sexta-feira, 8 de maio de 2026

Trump diz que reunião foi produtiva e cita Lula como 'o dinâmico presidente brasileiro'

Com foco em temas como comércio, segurança pública e cooperação estratégica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi recebido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca nesta quinta-feira (7). A reunião teve cerca de três horas de duração e incluiu um almoço.

Após o encontro, o presidente norte-americano afirmou que a agenda foi "muito produtiva" e que serão realizadas novas reuniões entre os países ao longo dos próximos meses sobre pontos considerados estratégicos. Segundo Trump, o encontro abordou diversos temas, com destaque para comércio bilateral e tarifas.

"Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa. Nossos representantes devem se reunir para discutir alguns elementos-chave. Reuniões adicionais serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário", declarou Trump nas redes sociais.

Lula foi recebido por Trump por volta das 11h21 e cumprimentado pelo norte-americano assim que desceu do carro. A pedido do Brasil, a coletiva de imprensa foi alterada para após o encontro entre os dirigentes, em uma mudança de protocolo da Casa Branca, que costuma receber os repórteres antes das agendas começarem. Porém, por conta de um compromisso do republicano, não houve a tradicional conferência com os dois líderes.

Além de Lula, integram comitiva presidencial os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira; da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva; da Fazenda, Dario Durigan; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa; e de Minas e Energia, Alexandre Silveira, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

O Planalto avalia que a reunião pode reduzir a influência de aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Casa Branca. Além disso, o encontro ocorre em um momento em que Flávio cresce nas pesquisas e tenta ampliar sua interlocução nos EUA por meio de seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, e Paulo Figueiredo.

<><> Tensões diplomáticas entre Brasil e EUA

Após se reunir em duas ocasiões no ano passado e até apontar uma "química" — ocasiões que culminaram na redução do tarifaço contra o Brasil e no fim de sanções econômicas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes —, Lula e Trump voltaram a fazer das divergências a tônica das relações em 2026.

Neste mês, Lula citou os embates do norte-americano com o papa Leão XIV, contrário à guerra promovida por Washington contra o Irã. "O Trump não precisava ficar ameaçando o mundo", afirmou à época.

Dias depois, em meio à prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, condenado a mais de 16 anos de prisão no Brasil e considerado foragido, os Estados Unidos determinaram a expulsão do delegado brasileiro envolvido na detenção, realizada pelas autoridades migratórias. O governo brasileiro reagiu com a retirada das credenciais diplomáticas de um agente de imigração norte-americano que atuava em Brasília.

¨      Trump diz que Lula é 'cara inteligente' após encontro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que Luiz Inácio Lula da Silva é um "homem bom" e um "sujeito inteligente" depois do encontro entre os dois na Casa Branca na quinta-feira (7/5).

"Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Fazemos muito comércio e vamos ampliar esse comércio. Falamos sobre tarifas. Falamos também que eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas foi uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um sujeito inteligente", disse Trump a repórteres em Washington.

Antes desse comentário, Trump havia afirmado em uma publicação na rede Truth Social que a reunião havia sido "muito boa" e chamado Lula de "dinâmico". O presidente brasileiro, por sua vez, disse ter saído "muito satisfeito da reunião".

Lula esteve reunido por cerca de três horas com Trump em sua primeira visita oficial à Casa Branca durante a gestão trumpista. Os dois fariam uma declaração conjunta à imprensa do Salão Oval após o encontro, mas a coletiva de imprensa foi cancelada.

Ao falar a jornalistas da embaixada do Brasil após o encontro, Lula disse ter saído "muito satisfeito da reunião" e comentou sobre as imagens do encontro, em que ele e o presidente americano posam sorridentes.

"Eu sempre acho que a fotografia vale muito. Eu fiz questão de dizer: 'Ria'. É importante. Alivia. Alivia a nossa alma a gente rir um pouco", comentou durante a coletiva de imprensa na embaixada.

Quando perguntado se há risco de novas tarifas impostas pelos EUA, Lula respondeu: "Olha para a minha fisionomia. Você acha que eu estou otimista, ou pessimista? Eu estou muito otimista", disse, mencionando a criação do grupo de trabalho com prazo de 30 dias para uma solução para as tarifas que restaram do tarifaço do ano passado.

Mas o próprio presidente brasileiro reconheceu que os dois governos ainda divergem em temas centrais, especialmente na área comercial.

"Ele sempre acha que nós cobramos muito imposto", afirmou Lula ao comentar as discussões sobre tarifas. "Quem tiver errado, vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder. Se vocês tiverem que ceder, vocês vão ter que ceder."

Daniel Bush, correspondente da BBC News em Washington, avalia que a decisão de cancelar a aparição conjunta no Salão Oval foi significativa.

"Trump costuma apreciar a oportunidade de se reunir com líderes estrangeiros na Casa Branca e frequentemente transforma essas visitas em longas coletivas de imprensa informais", diz o jornalista.

Neste contexto, a decisão de evitar uma aparição conjunta com o presidente brasileiro foi "reveladora", afirma.

Oliver Stuenkel, professor associado de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, também avalia que a ausência de uma fala conjunta após o encontro indica que "algumas divergências continuam sobre a mesa".

Segundo ele, caso houvesse acordo em temas centrais, os presidentes provavelmente teriam feito uma declaração pública conjunta, ainda que isso não torne o saldo da reunião negativo.

Em uma publicação no X após a reunião com Trump, Lula afirmou que saiu da Casa Branca com a ideia de que "demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica que o Brasil tem com os EUA".

O presidente brasileiro classificou o encontro como "muito importante" e disse que não houve assunto proibido ou vetado.

"O Brasil está preparado para discutir qualquer assunto com qualquer país do mundo: tarifas, comércio exterior, minerais críticos, combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas e de armas", destacou, ponderando que a única coisa que não abre mão é "da nossa democracia e da nossa soberania".

Lula finalizou a mensagem dizendo que os ministros continuarão as tratativas para avançar nos temas abordados com os EUA durante o encontro.

¨      Por que foto com Trump pode ser valiosa para Lula na eleição, segundo analistas

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma ligação telefônica para Donald Trump em outubro do ano passado, o petista tentou quebrar o gelo fazendo uma brincadeira com a idade deles.

Lula estava prestes a completar 80 anos, idade que Trump alcançará no próximo mês de junho.

Na época, o Brasil vivia sob as tarifas impostas pelo governo dos EUA sobre diversos produtos brasileiros e aquela ligação era a primeira vez que eles conversavam sobre o tema.

Segundo uma fonte próxima ao governo afirmou à BBC News Brasil na época, Lula afirmou, com um tom de "deixa disso", que eles não tinham "mais idade" para provocações. E prometeu que visitaria Trump próximo ao 80º aniversário do americano.

Faltando um mês para Trump completar 80 anos, Lula estará na Casa Branca, para uma reunião com o líder americano nesta quinta-feira (7/4).

O encontro ocorre após o novo atrito entre os dois países causado pelo episódio de prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL) nos Estados Unidos.

A situação levou o governo americano a expulsar um agente da Polícia Federal brasileira que atuava como oficial de ligação nos Estados Unidos. Em resposta, o Palácio do Planalto também descredenciou um oficial americano que atuava no Brasil.

No pano de fundo estão também os ataques de Trump ao Pix, a possibilidade de os EUA classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, os investimentos em minerais críticos e as tarifas que ainda permaneceram do "tarifaço".

<><> Pano de fundo eleitoral

Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o encontro deve tangenciar a pauta das terras raras, o acordo que o Brasil pode firmar com a China e o do Mercosul com a União Europeia.

Já para Oliver Stuenkel, pesquisador do Carnegie Endowment e Harvard e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a reunião dos chefes de Estado deve ser sem tensionamentos e "com alguns avanços pontuais na redução de tarifas".

Mas ambos concordam que a ida de Lula à Casa Branca é estratégica para as eleições deste ano.

"A direita tem um imaginário que vincula muito a política externa brasileira à Venezuela, a governos progressistas, à esquerda. E essa estratégia de tentar se desvincular disso é interessante, sobretudo se o encontro significar que existe uma autonomia e soberania brasileira", afirma Bressan.

Em entrevista à repórter Mariana Schreiber, da BBC News Brasil em Brasília, na semana passada, o especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), afirmou algo na mesma linha.

"A única forma pela qual Trump poderia reequilibrar esse lugar que os Estados Unidos ocupam na conversa eleitoral é se ele tiver o encontro com o Lula e se esse encontro for bom."

Segundo Stuenkel, além da direita perder a narrativa de que seria mais alinhada a Trump, Lula ainda teria a seu favor a cartada da diplomacia.

"Se for uma reunião bem-sucedida, é claro que o Lula vai usar isso dizendo que consegue trabalhar com qualquer um, enquanto Flávio [Bolsonaro] carece de uma experiência diplomática."

Ainda para ele, mesmo que a reunião seja ruim — o que ele não acredita que será — isso não representará, necessariamente, uma má notícia para o petista.

"Se for uma percepção que o Trump está querendo humilhar Lula, mas Lula demonstrar uma postura firme, isso pode ser utilizado pela campanha do Lula também", diz.

Já Bressan pondera que "pensando em relação a essa estratégia de desvincular a direita dos EUA, ela é interessante para mostrar o quanto o Brasil dialoga com os EUA", diz. "Mas não salva nenhuma eleição".

Esta será a segunda vez que o presidente brasileiro viaja aos Estados Unidos em seu terceiro mandato, mas é a primeira vez que ele irá à Casa Branca. O primeiro encontro entre Lula e Trump ocorreu brevemente durante a cúpula da ONU, em Nova York, em setembro do ano passado.

"Tivemos uma química excelente", afirmou Trump, na época, sobre o breve encontro, no auge das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil.

No fim de outubro, eles se reuniram em Kuala Lumpur, na Malásia. O encontro durou cerca de 50 minutos e ocorreu durante a realização da 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).

A suspensão das tarifas de Trump era o centro daquela primeira reunião. Mas os dois presidentes trataram de outros temas também.

Segundo o chanceler Mauro Vieira afirmou na época, Lula também se ofereceu para ser um "interlocutor" entre EUA e Venezuela.

Naquele momento, Trump pressionava o Caribe, atacando embarcações sob o pretexto de que estavam carregadas com drogas, e ameaçava Nicolás Maduro.

"O presidente Lula levantou o tema e disse que a América Latina e a América do Sul, onde estamos, é uma região de paz. E ele se prontificou a ser um contato, um interlocutor, como já foi no passado, com a Venezuela, para se buscar soluções que sejam mutuamente aceitáveis e corretas entre os dois países", disse o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, após o encontro de outubro.

Ainda assim, a captura de Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, na Venezuela, ocorreu cerca de dois meses depois, em 3 de janeiro. Eles seguem nos EUA, onde enfrentam acusações de tráfico de drogas e outros crimes.

Lula e Maduro estavam distanciados desde que o governo brasileiro não reconheceu formalmente a mais recente reeleição do herdeiro de Hugo Chávez, vista por atores da região e observadores como não legítima.

Assim como a Venezuela, Cuba também está no alvo do presidente americano, que vem pressionando o país por um acordo.

Após a captura de Maduro, Trump interrompeu o fornecimento do petróleo venezuelano e ameaçou com novas tarifas países que oferecessem ajuda a Cuba.

Com apagões sucessivos e escassez de alimentos e medicamentos, a ilha está à beira de um colapso.

Embora o governo Trump não tenha declarado planos claros para Cuba, o presidente dos EUA já afirmou que uma intervenção militar era desnecessária porque o país estava "prestes a cair".

<><> Diálogo ou 'armadilha'?

Embora os dois encontros anteriores entre Lula e Trump tenham sido todos dentro dos padrões usuais da diplomacia, o presidente americano ainda segue imprevisível — duas reuniões de Trump com outros chefes de Estado no ano passado terminaram em bate-boca.

Em março, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, foi repreendido na frente na imprensa mundial na Casa Branca, depois que Trump e seu vice-presidente, JD Vance, exigiram que ele mostrasse mais "gratidão" pelos anos de apoio dos EUA.

Zelensky também foi acusado de estar "brincando com a Terceira Guerra Mundial" ao não trabalhar mais por um cessar-fogo com a Rússia.

Ele negou a afirmação e os americanos responderam que ele estava sendo "desrespeitoso".

Dois meses depois, Trump recebeu o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, na Casa Branca para uma agenda focada em comércio e cooperação tecnológica.

No entanto, poucos minutos após o início da reunião, Trump fez acusações de que estaria ocorrendo uma "limpeza étnica" contra brancos na África do Sul.

O presidente americano acusou o governo sul-africano de confiscar terras de fazendeiros brancos, promulgar políticas discriminatórias contra brancos e adotar uma política externa antiamericana.

Para Oliver Stuenkel, embora os encontros com o presidente americano nunca sejam "inteiramente previsíveis", o histórico de Lula e Trump é "excelente".

"Nas últimas vezes que se encontraram, eles tiveram reuniões muito produtivas e foi possível conter os problemas e a crise na qual a relação bilateral se encontrava na época", recorda.

"Acho também que o fato de haver um tradutor simultâneo, essa tensão do debate ríspido que vimos com Zelensky e o presidente da África do Sul fica um pouco mais difícil de se repetir".

Em entrevista à BBC News Brasil na semana passada, Casarões lembrou desse episódio, quando começou a se cogitar uma visita de Lula à Casa Branca, após o encontro na ONU, no ano passado.

"Muitos especulavam que essa visita poderia ser uma pegadinha, uma armadilha para o Lula, e que o Trump poderia dispensar ao presidente brasileiro o mesmo tratamento que havia dispensado ao Zelensky, da Ucrânia, e ao Ramaphosa, da África do Sul. Foram reuniões muito constrangedoras, uma humilhação pública generalizada", afirmou ele.

Mas, assim como Stuenkel, Casarões não acha que Lula será colocado na mesma saia-justa, embora isso faça parte do cálculo.

"Da parte do governo brasileiro, acho que isso também é parte do cálculo: 'a gente quer uma foto com o Trump, essa foto seria valiosa, por exemplo, pra neutralizar uma parte importante da narrativa da campanha do Flávio Bolsonaro, segundo a qual, ele é o único político que tem uma boa relação com o presidente americano'. Agora, tudo vai depender do clima que está rolando do lado de lá."

 

Fonte: Sputnik Brasil/BBC News Brasil

 

Nenhum comentário: