Desenrola
cria cultura que ignora razão do endividamento recorde, diz pesquisador do
'Brasil dos boletos
O
investimento em programas de renegociação de dívidas mostra que o
governo brasileiro está atento aos problemas da população e funciona como uma
injeção de renda para permitir a volta ao consumo, afirma o geógrafo Kauê Lopes
dos Santos, que estuda a cultura da compra parcelada nas periferias de São Paulo.
Por
outro lado, diz o professor da Universidade de Campinas (Unicamp), programas
como o Desenrola, que teve sua
segunda versão lançada oficialmente pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
nesta semana, podem criar uma cultura de renegociação de débitos que não
resolve o problema estrutural causado pelo consumo via crédito no Brasil.
"Essas
iniciativas são importantes, porque mostram que o governo está atento aos
problemas da sociedade e não simplesmente agindo como se essa fosse uma questão
apenas entre a população e os bancos ou redes de varejo", diz Lopes dos
Santos, autor do livro Parcelado (Editora Fósforo).
"Mas,
como muitas políticas públicas, tem um impacto de curto e médio prazo."
Segundo
o pesquisador, programas como o Desenrola 2.0 podem criar uma cultura de
renegociação que podem "complexificar o jogo". "Pode criar uma
lógica de resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais
estruturais", diz.
A
iniciativa, lançada oficialmente na segunda-feira (04/05), prevê a renegociação
de dívidas com descontos e condições facilitadas de pagamento, incluindo juros
menores. Podem aderir pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, o
equivalente a R$ 8.105.
O
programa é uma reedição do pacote de medidas que operou entre
2023 e 2024.
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O hábito do crédito
Em Parcelado, Kauê
Lopes dos Santos analisa como o consumo via crédito passou a fazer parte
do modus operandi da organização do orçamento doméstico das
famílias brasileiras, assim como eventuais entradas em situação de
inadimplência.
"Temos
uma dinâmica na qual o consumo é estruturado pelo parcelamento das coisas: tudo
se parcela e, ao tudo se parcelar, vai se tendo cada vez mais um
comprometimento do orçamento doméstico, o que faz com que as famílias tenham
que parcelar mais ainda", disse em entrevista à BBC News Brasil.
Dados
da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada
desde janeiro de 2010 pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços
e Turismo (CNC), mostram que 80,4% das famílias brasileiras se encontravam
endividadas em março, um recorde na série histórica do levantamento.
Outra
pesquisa, realizada pela Serasa, aponta que 81,7 milhões de brasileiros estavam
inadimplentes em fevereiro, ou 49,9% da população adulta, com valor médio da
dívida por pessoa de R$ 6.598,13.
O
geógrafo aponta que o sistema varejista, articulado ao sistema financeiro,
"construiu uma lógica de parcelamento em longas prestações, com taxas de
juros altíssimas", tornando o cenário cada vez mais complexo para as
famílias de baixa renda.
"Trata-se
de uma população que está sempre no limite, e esse limite vai sendo ocupado
cada vez mais por crédito, crédito, crédito, crédito. Algumas pessoas às vezes
precisam até arrumar novos empregos para aumentar a renda e não se afogar na
inadimplência ou na insolvência."
E se
por um lado o acesso ao crédito se transforma em inclusão social e maior acesso
a produtos, ele também compromete o futuro financeiro de parte da população,
diz o autor.
"Essa
lógica gera uma alienação do futuro. Quer dizer: o comprometimento das próximas
compras está vinculado aos compromissos realizados hoje no parcelamento."
Nos
últimos anos, afirma Lopes dos Santos, a situação se agravou ainda mais diante
da disseminação no país das plataformas de apostas virtuais, conhecidas como
bets.
"Frequentemente,
as pessoas que se endividam a partir das bets são obrigadas a recorrer a
modalidades de crédito com taxas mais altas para cobrir o endividamento, como
cheque especial, cartão de crédito etc.", diz.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Por que resolveu estudar o endividamento da população
brasileira?
Kauê
Lopes dos Santos - Eu resolvi estudar o tema, na verdade, em decorrência de
uma pesquisa que desenvolvi no mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da USP (FAU-USP), que objetivava entender os contrastes materiais perceptíveis
na periferia de São Paulo.
Quando
fazia visitas de campo, observava nos bairros periféricos a presença de um
conjunto de infraestruturas e serviços muito precários, como rede de saneamento
básico, rede de eletricidade e telecomunicações, equipamentos de infraestrutura
e lazer e etc.
Só que,
ao mesmo tempo, nas moradias, observava uma presença de bens considerados
modernos, como televisões, geladeiras, mais recentemente celulares,
computadores e assim por diante. Esse contraste me chamava a atenção e, quando
fui tentar entender o motor por trás desse contraste, cheguei na questão do
crédito.
·
No seu livro, o senhor fala em endividamento crônico. O
que isso significa?
Lopes
dos Santos - O
endividamento crônico é aquele que está ligado a uma lógica de repetição. Temos
uma dinâmica na qual o consumo é estruturado pelo parcelamento das coisas: tudo
se parcela e, ao tudo se parcelar, vai se tendo cada vez mais um
comprometimento do orçamento doméstico, o que faz com que as famílias tenham
que parcelar mais ainda.
Vamos
supor que eu tenha um orçamento de um salário mínimo, mas não consiga comprar
várias das coisas que tem na minha casa com esse valor. Então eu parcelo a
geladeira, depois o fogão, depois a televisão. E aí chega um momento que algo
como, por exemplo, uma roupa, que eu poderia comprar com o meu salário mínimo e
estaria dentro do meu orçamento, já não está mais porque parte da minha renda
está comprometida com as outras parcelas. Então o que eu faço? Parcelo a roupa
também. Parcelo até o supermercado.
Essa
lógica gera uma alienação do futuro. Quer dizer: o comprometimento das próximas
compras está vinculado aos compromissos realizados hoje no parcelamento.
·
O senhor entrevistou centenas de famílias. Com o que as
pessoas se endividam no Brasil hoje?
Lopes
dos Santos - Na
minha pesquisa, o foco principal são equipamentos elétricos e eletrônicos, mas
em paralelo acompanho dados de outras pesquisas maiores, de institutos, que têm
mais condições de ampliar a análise. E o que observo é que o parcelamento entra
em todas as frentes da vida, inclusive para comprar alimentos e roupas.
Há
também o uso para emergências, como um conserto de carro. Trata-se de uma
população que está sempre no limite, e esse limite vai sendo ocupado cada vez
mais por crédito, crédito, crédito, crédito. Algumas pessoas às vezes precisam
até arrumar novos empregos para aumentar a renda e não se afogar na
inadimplência ou na insolvência.
Mais
recentemente, também temos visto o crescimento das bets, que drenam o orçamento
e fazem com que as pessoas se endividem cada vez mais. E, frequentemente, as
pessoas que se endividam a partir das bets são obrigadas a recorrer a
modalidades de crédito com taxas mais altas para cobrir o endividamento, como
cheque especial, cartão de crédito, etc.
·
Hoje quase metade da renda dos brasileiros está
comprometida em dívidas com instituições financeiras, segundo o Banco Central
(BC). Como chegamos a esse ponto?
Lopes
dos Santos - O
Brasil construiu nos últimos 25 ou 30 anos uma sociedade cujo consumo é
catalisado pelo crédito. O consumo já acontecia, obviamente, mas agora o
sujeito na periferia, que não era bancarizado e não tinha acesso a crédito,
pode não só comprar sem ter o dinheiro em reserva, mas em uma velocidade muito
maior.
E o
sistema foi percebendo ao longo do tempo que o mais pobre paga – há situações
de calote, de insolvência, mas a grande maioria da população paga porque é
importante ter o nome limpo, até para poder continuar consumindo.
O
sistema varejista, articulado ao sistema financeiro, construiu uma lógica de
parcelamento em longas prestações, com taxas de juros altíssimas, o que torna a
situação cada vez mais difícil de resolver, pois mesmo que você tenha chegado
ao fim de um parcelamento, ainda tem a parcela de um outro produto que você
comprou.
E aí,
eventualmente, pode até acontecer de você terminar de pagar uma televisão, por
exemplo, e aquela televisão já estar obsoleta e você ter comprar outra. Ou
então nesse período você simplesmente cansou daquela TV, já quer comprar uma
mais moderna porque a publicidade te convenceu.
Por
isso também acredito que, quando falamos do endividamento crônico, duas
dimensões importantes estão juntas na estruturação da sociedade do consumo
brasileira: a obsolescência programada das mercadorias, ou seja, as
mercadorias, que têm um prazo de validade; e a publicidade, que faz com que
mesmo que a sua mercadoria não esteja estragada, você queira consumir outras
novas.
Há
ainda um conjunto de variáveis de ordem macroeconômica que são muito
problemáticas. Inclusive, porque com a população sempre com o orçamento no
limite, qualquer alteração de ordem macroeconômica, como por exemplo aumento do
desemprego, ou a diminuição da renda, vai aumentar muito o número de pessoas em
situação de inadimplência e insolvência.
·
Até que ponto o acesso ao crédito se converteu em
inclusão social e aumento do poder aquisitivo no Brasil?
Lopes
dos Santos - Essa
questão é importante, porque o termo inclusão financeira é muito celebrado como
algo positivo, pois tínhamos uma população que anteriormente estava excluída
desse sistema e passa a ser incluída. Mas me parece importante qualificar essa
inclusão.
O que
eu fui descobrindo com a pesquisa, a partir dos entrevistados, é que eles
identificam que houve uma melhora na vida deles a partir do consumo via crédito
– do ponto de vista objetivo e subjetivo. Por exemplo, uma família poder ter
acesso a uma geladeira para conservar alimentos significa melhora na qualidade
de vida em uma dimensão objetiva.
Já do
ponto de vista subjetivo, temos a percepção do sujeito cuja família vive num
bairro que tem uma infraestrutura precária, mas agora consegue comprar uma
coisa moderna. Ou seja, chega a lugares que nunca tinha chegado antes, ou
acessa produtos a que nunca teve acesso
Mas, ao
mesmo tempo, na forma como essa inclusão financeira acontece, ela também pode
ser negativa. As taxas de juros empregadas vão comprometer o orçamento e vão
comprometer o futuro dessas famílias.
O
endividamento crônico, para mim, é uma variável nociva dessa inclusão
financeira. Por isso que eu chamo de capilarização do crédito, porque as regras
do sistema são verticais: elas são decididas e a população tem que acatar, e a
taxa de de juros não é negociável.
·
Existe espaço para algum tipo de reforma ou maior
regulação no mercado de oferta de créditos?
Lopes
dos Santos - Economistas
são melhores para formulação de políticas públicas de curto prazo, nas
humanidades fazemos mais a leitura crítica de construção de estrutura. Mas têm
muitos caminhos para serem pensados, nem todos eles de fácil resolução. Por
exemplo, redução de taxas de juros não é uma coisa tão simples de ser de ser
construída. Ou então educação financeira, que é muito importante, mas como isso
seria feito? Se for apenas para gente em idade escolar, como é que garantimos
que a maior parte da população economicamente ativa e que é tomadora de crédito
vai ter acesso a esse conhecimento? E esse letramento financeiro deveria ser
crítico, né? Não adianta só explicar como deve ser o orçamento da família, esse
sujeito precisa também saber ler a estrutura, conhecer o sistema financeiro, os
bancos, as taxas de juros cobradas.
Outra
política importante, que se conecta com o debate da escala 6x1, é a questão de
aumento da renda do trabalhador. Isso daria maior segurança em termos de não
entrada em circuitos de insolvência. Mas tudo tem que ser feito de uma forma
combinada, não dá para apostar só em uma dessas políticas.
·
O novo Desenrola Brasil foi lançado oficialmente pelo
governo Lula no dia 4 de maio. Como o senhor avalia a primeira iniciativa do
Desenrola, em 2023, e quais são suas perspectivas para a nova edição?
Lopes
dos Santos - Essas
iniciativas são importantes, porque mostram que o governo está atento aos
problemas da sociedade e não simplesmente agindo como se essa fosse uma questão
apenas entre a população e os bancos ou redes de varejo. Mas como muitas
políticas públicas, tem um impacto de curto e médio prazo.
O
Desenrola 1 teve um papel importante como um primeiro exercício de atenção para
essa questão do endividamento, ao mesmo tempo em que serviu como uma garantia
para os bancos, já que a forma como foi arquitetado gera menor risco nas
operações do crédito. Mas há também uma leitura crítica, ligada sobretutudo ao
fato de que o sujeito vai receber um desconto em sua dívida para depois voltar
a consumir. Entre o Desenrola 1 e o Desenrola 2.0., mais de 9 milhões de
pessoas voltaram para a condição de super endividamento, o que mostra o quão
complexa é a situação.
Em
termos gerais, eu entendo [as iniciativas] como algo positivo no curto prazo.
No médio prazo é uma questão para ser analisada, pois pode criar uma cultura de
renegociação que pode complexificar todo o jogo. Pode criar uma lógica de
resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais
estruturais.
Não
vamos conseguir resolver efetivamente o problema [do endividamento e do
parcelamento], pois o Brasil me parece um dos países que adotaram com mais
força essa lógica. Os países europeus, nos quais os inspiramos para muita
coisa, não tem essa mesma lógica operante.
O
Desenrola, na verdade, é feito para lidar com as situações de inadimplência e
insolvência – que são produtos do endividamento –, sobretudo para populações de
baixa renda que teriam menores condições de resolver isso por conta própria.
Essa injeção de verba do Estado não deixa de ser uma injeção de rendimento para
essas pessoas positivem a sua situação no mercado de crédito e voltem a
consumir mais.
·
Mas e a percepção pessoal em relação ao estado da
economia? Sabemos o peso que o endividamento tem para as famílias brasileiras,
então do ponto de vista pessoal, o programa pode ter impacto na percepção sobre
o estado do país e aprovação do govermo?
Lopes
dos Santos - A
minha hipótese é de que isso vai ter um efeito positivo na leitura da população
em relação ao governo – e a expectativa do governo também é essa.
Mas um
ponto interessante em relação a essa discussão é que, nos anos 2000 e 2010,
durante a ascensão da nova classe C, havia uma euforia em relação ao consumo.
Essa população teve acesso, pela primeira vez, a uma TV de plasma, a um
computador.
Só que,
com o tempo, essas pessoas entram em um novo ciclo de consumo, de obsolescência
programada, de crédito, e não há mais a mesma euforia. Aqueles bens já não são
mais uma novidade e o eleitor de hoje já naturalizou a presença desses objetos
no seu cotidiano.
Mas
claro, o parcelamento compromete o orçamento familiar, muitas famílias vivem em
situação de inadimplência e insolvência, comprometendo seu bem-estar. Isso
também impacta na leitura da população diante da própria situação do consumo.
·
Uma das possibilidades da nova iniciativa é o uso de até
20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar as
dívidas. Mas há uma preocupação de alguns setores de que isso possa comprometer
a função original do FGTS de aquisição da casa própria e proteção em caso de
demissão. Qual sua visão?
Lopes
dos Santos - Isso
tem gerado uma disputa entre empresários e diferentes setores de economia. A
construção civil, por exemplo, não gosta do uso do FGTS para garantir
negociação com o sistema financeiro porque o fundo é um recurso que pode ser
historicamente capturado por esse setor.
Outra
frente é o debate sobre o sistema financeiro ter mais uma forma de capturar o
rendimento dos trabalhadores. Na verdade, se pararmos para pensar, o sujeito na
periferia já está pagando as maiores taxas de juros, e está trabalhando e
gerando renda que é drenada pelo sistema.
Muitas
vezes ele já terminou e pagar o preço do produto à vista e segue pagando
parcelas referentes apenas ao juros. Isso não deixa de ser uma captura de
recursos.
Agora,
além dessa captura de recursos pelo sistema, temos o FGTS, que seria mais um
braço para extração de renda do trabalhador.
·
O presidente Lula afirma que quem aderir ao novo
Desenrola ficará bloqueado de apostar em bets por um ano. Te parece uma boa
solução para a crise de endividamento gerada pelas apostas?
Lopes
dos Santos - Me
parece, pelo menos, um exercício de conscientização. Em alguns países se proíbe
apostas a partir de um horário específico, e eu acho corretíssimo. São jogos de
azar, o próprio nome já diz muito né? E, claro, chega de forma muito
irresponsável para populações em situação de maior vulnerabilidade, que vão ter
seu orçamento também drenado por isso. Inclusive porque, no começo, chegou-se a
vender [as bets] como uma possibilidade de renda extra, o que já foi proibido.
Chega a ser imoral.
Fonte:
BBC News Brasil

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