Quando
a fé é resistência política
Ele
nasceu onde o Rio de Janeiro decidiu fincar sua universidade mais combativa: a
Favela do Esqueleto, chão que hoje abriga o campus da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ) — suprema ironia. Filho de Sônia da Mauriti e de um
mecânico baiano que se afastou da família, Ivanir dos Santos foi criado entre a
casa da parteira Dona Abigail e os becos de uma cidade que, nos anos 1960,
implementava a frio sua política de “higienização”. Tinha sete anos quando o
Estado bateu à porta da família e o arrancou dos braços da mãe. O que veio
depois — doze anos de internato no Serviço de Assistência ao Menor (SAM) e na
Funabem, o assassinato forjado como suicídio da mulher que o trouxe à vida, as
ameaças de morte, os tiros disparados contra o carro onde estava com o filho
caçula no colo, a bala que matou outro jovem em seu lugar — é a matéria bruta
com que se esculpe um sobrevivente. Mas Ivanir não se contentou em sobreviver.
Fez da existência uma usina de sentidos, ergueu sobre as ruínas do que parecia
uma biografia perdida uma cátedra, um terreiro e uma trincheira. Hoje, aos 71
anos, ele é doutor em História Comparada e professor na Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), Babalaô do Culto de Ifá — “pai do segredo”, na precisa
acepção iorubá —, liderança internacional da luta pela liberdade religiosa,
interlocutor do saudoso Papa Francisco e premiado por governos que,
paradoxalmente, também patrocinam o racismo que ele combate.
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Eis a entrevista.
• O senhor ingressou na Funabem como
interno e saiu de lá com uma vocação que o trouxe à UFRJ. Sabemos que a Funabem
foi historicamente construída para disciplinar corpos negros e corpos pobres —
ela não foi pensada para formar intelectuais. O que o Estado imprimiu na sua
subjetividade, o que colocou dentro do senhor, dentro daquelas paredes, sem que
ele mesmo percebesse o que estava a forjar?
É
preciso observar um dado importante: nos anos 1950 e 1960, os negros e os
pobres neste país não tinham o direito ao ensino garantido. Não era
estritamente proibido, mas o acesso era inexistente na prática. Eram
pouquíssimas as famílias negras que conseguiam chegar ao ensino primário e,
depois, ao ginasial. Essa era uma dificuldade estrutural. A grande contradição
é que, tanto no SAM — o Serviço de Assistência ao Menor — quanto na Funabem,
havia escola. Os internos frequentavam aulas. Ali, ironicamente, encontrava-se
o maior número de pessoas negras com acesso ao ensino formal, ao primário e ao
ginasial. Frequentei, no SAM, a escola do Instituto Santa Terezinha, entre 1962
e 1964. Quando o SAM foi extinto e deu lugar à Funabem, em 1964, fui
transferido para a escola Padre Anchieta, em Jacarepaguá — que mais tarde
passou a chamar-se Escola São Geraldo. Quando cheguei ao quarto ano, fui
novamente transferido, desta vez para a Escola XV, com o objetivo de fazer a
admissão e o ginasial. A Escola XV tinha um nível de exigência comparável ao do
Colégio Pedro II e das escolas técnicas. Se existe um lugar onde o preto e o
pobre tinham um ensino público de real qualidade — e ressalvo que isso não se
aplicava a todas as unidades da Funabem nem do SAM —, esse lugar era a Escola
XV. Embora houvesse castigos físicos e violência institucional cotidiana, havia
também comida garantida todos os dias, de melhor qualidade do que nas outras
unidades: carne, proteína, sobremesa, café da manhã, almoço e jantar. E era uma
boa escola. A Escola XV funcionava com o chamado Ginasial Industrial Básico:
pela manhã, metade da turma tinha aulas teóricas enquanto a outra metade ia
para as oficinas aprender uma profissão; à tarde, as turmas trocavam. Acabei
integrando o que costumo chamar de um grupo de elite interna: a banda de
música. Foi ali que aprendi música. Tive, portanto, dentro de todas essas
contradições, um ensino de qualidade. Isso moldou a minha trajetória. Na Escola
XV, a liderança que havia sido despertada nas escolas anteriores se ampliou:
organizei bailes, levei sessões de cinema para outras escolas da fundação,
organizei quadrilhas de festas juninas de forma mais estruturada. Ali mesmo,
tínhamos um jornal chamado O Grito. Ele surgiu porque, ao chegar à quarta série
ginasial, os alunos ganhavam algumas regalias, por ser o último período na
instituição. Mas O Grito foi cassado com o endurecimento da ditadura militar.
Em resposta, criamos o jornal Sombra, de caráter clandestino. Nesse período,
cursava o primeiro ano do científico. Como não tinha pai nem mãe — não tinha
ninguém por mim —, e estava prestes a ser desligado da instituição sem ter para
onde ir, decidi organizar um Grêmio estudantil, com estatuto redigido, para que
houvesse eleições diretas, em plena ditadura militar. A resposta da instituição
foi ilegalizar o Grêmio e transformá-lo num Grêmio Recreativo de sala de jogos.
Tive de sair para trabalhar como operário. Ainda na escola, eu já lia muito.
Como não tinha família e não podia sair de férias, ficava na unidade. Os outros
alunos, quando voltavam das férias, traziam revistas e gibis. Eu os lia; alguns
me eram dados, e eu alugava os demais para conseguir algum dinheiro. Havia toda
uma questão de sobrevivência interna da qual ninguém costuma falar. Tive um
professor que foi fundamental — como ser humano e como alguém que abriu a minha
consciência: Luiz Gonzaga Pires, meu professor de música. Esse é o lado da
história que não se conta habitualmente.
• Certa vez, o senhor compartilhou, em
sala de aula, a história de sua mãe. Gostaria de dar ao senhor a oportunidade
de contá-la aqui, se se sentir à vontade para isso.
Não
tenho nenhum problema em falar sobre isso. Inclusive, essa história está
presente na minha tese de doutorado, num prólogo que escrevi especificamente
para contá-la. Nasci na Favela do Esqueleto, que é o local onde hoje se situa o
campus da UERJ. Sou filho de uma mulher de Campos dos Goytacazes — de um
distrito chamado Santo Eduardo, que cruzava com Santa Maria. É uma memória
muito escassa que guardo dessa primeira infância. Ela veio ao Rio de Janeiro
trabalhar como empregada doméstica e acabou por conhecer um homem baiano,
mecânico de profissão. Engravidou dele e teve um filho, que sou eu. Morávamos
na Favela do Esqueleto. Em algum momento, ele se afastou dela, por razões que
nunca ficaram claras, e ela se viu obrigada a criar o filho sozinha. Naquela época,
as patroas raramente aceitavam empregadas domésticas com crianças. Então, para
conseguir sustentar o filho, ela se deslocou para a região chamada zona do
mangue, próxima à Praça Onze, numa rua chamada Comandante Maurity, onde se
prostituía. Quando eu tinha entre sete e
oito anos de idade, fui retirado dela. Andava sempre pelas cercanias, mas o que
se configura, com clareza hoje, é que se tratou de um rapto institucional:
tiraram-me dela e levaram-me para o SAM. A partir desse momento, nunca mais a vi.
Mais tarde, quando já estava na Escola XV, com cerca de 14 anos, num domingo em
que fui assistir a um jogo no Maracanã — única saída permitida aos alunos sem
família —, reencontrei um colega chamado Carlos Henrique, que morava na Praça
Onze. Decidi ir com ele até lá, ávido por tentar reencontrar minha mãe depois
de tantos anos. Foi aí que me disseram — pois todos me conheciam naquela região
— que ela havia morrido. Disseram que tinha jogado álcool sobre o próprio corpo
e ateado fogo. Pode imaginar o impacto que é para um jovem de 14 anos receber
uma notícia dessas? Voltei para a Escola XV em estado de choque. Saí de lá mais
tarde para trabalhar como operário, mas mantive sempre comigo o desejo de
resgatar essa história, de procurar as origens da família, de chegar até os
parentes dela em Campos. Nessa peregrinação, descobri que tive um padrasto no
Esqueleto, na Mangueira, um homem chamado Broto. Rastreei a família dele por
meio de um ex-aluno, que me indicou que moravam na Vila Kennedy — para onde boa
parte dos moradores do Esqueleto havia sido removida. Fui até lá e descobri que
esse homem estava preso na Ilha Grande. Desloquei-me até a Ilha Grande para
conversar com ele. Nessa caminhada de reconstrução da memória, já adulto,
quando exercia o cargo de Subsecretário de Estado de Direitos Humanos no
governo de Benedita da Silva, tive de voltar à Praça Onze. Havia alguém que
havia namorado minha mãe e queria me dar informações importantes. Foi aí que
descobri que as pessoas não falavam abertamente sobre o assunto, mas que ela
não tinha se suicidado. Na verdade, ela havia sido assassinada por um agente
policial da Invernada de Olaria. Essa versão foi confirmada recentemente, no
dia 23 de abril, dia de São Jorge. Eu caminhava perto da Igreja de São Jorge,
no centro do Rio, quando encontrei um grupo de pessoas do Candomblé, do axé
Bamboxê. Um senhor negro, Ogã, olhou para mim e disse: “Eu conheço a sua
história. Conheço bem a história de sua mãe; foi forjado um suicídio que, na
verdade, não foi suicídio nenhum.” Ele sabia de tudo — disse-me inclusive que o
autor havia sido um delegado de polícia. Conhecia os detalhes, mas não me
revelou o nome. E a verdade é que o nome já não é o que mais me importa. O que
importa é o fato: ela não se suicidou.
• O senhor é mestre, doutor e pós-doutor,
e retornou à academia após os 60 anos de idade — não por necessidade de
titulação, mas, como costuma afirmar, para inspirar outras pessoas. O que a
academia lhe proporcionou, em termos de ferramentas ou de visão, que o terreiro
já não lhe havia entregado muito tempo antes?
Em
primeiro lugar, é preciso dizer que o terreiro me conferiu um sentido de
pertencimento coletivo. A ancestralidade me guiou durante todo o percurso.
Diria que o terreiro me humanizou. Quando se é criado num internato, a vida
transforma o indivíduo numa pessoa muito dura. A sabedoria milenar africana
preservada no Brasil possibilita uma descoberta fundamental: a de que se é
filho de todo o mundo, pai de todo o mundo, amigo de todo o mundo. Passa-se a
ter uma família ampliada — o que foi decisivo para mim, que não tive família
biológica presente. Um dado importante na cronologia: em 1974, logo após sair
da Funabem, trabalhei como operário na AGGS, uma empresa de artes gráficas do
Gomes de Sousa. Aos trancos e barrancos, concluí o ensino médio e fiz o vestibular,
indo estudar na Notre Dame, uma faculdade católica. O contraste era absoluto:
eu vinha de um lugar onde 98% das pessoas eram negras e pobres, inseridas num
discurso oficial que as classificava, na melhor das hipóteses, como em situação
de “pré-delinquência”. De repente, estava numa faculdade de elite em Ipanema,
onde 99,9% das pessoas eram brancas e de classe média alta. Por ser uma
instituição confessional, era obrigado a cursar Teologia. Assim, estudei
Teologia no mesmo período em que me iniciava no Candomblé, em 1981. Entrei na
faculdade em 1979, formei-me em Pedagogia e fui, desde sempre, um militante.
Até hoje, sou militante do movimento negro e da luta pelos direitos humanos.
Nunca busquei o título acadêmico de forma imediata. Já era, de certa forma, um
intelectual orgânico — e um intelectual público muito antes de retornar à
pós-graduação. Havia pautas, como o próprio ECA e a abolição do trabalho
infantil, nas quais contribuímos diretamente para a formulação. O Estatuto da
Criança e do Adolescente nasceu a partir de uma campanha intitulada “Não Mate
Nossas Crianças”. Fundei a Associação de Ex-alunos da Funabem em 1979; foi a
partir dessa associação que muitos processos começaram. A Pastoral do Menor
surgiu um pouco depois, assim como o Movimento de Meninos e Meninas de Rua.
Estive envolvido em todas as agendas contemporâneas do movimento negro — a
política de cotas, a Conferência de Durban, pesquisas e debates públicos. Até
que, entre 2013 e 2014, o professor Chevitarese me pediu auxílio para organizar
um congresso. Eu estava à frente da Comissão de Combate à Intolerância
Religiosa e organizávamos a Caminhada pela Liberdade Religiosa em Copacabana,
todo terceiro domingo de setembro. Ao me ouvir falar sobre Estado laico e
democracia, Chevitarese me convidou para o doutorado. Muniz Sodré, ao me ouvir
no mesmo contexto, foi mais direto: disse-me que eu teria de fazer o doutorado
com ele, porque “aquela narrativa não existia na academia”. Junto com o
professor Flávio Gomes — que viria a ser também meu orientador —,
convenceram-me de que era politicamente importante ocupar aquele espaço
acadêmico. Voltei já com cerca de 60 anos. Costumo dizer que a academia
sistematizou a minha experiência de vida. Minha tese, intitulada “Marchar não é
caminhar”, compara a Marcha para Jesus com a Caminhada pela Liberdade
Religiosa, analisando o que é o autoritarismo de quem tenta impor uma religião
aos outros e o que é a convivência em diálogo. Quando entrei na pós-graduação,
pedi para ingressar no mestrado, pois sentia que estava há muito tempo fora.
Mas, após um ano, na qualificação, a banca me enviou diretamente ao doutorado.
Não cheguei a defender dissertação de mestrado. Concluí o doutorado, fiz o
pós-doutorado e tornei-me professor colaborador no Programa de História Comparada
da UFRJ, orientando mestrado e doutorado. O que molda a minha reflexão é a
experiência. Trabalho com a ideia de que no Candomblé existe uma sabedoria
intrínseca, e a academia é o suporte, a instrução formal. O desafio é fazer
esses dois saberes dialogarem, sem que um tente dominar o outro como se fosse a
única verdade absoluta. A academia é um lugar de autoridade na sociedade, mas
não pode ignorar as trajetórias de vida e os saberes dos grupos tradicionais —
onde também existe ciência. Não é a ciência acadêmica clássica, mas é um corpo
de conhecimento. Não podemos tratar esses saberes de forma pejorativa. Não sou
um pensador cartesiano; a academia é muito cartesiana, mas procuro manter esse
diálogo constante entre o ensino e a aprendizagem. O professor ensina, mas
também aprende.
• O senhor viaja todos os anos à Nigéria.
Para um público que, em larga medida, não conhece as nuances do Candomblé —
seja ele católico progressista, seja de esquerda laica —, gostaria que o senhor
explicasse o que é o Candomblé, qual a sua diferença fundamental em relação à
Umbanda, e o que é o Culto de Ifá. E por que a Nigéria é uma paragem
obrigatória anual na sua vida?
Antes
de qualquer coisa, é preciso dizer que, como aluno da Funabem, fui batizado na
Igreja Católica. Na instituição, éramos obrigados a assistir à missa todos os
domingos. Na juventude, toquei em muitos grupos de jovens da Igreja nos anos
1970 — sou músico, embora poucos saibam disso. A minha aproximação inicial com
a matriz africana deu-se por volta de 1974 ou 1975, através da Mãe Dusse, que
era do Omolocô — vertente da umbanda negra mais tradicional. Fui iniciado no
Candomblé em 1981 e, em 2006, fui iniciado em Ifá, na Nigéria. Não fui “buscar”
algo: fui conduzido até lá. A minha primeira viagem internacional,
curiosamente, não foi para a África. Foi para Cuba e para Moscou, em 1984: era
vice-presidente do comitê pró-Festival Mundial da Juventude, que se realizaria
em Moscou em 1985, em plena abertura do regime militar. Mas, em relação à
Nigéria, fui iniciado para Ifá na cidade de Ogbomosho. Vou para a Nigéria para
vivenciar a relação comunitária com a comunidade na qual fui iniciado e para
participar do meu festival de Ifá. Sobre as diferenças: a Umbanda não é uma
invenção do início do século XX, como muitos pensam. As pesquisas atuais
demonstram que a Umbanda, vinda da macumba carioca e de outras manifestações
bantos, já existia muito antes de Zélio de Moraes. A Umbanda de Zélio de
Moraes, essa sim, tem uma base kardecista e cristã. Isso está referenciado na
minha tese e no meu livro “Marchar não é caminhar”, pela Editora Pallas. Já o
Candomblé é uma recriação brasileira, ocorrida no século XIX, das tradições
iorubás, que acabou influenciando expressões fons e angolanas, todas muito
ligadas às tradições africanas. Ifá é o oráculo, é o caminho. Não há
contradição entre Ifá e Candomblé — não existe Orixá que não exija a consulta a
Ifá, seja pelo jogo de búzios, seja pelo opelê-ifá, que é um cordão de
consulta, seja pelo ikin, as sementes sagradas utilizadas na adivinhação. No
Brasil, alguns tentam separá-los, mas na tradição iorubá qualquer iniciação
exige a consulta ao oráculo para ouvir os sinais. Para que os católicos
compreendam, basta olhar para o Antigo Testamento: lá existia a consulta ao
oráculo, o diálogo com Deus através de sinais. O Culto de Ifá é essa tradição
oracular milenar — e vários povos têm, cada um à sua maneira, essa cultura de
comunicação com o Criador. Sou, aliás, consultor religioso da novela “Nobreza
do Amor”, da Rede Globo, onde essa tradição está representada.
• O senhor é autor de documentos sobre
violência policial e institucional e denuncia recorrentemente violências
praticadas por setores neopentecostais contra terreiros. Ao mesmo tempo, já se
posicionou em defesa da Igreja Católica diante de ataques semelhantes. A
pergunta é direta: o senhor já foi ameaçado de morte? E, se foi, o que lhe dá a
força para não recuar?
Não
apenas fui ameaçado — sofri atentados reais. Houve um período em que andei com
segurança policial permanente. Já dispararam contra a porta do CEAP; recebi
inúmeras cartas de ameaça. A Anistia Internacional chegou a fazer uma campanha
internacional para me proteger. Meu carro foi alvejado por policiais do 4º
Batalhão em frente à minha casa, na Mangueira, enquanto eu estava com o filho
caçula ao colo. Só não fui executado ali porque minha companheira estava comigo
e interveio; os policiais acabaram por me levar à delegacia, onde o delegado me
reconheceu. Um outro filho meu quase foi assassinado: policiais o confundiram
comigo através de uma fotografia e acabaram por matar outra pessoa no lugar.
Passei por tudo isso. E não estou livre de passar de novo. Mas há algo que me
conduz: quando se tem uma causa maior do que a própria vida, compreende-se que
o indivíduo é secundário. Sinto-me protegido por uma força superior. Já estive
em pelo menos duas ocasiões à beira da execução e, em ambas, algo intercedeu no
último momento. É fundamental esclarecer: não luto contra os evangélicos nem
contra os cristãos. Luto contra o racismo, contra a intolerância religiosa e
contra o desrespeito pelos direitos humanos, independentemente de onde venham
os ataques. Sinto-me na obrigação ética de estar ao lado da Igreja Católica
quando ela é atacada por acusações de idolatria ou quando tem as suas imagens
destruídas. Isso vale para os ciganos, povos de encantaria, para os budistas,
para os judeus diante do antissemitismo, para a comunidade islâmica diante da
islamofobia, para a comunidade LGBT quando há homofobia, e para as mulheres
quando há misoginia. Temos de ser coerentes na luta pelo direito. Não podemos
lutar apenas por particularismos. A Caminhada pela Liberdade Religiosa demonstra
que é possível reunir religiosos de matrizes diversas e não religiosos num
mesmo espaço. Quando o Papa Francisco esteve no Brasil, fui um dos poucos
líderes religiosos não cristãos a encontrá-lo. Mesmo que eu esteja ameaçado, se
cheguei aos 71 anos de vida e sobrevivi, é porque havia um propósito a cumprir.
• Que energia o senhor sentiu nesse
encontro com o Papa Francisco? O que um Babalorixá sente quando abraça o chefe
da Igreja Católica?
Quando
fui iniciado no Culto de Ifá, foi-me revelado que eu teria um encontro com uma
pessoa muito importante. O oráculo sempre me disse isso, e eu não sabia o que
seria. Em janeiro de 2013, quando fui à Nigéria cumprir minhas obrigações
espirituais no festival de Ifá, o oráculo me disse que seria naquele ano que
esse encontro aconteceria. Quando voltei ao Brasil, logo em março, recebi um
telefonema do diácono Nelson, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, em nome do
Cardeal Arcebispo D. Orani João Tempesta, O.Cist, pedindo meus dados — sob a
condição de que eu mantivesse a informação em absoluto sigilo. Fui informado de
que havia sido escolhido pela Arquidiocese para encontrar o Papa. Houve três
tentativas. A primeira foi cancelada porque ele ficou gripado. A segunda, em
Copacabana, foi cancelada por causa da chuva. A última possibilidade seria um
encontro no Theatro Municipal. As outras lideranças religiosas, temendo novo
cancelamento, não foram. Eu fui. Quando cheguei e fui credenciado, disseram-me
que me sentaria logo à frente. Apenas eu e o representante das lideranças
religiosas indígenas estávamos presentes. Tratava-se do maior líder da Igreja
Católica do mundo, em um país historicamente marcado pela intolerância
religiosa e pelo papel que a própria Igreja Católica teve na escravidão — ela
foi o Estado na Colônia e no Império, não podemos esquecer isso. Num cenário
como esse, o encontro entre a principal liderança católica mundial e um Babalaô
foi histórico e simbólico. O Criador promoveu esse encontro. Não era o Ivanir
ali: era o representante de uma religiosidade de matriz africana, portador de
um simbolismo de resistência e de presença que representa milhões de pessoas.
Não foi um ato de subordinação, mas um abraço fraterno entre duas pessoas que
exercem uma atividade religiosa de peso simbólico distinto. E há um ponto que
não pode ser esquecido: tudo começa na África. O Éden é lá. Todo o constructo
religioso — inclusive o dos povos hebreus — tem raízes africanas. Foi o
encontro da origem. O encontro que demonstra que o Criador é um só.
• O senhor é reconhecido pela disposição
para o diálogo em qualquer contexto. No entanto, há uma pessoa no Brasil com
quem o senhor recusa sistematicamente o diálogo: Silas Malafaia. Por quê?
Vou
explicar de forma simples. Quem lembra do meu debate com ele no Programa do
Bial, da TV-Globo, sabe que o convidei para a Caminhada pela Liberdade
Religiosa, e ele recusou, alegando que era um ato político. Ao longo de todos
esses anos, ele não fez outra coisa na vida. O que afirmou recusar, foi
exatamente o que praticou ininterruptamente. Logo depois do debate, passou a me
tratar com um certo desrespeito — e deixo claro que não divirjo da pessoa, mas
do seu pensamento. Há uma diferença. Naquele debate, fui muito respeitoso. Mas
Malafaia tem uma postura de arrogância e prepotência que não condiz com o
cristianismo. E há, na forma como lida com interlocutores negros, uma
componente racista muito clara. É muito comum que pessoas brancas não se
coloquem no mesmo plano quando o interlocutor é negro. O segundo motivo foi a
questão do réveillon do Rio. Quando levantei a discussão sobre o palco gospel,
fui extremamente cortês: disse que nada tinha contra o palco em si, mas que
exigia equidade, lembrando que a tradição de passar o ano de branco na praia
foi criada pelos umbandistas — qualquer arquivo de memória do país pode
comprovar isso. Em resposta, ele me atacou de forma grosseira e pessoal. Não é
uma pessoa preparada para o debate. Não se consegue dialogar com quem só ouve a
própria voz. Diálogo exige a capacidade de ouvir, de reconhecer a divergência
e, eventualmente, encontrar convergências. O que não funciona é o grito no
lugar do argumento. Se um dia ele mudar de postura e quiser uma conversa
baseada no respeito e no argumento, estarei disponível. A sociedade brasileira
está exausta desta polarização hostil, que divide famílias e ambientes de
trabalho. O Brasil precisa crescer através do diálogo — e diálogo significa ter
a capacidade de ouvir a divergência sem tentar medir a fé do outro. Fé é
subjetiva. Não há régua para medir a fé de ninguém. Quando alguém coloca a fé
como argumento numa discussão, eu interrompo — porque a partir daí a conversa
não avança.
• Em 2019, o senhor recebeu um dos prêmios
de liberdade religiosa mais prestigiados do governo norte-americano, atribuído
pelo Departamento de Estado, liderado na época por Mike Pompeo. Qual foi o seu
sentimento naquele momento, dado o contexto político?
Antes
de 2019, já havia recebido outros reconhecimentos: em 1996, o Prêmio Adolph
Bloch, conferido pela Comunidade Judaica no Rio de Janeiro; em 2001, na
Conferência de Durban, um prêmio internacional da UNESCO, concedido pela
comunidade do Bahrein; e um Prêmio de Direitos Humanos no governo Dilma, pela
Caminhada pela Liberdade Religiosa. Em 2019, recebi o prêmio do Departamento de
Estado americano num momento muito difícil para o Brasil. O governo que estava
aqui instalado incentivava a intolerância religiosa. Receber esse
reconhecimento foi, de fato, paradoxal: estávamos sob as administrações de
Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil, governos que, em muitos aspectos,
incentivavam a intolerância, o racismo e a misoginia. Sou uma pessoa
progressista. Quase não aceitei o prêmio por questões ideológicas, mas fui
convencido de que se tratava de um reconhecimento ao trabalho, não a um governo
específico. Fui o único representante do Hemisfério Ocidental a recebê-lo; os
outros três premiados eram do Chipre, do Iraque e do Sudão. Naquele momento de
grande conservadorismo no Brasil, o prêmio funcionou como uma proteção e
conferiu visibilidade internacional a um grupo religioso perseguido. Uma pessoa
negra, do Candomblé, recebendo um reconhecimento dessa dimensão. Pareceu-me
também que o Departamento de Estado dos Estados Unidos, apesar de todas as suas
contradições internas, estava exercendo um gesto democrático. Recebi o prêmio
não como algo pessoal, mas em nome da visibilidade de um grupo religioso que é
extremamente perseguido — o que me incentiva a continuar a luta que realizamos
até hoje.
• Para encerrar, gostaria que o senhor
deixasse suas últimas palavras sobre o Cais do Valongo, a Pequena África no Rio
de Janeiro, e sobre o que significa o pertencimento negro no Brasil de hoje.
O Cais
do Valongo foi o principal ponto de desembarque de africanos escravizados no
Brasil — a maior leva entrou por ali. Mas é importante observar que não entrou
apenas mão de obra escravizada. Por aquele cais também chegaram a nossa
espiritualidade, a nossa cultura, a nossa sociabilidade, o conhecimento
científico dos ferreiros, o conhecimento da medicina. As pessoas imaginam que
foi só trabalho forçado. Foi muito mais do que isso, e isso marcou
profundamente a sociedade brasileira. Precisamos olhar para o Cais do Valongo e
para a Pequena África como um lugar de esperança — que marca a civilidade do
nosso país. A Pequena África é resistência. Mas é também uma marca muito dura.
A eugenia praticada ali — para retirar as pessoas negras daquele lugar e dispersá-las
pela cidade, a fim de transformar o Rio numa cidade de aparência europeia — é
um capítulo que não pode ser esquecido. A descoberta do Cais trouxe uma memória
muito forte. Mas a bem da verdade: ele não foi descoberto. Todo mundo sabia que
estava ali. Qualquer historiador sabe que abaixo do Cais da Imperatriz estava o
Cais do Valongo. Em frente, está a Docas Pedro II, criada por André Rebouças. É
um centro de memória. O Brasil e o Rio de Janeiro precisam olhar para ali para
compreender a contribuição dos africanos à cidade e ao país. Não podemos
esquecer que os ex-escravizados deste país não receberam o mesmo amparo que os
imigrantes europeus receberam do Estado — o mesmo incentivo, o mesmo apoio na
inserção social. Isso é um ponto central do debate sobre reparações que, com o
reconhecimento da ONU de que a escravidão transatlântica foi o maior crime
contra a humanidade, agora se abre com mais força. Esse debate precisa ser
feito com serenidade e responsabilidade — por negros e brancos juntos. A
Pequena África não pode ser apenas memória e sentimento. Tem de ser uma
possibilidade — aquela que a República não conseguiu dar: o direito pleno de
cidadania para essa população. Uma boa escola, um bom lugar para morar, saúde
de qualidade, emprego com dignidade. Isso, com certeza, devolveria ao Brasil
algo que ele ainda não tem. Quem discute segurança pública apenas como ameaça,
sem falar em investimento em educação e saúde, está errado. Não existe solução
para a violência sem políticas públicas e respeito à cidadania. Moro no Morro
da Mangueira. O fato de morar numa favela me tira o direito de ser cidadão?
Onde está escrito isso? Eu poderia estar morto há muito tempo. Se não dermos às
pessoas a possibilidade de uma educação de qualidade e de uma contribuição real
à sociedade, isso é o que continuará a acontecer. O que me move — e o que
espero inspirar em outros — é que a educação ninguém tira de você.
Fonte:
Por Thiago Gama, em Outras Palavras

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