Leonardo
Giordano: Escala 6x1 - o lucro acima da vida
O
modelo capitalista organiza o trabalho a partir de uma lógica simples e brutal:
maximizar o lucro, ainda que isso custe o tempo, a saúde e a dignidade de quem
trabalha. Não se trata de exceção nem de desvio. É a regra. É assim que se
sustenta um sistema que transforma gente em engrenagem e naturaliza o
esgotamento como parte da rotina, especialmente em países explorados, marcados
por profundas desigualdades estruturais como o Brasil.
Esse
nunca foi um debate abstrato. Ele sempre esteve presente na vida concreta de
milhões de brasileiros submetidos a jornadas extensas, baixos salários e pouco
tempo de descanso. O que muda agora é o cenário político. Estamos diante de uma
possível inflexão, com a revisão da jornada entrando na agenda pública e
institucional, impulsionada por mobilizações sociais, debates no Congresso e
pela própria evidência de que o modelo atual produz adoecimento em larga
escala. Dados recentes divulgados na imprensa, com base em registros do INSS,
apontam o crescimento dos afastamentos por transtornos mentais, como ansiedade,
depressão e "burnout". Não se trata de casos isolados, mas de um
sintoma coletivo de um sistema que ultrapassou seus limites.
Play
Video
A
lógica de trabalhar seis dias para descansar um sintetiza esse modelo. Trata-se
de uma organização do tempo que prioriza a continuidade da produção em
detrimento da vida. Não há margem real para recuperação física e emocional, nem
para o exercício pleno de outras dimensões da existência. O tempo livre deixa
de ser direito e passa a ser concessão mínima, calculada para garantir que o
trabalhador retorne ao posto no dia seguinte.
Essa
dinâmica se agrava quando observamos a realidade urbana brasileira. Longos
deslocamentos, múltiplas jornadas e a sobreposição entre trabalho formal e
informal comprimem ainda mais o cotidiano. O resultado é uma rotina marcada
pelo cansaço permanente, pela ausência de convivência e pela limitação do
acesso a direitos básicos. O tempo, nesse contexto, deixa de ser uma dimensão
da vida e passa a ser apropriado como recurso econômico.
Sem
tempo, não há vida digna. O direito ao descanso é parte indissociável do
direito à saúde, à educação e à participação social. É ele que permite que uma
pessoa acesse serviços de saúde, invista em sua formação, estabeleça vínculos
afetivos e participe da vida pública. A supressão desse tempo não apenas
compromete o bem-estar individual, mas aprofunda desigualdades, ao restringir o
acesso a direitos justamente para aqueles que mais dependem deles.
É nesse
ponto que a revisão da jornada se coloca como medida concreta de transformação.
Estimativas recentes indicam que ao menos 37 milhões de pessoas seriam
diretamente beneficiadas por mudanças na carga horária semanal. Trata-se de uma
alteração com impacto estrutural, capaz de redistribuir tempo e ampliar
condições de vida para uma parcela significativa da população. Não se trata
apenas de reorganizar o trabalho, mas de reequilibrar a relação entre produção
e existência.
A
história demonstra que avanços nesse campo sempre foram resultado de disputas.
A limitação da jornada, a instituição do descanso semanal e a consolidação de
direitos trabalhistas foram conquistas obtidas frente à resistência de setores
econômicos. A permanência de modelos exaustivos, portanto, não decorre de
necessidade técnica, mas de uma escolha política que preserva estruturas de
concentração de renda e poder.
A
contradição contemporânea é evidente. Vivemos um período de alta capacidade
produtiva, com avanços tecnológicos que permitem produzir mais em menos tempo.
Ainda assim, a organização do trabalho segue baseada na lógica da
intensificação. O ganho de produtividade não se traduz em ampliação do tempo
livre, mas em aumento das exigências. Essa dissociação revela que o problema
não está na capacidade de produzir, mas na forma como se organizam e distribuem
os benefícios dessa produção.
Os
efeitos dessa lógica recaem de maneira desigual. Trabalhadores dos setores de
comércio, serviços, logística e cuidado estão entre os mais impactados, assim
como as mulheres, que acumulam jornadas e enfrentam uma sobrecarga histórica. A
restrição do tempo livre, nesses casos, aprofunda desigualdades de renda,
gênero e acesso a direitos, consolidando um ciclo de exclusão difícil de
romper. A precarização é disfarçada por volta e meia de
"empreendedorismo".
O custo
desse modelo se expressa no sistema de saúde, na queda de produtividade a longo
prazo e na fragilização das relações sociais. Sustentar uma economia baseada no
desgaste contínuo não é sinal de eficiência, mas de desequilíbrio estrutural.
Por que
defendemos o fim dessa escala? Porque ela organiza o trabalho a partir da
exaustão, retira das pessoas o direito ao tempo e impede o acesso pleno à vida.
Defender sua superação é afirmar que o desenvolvimento não pode ser construído
à custa do adoecimento coletivo. É reconhecer que a redução da jornada é
imprescindível para uma sociedade, no mínimo, um pouco mais justa e menos
desigual.
Essa
mudança não virá sem pressão social. Direitos nunca foram concedidos de cima
para baixo. Eles foram conquistados com organização, mobilização e disputa. É
hora de trazer esse debate para o centro da sociedade, de envolver
trabalhadores, movimentos sociais, sindicatos, parlamentares comprometidos e
todos aqueles que compreendem que dignidade não pode ser negociada.
Se
queremos uma sociedade mais justa e menos desigual, precisamos agir agora.
Mobilizar, pressionar, disputar. Porque o tempo de vida da classe trabalhadora
não pode continuar sendo tratado como variável de ajuste. E nenhuma
transformação real acontece sem que o povo se levante para fazê-la.
• Três países da América Latina aprovaram
leis de diminuição das jornadas de trabalho, saiba quais são
A
proposta de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x 1 pode fazer o
Brasil se juntar à Colômbia, ao Chile e ao México na lista dos países da
América Latina que, na última década, reduziram o tempo dedicado ao trabalho.
Com
exceção da Argentina, governada por Javier Milei, que recentemente permitiu
jornadas de até 12 horas diárias de trabalho, países importantes da região vêm
reduzindo as jornadas a favor dos trabalhadores.
Na
Colômbia, a redução da jornada de 48 para 42 horas semanais foi promulgada em
julho de 2021 pelo presidente Iván Duque, um governo de direita. O projeto foi
apresentado pelo então senador – e ex-presidente do país – Álvaro Uribe, uma
das figuras mais proeminentes da direita latino-americana.
A lei
prevê a redução gradual da jornada sem redução de salário. A primeira redução
foi em 2023, quando caiu para 47 horas semanais. Apenas agora, em julho de
2026, é que a jornada semanal de trabalho na Colômbia deve chegar as 42 horas
semanais, cinco anos após a promulgação da lei.
2 de
maio
O
professor de direito e relações internacionais da Universidade Federal da
Grande Dourados (UFGD), o colombiano Sebastián Granda Henao, explica que a
direita colombiana tentava dar uma resposta à revolta social que estourou no
país em 2019, com protestos em massa.
“Foi um
processo, de certa maneira, para apaziguar os ânimos, sendo uma resposta à
revolta social de 2019, aos anseios populares, evitando uma reforma maior”,
explicou.
Henao
lembrou ainda que a redução da jornada para 42 horas contou com aval do
empresariado, apesar de ter recebido algumas críticas, passando no congresso
colombiano sem grandes reações.
“Justamente
porque foi proposta pela direita, acabou que não houve tanta oposição. Mas eu
digo que essa reforma é conservadora. Era também para acompanhar as diretrizes
da Organização Internacional do Trabalho (OIT)”, completa.
A OIT
recomenda a redução das jornadas para 40 horas semanais e tempo máximo de
trabalho de até 48 horas na semana, desde que mediante pagamento de
horas-extras.
O
professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), José Dari Krein, destaca que a Colômbia era um ponto “fora da curva”
por ainda permitir jornadas de 48 horas semanais. No Brasil, a redução da
jornada de 48 para 44 horas foi realizada em 1988, durante a Constituinte, mais
de 30 anos antes da Colômbia.
“Era um
contexto em que a direita estava muito fragilizada politicamente. Foi uma forma
de buscar apoio na sociedade com a discussão do processo eleitoral já iniciado,
com possibilidade mesmo do [esquerdista Gustavo] Petro ganhar a eleição, pois
ele já era favorito nas pesquisas eleitorais”, explica Krein.
Em
abril de 2021, meses antes da promulgação da nova lei, outra onda de
manifestações, ainda mais intensa que a primeira mobilizou a Colômbia, abalando
as estruturas políticas do país. Para analistas, foram esses protestos que
permitiram a chegada do primeiro governo de esquerda da história colombiana,
com Gustavo Petro.
Eleito
em junho de 2022, Petro ainda aprovou uma reforma trabalhista em junho 2025,
com novos direitos, como pagamento de adicional noturno a partir das 19h, e não
das 21h, como era antes. Foi instituído ainda pagamento de hora extra, valendo
até 100% do valor da hora normal, para trabalho em domingos e feriados e
limitação de 8 horas de trabalho por dia.
>>>>
México
No
México, a redução da jornada de trabalho das atuais 48 horas semanais para 40
horas foi promulgada em março deste ano, em um contexto bastante diferente da
Colômbia, por meio do popular governo da esquerdista Claudia Sheinbaum. Ela
sucedeu Andrés Manuel López Obrador (2018-2024), também do partido Morena, que
rompeu um ciclo de décadas de governos de direitas no México.
O
professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU),
Daniel Enrico Martuscelli, especialista em política mexicana, explica que o
Morena herda uma crise de representação dos partidos de direita.
“Esses
governos de esquerda se constituíram como governos de reformas. Atualmente,
Sheinbaum tem entre 70% e 80% de aprovação, e sua coalizão tem dois terços do
Parlamento, com o Morena com maioria simples. Isso dá uma grande capacidade
para realizar reformas no México”, explica.
A
redução da jornada começa a ser aplicada, sem redução de salário, em janeiro de
2027, de forma gradual, até chegar às 40 horas semanais em 2030.
Martuscelli
acrescentou que a popularidade do governo permitiu avançar na reforma com uma
limitada reação dos setores empresariais, que criticaram a redução da jornada
semanal.
“A
extrema-direita e a direita tradicional ocupam um papel muito residual na
política mexicana, com dificuldade de se apresentar como uma força
significativa, se comparado ao Brasil. Portanto, qualquer enfrentamento às
iniciativas do governo tem alguma dificuldade”, avalia o especialista da UFU.
>>>
Chile
No
Chile, a redução da jornada de trabalho foi levada a cabo pelo governo de
centro-esquerda de Gabriel Boric. Sancionada em abril de 2023, a lei prevê a
redução gradual da jornada das atuais 45 horas para 40 horas semanais, sem
redução de salário.
Em
2024, a jornada foi para 44 horas. Em abril de 2026, baixou para 42, devendo
chegar às 40 horas somente em 2028.
O
professor da Unicamp José Dari Krein, pesquisador do Centro de Estudos
Sindicais e Economia do Trabalho (CESIT), destacou que, assim como na Colômbia,
a redução da jornada de trabalho no Chile é um dos efeitos da revolta social
chilena que estourou em 2019.
“O
ponto de virada é o ‘estalido’ social de 2019, que foi um momento de grande
mobilização na sociedade chilena, especialmente da juventude, com uma crítica
bastante intensa ao projeto neoliberal chileno”, explica.
O
especialista acrescentou que a eleição do Boric, em dezembro de 2021, foi um
resultado dessa revolta social que sacudiu o país dois anos antes.
“Ela
passou no Congresso por causa da coalizão mais progressista, assim como tinha
grande adesão popular e teve pressão dos movimentos sociais e sindicais”,
afirma.
José
Dari Krein diz ainda que houve certa pressão do empresariado contra a medida,
com discurso de que isso inviabilizaria a economia do país. Ao mesmo tempo, o
projeto acolheu demandas do setor produtivo, como a flexibilidade para
distribuição das horas de trabalho ao longo dos dias.
“Os
setores empresariais, como em qualquer lugar, se mobilizaram contra, sempre
fazendo contas de que isso traria custos. O discurso é muito parecido sempre em
todos os contextos e lugares”, concluiu.
No
Brasil, a redução da jornada atual de 44 horas para 40 ou 36 horas semanais,
com o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1), sofre
oposição de setores empresariais, com pesquisas divergindo sobre os efeitos da
mudança no Produto Interno Bruto (PIB) e inflação.
Fonte:Brasil
247/Opera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário