sexta-feira, 8 de maio de 2026

Paulo Kliass: Juros e eleições - o alerta laranja está aceso

O presidente Lula tem diante de si uma tarefa hercúlea: reverter a elevada desaprovação de seu desempenho à frente do Palácio do Planalto. Tanto ele como seu governo têm enfrentado grandes dificuldades quando a população se manifesta a respeito de sua opinião em relação ao Executivo federal. Esta informação é bastante relevante quando vem acompanhada pelos resultados de outro tipo de sondagem — as pesquisas de intenções de voto no pleito de outubro próximo.

Os especialistas em processos eleitorais costumam afirmar que uma taxa de aprovação próxima a 45% e de desaprovação em torno de 50% para os chamados “incumbentes” (chefes do Executivo que pleiteiam a sua recondução ao cargo pelo voto popular) representa um cenário de alto risco para a própria reeleição. Ora, para superar o quadro atual a menos de cinco meses do primeiro turno em 4 de outubro, tudo indica que Lula precisa dar um verdadeiro cavalo de pau naquilo que vem impedindo a adoção de políticas públicas voltadas à maioria da população. Trata-se de recorrer à situação de emergência que atravessa a grande maioria da população endividada e encontrar as brechas necessárias para passar ao largo das amarras austericidas impostas pelo Arcabouço Fiscal, elaborado pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad.

Os atuais (ir)responsáveis pela área econômica do governo sempre apresentaram — e continuam a fazê-lo — as desculpas esfarrapadas do “não temos recursos”. Ocorre que isso se trata de uma grande falácia, uma vez que os recursos públicos existem em abundância. O problema é que eles estão sendo utilizados para realização de despesas de outra natureza. Em vez de promover reajuste nos valores do Bolsa Família ou do salário mínimo, o governo amplia os gastos com despesas financeiras. Em vez de recompor estoques reguladores de alimentos para evitar a inflação de alimentos, o governo multiplica as despesas com pagamento de juros da dívida pública. Em vez de lançar um amplo programa para enfrentar de fato os níveis alarmantes do endividamento da população de baixa renda, o governo faz cara de paisagem e segue com o programa “bolsa banqueiro” que já atinge valores trilionários.

<><> Juros, mais juros e ainda mais juros

Segundo as informações constantes na mais recente edição do Boletim de Política Fiscal do Banco Central (BC), as despesas direcionadas aos detentores de títulos da dívida pública continuam a crescer de forma preocupante e astronômica. Ao longo do mês de março recente, por exemplo, foram gastos R$ 119 bilhões na rubrica “juros da dívida pública”. Esse total representou uma despesa de R$ 5,4 milhões por cada dia útil do mês. Uma loucura! Para confirmar que estamos diante de uma tendência de explosão dos valores dessa conta, o total gasto com juros em março do ano passado foi de R$ 75 bi. Ou seja, o aumento foi de 58% na comparação anual.

Além disso, é importante registrar que se trata do segundo maior montante mensal da variável, uma vez que o recorde até o momento ocorreu durante o mês de dezembro do ano passado, quando o total atingido foi R$ 122 bi. Esse tipo de gasto orçamentário é, com toda a certeza, o mais regressivo de todos. Trata-se de direcionamento de recursos públicos para os setores do topo de nossa pirâmide da desigualdade e que não recolhem nenhum tributo por essa renda parasitária que o Tesouro Nacional lhes oferece de forma benévola e generosa.

Caso seja considerado o volume despendido com essa rubrica ao longo do primeiro trimestre deste ano, estamos também diante de novo recorde. Entre janeiro e março, o governo federal encaminhou o equivalente a R$ 267 bi aos privilegiados detentores de títulos da dívida pública federal. Esse valor representa um crescimento de 38% em relação ao montante gasto no primeiro trimestre de 2025, quando os juros alcançaram o total de R$ 194 bi.

<><> Despesa com juros supera R$ 1 trilhão

Em termos anuais, já faz algum tempo que o Brasil ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão como valor pago a título de juros da dívida pública. Em 2025, foram exatamente R$ 1,008 bi que o Tesouro Nacional contabilizou como remuneração dos papéis que compõem o endividamento público do país. Caso sejam considerados os últimos 12 meses, esse montante continuou crescendo durante o atual exercício.

Um dos principais riscos derivados deste tipo de política de austeridade fiscal combinada com arrocho monetário refere-se à normalização e naturalização de tal profunda distorção de política econômica. Há décadas, nosso país se mantém entre os primeiros colocados no ranking internacional das maiores taxas reais de juros. Apesar da recente — cosmética e quase irrelevante — redução na taxa referencial decidida pelo Copom, a posição do Brasil se manteve inalterada. Mesmo a Selic tendo sido diminuída de 15% para 14,75% em fevereiro e agora para 14,5%, seguimos na segunda posição no globo, apenas atrás da Rússia, com nossa taxa real de 9,37%. O cálculo pressupõe subtrair da taxa nominal a inflação do período, para obtermos uma estimativa da rentabilidade real mínima que pode ser auferida no espaço financeiro brasileiro. Ora, com tamanha rentabilidade na esfera parasitária desse tipo de aplicação na esfera do financeiro, não existe alternativa para a alocação no setor real, na economia concreta. Não é por outra razão que Karl Marx chamava esse fenômeno de “capital fictício”.

Lula havia prometido, durante a campanha eleitoral de 2022, realizar mais e melhor do que nos dois primeiros mandatos. Além disso, prometeu desenvolver o Brasil 40 anos em 4. Claramente não conseguiu realizar tais objetivos. E uma das principais razões para tanto reside na combinação perversa de austeridade fiscal e política monetária com SELIC nas alturas. Com isso, seu governo segue privilegiando a conta orçamentária que oferece o maior déficit dentre todas as existentes: os juros da dívida. E, também neste quesito, Lula segue mantendo sua máxima de “nunca antes na História deste País”. Infelizmente, ao longo dos primeiros 39 meses deste seu terceiro mandato, o governo destinou R$ 2,8 tri para o pagamento de juros. Um valor que representa quase o triplo do que havia também acontecido entre 2003 e 2010.

<><> Por um REFIS para os pobres!

A aproximação do pleito de outubro deveria JÁ TER acendido a luz laranja no comando do Planalto. A situação está complexa e o governo precisa oferecer à maioria da população ações concretas que evidenciem suas prioridades na utilização dos recursos públicos. É fundamental que sejam implementadas medidas na dimensão direta do atendimento das necessidades da população mais pobre. O recém-anunciado programa “Desenrola 2” é claramente insuficiente. O governo precisa oferecer ao chamado “andar de baixo” o mesmo tipo de tratamento que destina aos endinheirados. Trata-se de apresentar um REFIS para os pobres e trabalhadores, com utilização de recursos do Orçamento e do Tesouro Nacional para cumprir com tais funções.

Se o governo gasta um trilhão por ano com os milionários, nada mais justo que destinar um montante similar para as necessidades urgentes da maioria da população. Juros elevados não rimam bem com eleições. Lula precisa acordar para a urgência da situação. Caso contrário, o Brasil corre sério risco de um grave retrocesso político, com o retorno da extrema direita ao governo na pessoa do Bolsonarinho.

•        Tarifa Zero, um novo Bolsa Família?

Um estudo inédito desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revela que a Tarifa Zero (TZ) no transporte público coletivo possui um potencial de distribuição de renda comparável aos maiores programas sociais da história do país. Segundo o texto “A Tarifa Zero no transporte público como política de distribuição de renda”, a implementação da gratuidade nas 27 capitais brasileiras e seus respectivos sistemas metropolitanos movimentaria um montante bruto de R$ 60,3 bilhões anuais.

O documento, que é o terceiro material produzido pela pesquisa “Tarifa Zero e suas possibilidades de expansão no Brasil”, coordenada pelo Prof. Dr. Thiago Trindade (IPOL/UnB), argumenta que o fim da cobrança de passagens não é apenas uma questão de mobilidade urbana, mas uma estratégia de dinamização da economia, justiça social e combate às desigualdades raciais. A pesquisa é financiada pela Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero no Congresso Nacional, e também conta com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

<><> Impacto na economia, distribuição de renda e combate às desigualdades raciais

O recorte territorial pesquisado são as 27 capitais de Unidades da Federação (UFs) no Brasil e seus respectivos sistemas metropolitanos de transportes de ônibus e trilhos. Para chegar aos números, os pesquisadores utilizaram uma metodologia que cruza dados da Pesquisa Nacional de Mobilidade (PEMOB 2024), IBGE e indicadores das operadoras de ônibus e sistemas metroferroviários (como Metrô-DF, Metrorio e Metrofor).

O estudo explica de forma didática o “caminho do dinheiro”:

1.       Potencial bruto, equivalente a R$ 60,3 bilhões: É o valor total que deixaria de ser retido pelas catracas anualmente considerando todos os usuários.

