Exploração
de terras raras no RS: projeto põe recursos naturais em risco e viabiliza
catástrofes
Os
impactos ambientais causados pela degradação da natureza é um fato que tem sido
discutido nos âmbitos governamentais, mas pouco tem se levado a sério na
prática. O capital sente a necessidade de explorar incansavelmente para
continuar a prosperar, enquanto nossa terra se fragmenta em ruínas que a
própria sociedade a mantém.
É nesse
sentido de exploração predatória que avança o Brasil sobre a extração de
elementos terras raras, algo que está sendo discutido para ser implementado
inclusive no Rio Grande do Sul. Cidades como Caçapava do Sul estão sendo alvos
desse projeto, algo que ameaça os belíssimos cânions e o turismo ecológico da
região. Vale lembrar que esses recursos são explorados por empresas
internacionais multimilionárias que levam nossos minérios para fora do país,
após degradarem um ecossistema inteiro.
Para
Joel Henrique Ellwanger, biólogo e pesquisador, a “mineração de terras raras
apresenta potencial poluidor significativo. Além dos rejeitos de mineração, que
podem conter metais tóxicos e elementos radioativos, os produtos utilizados no
processamento desses materiais também são altamente tóxicos”, conta em
entrevista especial concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
A
contaminação do solo gera consequências à população que vive nesses locais de
mineração, onde seus rios são contaminados, e seu corpo sofre as consequências
por necessitar beber e se banhar nessa água contaminada.
“Todas
as pessoas e animais que habitam áreas próximas à mineração são afetados
diretamente pelo empobrecimento dos ecossistemas decorrente das atividades
minerárias, pela potencial escassez de água e pelos riscos associados à
poluição causada pelo uso de produtos químicos nos processos de extração, bem
como pelos rejeitos gerados”, conclui Joel.
Joel
Henrique Ellwanger é biólogo, doutor em ciências e pesquisador em nível de
pós-doutorado do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS).
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Confira a entrevista.
• O senhor tem chamado a atenção para a
complexidade da extração de elementos terras raras e enfatizado os impactos
socioambientais da exploração no RS, como aumento da poluição – comparando a
extração mineral com a queima e extração de carvão em Candiota –, além de perda
de patrimônio geológico. Pode explicar como funciona esse processo e quais as
dificuldades envolvidas?
Joel
Henrique Ellwanger – Atualmente, sabe-se que os elementos terras raras não são
necessariamente raros na crosta terrestre, mas raramente ocorrem em
concentrações economicamente exploráveis. O problema relacionado à mineração de
terras raras é a extração e a separação desses elementos, pois vários deles são
comumente encontrados misturados em solos e rochas. Esses processos de extração
e separação são extremamente complexos, além de utilizarem muita energia, água
e produtos químicos tóxicos. Esse conjunto de fatores torna a mineração de
terras raras um desafio do ponto de vista técnico e ambiental.
• Quais as consequências da exploração de
terras raras em meio ao aquecimento global?
Joel
Henrique Ellwanger – A mineração de terras raras tem o potencial de ampliar a
perda da cobertura vegetal nas áreas mineradas, além de aumentar a poluição por
metais tóxicos e elementos químicos radioativos que são encontrados associados
às terras raras. A perda de vegetação agrava as mudanças climáticas em
decorrência da redução da captura de CO2 anteriormente realizada pela
vegetação. Além disso, as mudanças climáticas, por meio de eventos extremos
como enchentes, podem aumentar a disseminação de poluentes derivados da
mineração. Ou seja, a mineração pode agravar as mudanças climáticas, enquanto
os efeitos da poluição tendem a se intensificar à medida que eventos climáticos
extremos se tornam mais frequentes. Trata-se de um círculo vicioso de problemas
ambientais graves.
• Quem são as empresas, nacionais e
estrangeiras, interessadas na exploração de terras raras no Rio Grande do Sul?
Joel
Henrique Ellwanger – No Rio Grande do Sul, a mineração de terras raras ainda
está em fase de exploração e pesquisa, sem projetos concretos de extração em
operação. Isso significa que estamos diante de uma janela de oportunidades para
discutir os rumos da exploração desses recursos no estado. É fundamental que a
sociedade gaúcha seja protagonista dessa discussão, antes que interesses e
atores externos ocupem esse espaço. Além disso, é necessário agir com rapidez.
Recentemente, a empresa Serra Verde, que atua na pesquisa, mineração e refino
de terras raras em Goiás, foi adquirida pela empresa americana USA Rare Earth,
que conta com participação relevante do governo dos Estados Unidos como
acionista. Isso demonstra com clareza que os recursos minerais brasileiros são
altamente cobiçados por empresas estrangeiras, especialmente no cenário
geopolítico atual.
• Qual é o papel do governo estadual na
proibição ou regulação desses projetos de mineração?
Joel
Henrique Ellwanger – O governo estadual deve atuar em conjunto com o governo
federal na regulação da exploração de terras raras, respeitando as
recomendações dos órgãos ambientais, os alertas da comunidade acadêmica e os
interesses das comunidades que vivem em áreas onde esses recursos se encontram.
Mas, acima de tudo, é importante questionar a real necessidade do Rio Grande do
Sul minerar terras raras neste momento em que o Brasil não tem grande demanda
industrial por essa matéria-prima. Hoje, as terras raras são uma necessidade
urgente principalmente em países que precisam desses recursos em grande
quantidade para manter funcionando a indústria militar.
Embora
as terras raras possam ser recursos importantes para o futuro do Rio Grande do
Sul e para o Brasil como um todo, interesses econômicos externos não devem se
sobrepor ao direito constitucional de todo cidadão de viver em um ambiente
saudável. Isso implica que a mineração desses elementos não deve ser
transformada em mais uma fonte de poluição em um Estado que já enfrenta graves
crises ambientais, como a contaminação por pesticidas e a degradação do bioma
Pampa, decorrente da expansão de monoculturas como soja, eucalipto e pinus.
As
terras raras do Rio Grande do Sul devem ser tratadas pelo governo estadual e
pela sociedade gaúcha como recursos finitos, relevantes para a geração atual e
para as futuras. Por essa razão, seu uso deve ocorrer com parcimônia,
priorizando a produção de bens essenciais ao bem-estar da população, evitando
desperdícios e seu aproveitamento como mera fonte de ganhos econômicos de curto
prazo, às custas do meio ambiente e das gerações que ainda não nasceram.
• Quais comunidades locais podem ser
diretamente afetadas pela mineração em áreas como Caçapava do Sul?
Joel
Henrique Ellwanger – Todas as pessoas e animais que habitam áreas próximas à
mineração são afetados diretamente pelo empobrecimento dos ecossistemas
decorrente das atividades minerárias, pela potencial escassez de água e pelos
riscos associados à poluição causada pelo uso de produtos químicos nos
processos de extração, bem como pelos rejeitos gerados. No entanto, é
fundamental considerar que poluentes como metais tóxicos podem ser facilmente
disseminados pelo ar, pela água e pelas teias alimentares, colocando em risco
também seres humanos e animais que vivem distantes das áreas mineradas.
Em
Caçapava do Sul, as comunidades que dependem do turismo têm grande potencial de
serem afetadas economicamente. O município possui uma riqueza geológica
expressiva, que atrai visitantes de diversas regiões e apresenta um forte
potencial de crescimento no turismo ecológico. Essa relevância foi reconhecida
pela UNESCO, que concedeu à região o status de geoparque global. Trata-se de um
patrimônio que deve ser valorizado e, sobretudo, protegido. Levando isso em
consideração, a implantação de novas atividades de mineração no município
mostra-se contraproducente do ponto de vista da saúde pública, do meio ambiente
e da economia.
• Quais os riscos de contaminação
envolvidos na extração de terras raras? Como a opção pela extração mineral pode
afetar a saúde pública nas regiões mineradas?
Joel
Henrique Ellwanger – Em primeiro lugar, é importante ressaltar que os elementos
terras raras são metais, assim como o ferro, o zinco e vários outros elementos
da tabela periódica. Os metais são fundamentais para a vida, compondo
estruturas celulares e participando do metabolismo de seres humanos, animais e
plantas.
Além
disso, alguns metais, incluindo os elementos terras raras, têm aplicações
importantes na vida moderna. Por exemplo, são utilizados na produção de
componentes eletrônicos, como chips de celulares, e em baterias de veículos
elétricos.
Apesar
dessas aplicações, muitos metais apresentam elevada toxicidade, especialmente
quando presentes em altas concentrações nos organismos ou no meio ambiente.
Ainda se sabe pouco sobre os potenciais efeitos tóxicos específicos dos
elementos terras raras. No entanto, um estudo que realizei com colegas na UFRGS
indicou que vários desses elementos têm a capacidade de interagir com o
material genético, o DNA, de seres humanos e animais, o que representa um
importante sinal de alerta sobre seus potenciais efeitos tóxicos. Além disso,
outros estudos já indicam que a exposição a elementos terras raras e a seus
rejeitos pode causar prejuízos relevantes à saúde humana.
Além de
interagir com o DNA, alguns elementos terras raras podem “imitar” o
comportamento de íons como o cálcio no organismo, interferindo em processos
biológicos essenciais, o que pode resultar em efeitos tóxicos. Ou seja, a
relação com os recursos minerais que contêm esses elementos, assim como com
outros metais, deve ser conduzida com cautela.
A
mineração de terras raras apresenta potencial poluidor significativo. Além dos
rejeitos de mineração, que podem conter metais tóxicos e elementos radioativos,
os produtos utilizados no processamento desses materiais também são altamente
tóxicos. Esse conjunto de poluentes está associado a uma variedade de problemas
de saúde, incluindo complicações gestacionais, déficits no desenvolvimento
infantil e doenças graves, como câncer e desordens neurodegenerativas.
O
empobrecimento ambiental causado pela mineração também está associado a
impactos na saúde mental, como a depressão. A carga de doenças relacionadas a
áreas mineradas é elevada, gerando prejuízos significativos para a qualidade de
vida da população e para aumento dos gastos públicos. Além disso, muitas vezes
não são considerados os impactos sobre espécies animais e a perda de serviços
ecossistêmicos, que também representam custos relevantes. Esses prejuízos são
frequentemente subestimados em debates sobre os potenciais benefícios
econômicos da exploração de terras raras no Rio Grande do Sul.
• O Brasil possui capacidade tecnológica
para beneficiar terras raras internamente ou continuará exportando
matéria-prima bruta? Qual é a real demanda da indústria brasileira por terras
raras e quanto dessa produção seria exportada?
Joel
Henrique Ellwanger – Atualmente, a capacidade brasileira de beneficiamento de
terras raras em escala comercial é mínima, sendo inexistente no Rio Grande do
Sul. A empresa Serra Verde, que opera em Goiás e conta com capacidade de
extrair e processar elementos terras raras em escala comercial, foi
recentemente adquirida por uma companhia americana, conforme mencionei
anteriormente.
Além
disso, o uso e, principalmente, a produção e o processamento de terras raras
pela indústria tecnológica brasileira ainda são limitados, sendo que grande
parte do refino ocorre em países como a China. Nesse contexto de limitações,
minerar terras raras no Brasil sem o desenvolvimento da capacidade nacional de
beneficiamento e de aplicação tecnológica desses recursos implica a manutenção
do país na posição de exportador de matéria-prima bruta e de baixo valor
agregado, destinada principalmente a países do Norte Global.
• Que interesses geopolíticos
internacionais estão por trás do aumento da atenção sobre as reservas
brasileiras?
Joel
Henrique Ellwanger – A China domina o cenário global de mineração e
beneficiamento de terras raras. Por essa razão, potências econômicas como os
Estados Unidos e diversos países europeus encontram-se em posição de
dependência para a obtenção desses recursos.
Esse
cenário coloca esses países em uma situação de desconforto, tanto em termos
geopolíticos quanto econômicos, especialmente no que diz respeito à dependência
de preços e condições de acesso às terras raras definidos pela China. Além
disso, esses elementos são essenciais para a indústria bélica, o que faz com
que os Estados Unidos estejam particularmente preocupados com essa dependência.
