sexta-feira, 8 de maio de 2026

Leonardo Giordano: Escala 6x1 - o lucro acima da vida

O modelo capitalista organiza o trabalho a partir de uma lógica simples e brutal: maximizar o lucro, ainda que isso custe o tempo, a saúde e a dignidade de quem trabalha. Não se trata de exceção nem de desvio. É a regra. É assim que se sustenta um sistema que transforma gente em engrenagem e naturaliza o esgotamento como parte da rotina, especialmente em países explorados, marcados por profundas desigualdades estruturais como o Brasil.

Esse nunca foi um debate abstrato. Ele sempre esteve presente na vida concreta de milhões de brasileiros submetidos a jornadas extensas, baixos salários e pouco tempo de descanso. O que muda agora é o cenário político. Estamos diante de uma possível inflexão, com a revisão da jornada entrando na agenda pública e institucional, impulsionada por mobilizações sociais, debates no Congresso e pela própria evidência de que o modelo atual produz adoecimento em larga escala. Dados recentes divulgados na imprensa, com base em registros do INSS, apontam o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais, como ansiedade, depressão e "burnout". Não se trata de casos isolados, mas de um sintoma coletivo de um sistema que ultrapassou seus limites.

Play Video

A lógica de trabalhar seis dias para descansar um sintetiza esse modelo. Trata-se de uma organização do tempo que prioriza a continuidade da produção em detrimento da vida. Não há margem real para recuperação física e emocional, nem para o exercício pleno de outras dimensões da existência. O tempo livre deixa de ser direito e passa a ser concessão mínima, calculada para garantir que o trabalhador retorne ao posto no dia seguinte.

Essa dinâmica se agrava quando observamos a realidade urbana brasileira. Longos deslocamentos, múltiplas jornadas e a sobreposição entre trabalho formal e informal comprimem ainda mais o cotidiano. O resultado é uma rotina marcada pelo cansaço permanente, pela ausência de convivência e pela limitação do acesso a direitos básicos. O tempo, nesse contexto, deixa de ser uma dimensão da vida e passa a ser apropriado como recurso econômico.

Sem tempo, não há vida digna. O direito ao descanso é parte indissociável do direito à saúde, à educação e à participação social. É ele que permite que uma pessoa acesse serviços de saúde, invista em sua formação, estabeleça vínculos afetivos e participe da vida pública. A supressão desse tempo não apenas compromete o bem-estar individual, mas aprofunda desigualdades, ao restringir o acesso a direitos justamente para aqueles que mais dependem deles.

É nesse ponto que a revisão da jornada se coloca como medida concreta de transformação. Estimativas recentes indicam que ao menos 37 milhões de pessoas seriam diretamente beneficiadas por mudanças na carga horária semanal. Trata-se de uma alteração com impacto estrutural, capaz de redistribuir tempo e ampliar condições de vida para uma parcela significativa da população. Não se trata apenas de reorganizar o trabalho, mas de reequilibrar a relação entre produção e existência.

A história demonstra que avanços nesse campo sempre foram resultado de disputas. A limitação da jornada, a instituição do descanso semanal e a consolidação de direitos trabalhistas foram conquistas obtidas frente à resistência de setores econômicos. A permanência de modelos exaustivos, portanto, não decorre de necessidade técnica, mas de uma escolha política que preserva estruturas de concentração de renda e poder.

A contradição contemporânea é evidente. Vivemos um período de alta capacidade produtiva, com avanços tecnológicos que permitem produzir mais em menos tempo. Ainda assim, a organização do trabalho segue baseada na lógica da intensificação. O ganho de produtividade não se traduz em ampliação do tempo livre, mas em aumento das exigências. Essa dissociação revela que o problema não está na capacidade de produzir, mas na forma como se organizam e distribuem os benefícios dessa produção.

Os efeitos dessa lógica recaem de maneira desigual. Trabalhadores dos setores de comércio, serviços, logística e cuidado estão entre os mais impactados, assim como as mulheres, que acumulam jornadas e enfrentam uma sobrecarga histórica. A restrição do tempo livre, nesses casos, aprofunda desigualdades de renda, gênero e acesso a direitos, consolidando um ciclo de exclusão difícil de romper. A precarização é disfarçada por volta e meia de "empreendedorismo".

O custo desse modelo se expressa no sistema de saúde, na queda de produtividade a longo prazo e na fragilização das relações sociais. Sustentar uma economia baseada no desgaste contínuo não é sinal de eficiência, mas de desequilíbrio estrutural.

Por que defendemos o fim dessa escala? Porque ela organiza o trabalho a partir da exaustão, retira das pessoas o direito ao tempo e impede o acesso pleno à vida. Defender sua superação é afirmar que o desenvolvimento não pode ser construído à custa do adoecimento coletivo. É reconhecer que a redução da jornada é imprescindível para uma sociedade, no mínimo, um pouco mais justa e menos desigual.

Essa mudança não virá sem pressão social. Direitos nunca foram concedidos de cima para baixo. Eles foram conquistados com organização, mobilização e disputa. É hora de trazer esse debate para o centro da sociedade, de envolver trabalhadores, movimentos sociais, sindicatos, parlamentares comprometidos e todos aqueles que compreendem que dignidade não pode ser negociada.

Se queremos uma sociedade mais justa e menos desigual, precisamos agir agora. Mobilizar, pressionar, disputar. Porque o tempo de vida da classe trabalhadora não pode continuar sendo tratado como variável de ajuste. E nenhuma transformação real acontece sem que o povo se levante para fazê-la.

•        Três países da América Latina aprovaram leis de diminuição das jornadas de trabalho, saiba quais são

A proposta de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x 1 pode fazer o Brasil se juntar à Colômbia, ao Chile e ao México na lista dos países da América Latina que, na última década, reduziram o tempo dedicado ao trabalho.

Com exceção da Argentina, governada por Javier Milei, que recentemente permitiu jornadas de até 12 horas diárias de trabalho, países importantes da região vêm reduzindo as jornadas a favor dos trabalhadores.

Na Colômbia, a redução da jornada de 48 para 42 horas semanais foi promulgada em julho de 2021 pelo presidente Iván Duque, um governo de direita. O projeto foi apresentado pelo então senador – e ex-presidente do país – Álvaro Uribe, uma das figuras mais proeminentes da direita latino-americana.

A lei prevê a redução gradual da jornada sem redução de salário. A primeira redução foi em 2023, quando caiu para 47 horas semanais. Apenas agora, em julho de 2026, é que a jornada semanal de trabalho na Colômbia deve chegar as 42 horas semanais, cinco anos após a promulgação da lei.

2 de maio

O professor de direito e relações internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), o colombiano Sebastián Granda Henao, explica que a direita colombiana tentava dar uma resposta à revolta social que estourou no país em 2019, com protestos em massa.

“Foi um processo, de certa maneira, para apaziguar os ânimos, sendo uma resposta à revolta social de 2019, aos anseios populares, evitando uma reforma maior”, explicou.

Henao lembrou ainda que a redução da jornada para 42 horas contou com aval do empresariado, apesar de ter recebido algumas críticas, passando no congresso colombiano sem grandes reações.

“Justamente porque foi proposta pela direita, acabou que não houve tanta oposição. Mas eu digo que essa reforma é conservadora. Era também para acompanhar as diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, completa.

A OIT recomenda a redução das jornadas para 40 horas semanais e tempo máximo de trabalho de até 48 horas na semana, desde que mediante pagamento de horas-extras.

O professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Dari Krein, destaca que a Colômbia era um ponto “fora da curva” por ainda permitir jornadas de 48 horas semanais. No Brasil, a redução da jornada de 48 para 44 horas foi realizada em 1988, durante a Constituinte, mais de 30 anos antes da Colômbia.

“Era um contexto em que a direita estava muito fragilizada politicamente. Foi uma forma de buscar apoio na sociedade com a discussão do processo eleitoral já iniciado, com possibilidade mesmo do [esquerdista Gustavo] Petro ganhar a eleição, pois ele já era favorito nas pesquisas eleitorais”, explica Krein.

