O
que aprendi sobre adolescentes após conversar com 150 meninas de 13 a 17 anos
Um
cartaz feito com canetas coloridas e colado na porta de um quarto particular
anuncia: "SÓ PARA MENINAS", "Meninos não entram!" E
acrescenta, travessamente: "Não se preocupem, meninos!"
O
cartaz está repleto de corações e estrelas coloridas.
Um
grupo de cerca de 12 meninas do clube juvenil DRMZ, no País de Gales, está
mergulhado em um jogo de cartas quando me junto a elas em uma grande mesa
redonda.
A
conversa flui com facilidade enquanto nos falamos e, claro, pedimos pizza.
A
visita faz parte da minha série About the Girls, da BBC Rádio 4. Conversei com
cerca de 150 meninas, a grande maioria entre 13 e 17 anos.
Nossa
conversa em torno daquela mesa foi um exemplo de muitas daquelas reuniões.
Espertas, faladeiras, divertidas e brilhantes, as garotas foram uma companhia
magnífica e estimulante.
Elas
são cheias de ambição e planos para o futuro ("gostaria de ter uma
geladeira onde colocar uma jarra... e de ser médica!"), de amor pelas
amigas ("posso contar qualquer coisa para ela") e de uma grande
consciência sobre a importância de cuidar dos familiares ("vou para o
centro recarregar o carro elétrico da minha avó — adoro cuidar dela").
A
conversa variava entre o jogo de cartas que estava em andamento, dramas
escolares, professores de que elas gostam (ou não), coisas que haviam visto nas
redes sociais e se havia fatias de pizza de mussarela suficientes para todas. A
conclusão foi que sim, havia.
Este
projeto é uma espécie de continuação da minha outra série, About the Boys,
quando também conversei com meninos adolescentes de todo o Reino Unido.
A
pandemia de covid-19, o movimento #MeToo e todo o barulho em torno do
influenciador misógino Andrew Tate me deixaram curiosa para saber o que eles
estavam pensando.
Os
meninos também foram uma companhia excelente: reflexivos, eloquentes e
corajosos. Parecia lógico e justo repetir o experimento com as meninas.
Por
acaso, os arquivos de Epstein foram publicados justamente quando parti para
Carmarthen, a cidade no sudoeste do País de Gales onde elas estavam. E o
trabalho rapidamente ganhou senso de urgência ainda maior.
O que
eu não esperava era que, ao longo de todas as conversas, um tema aparecesse
tantas vezes: as adolescentes ainda tendem a olhar para si próprias pelo olhar
dos garotos.
O mais
importante é que parece haver uma séria compreensão a este respeito.
Minha
pergunta inicial foi "como é realmente ser uma menina em 2025/26? Digam a
verdade, esqueçam a delicadeza!" E a resposta, quase invariavelmente,
começava assim: "Bem, os meninos pensam/dizem/querem/sentem..."
Estas
conversas pareciam uma versão estranha e real do teste de Bechdel, que oferece
uma medida para avaliar a representação feminina no cinema.
Para
ser aprovado, o filme (1) precisa ter pelo menos duas mulheres identificadas,
que (2) falem entre si, sobre (3) algo que não seja um homem.
Nenhuma
das minhas entrevistas seria aprovada.
"Crescer
como uma menina", declarou uma delas, "em grande parte, tem muito a
ver com a forma como os meninos se comportam ao seu redor e o que eles estão
fazendo para você".
"Por
isso, não existe, na verdade, uma forma de falar disso sem mencionar os
meninos... e é frustrante."
Mas por
que esta dinâmica persiste?
As
meninas que conheci falaram abertamente sobre o peso das expectativas sociais
baseadas no gênero, na influência dos meninos no ambiente escolar e das versões
de "perfeição" feminina exibidas continuamente nas redes sociais.
Elas
também descreveram algo mais profundo sobre como as meninas aprendem a se
comportar enquanto tentam viver pelo mundo com segurança.
