sexta-feira, 8 de maio de 2026

Corrupção, inflação e economia em queda desafiam Milei na Argentina

O governo do ultraliberal Javier Milei enfrenta o pior momento à frente da Argentina em meio a escândalos de corrupção, queda nos índices de popularidade e na atividade econômica e industrial.

A inflação, até então principal vitrine política da Casa Rosada, voltou a acelerar. Após reduzir a inflação mensal de dois dígitos, no final de 2023, para cerca de 2% ao mês ao longo de 2025, os índices de preços voltaram a subir entre o final do ano passado e o início de 2026, chegando a 3,4% em março deste ano. A aceleração recente fez Milei reconhecer dificuldades econômicas publicamente. “O dado é ruim”, disse em uma rede social.

Ao mesmo tempo, a atividade econômica na Argentina apresentou uma retração de 2,6% em fevereiro, se comparado a janeiro, com uma queda acumulada de 2,1% nos últimos 12 meses. Talvez a situação mais preocupante seja a queda na produção industrial, que registrou baixa de 4% em fevereiro, acumulando uma queda de 8,7% nos últimos 12 meses.

O professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Paulo Gala comentou que o plano econômico de Milei é “simplista” e não tem dado conta de reverter completamente a situação econômica que herdou. “As pessoas não confiam mais no peso [moeda argentina]. Elas dolarizam [cotam em dólar] os contratos, um pouco parecido com o que aconteceu com o Brasil antes do Plano Real. Com isso, com qualquer coisa a inflação volta a acelerar. Reduzir o tamanho do Estado não resolve nada”, disse.

O governo de Milei prega a redução do tamanho do Estado, com corte de gastos e austeridade fiscal, como medidas para conter a inflação e recuperar a economia. O economista Gala avalia que o plano de Milei não deve ir muito longe, argumentando que seriam necessárias outras medidas, como instituir uma nova moeda. Ele destacou ainda que o peso argentino está sobrevalorizado, o que tem, segundo ele, destruído a indústria do país.

“Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim. Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco que restou de indústria na Argentina”, completou. Para o especialista, a tendência é a Argentina se desindustrializar cada vez mais, focando a economia apenas no setor agroexportador de matérias-primas. “Não está descartado um cenário de recessão e, possivelmente, nova crise cambial com enorme dívida em dólares”, analisa Paulo Gala.

A Argentina tem contraído novos empréstimos com bancos internacionais, em dólares, para segurar o valor do peso.

Além da situação econômica difícil, recentes casos de corrupção têm contribuído para a queda nos índices de popularidade do governo. Um dos exemplos é a investigação sobre suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete de Milei, Manuel Adorni, que tem tido que se explicar sobre viagens de luxo e compra e reforma de imóveis supostamente incompatíveis com sua renda. As pesquisas de opinião têm registrado índices de desaprovação superiores a 60%, marcando os piores números desde que assumiu a Casa Rosada, em dezembro de 2023. A pesquisa da Atlas Intel do final de abril indicou uma reprovação de 63% da figura do Milei, com uma aprovação de 35%.

A corrupção e o desempenho econômico são os fatores determinantes para a queda na popularidade. Segundo a consultoria Zentrix, 66,6% da população avaliam que se “quebrou” a promessa “anti-casta” de combate à corrupção de Milei. “A corrupção surge como o principal desafio do país, mesmo entre aqueles que votaram no partido governante em 2025, superando o desemprego, a inflação ou os salários”, diz a empresa de pesquisas de opinião.

O cientista político argentino Leandro Gabiati explicou que Milei foi eleito muito em cima do discurso de combate à corrupção, o que tem sido desconstruído ao longo do mandato. “Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas”, explicou.

Ao mesmo tempo, Gabiati diz que a população reconhece a conquista do governo de reduzir a inflação, porém, pondera que os preços continuam subindo. “Obviamente, essa inflação, que dá uns 30% a 40% ao ano, é uma inflação importante. Reduzir demandaria mais esforço, tanto da sociedade, quanto do governo”, diz o especialista. Contudo, o que tem jogado a favor do governo Milei é a desorganização e a desaprovação da população em relação à oposição ao governo da Argentina. “Isso aí quer dizer que o governo terá problemas na eleição presidencial de 2027? Isso é algo que ainda está muito longe no radar. O governo tem alguns problemas que terá que resolver agora, mas a oposição ainda permanece desorganizada e sem ser uma opção política clara para o eleitor argentino”, avalia.

Em uma notícia positiva para o governo, a consultoria de riscos Fitch Rating elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B-, com perspectiva de estabilidade, ao reconhecer as melhorias na “situação fiscal” e na balança externa do país. Em consequência, a bolsa de Buenos Aires opera em alta nesta quarta-feira (6). Porém, para o economista Paulo Gala, isso não muda o quadro geral da economia argentina.

Em meio a esse contexto, o governo Milei tem escolhido a imprensa como um dos seus alvos. No final de abril, o governo proibiu a entrada de jornalistas na Casa Rosada, prejudicando cerca de 60 profissionais que cobriam o Poder Executivo, em Buenos Aires. Algumas emissoras foram acusadas de filmarem áreas do edifício sem autorização, o que foi negado pelas empresas de mídia. Após críticas contra a medida, apontada como uma violação à liberdade de imprensa na Argentina, o governo reabriu a Casa Rosada para imprensa nesta segunda-feira (3), mantendo ainda restrições à circulação na sede do poder do país vizinho.

¨      O cerco à Bacia do Prata: como os EUA usam o crime organizado para militarizar o Cone Sul

A Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina consolidou-se como uma das principais rotas de cocaína do hemisfério sul rumo à Europa. O corredor também concentra tráfico de armas, mineração ilegal e tráfico humano, ampliando a vulnerabilidade estratégica brasileira e elevando a sensibilidade geopolítica da região.

O avanço do crime organizado acompanha a expansão logística da Hidrovia Paraguai-Paraná, um dos principais corredores de escoamento de mercadorias da América do Sul. A via fluvial de 3.442 km conecta Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai, formando uma rede logística de grande relevância econômica e estratégica.

Essa hidrovia é uma das maiores vias navegáveis do continente e, em 2025, a movimentação de cargas quase triplicou, com forte crescimento no transporte de minério, combustíveis e grãos. O aumento do fluxo lícito, porém, ampliou a dificuldade de fiscalização e elevou o risco de infiltração de cargas ilícitas. Para se ter uma ideia, mais de um terço de todas as apreensões de drogas no Brasil em 2024 ocorreram no Paraná, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O valor estratégico da região cresce ainda mais com novos projetos logísticos e tecnológicos. Testes relacionados a lançamentos espaciais próximos à Hidrovia do Paraguai ampliam o interesse estratégico sobre o território e sobre a infraestrutura logística regional, reforçando o caráter sensível da área.

Toda essa rede está inserida na Bacia do Prata, sistema hidrográfico que conecta cinco países e foi formalizado pelo Tratado da Bacia do Prata, assinado em 1969. O acordo prevê cooperação econômica, mas também evidencia o potencial estratégico e militar da região, especialmente em um cenário de crescente disputa geopolítica.

A Navegação Interior Sul-Americana conecta áreas produtivas ao Atlântico por rotas fluviais estratégicas. Essa infraestrutura logística é considerada essencial para commodities, mas também pode favorecer a mobilidade militar e intensificar disputas por controle territorial e logístico.

Nesse contexto, Brasil e Bolívia assinaram, em março de 2026, um acordo contra o crime organizado, após pressões de Washington para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, ampliando a cooperação de segurança regional.

Paralelamente, o Brasil prepara a concessão da Hidrovia do Paraguai à iniciativa privada. O leilão prevê dragagem, sinalização e controle operacional de um dos principais corredores logísticos do país, levantando alertas sobre soberania e controle estratégico.

No Paraguai, um acordo aprovado em março de 2026 permite a presença de tropas estadunidenses com autorização para treinamento e cooperação logística, ampliando a presença militar estrangeira em área próxima à Tríplice Fronteira.

Na Argentina, Javier Milei autorizou, em abril de 2026, a entrada de tropas estadunidenses para exercícios militares e operações navais. As atividades ocorrerão em bases estratégicas próximas à Bacia do Prata e rotas logísticas regionais.

No Uruguai, acontece sutilmente a ascensão de grupos políticos alinhados à direita regional, o que pode ampliar a convergência política com Washington. Esse movimento fortalece a reorganização geopolítica no Cone Sul e amplia a coordenação de segurança regional.

Esse conjunto de movimentos — tropas na Argentina, acordo no Paraguai e concessão logística no Brasil — forma um arco estratégico em torno da Bacia do Prata, região vital para logística, comércio e segurança nacional brasileira.

Ao mesmo tempo, Washington sinalizou ofensiva contra o PCC e o Comando Vermelho. A classificação como grupos terroristas poderia justificar ações extraterritoriais e ampliar a presença militar estrangeira na região.

A convergência entre crescimento logístico, presença militar estrangeira e disputa por rotas estratégicas transforma a Tríplice Fronteira em área sensível para a soberania brasileira, elevando alertas de segurança nacional.

A movimentação militar e logística na Bacia do Prata revela uma disputa silenciosa pelo controle de rotas fluviais e cadeias de suprimento. A presença crescente dos Estados Unidos sugere interesses estratégicos além do combate ao crime organizado.

Trata-se de uma reorganização geopolítica que coloca a soberania do Brasil sob pressão direta e indica onde a próxima ação militar estadunidense na América Latina pode ocorrer. Estejamos atentos.

¨      “Não somos colônia”: Sheinbaum rechaça ingerência de Washington e defende autonomia mexicana

 A presidente Claudia Sheinbaum descreveu hoje este momento como um período de defesa da soberania e de garantia ao povo mexicano de honestidade, princípios e construção da paz.

“É hora de defender a soberania e também de garantir ao povo do México honestidade, princípios e a construção da paz”, disse a chefe do Executivo durante sua habitual coletiva de imprensa.

As declarações surgem num contexto marcado pelos pedidos dos Estados Unidos de prisão preventiva para fins de extradição contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha, e outros nove funcionários e ex-funcionários públicos por supostos vínculos com o crime organizado.

Na sexta-feira, a Procuradoria-Geral da República (FGR) concluiu que não há provas da “urgência da prisão preventiva” solicitada pelo país do norte.

“Essa será a resposta do Ministério das Relações Exteriores: ‘provas’. Neste caso, provas que justifiquem tanta urgência”, esclareceu o presidente, destacando também a violação de sigilo por parte do país vizinho, que tornou as acusações públicas.

Em relação ao relacionamento com Washington, o presidente reafirmou um vínculo baseado na coordenação sem subordinação e rejeitou qualquer interferência.
“E para explicar a todas as autoridades do governo dos Estados Unidos que não somos um protetorado dos Estados Unidos, que não somos uma colônia dos Estados Unidos, que somos um país livre e soberano e que nos entendemos como iguais”, enfatizou Sheinbaum.

Ele mencionou o lançamento de uma campanha promovida por alguns meios de comunicação e pela direita contra o movimento que lidera, na sequência de pedidos dos Estados Unidos.

“Eu sempre disse isso: não protegemos ninguém. Nosso movimento chegou ao poder com um lema muito claro: acabar com o regime de corrupção e privilégios”, declarou o presidente.

Ele mencionou que, se não tivessem acabado com a corrupção do passado, este país não teria orçamento para programas sociais, e atribuiu o aumento da receita em 2025 em 390 bilhões de pesos (22,25 bilhões de dólares) em comparação com 2024, sem aumento de impostos, à honestidade.

“Ah, se houver uma pessoa – independentemente do partido político – que se mostre ligada à corrupção ou a algum grupo do crime organizado, o Ministério Público dará prosseguimento ao caso”, esclareceu o presidente.

Ele enfatizou que o Governo também agiu solicitando à Procuradoria-Geral que revisasse a existência de uma violação das leis no caso de dois agentes americanos que participaram de uma operação estatal em Chihuahua, a qual veio à tona após um acidente no qual eles morreram.

Além disso, Sheinbaum afirmou que, após o pedido de licença de Rocha, instruiu o Gabinete de Segurança a viajar para Sinaloa para explicar o processo de coordenação à governadora interina, Yeraldine Bonilla, e para continuar trabalhando pela tranquilidade dos cidadãos.

 

Fonte: Agencia Brasil/Diálogos do Sul Global/Prensa Latina

 

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