Cadê
a reforma agrária? Líder do maior acampamento do país cobra regularização de
terras
No
Pará, onde há cerca de 30 mil famílias acampadas à espera da Reforma Agrária.
Desse total, 9 mil são organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST) no estado. Somente o Acampamento Terra e Liberdade, em Parauapebas,
sudeste do Pará, o maior acampamento de trabalhadores rurais do Brasil, também
organizado pelo povo Sem Terra, tem cerca de 5 mil famílias.
Desde
20 de novembro de 2023, o Terra e Liberdade tem se mostrado resiliente enquanto
o poder público não resolve a situação conforme prometido pelo ministro do
Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, e pelo governo federal. Em dezembro de
2024, Teixeira esteve no acampamento e “disse que já tinha uma das áreas
destinadas para fazer o assentamento”.
De
acordo com a liderança e moradora, Valbinne Gama, o prazo para resolver a
situação era “março [2026]. Mas aí tem várias situações, por exemplo, a questão
da vistoria aqui das áreas. Enfim, chamam a gente para se reunir, dão prazo, o
prazo estourou e até hoje nada”, contou em entrevista concedida à Agência
Pública.
Nesta
conversa, Valbianne desmistifica a imagem do “invasor” e expõe o gargalo
burocrático que impede o assentamento de milhares de pessoas em áreas como o
Complexo da Fazenda Miranda. Com o olhar de quem apoiou a eleição do governo
federal, mas convive com a “bancada do boi, da bala e da bíblia” travando
avanços no Congresso, ela traça um panorama da luta pela terra hoje. Um misto
de resistência física, formação política e a certeza de que a justiça social no
Brasil passa, obrigatoriamente, pela redistribuição do chão.
Além de
liderar o Terra e Liberdade, Valbianne faz parte da direção estadual do MST há
quatro anos e da direção regional Carajás, que atua em seis territórios na
região dos municípios de Parauapebas, Curionópolis e Canaã dos Carajás.
Valbianne
fala sobre a organização de 5 mil famílias dentro de um espaço de 55 hectares
que aguardam até o Incra resolver as burocracias. “Nós dividimos em pequenos
lotes de 10 por 20 metros para que as famílias fizessem seus barraquinhos, suas
moradias, e os seus quintais produtivos. É a busca pela soberania alimentar”,
explica.
Ela
também cobra celeridade nos processos de legalização das terras onde hoje as
famílias se dividem. “Cadê a reforma agrária? Cadê as promessas? Cadê os
territórios? Cadê os assentamentos para o nosso povo? São cerca de 200 mil
famílias em todo o Brasil que vivem nessas condições de acampamento. Então, a
gente está botando a cara na rua, marchando, para questionar o governo”,
declara.
A forma
com que muitas pessoas enxergam, de maneira pejorativa e preconceituosa, quem
reivindica e luta por reforma agrária no Brasil é vista por Vabilanne como um
“reflexo da educação do país, é um déficit muito grande de consciência crítica,
política, de entender a história do país. Então, às vezes, nem dá para a gente
julgar essas pessoas”.
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Por que isso importa?
• O atual governo desapropriou 13,3 mil
hectares para a reforma agrária entre 2023 e 2025, segundo a organização Fiquem
Sabendo. A área é menor do que a desapropriada nos dois últimos anos da gestão
Temer (MDB).
• Em janeiro de 2026, entretanto, o
governo federal anunciou R$ 2,7 bilhões para medidas voltadas à reforma agrária
como obtenção de terras, criação e regularização de assentamentos, crédito,
entre outros investimentos.
Na
tentativa de amenizar essa visão, ela convida as pessoas a irem em um
acampamento ou assentamento. “Vá e veja como as famílias se organizam, como o
povo sem terra é tão trabalhador. O tanto que a gente produz, inclusive sem
veneno, para não agredir a natureza, para não agredir os nossos recursos, bens
naturais e ter acesso ao alimento de qualidade”, ressalta.
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Abaixo os trechos mais importantes da entrevista de Valbianne Gama concedida à
Pública.
• Queria começar pedindo pra você
descrever como está a situação do Acampamento Terra e Liberdade hoje. São
quantas famílias?
A gente
ocupou uma área do complexo da família Miranda, mais especificamente a área da
fazenda Santa Maria.