Em abril de 2021, meses antes da promulgação da nova lei, outra onda de manifestações, ainda mais intensa que a primeira mobilizou a Colômbia, abalando as estruturas políticas do país. Para analistas, foram esses protestos que permitiram a chegada do primeiro governo de esquerda da história colombiana, com Gustavo Petro.

Eleito em junho de 2022, Petro ainda aprovou uma reforma trabalhista em junho 2025, com novos direitos, como pagamento de adicional noturno a partir das 19h, e não das 21h, como era antes. Foi instituído ainda pagamento de hora extra, valendo até 100% do valor da hora normal, para trabalho em domingos e feriados e limitação de 8 horas de trabalho por dia.

>>>> México

No México, a redução da jornada de trabalho das atuais 48 horas semanais para 40 horas foi promulgada em março deste ano, em um contexto bastante diferente da Colômbia, por meio do popular governo da esquerdista Claudia Sheinbaum. Ela sucedeu Andrés Manuel López Obrador (2018-2024), também do partido Morena, que rompeu um ciclo de décadas de governos de direitas no México.

O professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Daniel Enrico Martuscelli, especialista em política mexicana, explica que o Morena herda uma crise de representação dos partidos de direita.

“Esses governos de esquerda se constituíram como governos de reformas. Atualmente, Sheinbaum tem entre 70% e 80% de aprovação, e sua coalizão tem dois terços do Parlamento, com o Morena com maioria simples. Isso dá uma grande capacidade para realizar reformas no México”, explica.

A redução da jornada começa a ser aplicada, sem redução de salário, em janeiro de 2027, de forma gradual, até chegar às 40 horas semanais em 2030.

Martuscelli acrescentou que a popularidade do governo permitiu avançar na reforma com uma limitada reação dos setores empresariais, que criticaram a redução da jornada semanal.

“A extrema-direita e a direita tradicional ocupam um papel muito residual na política mexicana, com dificuldade de se apresentar como uma força significativa, se comparado ao Brasil. Portanto, qualquer enfrentamento às iniciativas do governo tem alguma dificuldade”, avalia o especialista da UFU.

>>> Chile

No Chile, a redução da jornada de trabalho foi levada a cabo pelo governo de centro-esquerda de Gabriel Boric. Sancionada em abril de 2023, a lei prevê a redução gradual da jornada das atuais 45 horas para 40 horas semanais, sem redução de salário.

Em 2024, a jornada foi para 44 horas. Em abril de 2026, baixou para 42, devendo chegar às 40 horas somente em 2028.

O professor da Unicamp José Dari Krein, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (CESIT), destacou que, assim como na Colômbia, a redução da jornada de trabalho no Chile é um dos efeitos da revolta social chilena que estourou em 2019.

“O ponto de virada é o ‘estalido’ social de 2019, que foi um momento de grande mobilização na sociedade chilena, especialmente da juventude, com uma crítica bastante intensa ao projeto neoliberal chileno”, explica.

O especialista acrescentou que a eleição do Boric, em dezembro de 2021, foi um resultado dessa revolta social que sacudiu o país dois anos antes.

“Ela passou no Congresso por causa da coalizão mais progressista, assim como tinha grande adesão popular e teve pressão dos movimentos sociais e sindicais”, afirma.

José Dari Krein diz ainda que houve certa pressão do empresariado contra a medida, com discurso de que isso inviabilizaria a economia do país. Ao mesmo tempo, o projeto acolheu demandas do setor produtivo, como a flexibilidade para distribuição das horas de trabalho ao longo dos dias.

“Os setores empresariais, como em qualquer lugar, se mobilizaram contra, sempre fazendo contas de que isso traria custos. O discurso é muito parecido sempre em todos os contextos e lugares”, concluiu.

No Brasil, a redução da jornada atual de 44 horas para 40 ou 36 horas semanais, com o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1), sofre oposição de setores empresariais, com pesquisas divergindo sobre os efeitos da mudança no Produto Interno Bruto (PIB) e inflação.

 

Fonte:Brasil 247/Opera Mundi

 

Nenhum comentário: