passado, esperava-se que uma reunião entre Trump e o presidente da
África do Sul, Cyril Ramaphosa, iria apaziguar tensões recentes entre os dois
países.
Uma
semana antes do encontro na Casa Branca, os EUA haviam concedido asilo a cerca
de 60 afrikaners, que são sul-africanos descendentes de europeus — uma medida
que irritou o governo sul-africano.
Ramaphosa
chegou à Casa Branca esperando tratar de relações comerciais entre os países.
Como gesto de simpatia, ele deu a Trump tacos de dois famosos golfistas
sul-africanos e um livro enorme sobre os campos de golfe de seu país.
A
reunião no Salão Oval começou cordialmente, até que Trump pediu que as luzes
fossem apagadas para exibição de um vídeo. O clima mudou.
O vídeo
mostrava a voz de Julius Malema, figura proeminente da oposição sul-africana,
cantando: "Atirem no bôer [africâner], atirem no fazendeiro". Em
seguida, foram mostradas as imagens do campo com as cruzes, que Trump afirmou
ser um cemitério de fazendeiros brancos.
Trump
disse não saber onde, na África do Sul, o vídeo tinha sido gravado. As cruzes,
na verdade, não eram sepulturas reais, mas pareciam ser de um protesto de 2020,
após o assassinato de um casal de agricultores na província de KwaZulu-Natal.
Os organizadores do protesto afirmaram na época que as cruzes eram meramente
simbólicas — representando agricultores mortos ao longo dos anos.
Ele
entregou a Ramaphosa o que pareciam ser cópias impressas de reportagens sobre
ataques a pessoas brancas na África do Sul. Trump disse que buscava uma
"explicação" de seu convidado sobre as alegações de
"genocídio" branco na África do Sul, que foram amplamente
desacreditadas.
O
presidente sul-africano manteve a calma durante a reunião e contraargumentou.
"O
que vocês viram — os discursos que foram feitos... isso não é política do
governo. Temos uma democracia multipartidária na África do Sul que permite que
as pessoas se expressem", disse Ramaphosa a Trump.
"A
política do nosso governo é completamente contrária ao que ele [Malema] estava
dizendo, mesmo no parlamento, e eles são um pequeno partido minoritário, o que
é permitido pela nossa Constituição."
E disse
esperar que Trump ouvisse as vozes dos sul-africanos sobre essa questão. Ele
mencionou os membros brancos de sua delegação, incluindo os golfistas Ernie Els
e Retief Goosen, e o homem mais rico da África do Sul, Johann Rupert.
"Se
tivesse havido um genocídio, esses três senhores não estariam aqui", disse
Ramaphosa.
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Friedrich Merz, da Alemanha
Em
junho do ano passado, pouco depois de ser eleito na Alemanha, o chanceler
Friedrich Merz visitou Trump na Casa Branca.
Diversos
temas foram abordados no primeiro encontro bilateral, como guerra e comércio.
Em um momento da conversa, quando Merz mencionou o dia 6 de junho como o Dia D
e Trump respondeu que "não era um dia agradável" para o chanceler.
O Dia D
foi o dia em que, em 1944, dezenas de milhares de soldados desembarcaram nas
praias da Normandia, marcando o início da campanha dos Aliados para libertar o
norte da Europa ocupado pelos nazistas.
Merz
manteve-se calmo e respondeu que o Dia D "foi a libertação do meu país da
ditadura nazista".
E em
seguida fez referência ao conflito na Ucrânia: "Sabemos o que devemos [aos
EUA]. Mas é por isso que digo que os EUA estão, mais uma vez, em uma posição
muito forte para fazer algo em relação a esta guerra e pôr fim a ela".
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Sanae Takaichi, do Japão
Em
março deste ano, Trump recebeu na Casa Branca a primeira-ministra japonesa
Sanae Takaichi.
Na
época, os EUA estavam sendo questionados por não terem alertado seus aliados
sobre o ataque ao Irã em 28 de fevereiro que deu início ao atual conflito no
Oriente Médio. Quando perguntado sobre isso por um jornalista japonês, Trump
fez referência ao ataque japonês em solo americano em 1941.
"Quem
entende mais de surpresa do que o Japão? Por que vocês não me contaram sobre
Pearl Harbor?", disse Trump, diante da primeira-ministra, que parecia
surpresa.
O
ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, levou os EUA a entrarem na Segunda
Guerra Mundial. No final da guerra, os EUA lançaram duas bombas atômicas sobre
o Japão. Os países se tornaram aliados próximos nos anos seguintes ao fim da
guerra.
O
comentário de Trump provocou alguns risos entre os jornalistas e outras pessoas
presentes, mas Takaichi parecia se sentir desconfortável. Mineko Tokito,
repórter do jornal japonês Yomiuri Shimbun, que estava no Salão Oval naquele
momento, disse que o desconforto da primeira-ministra era "óbvio".
"A
primeira-ministra Takaichi reagiu visceralmente, seus olhos se arregalaram e
seu sorriso desapareceu, claramente surpresa com a menção repentina de Pearl
Harbor", disse ela.
¨
O que a imprensa internacional previu para encontro entre
Lula e Trump
O
encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu homólogo
americano, Donald Trump, realizado nesta
quinta-feira (7/5) na Casa Branca, nos Estados Unidos, foi um dos destaques do
noticiário internacional.
Em um
artigo publicado em seu site, o jornal americano The New York Times aponta que
a reunião é um momento de "trégua frágil" após um ano de grande
tensão em meio à imposição de tarifas por Washington e trocas de "insultos
públicos" entre os dois líderes.
"Não
está claro como Trump e Lula vão interagir, visto que a relação entre os dois
países tem sido marcada por momentos significativos de acrimônia", diz o
periódico, em referência ao convívio áspero recente.
Mas
segundo o The New York Times, temas como segurança, comércio e minerais
críticos devem estar entre os discutidos na Casa Branca.
"A
segurança é uma questão fundamental para os eleitores nas eleições brasileiras
de outubro, com as pesquisas mostrando Lula e [o senador Flávio] Bolsonaro em
empate técnico", aponta a reportagem.
Para o
NYT, a designação de facções criminosas brasileiras como organizações
terroristas por Washington pode dar mais destaque ao tema e potencialmente
beneficiar Flávio Bolsonaro, que tem criticado Lula por sua gestão da segurança
pública.
Segundo
interlocutores do presidente Lula ouvidos pela BBC News Brasil, uma ala da
administração Trump defende que facções como o Comando Vermelho e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) sejam classificadas como organizações terroristas.
A
agência de notícias Reuters afirma ainda que o governo brasileiro tem
identificado indícios de que suas exportações podem ser afetadas por novas
tarifas relacionadas a uma investigação sobre práticas comerciais desleais.
A
preocupação do Brasil com o tema começou em julho do ano passado, na mesma
época em que o governo Trump impôs um tarifaço de 40% — que foi posteriormente
revertida.
Naquele
mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla
em inglês) abriu uma investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio do
país sobre práticas comerciais supostamente irregulares do Brasil. Entre outras
coisas, o órgão incluiu o Pix entre os itens sob apuração.
Os
norte-americanos afirmam que o Pix representaria uma ameaça à atuação de
empresas dos Estados Unidos que operam o mercado de meios de pagamento. Do lado
brasileiro, técnicos defendem que o sistema não prejudica empresas
norte-americanas numa tentativa de evitar sanções.
Segundo
a reportagem da Reuters, autoridades brasileiras manifestaram preocupação com a
possibilidade de uma nova onda de tarifas durante uma reunião realizada há duas
semanas com representantes do Departamento de Comércio dos EUA. "Segundo
pessoas presentes nas negociações, os representantes americanos fizeram poucas
perguntas, reforçando a percepção de que a investigação visava justificar
tarifas em vez de resolver questões comerciais", diz a agência.
Outra
reportagem, da agência Associated Press (AP), aponta o acesso aos depósitos de
terras raras do Brasil como outro ponto fundamental que provavelmente estará na
agenda da reunião.
"O
país sul-americano possui a segunda maior reserva mundial de minerais de terras
raras, utilizados em uma ampla gama de produtos, incluindo smartphones,
veículos elétricos, painéis solares e motores a jato", diz a AP.
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'Opostos ideológicos'
Segundo
o jornal argentino La Nación, Trump e Lula são "opostos ideológicos"
que mantêm uma "relação difícil".
O
periódico relembrou o último encontro entre os dois líderes, realizado na
Malásia em outubro do ano passado, que teria levado Washington "a relaxar
as tarifas punitivas impostas ao Brasil pelo julgamento do ex-presidente Jair
Bolsonaro, um aliado de Trump condenado a 27 anos de prisão por tentativa de
golpe".
Mas
segundo o La Nación, muita coisa aconteceu desde então: "os Estados Unidos
capturaram o líder chavista Nicolás Maduro em Caracas e lançaram uma guerra
contra o Irã ao lado de Israel", diz o artigo.
A
reportagem ressalta ainda que Lula critica abertamente as ações militares
americanas e acusa Trump de atuar como um "imperador" do mundo.
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'Lula chega à reunião politicamente enfraquecido'
A
imprensa internacional também destaca o momento político delicado para o
presidente Lula domesticamente.
Segundo
o La Nación, o brasileiro chega ao encontro "politicamente enfraquecido
após uma série de derrotas no Congresso, e empatado nas pesquisas para as
eleições presidenciais de outubro com o filho mais velho de Bolsonaro, o
senador Flávio Bolsonaro".
O canal
de televisão France 24, em seu site, aponta ainda que ao mesmo tempo em que
precisa abordar questões delicadas com Trump, Lula "tenta melhorar sua
imagem no Brasil antes das eleições de outubro".
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Reunião organizada "na surdina" após inúmeras reviravoltas
O
jornal espanhol El País tratou ainda, em reportagem em seu site, da falta de
clareza sobre como a reunião na Casa Branca deve ser organizada.
"Até
o último minuto, a logística do encontro, descrito pelo alto funcionário e pelo
Brasil como uma reunião de trabalho, permanece incerta. Não se sabe se Lula
será recebido por Trump na entrada principal da Ala Oeste, como era costume ao
receber líderes estrangeiros na Casa Branca, ou se o protocolo das recentes
visitas de autoridades não-chefes de Estado será seguido: chegada por uma
entrada lateral e reunião a portas fechadas, como ocorreu nos casos do
presidente colombiano Gustavo Petro e do primeiro-ministro israelense Benjamin
Netanyahu", diz a reportagem.
Segundo
o El País, o governo Trump orquestrou a visita do Brasil "na surdina"
após inúmeras reviravoltas.
"Para
a diplomacia brasileira, o encontro representa mais um passo na construção de
confiança com o imprevisível líder da maior potência mundial", diz o
jornal.
Fonte:
BBC News Brasil

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