Energia
solar dispara globalmente sob liderança da China
A
energia solar vem se expandindo mais rápido do que o esperado no início do
século, num ritmo superior a qualquer outra fonte energética. A sua adoção é um
elemento central dos planos de transição energética global, a fim de proteger o
planeta das mudanças climáticas.
Antes,
esta era considerada uma alternativa cara, usada somente em regiões remotas,
viagens espaciais ou calculadoras de bolso. Mas hoje módulos solares fáceis de
instalar e operar permitem gerar eletricidade barata ao redor do mundo.
A
capacidade global de energia solar disparou na última década, passando de 228
gigawatts (GW) em 2015 para 2,9 mil GW em 2025 — o correspondente a 10% da
matriz energética global, ultrapassando a energia nuclear (9%).
Se
mantiver o ritmo atual, a capacidade global poderá atingir 9 mil GW até 2030, o
suficiente para atender a mais de 20% da demanda energética global. Potências
globais, entretanto, se mantêm dependentes dos combustíveis fósseis.
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China lidera o caminho
A China
tem, de longe, a maior capacidade solar do mundo. O país instalou 315 GW de
novos painéis em 2025, de acordo com a autoridade energética chinesa, elevando
a capacidade total para cerca de 1,3 mil GW.
Mais de
80% de todos os painéis solares atualmente são produzidos na China. Dados da
organização LowCarbonPower mostram que 11% da eletricidade do país agora vem da
energia solar.
Ao
longo da última década, a participação da energia a carvão — altamente poluente
— caiu de 70% para 56%. Isso se deve, em grande parte, à forte expansão das
energias renováveis no país, especialmente solar e eólica.
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União Europeia amplia rede solar
A União
Europeia (UE), com 406 GW de capacidade de geração, ocupa o segundo lugar
mundial na expansão da energia solar.
No
bloco, a energia solar cobre cerca de 13% da demanda elétrica, enquanto o
carvão atende a 9% — uma queda significativa em relação a 2015, quando ainda
gerava um quarto da eletricidade da UE.
Na
liderança europeia estão Grécia, Chipre, Espanha e Hungria, cada uma gerando
mais de 20% de sua eletricidade a partir da energia solar.
A
Alemanha, com menos horas de sol, atinge 18%. Com 119 GW, o país é o líder
europeu em capacidade solar instalada, seguida pela Espanha, com 56 GW.
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EUA em terceiro lugar
Mesmo
com as fontes renováveis dificultadas durante o governo de Donald Trump, os
Estados Unidos ocupam o terceiro lugar mundial na expansão da energia solar.
Com 267
GW, os EUA conseguem suprir cerca de 8% de sua demanda elétrica total. Em 2015,
esse valor era de 1%. Nos últimos dez anos, a participação do carvão caiu pela
metade — de 34% em 2015 para 17% em 2025.
O
presidente americano, entretanto, quer ressuscitar o carvão e proteger a
indústria ligada aos combustiveis fósseis.
Além
disso, os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo e gás – em grande
parte para exportação. Em 2023, estas duas fontes correspondiam, juntas, a
quase três quartos da energia final consumida pelos americanos (excluindo o
consumo do próprio setor energético e perdas de transformação), segundo a
Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).
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Crescimento em Índia, Paquistão e Brasil
A
Índia, em quarto lugar com 136 GW, agora gera cerca de 8% de sua eletricidade
para uma população de 1,45 bilhão de pessoas. O Japão aparece em quinto, com
capacidade solar de 103 GW, cobrindo 11% de sua demanda elétrica.
O
Brasil também está ampliando sua capacidade solar e agora consegue gerar cerca
de 10% de seu fornecimento nacional de eletricidade. O país soma 22 GW de
potência solar fiscalizada (ou seja, efetivamente instalada e em operação
comercial verificada pela Agência Nacional de Energia Elétrica). Junto com
hidrelétrica, eólica e biomassa, 88% da energia do Brasil vêm de fontes
renováveis.
Em
2015, Paquistão e África do Sul produziam cada um menos de 1% de sua
eletricidade a partir de painéis fotovoltaicos. Dez anos depois, o índice subiu
para 20% e 10%, respectivamente.
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Preços vantajosos
Em
apenas uma hora, a luz do sol que atinge a Terra fornece mais energia do que a
humanidade precisaria durante um ano inteiro. Instalando painéis solares em
menos de 1% da superfície do mundo, seria possível cobrir toda a demanda global
de energia.
Outra
vantagem é o progressivo barateamento. Módulos mais eficientes e a produção em
massa reduziram os preços em cerca de 90%, o que significa que a energia solar
é a forma mais barata de eletricidade em muitas partes do mundo.
Em
regiões muito ensolaradas, grandes parques solares podem produzir eletricidade
pelo equivalente a R$ 0,05 por quilowatt-hora.
A
eletricidade de painéis solares instalados em telhados costuma ser
significativamente mais barata do que a eletricidade da rede convencional e, em
muitos países europeus, agora custa menos da metade do preço médio de
eletricidade.
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Mais proeminência a caminho?
Em
2024, usinas com capacidade de 632 GW foram adicionadas à rede elétrica global.
Do total, 72% eram energia solar, seguida pela eólica com 18%, gás com 4%,
carvão com 3%, hidrelétrica com 2% e nuclear com 1%.
Diversas
previsões subestimaram o crescimento da indústria solar. Em sua análise global
anual de energia de 2020, a Agência Internacional de Energia estimou que a
expansão solar mundial atingiria cerca de 120 GW em 2024. Mas 597 GW foram
instalados naquele ano.
Especialistas
agora acreditam que a energia solar eventualmente se tornará a fonte de energia
mais importante do mundo. No entanto, ainda não se sabe quão rápida poderá ser
a mudança.
Pesquisadores
da Universidade de Tecnologia Lappeenranta-Lahti, na Finlândia, calcularam como
poderia ser um suprimento de energia global economicamente eficiente. Com base
em seu modelo, 76% da energia mundial viriam da solar. A energia eólica
representaria outros 20%, com o restante vindo de hidrelétrica, biomassa e
energia geotérmica.
• Guerra no Irã acelera duelo EUA-China
pelo futuro da energia
Nos
bastidores da atual guerra no Golfo Pérsico
as duas maiores economias do mundo, China e EUA, agora disputam o
desenho e o domínio da arquitetura energética global do futuro.
Seja
qual for o desfecho do conflito, a normalização dos mercados globais de energia
pode demorar anos. Nesta semana, a Agência Internacional de Energia (AIE)
classificou a crise provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz como a mais
grave já registrada. Para analistas ouvidos pela DW, o choque nos preços dos
combustíveis reacende o risco da dependência dos combustíveis fósseis e pode
dar novo impulso à transição para fontes renováveis.
De um
lado, os EUA sob Donald Trump, aceleram a produção de petróleo e gás e buscam
manter viva a era dos combustíveis fósseis. De outro, a China investe na
transição para a energia elétrica e avançam sobre o mercado de painéis solares,
sistemas de armazenamento de energia e carros elétricos "made in
China".
"Nos
Estados Unidos, é clara a agenda de dominância energética, fortemente baseada
nos mercados de energia fóssil, que busca usar a riqueza do país em petróleo e
gás como instrumento de política externa. Isso chega ao ponto de tentar
controlar outros países ricos em recursos, como a Venezuela — suas reservas,
produção e exportações", afirma o especialista em energia Andreas
Goldthau, à DW.
"Do
outro lado, temos a China, que aposta fortemente na descarbonização, no setor
de tecnologias limpas (energias renováveis e energia nuclear, nota da redação)
e na redução das importações de petróleo e gás. Isso não é apenas uma questão
de política climática, mas de segurança econômica", diz Goldthau, diretor
da Willy Brandt School of Public Policy da Universidade de Erfurt.
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China avança sobre mercado global de renováveis
Segundo
Goldthau, os chineses perceberam com clareza a dependência externa de seu
modelo econômico e reagiram de acordo. "A China é a maior investidora em
energias renováveis e tecnologias limpas. Hoje, lidera as tecnologias
necessárias para a transição energética", afirma.
Na
outra ponta, o país lidera há anos a lista de maiores emissores globais de CO2.
Ainda assim, seja em redes elétricas inteligentes, energia solar ou eólica,
pouco funciona sem produtos e componentes chineses, incluindo terras raras.
"Eles avançaram muito, inclusive em eletrolisadores [para a produção de
hidrogênio verde] e sistemas de armazenamento por baterias. A lista é longa.
Fazem isso para criar resiliência, mas também para alcançar maior
autossuficiência e soberania", diz Goldthau.
Hoje,
segundo análises da AIE e da consultoria McKinsey, entre 60% e 70% de todos os
carros elétricos do mundo são fabricados na China. Com a desaceleração do
crescimento econômico, surgiram grandes excedentes de capacidade, cada vez mais
direcionados às exportações, sobretudo para a Europa.
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Sucesso do programa "Made in China 2025"
Também
nas principais tecnologias verdes, Pequim concentra poder. A China controla
cerca de 80% da cadeia global de suprimentos da energia fotovoltaica. Em alguns
segmentos fundamentais para a fabricação de chips, como a produção de wafers de
silício, essa fatia ultrapassa 95%. De acordo com o Global EV Outlook, da AIE,
somente no primeiro semestre de 2025 o país instalou mais infraestrutura para
energia solar do que o resto do mundo somado.
A
participação chinesa na produção global de turbinas eólicas também cresceu de
forma acelerada. Segundo dados da World Wind Energy Association (WWEA) e da
Bloomberg New Energy Finance (BloombergNEF), cerca de 72% do mercado mundial de
novas turbinas eólicas em 2025 esteve nas mãos da China. Oito dos dez maiores
fabricantes do mundo já são chineses, como Goldwind e Envision.
Entre
2020 e 2025, as exportações chinesas de tecnologias verdes mais do que
quadruplicaram. Em 2025, o setor de energia limpa respondeu por mais de um
terço do crescimento total do PIB do país, segundo cálculos do think tank
energético Ember.
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Política de "dominância energética"
No
sentido oposto, os EUA sob Donald Trump freiam o avanço das energias renováveis
e aceleram a expansão das fontes fósseis. "Drill, baby, drill"
("Perfure, bebê, perfure"), repetia Trump a seus apoiadores ainda na
campanha eleitoral. Perfurar sem parar também é o lema do secretário de
Energia, Chris Wright, fundador e ex-CEO da Liberty Energy, uma das maiores
empresas de fracking da América do Norte.
"Não
é segredo que os EUA sob Trump seguem uma política de 'dominância energética'.
Ela é conduzida de forma explícita", diz Henning Gloystein, especialista
em energia do escritório londrino da consultoria Eurasia Group. "A
dominância deve ser alcançada com o aumento da produção doméstica de petróleo e
gás e a ampliação das exportações. Para isso, os EUA buscam controle sobre
ativos estrangeiros, como na Venezuela e, possivelmente, no Irã."
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Revolução do fracking transforma os EUA em exportadores
Em
cerca de duas décadas, os Estados Unidos deixaram de ser o maior importador
mundial de petróleo e gás para liderar como maior exportador global de gás e um
dos principais exportadores de petróleo. Isso foi possível graças à chamada
"revolução do xisto", que combina o fracking hidráulico com a
perfuração horizontal.
Juntas,
as técnicas permitem perfurar trechos maiores da rocha, liberando grandes
volumes de óleo e gás antes inacessíveis. O processo elevou drasticamente a
produção de petróleo no país. "Hoje, os Estados Unidos produzem mais
petróleo do que a Arábia Saudita e a Rússia juntas e mais gás natural do que
Rússia, Irã e China somados — assegurando seu papel como líder energético
global incontestável", afirma a Casa Branca em seu site.
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Tarifas mais baixas em troca de energia fóssil dos EUA
Para
Trump, o petróleo é antes de tudo um instrumento de poder geopolítico, defende
Gloystein, do Eurasia Group. Isso se reflete na forma como os EUA negociam com
seus parceiros comerciais. "No ano passado, os americanos disseram: em
troca de tarifas mais baixas, a Europa precisa comprar mais petróleo e gás dos
Estados Unidos", lembra ele. O mesmo ocorreu com outros parceiros, como
Japão e Índia.
Já
neste ano, o presidente americano também sugeriu aos países afetados pelo
bloqueio em Ormuz também comprarem petróleo dos EUA. Para isso, Washington
aposta em contratos de fornecimento de longo prazo. "Quando uma empresa
alemã procura gás liquefeito nos EUA, o fornecedor diz: a partir de 2028
podemos entregar de dois a três milhões de toneladas por ano, em um contrato de
20 anos. Assim, o gás fica incorporado aos sistemas alemães por décadas. Os
americanos atuam de forma muito ativa", explica Gloystein.
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Petróleo e gás versus transição verde
"Os
Estados Unidos são a maior fonte de crescimento da produção mundial de
petróleo", afirma Fatih Birol, diretor da IEA, em Paris. Porém,
"segurança energética no século 21 não significa apenas disponibilidade de
petróleo e gás, mas também a diversificação das cadeias de suprimento de
tecnologias limpas", pontuou.
Nesse
aspecto, a China está à frente. A revolução do fracking deu aos EUA
independência energética e maior peso geopolítico. Objetivo semelhante é
perseguido por Pequim com a liderança global em tecnologias verdes. O caminho
ainda é longo — o carvão responde por cerca de 60% do consumo total de energia
do país.
Gloystein
e Goldthau concordam que a tendência global aponta para as energias renováveis. Resta saber quem
sairá vencedor: a dominância energética fóssil dos EUA ou o "Estado
eletrificado" impulsionado por Pequim.
"Se
eu tivesse que apostar agora", diz Goldthau, "apostaria no 'Estado
eletrificado', que não apenas busca controlar o abastecimento com fontes
domésticas e, em grande parte, renováveis, mas também desenvolve as tecnologias
de que os outros países precisam".
Fonte:
DW Brasil

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