O
que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps: 'É terra de
ninguém, risco de vida o tempo todo'
A
notificação do celular anuncia mais uma corrida. Na tela, o mapa mostra a
distância a ser percorrida em 12 minutos para que Douglas Alexandre Santos
pedale até um McDonald's na cidade de São Paulo.
Para
fugir do trânsito, ele decide subir na calçada com a bicicleta alugada. A
corrente estoura, e ele quase sofre uma queda. Mas, enquanto tenta solucionar o
problema, ele perde a entrega. O pedido é repassado a outro entregador.
Santos,
na verdade, é um sociólogo que trabalhou como cicloentregador no iFood por seis
meses entre 2023 e 2024, como parte da sua pesquisa de mestrado na Universidade
de São Paulo (USP). O trabalho foi premiado como melhor dissertação de 2025 do
Programa de Pós-Graduação em Sociologia da instituição.
A
experiência etnográfica revelou, segundo o pesquisador, um sistema de trabalho
em que o algoritmo não perdoa a prudência. Pelo contrário, ele diz que os
prazos curtos do aplicativo forçam os entregadores a cometerem infrações e
arriscarem a própria vida no trânsito, se quiserem garantir a entrega.
"É
um trabalho muito perigoso. E as plataformas não têm nenhum tipo de
concernimento sobre a segurança do trabalho, sobre a integridade das pessoas e
dos jovens negros que exercem essas ocupações", afirma.
"Eles
não usam capacetes, não usam EPI [Equipamento de Proteção Individual]. Eles não
têm nenhum tipo de conscientização que parte das plataformas para preservar a
própria vida e a própria integridade física."
Procurado
pela reportagem, o iFood afirmou que não incentiva comportamentos de risco e
que adota medidas para aumentar a segurança dos entregadores, incluindo
ciclistas.
Segundo
a empresa, os tempos de deslocamento definidos pelo aplicativo levam em conta
dados de navegação e incluem uma margem adicional (leia mais sobre o
posicionamento da empresa abaixo).
Como
pesquisador, Santos estabeleceu um limite para a sua segurança: ele não
atravessaria sinais vermelhos e não se arriscaria no trânsito perigoso. Ele
preferia ir pelas calçadas quando o fluxo de carros era grande e só cruzava a
rua quando o sinal estava verde para pedestres.
A
postura cautelosa teve um preço: respeitar as leis de trânsito significou mais
perdas de entregas. "O tempo estipulado pela plataforma para as entregas
simplesmente ignora engarrafamentos, semáforos fechados ou acidentes."
"Esse
é o tempo que você tem e você faz o que for necessário para cumprir. Pedalar
entre os carros, subir nas calçadas, atravessar cruzamentos, atravessar sinais
vermelhos, colocar a própria vida em risco o tempo todo", diz.
No caso
da entrega perdida do McDonald's, ele relata que acessou o aplicativo para
informar o imprevisto, esperando ganhar alguns minutos para trocar a bicicleta
alugada em uma estação próxima.
Segundo
Santos, a resposta da inteligência artificial foi automática: além da perda da
entrega, a plataforma aplicou um bloqueio temporário de 15 minutos, sem
possibilidade de receber novos pedidos.
"Fica
evidente que o trabalhador arca com todos os custos e riscos da infraestrutura,
enquanto a plataforma pune qualquer desvio de produtividade. Seja usando uma
bicicleta própria ou alugada, o desgaste físico e material é totalmente
transferido para o ciclista."
Com
seis meses de pesquisa de campo, o pesquisador avaliou que já havia coletado
informações suficientes. Mas também decidiu parar para não se arriscar mais.
"A sensação de ter a vida em risco no trânsito de São Paulo era
constante."
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App como libertação
O
trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão
de pessoas nessa modalidade, segundo o IBGE, o equivalente a 1,9% dos ocupados
no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de
mais 335 mil trabalhadores.
A
maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já os
entregadores representam 29,3%. Ou seja, são 485 mil.
Mas o
grupo não é homogêneo. Os trabalhadores que atuam em entregas se dividem
principalmente pela idade e pelo veículo utilizado pelos profissionais, pontua
o pesquisador.
De um
lado, estão os motoboys. Douglas explica que esse grupo é formado por homens
adultos, geralmente acima dos 30 anos, que são pais de família e principais
provedores de seus lares.
"Entre
eles, existe muito a figura do pai de família, o homem que tem o seu próprio
núcleo familiar e que precisa participar da manutenção de um lar", diz.
Do
outro lado, estão os entregadores que trabalham com a bicicleta, o foco da sua
tese. São jovens, majoritariamente negros e moradores de periferias. A maioria
tem entre 18 e 24 anos e nunca trabalhou com carteira assinada.
"Esses
jovens entregadores que baixam o aplicativo com 18 anos já têm uma trajetória
ocupacional muito longa", diz o pesquisador.
"Eles
começam a trabalhar muito cedo, na informalidade, na ilegalidade, em todo tipo
de ocupação que você imaginar. Então, o referencial que eles têm, por exemplo,
para avaliar a ocupação com os aplicativos é muito difícil", continua.
Um dos
entregadores acompanhados relatou que começou a trabalhar aos 13 anos,
carregando sacolas pesadas em uma ladeira íngreme em troca de gorjetas. Para
esses jovens, o aplicativo aparece como uma libertação, já que elimina a figura
do patrão tradicional e oferece uma sensação de autonomia, diz o pesquisador.
Esses
jovens demonstram, no geral, forte antipatia por movimentos políticos e
sindicais — diferentemente de parte dos motoboys, que têm se organizado em
torno da regularização do trabalho nas plataformas, em discussão no Congresso
Nacional.
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Virilidade como sobrevivência
Segundo
o pesquisador, como o aplicativo pressiona por velocidade e pune os atrasos da
corrida, os jovens abraçam o perigo como estilo de vida.
"Percebi
que tinha um componente que estava fugindo um pouco aos olhos dos sociólogos,
que estão sempre atentos às dinâmicas de mobilização, de formalização da
relação empregatícia, por exemplo, que é uma dinâmica que tem a ver com a
constituição da identidade de gênero desses jovens periféricos e, ao mesmo
tempo, da identidade profissional deles", afirma.
"Observei
dois fenômenos acontecendo ao mesmo tempo: a consolidação da identidade
profissional e a consolidação da identidade de gênero. Essas coisas se
construindo mutuamente."
Lucas,
de 19 anos, contou ao pesquisador que, apesar do medo constante da mãe, seus
pais sentiam muito orgulho dele porque, ao garantir seu dinheiro de forma
independente no trânsito, ele estava "virando homem".
Passar
cruzamentos no sinal vermelho, ignorar a ciclofaixa e costurar entre ônibus não
são atitudes vistas por eles apenas como necessidades financeiras, mas como
verdadeiras provas de masculinidade.
Nos
relatos de campo, os acidentes são contados com risadas. Rafael, um entregador
de 20 anos, era famoso entre os colegas por sua ousadia e velocidade extremas.
Ele já
havia quebrado a perna, operado o pescoço e perdido o movimento de um dedo do
pé em acidentes. Mesmo assim, vangloriava-se de parar o trânsito com a própria
bicicleta. Com firmeza, Rafael afirmou diretamente ao pesquisador: "Pra
gente não tem regra. Quem faz a regra é nóis!".
Os
jovens transformam o medo em coragem e adrenalina. Ao assumir uma postura
destemida, o entregador ganha status no grupo, eleva sua autoestima e passa a
se sentir invencível.
Mas
existe um custo físico dessa coragem. Santos acompanhou Wesley, um jovem que
relatou ter pedalado tanto em um único dia que, ao chegar em casa e tirar os
sapatos, viu que suas meias estavam manchadas de sangue. Fred, outro entregador
veterano, resumiu a brutalidade da rotina dizendo que suas pernas já não
sentiam mais dor. "Calejado é pouco."
Motoristas
e entregadores de plataformas digitais estão hoje em uma "zona
cinzenta", em que não são empregados formais pela CLT, mas profissionais
autônomos que dependem de regulamentação específica.
A
regulamentação do trabalho intermediado por plataformas vem sendo debatida no
Congresso Nacional e ganhou tração no governo Lula — mas tem sido difícil
encontrar consenso entre empresas do setor, representantes dos trabalhadores e
governo.
