Para
ir além da crítica ao lulismo
Este
texto retoma um percurso iniciado em duas peças já publicadas em Outras
Palavras, na seção Estado em Disputa. Em “2026: por que não basta apenas vencer
eleições”, publicado em 18 de março, sustentei que vitórias eleitorais, por si
sós, não reorganizam a base social do país nem desfazem automaticamente a
presença material do adversário na vida cotidiana. Em “O perigo não é a
repetição de Bolsonaro, é sua adaptação”, publicado em 16 de abril, avancei um
passo: o problema já não era apenas a insuficiência da vitória institucional,
mas a capacidade ativa da direita de recalibrar linguagem, ajustar forma,
ampliar circulação e ocupar materialmente a vida social sem abandonar seu
núcleo regressivo.
Lidos
em sequência, os dois textos conduzem a uma pergunta incômoda: se a política
não se decide apenas no plano eleitoral, e se a direita vem demonstrando
capacidade crescente de ocupar a vida concreta com inteligência e persistência,
por que parte importante da esquerda brasileira continua lendo esse processo de
maneira tão insuficiente? É para responder a isso que esta peça existe. Ela não
entra ainda na demonstração histórica mais detalhada, nem na nomeação final da
configuração que pretendo criticar adiante. Sua função é outra: identificar um
vício de leitura que atravessa parte da crítica contemporânea ao lulismo e que,
a meu ver, enfraquece ao mesmo tempo a explicação da ascensão da extrema
direita e a capacidade de construir alternativa real no presente.
Esse
vício muda de linguagem, de repertório e de temperatura, mas seu núcleo
permanece reconhecível. Refiro-me à leitura segundo a qual o lulismo, por ter
conciliado demais, administrado demais e radicalizado de menos, deve ser
compreendido não apenas como experiência historicamente limitada, mas como um
dos fatores centrais da emergência posterior da extrema direita brasileira. A
moderação petista teria preservado justamente as condições que, depois,
permitiram o florescimento do bolsonarismo.
Não se
trata de absolver o petismo por reflexo. O lulismo teve, sim, limites
profundos. Operou por mediações, não rompeu com os centros efetivos do poder
econômico, conviveu com a financeirização, não desmontou o poder oligárquico e
não reconstruiu o Estado em bases pós-neoliberais. O problema não está em
reconhecer esses limites. O problema começa quando eles deixam de funcionar
como parte de uma crítica histórica situada e passam a operar como chave
explicativa dominante de um processo muito mais amplo, conflituoso e
historicamente determinado. Nesse ponto, a crítica deixa de esclarecer e começa
a embaralhar.
O
embaralhamento costuma se apresentar sob a forma da complexidade. Enumeram-se
crise econômica, Lava Jato, papel do Judiciário, guerra cultural, ação
empresarial, redes digitais, militarização difusa da vida pública, ecossistema
evangélico, reorganização internacional das direitas. Tudo isso aparece. Tudo
isso é mencionado. Mas, na hora de distribuir peso explicativo, quase tudo se
rebaixa à condição de circunstância e a moderação petista reaparece como eixo
organizador da narrativa. A complexidade fica no prólogo. A causalidade, no
fundo, se estreita.
É esse
mecanismo que proponho chamar de monocausalidade com prólogo complexo.
A
expressão é dura, mas precisa. Não estamos, nesses casos, diante de uma análise
realmente multifatorial. Estamos diante de uma causalidade afunilada que
menciona o amplo para, ao fim, recentrar o processo num único polo explicativo.
O lulismo aparece, então, não apenas como experiência contraditória com limites
históricos relevantes, mas como matriz privilegiada da derrota posterior. É aí
que o salto se torna problemático. Uma coisa é dizer que o petismo não resolveu
determinadas contradições estruturais. Outra, muito diferente, é atribuir a
esse fato a condição de motor central da extrema direita. Entre uma formulação
e outra, há um campo inteiro de mediações históricas, políticas, materiais e
internacionais. Quando esse campo é atravessado com pressa demais, o que se
produz já não é apenas crítica ao reformismo, mas uma redistribuição enviesada
das responsabilidades históricas.
A
primeira vítima desse movimento é a própria compreensão da direita brasileira.
Toda leitura que transforma o bolsonarismo em consequência quase natural da
moderação petista começa retirando dele justamente aquilo que mais precisa ser
explicado: sua capacidade própria de construção. A extrema direita brasileira
não brotou mecanicamente das insuficiências do lulismo. Ela foi produzida. Por
agentes concretos, com interesses concretos, em disputa concreta de poder.
Dependeu de investimento ideológico, apoio empresarial, guerra moral,
ecossistemas de comunicação, capilaridade religiosa, oportunismo judicial,
circulação digital e uma inteligência política específica para traduzir
ressentimento em linguagem de massa. Ao recentrar tudo na insuficiência do
reformismo, essa leitura converte a direita em efeito quase passivo de uma
falha alheia. E, ao fazer isso, subestima sua intencionalidade, sua capacidade
organizativa e sua força histórica real.
Mas há
uma segunda consequência, mais decisiva ainda, porque não afeta apenas a
reconstrução do passado. Ela incide sobre a prática do presente. Em parte da
esquerda brasileira, a crítica ao lulismo passou a ocupar o lugar que deveria
ser preenchido por outra coisa: construção de base social, enraizamento
popular, presença territorial, mediação paciente, organicidade entre
trabalhadores e força real. Quando uma corrente ou sensibilidade política não
consegue produzir expressão social equivalente à força de seu diagnóstico, a
denúncia tende a se expandir para preencher esse vazio. A crítica deixa de
operar apenas como elaboração estratégica e passa a funcionar como compensação.
É esse
segundo movimento que proponho chamar de dupla substituição.
No
plano analítico, a crítica ao petismo ocupa o lugar de uma explicação
efetivamente multifatorial da ascensão da extrema direita. No plano prático, a
denúncia da moderação ocupa o lugar da construção paciente de povo organizado,
território, presença e força social. Uma substituição alimenta a outra. A
leitura se estreita ao mesmo tempo em que a prática se empobrece. O resultado é
uma forma de radicalidade que cresce em nitidez discursiva na exata medida em
que permanece frágil em inserção concreta. A contundência do diagnóstico passa
a compensar a baixa musculatura histórica. A crítica fornece coesão
identitária, distinção moral e clareza de fronteira; o que ela não fornece, por
si só, é povo.
É
importante insistir nesse ponto para evitar caricaturas. Não estou dizendo que
toda crítica ao lulismo seja compensatória, nem que toda esquerda radical
incorra do mesmo modo nessa substituição. O problema não é a existência da
crítica. O problema é o lugar inflado que ela passa a ocupar quando deixa de
ser instrumento de elaboração estratégica e se converte em teoria geral da
derrota histórica da esquerda brasileira. A partir daí, a política corre o
risco de se reduzir a um circuito de enunciação no qual a força do diagnóstico
substitui a dificuldade da construção. Explica-se muito. Constrói-se pouco. E,
não raro, a eloquência do juízo passa a funcionar como álibi para a fraqueza da
inserção.
O mesmo
desvio aparece no debate econômico. A persistência de juros elevados, a
autonomia do Banco Central, a financeirização e a dependência de fluxos
internacionais costumam ser lidas, por vezes, como prova automática de adesão
ao neoliberalismo. O problema é que essa leitura se satisfaz com a nomeação da
estrutura sem entrar nas exigências concretas de sua transformação. Porque
poder rentista, vulnerabilidade cambial, fragilidade produtiva, correlação
parlamentar desfavorável e dependência externa não desaparecem porque foram
corretamente diagnosticados. Alterar esse regime exige mais do que convicção
ideológica. Exige força estatal, base social, tempo político, capacidade de
transição e sustentação para enfrentar o conflito. A mediação, nesse terreno, não
é sinônimo automático de capitulação. É o solo instável em que a política
efetivamente se move.
Toda
vez que a mediação é tratada como prova suficiente de traição, o debate
escorrega da estratégia para o tribunal da pureza. E tribunais da pureza
raramente produzem política à altura da história. Produzem, quando muito,
nitidez interna para um grupo já convencido. Isso pode ter valor identitário.
Mas não reorganiza sociedade, não desloca correlação de forças, não enraíza
projeto. A política real não se divide entre ruptura absoluta e rendição
integral. Entre essas duas pontas existe um campo conflituoso, instável,
desigual, no qual inflexões parciais, reformas incompletas e deslocamentos
limitados produzem efeitos históricos reais, inclusive reações regressivas
intensas. Quem não enxerga esse terreno intermediário tende a confundir
insuficiência com irrelevância, mediação com capitulação e limite com
identidade com o adversário.
Era
preciso nomear esse problema antes de avançar. Esta peça existe para isso. A
monocausalidade com prólogo complexo estreita aquilo que finge abrir. A dupla
substituição compensa, no plano do discurso, aquilo que falta no plano da
construção. Juntas, elas produzem uma forma sedutora de crítica: severa no
juízo, elegante no diagnóstico, identitariamente coesa e politicamente
insuficiente. O que se ganha em nitidez acusatória costuma perder-se em
capacidade explicativa e em imaginação estratégica.
Nada
disso significa renunciar à crítica estrutural do lulismo. Significa apenas
recolocá-la em seu devido lugar. Criticar o petismo é legítimo. O que não
parece legítimo é transformá-lo em usina explicativa quase total da extrema
direita e, ao mesmo tempo, em álibi para a dificuldade de construir alternativa
real. Quando isso acontece, explica-se demais por um lado e constrói-se de
menos por outro. A direita, com sua potência própria de ação, organização e
investimento histórico, fica relativamente subestimada. E as insuficiências
concretas da esquerda que critica o lulismo ficam relativamente poupadas de
escrutínio equivalente.
Uma
esquerda interessada, de fato, em superar o lulismo precisará demonstrar no
país real mais do que superioridade diagnóstica. Precisará mostrar capacidade
de organizar trabalhadores, disputar território, produzir capilaridade,
sustentar mediações eficazes e oferecer horizonte em escala nacional. Sem isso,
a crítica ao reformismo corre o risco de permanecer como identidade
compensatória, e não como estratégia de poder. O problema, no fundo, não está
em criticar o lulismo. Está em usar essa crítica para explicar demais e
construir de menos.
E está,
também, em deixar que esse excesso de explicação embarace a leitura da própria
história concreta. Porque é justamente ali, quando saímos do conforto das
categorias gerais e entramos no terreno duro das experiências efetivas de
governo, das inflexões tentadas, das reações sofridas e das derrotas
produzidas, que certas simplificações começam a perder contato com os fatos. É
ali, e não no tribunal abstrato da pureza, que a crítica precisa provar sua
força.
Fonte:
Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

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