No
contexto atual, o Brasil é visto como um ator estratégico na disputa
geopolítica envolvendo terras raras, pois é entendido como um país mais
maleável aos interesses americanos do que a China. No entanto, caso o país não
se posicione de forma firme e soberana na defesa de seus recursos minerais, há
o risco de que seu território se torne progressivamente mais degradado e
poluído para atender a interesses externos, especialmente ligados ao setor
bélico.
IHU –
Se a mineração para a transição energética causa danos irreversíveis ao meio
ambiente, quais iniciativas devem ser implementadas para minimizá-las? Como o
histórico de impactos ambientais da mineração no estado influenciam o debate
atual?
Joel
Henrique Ellwanger – De fato, a mineração de terras raras desempenha um papel
relevante na transição energética e não deve ter esse potencial ignorado. No
entanto, os impactos ambientais dessa atividade também não podem ser
negligenciados.
No
Brasil, o histórico de desastres ambientais associados à mineração, como os
rompimentos de barragens de rejeitos em Mariana e em Brumadinho, ainda parece
exercer influência limitada sobre o planejamento de novos projetos de mineração
no país. No Rio Grande do Sul, fora do meio acadêmico, há pouca discussão
pública sobre os problemas de saúde associados à poluição decorrente da
mineração de carvão na região de Candiota.
É
justamente por isso que defendo que as terras raras devem ser utilizadas
prioritariamente para finalidades essenciais, como a transição energética
voltada ao bem-estar das populações, o desenvolvimento de tecnologias
estratégicas e aplicações médicas. Esses recursos não deveriam ser direcionados
a finalidades bélicas ou a usos que beneficiem exclusivamente o lucro de
grandes corporações.
As
potencialidades das terras raras precisam ser compreendidas como um patrimônio
coletivo da sociedade brasileira e, por isso, devem ser reguladas pelo Estado.
Além disso, é fundamental ampliar a recuperação de metais já em circulação, por
meio da reciclagem de baterias e de equipamentos eletrônicos. Essa prática,
conhecida como “mineração urbana”, pode contribuir para reduzir o desperdício
de recursos e a necessidade de expansão de novas áreas de mineração.
• Que riscos estão associados ao
armazenamento e descarte de rejeitos, incluindo materiais potencialmente
radioativos?
Joel
Henrique Ellwanger – Os riscos incluem principalmente a contaminação do solo e
de fontes de água, que podem afetar tanto a fauna quanto as populações humanas.
Também é importante destacar que rejeitos de mineração podem permanecer tóxicos
por longos períodos, inclusive por centenas de anos, dependendo de sua
composição. Isso significa que esses materiais exigem monitoramento contínuo ao
longo de gerações. Ou seja, os rejeitos produzidos hoje constituem um passivo
ambiental herdado pelas gerações futuras.
• Como a exploração de terras raras pode
impactar biomas sensíveis como o Pampa e a Mata Atlântica e qual a importância
da não exploração nessas localidades?
Joel
Henrique Ellwanger – O Pampa é um bioma que, no Brasil, ocorre apenas no estado
do Rio Grande do Sul e, por isso, somos diretamente responsáveis por sua
proteção. No entanto, esse bioma vem sofrendo intensa redução em cobertura
vegetal em decorrência da expansão de monoculturas e da silvicultura. Em muitas
regiões do estado, é difícil encontrar áreas de campo nativo que não tenham
sido convertidas em lavouras de soja ou em “desertos verdes”, dominados por
plantações de eucalipto, acácia-negra ou pinus. A situação da Mata Atlântica no
Rio Grande do Sul também é preocupante, uma vez que a expansão urbana tem
avançado sobre sua área original, contribuindo significativamente para a perda
de biodiversidade.
Considerando
esse cenário, expandir as atividades de mineração no estado exclusivamente por
razões econômicas implica substituir paisagens naturais, fauna e flora, e toda
a riqueza sociocultural associada a elas, por ganhos de curto prazo que
beneficiam interesses de poucos. Caso não defendamos essas riquezas, o Rio
Grande do Sul pode se tornar uma grande zona de sacrifício socioambiental,
voltada a atender interesses econômicos externos. Isso seria triste e
vergonhoso.
Fonte: Entrevista com Joel Henrique Ellwanger, para
IHU

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