Além da
remuneração, um dos principais debates é em relação ao tipo de vínculo e a
inclusão previdenciária dos trabalhadores do setor.
Santos
adverte que os projetos de lei para regulamentar os aplicativos no Brasil se
centralizam, basicamente, na categoria dos motoboys.
"O
trabalho dos motoboys já é regulado pelas leis de trânsito. Já para o ciclista,
é como se fosse uma terra de ninguém. Ele pode estar descalço, ele pode
trabalhar sem nada e pode trabalhar com uma bolsa térmica velha, sem capacete,
com celular antigo, seja lá qual for. E ninguém está olhando isso."
Santos
defende que, muito além de negociar centavos na taxa de entrega por quilômetro,
as empresas de delivery precisam fornecer equipamentos de segurança individual
(EPIs) e água, além de criar, urgentemente, campanhas de proteção à vida para
seus entregadores.
"O
mais dramático nessa situação é que são vidas, integridade física, jovens se
acidentando, ossos quebrados. É muito comum."
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O que dizem as plataformas
Procuradas
pela reportagem, empresas e representantes do setor afirmam que não incentivam
comportamentos de risco e que adotam medidas para aumentar a segurança dos
entregadores.
A
Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne
plataformas como iFood, Uber e 99, disse que os tempos e trajetos das entregas
são definidos por algoritmos que consideram dados como histórico de tráfego,
velocidade das vias, volume de pedidos e condições em tempo real.
Segundo
a entidade, os prazos são dinâmicos e podem ser ampliados automaticamente em
situações como chuva ou horários de pico, com o objetivo de reduzir a pressão
sobre os trabalhadores.
Em
casos de imprevistos, como problemas mecânicos ou vias bloqueadas, a associação
afirma que os entregadores podem acionar canais de suporte nos aplicativos para
reportar atrasos sem sofrer penalidades automáticas. Nesses casos, o sistema
pode redistribuir o pedido ou atualizar o cliente.
As
empresas também dizem investir em campanhas de segurança, cursos de direção
defensiva e ferramentas tecnológicas que monitoram o comportamento dos
condutores, com alertas de excesso de velocidade.
O
iFood, principal empresa do setor no país, afirma que não incentiva corridas
contra o tempo e que os prazos de entrega incluem uma margem adicional em
relação ao tempo estimado de deslocamento.
"Não
tem nenhum incentivo para que ele corra", disse Johnny Borges, diretor de
Impacto Social da empresa.
Segundo
ele, entregas feitas por bicicleta são limitadas a trajetos mais curtos, de até
quatro quilômetros, e concentradas em áreas com maior infraestrutura urbana. A
empresa afirma ainda que evita direcionar ciclistas para regiões com relevo
mais acentuado.
Borges
disse que a plataforma pode reatribuir pedidos antes da retirada no
restaurante, caso identifique desvios de rota ou imprevistos, mas afirma que
não há bloqueio por atraso na entrega ao cliente.
Sobre
segurança, o iFood afirma que oferece treinamentos, distribui equipamentos e
mantém um seguro contra acidentes para todos os entregadores. Segundo o
executivo, o uso de itens como capacete é incentivado, mas não obrigatório.
"Eles não gostam de usar capacete", disse.
O
representante reconhece que o uso simultâneo de múltiplos aplicativos, uma
prática comum entre entregadores, pode aumentar a pressão por tempo e
influenciar comportamentos de risco.
Já a
Keeta, empresa chinesa que entrou recentemente no mercado brasileiro, afirmou
que a segurança dos entregadores é prioridade e que investe em tecnologia para
reduzir riscos na operação.
Segundo
a empresa, sistemas próprios de inteligência artificial permitem otimizar
rotas, reduzir o tempo de espera e aumentar a produtividade sem exigir que os
trabalhadores ultrapassem limites de velocidade.
A Keeta
afirma ainda que mantém uma central de suporte para entregadores, desenvolve
iniciativas de orientação e atua em parceria com autoridades públicas e
especialistas em mobilidade para aprimorar políticas de segurança.
A Rappi
e a 99Food também foram procuradas, mas não responderam até a publicação deste
texto.
Fonte:
BBC News Brasil

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