2.       Fator de redução médio, equivalente a R$ 14,7 bilhões: O estudo aplicou um redutor médio de 24,38% para descontar as isenções e gratuidades que já existem hoje (como idosos, estudantes e PCDs). A aplicação deste fator foi necessária tendo em vista que, do total R$ 60,3 bilhões, uma parte (R$ 14,7 bi) já circula na economia.

3.       Injeção real, equivalente R$ 45,6 bilhões: Este é o “dinheiro novo” que passaria a circular na economia nacional. É o montante que hoje sai diretamente do salário do trabalhador pagante e que, com a Tarifa Zero, passaria a ser gasto em supermercados, farmácias e serviços locais.

“Estamos falando de uma injeção de liquidez imediata no bolso das famílias brasileiras. Ao converter o gasto compulsório com passagens em renda disponível, o Estado promove um estímulo econômico que volta para a sociedade na forma de consumo e arrecadação de impostos sobre produtos”, explica Thiago Trindade, coordenador da pesquisa e do Observatório das Metrópoles em Brasília.

Para Daniel Caribé (UnB), “à semelhança do impacto estrutural provocado pelo PBF no início do século XXI, a implementação da Tarifa Zero possui o potencial de inaugurar um novo ciclo de combate às desigualdades e à pobreza no Brasil”. Segundo Juciano Rodrigues, pesquisador vinculado à UFRJ, “a importância da TZ enquanto política de distribuição de renda é ainda maior quando se considerada o peso dos aumentos das tarifas de transporte público no bolso dos cidadãos, que muitas vezes se dão acima da inflação, e que afeta de maneiras desproporcional a população negra e periférica”.

No entendimento de Paulo Henrique Santarém (UnB), “os achados do nosso estudo apenas comprovam o caráter racista do sistema de mobilidade urbana, que funciona como um verdadeiro mecanismo de controle social da população negra, no sentido de dificultar ou até mesmo impedir sua circulação pela cidade”.

Para se ter uma ideia mais aproximada do impacto distributivo de uma política nacional de TZ, os pesquisadores elaboraram um gráfico comparativo com o Programa Bolsa Família e com a estimativa de injeção de dinheiro na economia por conta da política de isenção fiscal do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil por mês – ver Figura 2 em anexo. Os números mais detalhados, do quanto de dinheiro seria liberado nas cidades pesquisadas.

Segundo Gustavo Serafim (UnB), “na realidade, o impacto distributivo da Tarifa Zero tende a ser ainda maior, uma vez que aqui consideramos apenas as capitais e seus sistemas metropolitanos de ônibus e trilhos. Não estão inclusos as outras milhares de cidades que dispõe de sistemas de transporte coletivo, inclusive os aquaviários”.

<><> O novo Bolsa Família?

Um dos pontos mais importantes da conclusão do texto é a comparação histórica com o início do século XXI. Os pesquisadores defendem que, no atual cenário de crise de custo de vida e segregação urbana, a Tarifa Zero pode ter um papel tão relevante para o Brasil quanto o Programa Bolsa Família teve há duas décadas.

Diferente de um subsídio direto em dinheiro, a TZ funciona como um “salário indireto”. O estudo ressalta que o impacto é progressivo: quanto menor a renda da família, maior é o peso do transporte no orçamento. Assim, a gratuidade beneficia proporcionalmente mais as camadas vulneráveis, a população negra e os moradores de periferias, que são quem mais sofre com os “tarifaços” que, em 2026, chegaram a superar a inflação em cidades como Fortaleza (20% de aumento) e Belo Horizonte (9%).

<><> Recomendações e financiamento

O estudo recomenda que a TZ seja tratada como um direito social, nos moldes do SUS ou da Educação Pública. “A implementação da Tarifa Zero em escala nacional reforçaria o protagonismo do Brasil na vanguarda das experiências globais de redução de desigualdades e aprofundamento democrático”, conclui o relatório.

As possibilidades para o financiamento de uma política nacional de Tarifa Zero foram debatidas mais a fundo no primeiro estudo produzido pela pesquisa, intitulado “Caminhos para a Tarifa Zero: Estimativas de custos, formas de financiamentos e implementação no Brasil” e publicado em novembro de 2025, que pode ser acessado pelo link https://tarifazero.unb.br/pesquisas/ .

 

Fonte: Outras Palavras/Instituto de Ciência Política da UnB

 

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