Na
época, a gente não conseguiu permanecer na área. E aí fizemos o que a gente tem
chamado de recuo estratégico para um local onde foi cedido por um dos
assentados da Palmares 2 – que é uma área de assentamento que esse ano vai
fazer 32 anos – aqui em Parauapebas. O companheiro, que a gente chama de
irmãozinho, cedeu o lote dele pra gente fazer o acampamento provisório para ir
ganhando fôlego para uma segunda investida.
Lá foi
onde aconteceu inclusive a tragédia de nove de dezembro [de 2023], não sei se
você ficou sabendo, teve a questão de um curto circuito onde a gente perdeu
nove companheiros.
Depois
desse ocorrido, veio muita gente, muitos políticos, o Incra [Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária], o MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário
e Agricultura Familiar], para prestar solidariedade, mas também fazer a
promessa que as famílias do acampamento não passariam mais o natal daquele ano,
de 2023, naquelas condições, iriam acelerar o processo para dar a terra das
famílias. Como estamos até hoje acampados, não foi cumprida a promessa.
No dia
15 de abril de 2024, nós rumamos numa marcha para essa localidade onde está
hoje o acampamento, que é a antiga fazenda Aquidauana. E daí, de lá para cá, a
gente tem feito muitas lutas, mobilização, formação com o povo. Fizemos algumas
mobilizações na ferrovia também para pressionar a Vale também, porque
entendemos, enquanto movimento, que a Vale também tem responsabilidade
socioeconômica e ambiental, dos problemas da região.
Só que
essa área aqui onde nós ocupamos, tem apenas 55 hectares. Ou seja, não é uma
área para fim de reforma agrária. Mas que a gente investiu nessa ocupação aqui
para estar do lado do complexo [onde também] está a fazenda Miranda. E para ter
um local mais tranquilo, onde as famílias conseguissem se alojar, acampar e
esperar esse processo da fiscalização, até vir a reforma agrária, para poder
assentar as famílias.
A gente
conseguiu avançar no processo com a Vale, que comprou essa área da fazenda
Aquidauana. A Vale passou o recurso para o Incra, o Incra fez todos os trâmites
com a família Benevides e comprou essa área aqui, onde hoje está localizado o
acampamento.
Mas a
gente diz que ainda é acampado porque a área não passou para as famílias, por
conta dessa questão burocrática com o Incra. E também pouco se avançou nesse
processo da construção do assentamento para as 5 mil famílias.
Nessa
área, a gente se dividiu no que a gente chamou de distrito. Nós somos 11
distritos, é como se fossem 11 pequenos acampamentos dentro de uma área. Foi
assim que a gente conseguiu se organizar melhor.
• As 5 mil famílias estão nesse espaço da
fazenda Aquidauana?
Nós
dividimos em pequenos lotes de 10 por 20 metros para que as famílias fizessem
seus barraquinhos, suas moradias, e os seus quintais produtivos – inclusive a
gente tem produzido muito.
• Esse espaço que vocês estão hoje é um
espaço de transição?
É, a
proposta quando a gente veio para cá era isso, era fazer o acampamento
provisório para poder aguardar o processo de vistoria com o Incra, das áreas
que foram solicitadas pelo movimento.
A
maioria dessas áreas estão no complexo da Fazenda Miranda, que vai desde aqui
de Parauapebas, passando por Curionópolis e Marabá. Tem áreas de outras
famílias, mas a maior parte é essa da família Miranda. Se eu não estou
enganada, são 18 fazendas que compõem esse complexo.
• Você disse que após o episódio que
aconteceu da morte dos trabalhadores, por conta daquela descarga elétrica,
houve uma movimentação no território. Eu queria saber como está a relação com o
governo federal e se houve algum tipo de avanço em relação às demandas.
O
ministro da agricultura, do MDA, veio no final do ano passado, acho que dia 23
de dezembro e disse que já tinha uma das áreas destinadas para fazer o
assentamento. Inclusive foi divulgada no Diário Oficial também do Incra, que já
tem essa área destinada, que inclusive tem nome: assentamento Maria de Fátima –
que foi dada em memória a uma das companheiras nossas aqui do setor de saúde
que tombou na luta.
Lá
seriam assentadas 300 famílias, mas o processo não chegou a avançar. E outra, é
uma área muito pequena, tendo em vista a nossa quantidade de público, não
assenta nem um terço do povo que a gente tem. Foi somente isso.
Inclusive,
como estamos no abril vermelho, esse ano é muito significativo para nós porque
se completa 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. No dia 13, a gente
iniciou uma marcha. Fizemos uma homenagem no cemitério aos nossos mortos que
estão lá, uma parte dos que tombaram no fatídico dia 17 de abril de 1996.
Em
memória a eles, mas também para dizer que nós somos sementes e seguimos nessa
luta por justiça social, por reforma agrária, para pautar os nossos
territórios. Não só o Terra e Liberdade está fazendo parte dessa marcha, mas
todos os territórios do Pará, especialmente os acampamentos.
Esse
ano é o 20º acampamento pedagógico [que realizamos nesta data]. Para a gente
fazer esse bonito ato no dia 17 [de abril], mas também para perguntar ao
governo, cadê a reforma agrária? Cadê as promessas? Cadê os territórios? Cadê
os assentamentos para o nosso povo? (…) São cerca de 200 mil famílias em todo o
Brasil que vivem nessas condições de acampamento.
Então,
a gente está botando a cara na rua, marchando, para questionar o governo.
• Quando vocês receberam a visita do MDA,
eles deram algum prazo para resolver a situação?
O prazo
era março. Se eu não me engano. Mas aí tem várias situações, por exemplo, a
questão da vistoria aqui das áreas. Enfim, chamam a gente para se reunir, dão
prazo, o prazo estoura e até hoje nada. O acampamento vai completar 3 anos e a
gente tem vivido muito de falsas promessas.
• Como é a relação com o governo estadual?
A gente
tem pouco diálogo com o governo do estado.
• E como é que está? Vocês chegaram a ter
uma uma ameaça de despejo. Como é que está isso?
Aqui no
Terra e Liberdade, especificamente, não. Como foi comprado pelo Incra, a gente
está nesse diálogo para ver como [o órgão] vai fazer para passar a área, que é
a parte de cada assentado.
A gente
tem entendido, no processo, que [aqui] vai ser a futura vila do assentamento,
possivelmente. O Incra juridicamente não pode passar a área para nós, porque
não é uma área para fim de reforma agrária. A gente tem entendido que de
repente, como o ministro colocou essa possibilidade, desse primeiro
assentamento para as 300 famílias, se vier a acontecer, a gente pode ligar o
processo. [Assim,] daria para passar a área para as famílias, porque aumentaria
a quantidade de terra, digamos assim. Mas só essa área que nós estamos não tem
como passar, mas aí está na mão do Incra, já não está na mão do fazendeiro.
• E o Incra também não deu prazo?
Não.
Eles têm questionado essa situação, porque como não é uma área destinada à
reforma agrária, barrou nesta parte burocrática. Como a legislação não dá essa
brecha para passar, a brecha que tem é essa, de pegar uma outra área para fazer
ligação burocraticamente para poder passar para as famílias, porque daí
aumentaria o tamanho da área.
• Queria que você desse um panorama de
como foram esses 3 anos de governo Lula na questão das políticas para reforma
agrária?
É meio
difícil, é muito complicado até de ouvir o povo hoje, porque a revolta é muito
grande, porque um dos movimentos que mais apoiou o governo Lula foi o MST.
Inclusive, com essa pauta de trazer a reforma agrária para discussão, para mesa
de debate, para avançar nesse debate. E a gente pouco viu, de fato, o avanço da
pauta da reforma agrária, da pauta da agricultura familiar.
• O que você quer dizer com “meio
difícil”? Você se refere a defender o governo? Você acha que as pessoas estão
impacientes por conta dessa demora?
Isso. A
gente se envolveu nessa marcha, nessa jornada de luta justamente para isso,
para gritar nas ruas, para colocar nossa pauta, para cobrar do governo esse
avanço da reforma agrária no país.
• Então, essa marca e memória dos 30 anos
do massacre de Eldorado dos Carajás também serve para chamar a atenção do
Governo Federal?
Isso.
Para dizer que nossos mortos não morreram em vão, que tentaram nos silenciar,
mas viramos sementes. E que mesmo depois de 30 anos, que para nós são 30 anos
de impunidade, de dor e sofrimento das famílias que sobreviveram ao massacre,
porque até hoje muitos não recebem nada do governo, não têm esse respaldo.
Muitos
ainda hoje vivem com as dores das balas alojadas, porque não conseguiram
retirar as balas do corpo. Então, são inúmeras dores, mas que também se
transformaram em resistência. E nós, do Acampamento Terra Liberdade, e outros
acampamentos que vieram depois, viramos semente e que é preciso avançar na
pauta da reforma agrária nesse país.
Você
pega dados aí da CPT e vê que outros massacres que ainda acontecem no país,
principalmente aqui nessa região sul e no sudeste do Pará. Como, por exemplo, o
que aconteceu em Pau D´Arco.
Outros
lutadores por essa pauta, seja ambiental, seja da reforma agrária, têm morrido
por conta dessa questão. Então, é inadmissível que uma questão que está na
Constituição, que é legal, que é constitucional, a gente ainda tenha que passar
por esse tipo de situação: viver debaixo da lona preta, passar dificuldades e
necessidades para poder chegar a um objetivo que é um direito nosso. [São,
aproximadamente,] 250 mil famílias em todo o país precisam de terra e 50% das
áreas agricultáveis estão na mão de apenas 1% da população do país. Isso não é
justo.
• Há quanto tempo que você está no
acampamento e um pouco da sua atuação, da sua função?
Eu faço
parte da direção estadual do MST há quatro anos. Estou na direção pela regional
Carajás, que é essa região aqui onde compõem os municípios de Parauapebas,
Curionópolis e Canaã dos Carajás. Nós temos seis territórios aqui nessa região.
Quando
a gente definiu essa questão da ocupação da área do acampamento Terra e
Liberdade, eu já estava na direção e o meu nome foi cotado para ajudar nesse
processo inicial de construção.
O
acampamento nasceu no dia 20 de novembro de 2023, mas como eu estava em outra
tarefa no Maranhão, não consegui acompanhar a primeira ocupação. Eu cheguei já
no final de novembro ou começo de dezembro, mais ou menos.
• Geralmente as pessoas têm a visão de
quem ocupa terra são invasores que querem a propriedade privada. Na sua
perspectiva de liderança, convivendo com essas 5 mil famílias no acampamento, o
que você responderia para quem não conhece a realidade de quem reivindica terra
hoje no Brasil?
É até
difícil falar, porque a gente sabe que isso é o reflexo da educação do país, é
um déficit muito grande de consciência crítica, política, de entender a
história do país. Então, às vezes, nem dá para a gente julgar essas pessoas,
porque eu acho que isso é reflexo.
Mas é
convidar. Se na sua cidade, tiver um acampamento, um assentamento, vá e veja
como as famílias se organizam, como o povo sem terra é tão trabalhador, o tanto
que a gente produz, inclusive sem veneno, para não agredir a natureza, para não
agredir os nossos recursos, bens naturais e ter acesso ao alimento de
qualidade.
Esses
dias com outro jornalista e dei o exemplo da minha vizinha. O filho dela
levantou de manhã e disse: mãe, não tem nada para a gente merendar? Ela disse:
meu filho, tem sim. E daí ela foi no lote que a gente plantou coletivamente,
pegou umas espigas de milho, descascou, botou na panela para cozinhar. Quando
estava pronto, ela chamou ele e disse, olha aí, meu filho, mamãe disse que tem.
Também é uma questão da soberania alimentar.
Lutar
pela terra é constitucional, a gente não está fazendo nada fora da lei, porque
são terras improdutivas, são terras que não têm sido utilizadas e que está na
mão da pessoa só por conta de controle, do domínio. Então a gente luta contra
tudo isso que é de direito.
• Quais as expectativas do movimento para
as eleições?
O MST
tem feito um debate para avançar nessa questão. Durante um tempo, a gente não
tinha os próprios candidatos, e aí o movimento foi fazendo uma reflexão de que
era preciso avançar nessa frente de atuação.
Colocar
os nossos para falar de nós, para nos defender, se não outra pessoa não vai
falar. A gente tá nessa empreitada, analisando o cenário político pra ver essa
questão, quem a gente vai apoiar para [o] governo.
A
questão da retomada do governo Lula, ainda que a gente tenha críticas, mas a
gente sabe do compromisso, das dificuldades que teve no governo devido a essa
questão da bancada do agro na Câmara dos Deputados, a bancada que a gente chama
de BBB – Boi, Bala e Bíblia.
A gente
tem as críticas, mas tem o sentimento pró governo. E aí estamos nessa questão
de defender o nome do governo Lula. A gente tem refletido para ver como vai se
ajustando.
Fonte:
Por José Cícero, em Agência Pública

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