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'Não fazer barulho'
Depois
que todas as meninas de Carmarthen foram para casa, conversei com a gerente do
centro juvenil, Alison Harbor. Ela ficou encantada ao ver todas falando com
tanta liberdade.
"Os
meninos do clube se expressam bastante", segundo ela. "E contam todas
as suas opiniões e pensamentos com muita segurança."
"Mas,
hoje, as meninas se saíram igual! Minha preocupação é que, normalmente, elas
internalizam muitos dos seus problemas."
As
meninas não se retraíram, mas a ironia é que quase todas disseram que se
comportam de forma diferente quando há meninos por perto.
Elas me
contaram que não querem que os meninos as vejam como "intensas
demais", "barulhentas demais", "esquisitas",
"chatas" ou como alguém que quer chamar a atenção.
Elas
disseram que os meninos podem ser barulhentos e engraçados, mas as meninas,
não. E afirmaram que não querem "ocupar espaço" e que tentam ser
"menores e mais silenciosas" em grupos mistos.
Professoras
de meninas declararam que elas "mantêm a cabeça baixa" e "não
fazem barulho" ou "passam sem serem detectadas".
Durante
sua pesquisa, a professora de psicologia da educação Ola Demkowicz, do
Instituto de Educação de Manchester, na Inglaterra, conversou com mulheres
jovens sobre os problemas que afetam sua saúde mental.
"Sem
dúvida, ouvimos de jovens mulheres que existem pressões a este respeito, o que
realmente faz com que elas precisem ser educadas e respeitosas", explica a
professora. "E elas sentem que as expectativas de comportamento em relação
a elas são maiores", em comparação com os garotos.
"Por
isso, os meninos podem fazer barulho na aula, o que não é considerado problema.
São meninos sendo meninos. E elas sentem que o mesmo não é permitido para
elas."
Demkowicz
defende que a sociedade espera uma "adultificação", ou seja, que as
meninas se apresentem de forma mais madura.
"O
que se espera é que você deve se comportar como uma pessoa adulta, sem
necessariamente ser brincalhona ou expressar coisas em voz alta, nem mostrar
que você luta por alguma coisa."
Em
outros lugares, as meninas falaram dos seus medos e das suas experiências de
assédio e violência sexual.
A
pesquisa mais recente da organização britânica Girlguiding indicou que 68% das
meninas alteram seu comportamento cotidiano para evitar assédio sexual.
E
praticamente todas as meninas com quem conversei contaram terem recebido
comentários de cunho sexual na rua.
Hannah
Yelin, da Universidade Oxford Brookes, na Inglaterra, conta ter concluído, nas
suas pesquisas com meninas, que elas são "devastadora e brilhantemente
conscientes" de que o escrutínio que elas enfrentam, muitas vezes, é
sexualizado.
A
pesquisadora explica que as meninas reconhecem a rapidez com que seu
posicionamento é vinculado à atração que os homens podem sentir em relação a
elas. E também têm consciência de que isso pode colocar sua segurança em risco.
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O ambiente escolar
A
maioria das minhas 150 entrevistas foi realizada em escolas e os dados sobre o
aumento do comportamento misógino não surpreenderam as meninas.
Um
sindicato dos professores alertou recentemente que vem "crescendo uma
crise de masculinidade" nas escolas do Reino Unido. Quase 25% das
professoras pesquisadas afirmaram terem sido objeto de abusos misóginos por
algum aluno no último ano.
As
meninas contaram que, às vezes, os meninos as menosprezam, dizendo "faz um
sanduíche para mim" ou "volte para a cozinha".
Elas
observavam claramente a raiz do problema e, ao mesmo tempo, sentiam medo.
"Sinto
que o medo vem de observar a internet", explicou uma aluna do ensino
médio, "e ver que a razão que leva os meninos a atacarem muito as meninas
é porque eles querem culpar alguém pelos seus problemas".
"Acho
que a saúde mental dos homens é um problema, mas, com a internet, sinto que a
principal solução para eles é simplesmente culpar uma mulher."
Por
isso, ao mesmo tempo em que se preocupam com seus colegas de classe que
"reprimem as coisas", as meninas também sentem medo da forma com que
alguns meninos e homens podem agir, imitando os comportamentos da machosfera.
Para
Yelin, "sua compreensão da misoginia e da cultura do estupro é muito
sofisticada e devastadora, pois elas vivenciam isso todo o tempo, todos os
dias".
As
mesmas meninas declararam que desejam proteger aquelas mais jovens que publicam
na internet que "querem uma relação tóxica com um menino", dizendo a
elas "que vigiem seu comportamento ou mudem de atitude".
Elas
conseguiam observar como as meninas interpretam uma estranha espécie de papel
feminino para agradar os meninos que, por sua vez, interpretam uma versão
desvirtuada da masculinidade.
A
solução que elas encontraram foi se organizarem.
Em uma
escola que visitei em Rochdale, na Inglaterra, elas estavam criando um clube de
meninas para discutir de tudo: da desigualdade de gênero, violência doméstica e
vergonha do próprio corpo até a menstruação, sexualidade e os grupos de
amizade.
Mas os
líderes da fundação responsável por uma escola com sede em Birmingham
levantaram mais uma preocupação: as meninas da escola podem ficar
inquietantemente caladas na classe — isso, quando chegam a ir à escola.
O
absenteísmo crônico (faltar a 50% das aulas ou mais) é um fenômeno crescente.
Em
2017/18, apenas 6% das meninas atingidas pelo absenteísmo ficavam gravemente
ausentes. E, em 2024/25, o percentual mais que dobrou, atingindo 13%.
Os
índices de ausência são mais altos para grupos específicos de alunos, como os
que têm direito à merenda escolar gratuita.
Problemas
de saúde mental, como ansiedade, foram a preocupação mais comum apresentada
pelos pais de meninas para uma linha telefônica de apoio gerenciada pela
organização beneficente Young Minds.
E
existem também as responsabilidades de cuidados. Soube de meninas muito jovens,
do sexto ano, que precisam cuidar de irmãos menores. E, por isso, elas faltam
às aulas.
Em uma
cidade, conversei com uma adolescente que havia passado um ano fora da escola,
"ajudando a mamãe" com o bebê menor.
Tom
Campbell dirige o ACT Academy Trust, que administra 38 escolas na Inglaterra e
no País de Gales. Ele conta que "a queda [para as meninas] é real. E os
dados claramente são alarmantes".
Além
disso, o nível de aprovações nas provas de inglês e matemática caiu em 7%.
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Progresso 'interrompido'
Mas
todas as meninas que conheci tinham sonhos para o futuro, desde ser
microbióloga até seguir carreira de atriz ou jogar pela seleção feminina de
futebol da Inglaterra.
Fiquei
muito impressionada com a consciência de todas elas sobre suas opções e como
elas se comparam com as possibilidades disponíveis para as gerações anteriores.
"Sou
muito agradecida pelas oportunidades que nós, meninas, temos hoje em
dia!", disse uma alegre adolescente de 15 anos.
De
fato, em quase todos os lugares que visitei, as meninas que conheci falaram
(sem que eu perguntasse) sobre o seu lugar na história: como as mulheres
conseguiram tão recentemente o direito de votar, de trabalhar e de serem
independentes.
Elas
também descreveram seu entendimento sobre os desafios enfrentados pelas suas
mães, irmãs, tias, madrinhas e avós e como elas ainda encontram algumas dessas
dificuldades. Afinal, mesmo quando as leis mudam, os comportamentos não se
alinham necessariamente com elas.
As
meninas descreveram por que elas acreditam que o progresso das mulheres,
"que chegou até certo ponto", está sendo "freado" ou
revertido, em alguns aspectos, pelas redes sociais e pelas opiniões
impulsionadas por elas.
Elas
mencionaram a reversão do caso Roe vs. Wade em meio às discussões sobre o
aborto nos Estados Unidos, o movimento de ideias antiwoke, a divulgação de
conteúdo sobre a "esposa tradicional" na internet e a postura de Elon
Musk, a favor do aumento da natalidade.
Por
outro lado, elas disseram terem observado "homens mais velhos, de mais de
20 anos", compartilhando livremente na internet suas opiniões sobre
"como deveriam ser as mulheres".
Fiquei
impressionada com a consciência delas sobre o conteúdo disponível na internet.
As
meninas observam claramente as formas pouco saudáveis em que são vendidos
estilos de vida e padrões de beleza, mesmo sentindo que ainda precisam
interpretar alguma versão daquele conteúdo.
Sua
frustração por estarem presas em meio a tudo aquilo, às vezes, era perceptível.
Elas
ficaram indignadas, por exemplo, porque suas "primas de oito anos
receberam produtos de tratamento da pele no Natal", enquanto elas próprias
tinham o rosto totalmente maquiado aos 12 anos.
Elas
sabem que alguém está vendendo produtos para elas. Mas, ao mesmo tempo, os
vídeos são de entretenimento e, muitas vezes, servem de base para suas
conversas com as amigas.
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Espaços para substituir as redes sociais
Por
fim, suas amizades se desenvolvem, em grande parte, pelas redes sociais. As
meninas disseram recear que ficar de fora das rápidas conversas na internet
possa significar sua exclusão social na escola.
Elas
falaram das dificuldades para gerenciar essas amizades híbridas "todos os
dias, todo o tempo" e de lidar com incidentes de assédio na internet por
parte de colegas, além dos comportamentos mais graves dos desconhecidos.
Uma
menina disse acreditar que, à medida que crianças cada vez mais jovens passam a
usar as redes sociais, a sua geração será a última a ter uma infância de
verdade.
Segundo
as meninas, seus pais dizem que elas estão "crescendo com o dobro da
velocidade", mas comentaram que as mais jovens estão crescendo "três
vezes mais rápido", "agindo como se estivessem no ensino médio, tendo
apenas 10 anos".
Mas a
ideia de poder agitar uma varinha de condão e fazer tudo desaparecer gerou
reações contraditórias.
As
adolescentes mais velhas estão cansadas de "romance via Snapchat" e
abaladas pelas imagens de genitais não solicitadas e interações sexuais
"pornificadas".
Elas
expressaram uma espécie de falsa nostalgia, um anseio por um encontro romântico
sem celulares, no estilo dos anos 1990.
Mas
elas também reconhecem como suas realidades na internet e fora da rede, agora,
estão intimamente relacionadas.
Meninas
de todas as idades rapidamente destacaram os benefícios de encontrar pessoas
afins que talvez vivam longe e o consolo que isso pode oferecer. Mas algumas se
aventuraram a dizer que, se as redes sociais desaparecessem em um passe de
mágica (para todos), elas seriam mais felizes.
Depois
de tantas horas de entrevistas, fico pensando nos clubes de jovens que visitei.
Seu número diminuiu consideravelmente nos anos anteriores à pandemia.
O clube
de netball (um jogo similar ao basquete) e a companhia de dança ficaram
particularmente gravados na minha memória. Eles são "terceiros
espaços", com comunidade na vida real e muita atividade.
Nestes
clubes, as meninas com quem conversei tinham algo mais, que diferenciava suas
entrevistas. Eram lugares onde elas podiam ser barulhentas e naturais, sem medo
de fazer ruído, de ocupar o espaço ou de ser objeto de julgamento dos meninos
ou de críticos na internet.
Um
relatório publicado em 2025 pela organização beneficente britânica para jovens
OnSide concluiu que 76% dos jovens passam a maior parte do seu tempo livre em
frente às telas e quase a metade (48%), dentro dos seus quartos.
Então,
me pergunto: de tanto falarmos em tentar retirar nossos adolescentes das telas,
proibindo as redes sociais (onde, agora, eles sentem que se encontram e
"comungam" entre si), será que deixamos de examinar com cuidado quais
lugares seriam melhores para substituir a internet na vida real das meninas
adolescentes?
Fonte:
Por Catherine Carr, da BBC Rádio 4

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