Terras
raras: Serra Verde impacta córregos em Goiás, diz análise de órgão ambiental
Uma
análise do órgão ambiental de Goiás identificou indícios de possíveis impactos
da operação da Serra Verde, única mineradora de terras raras que já opera em
escala comercial no Brasil, nos córregos e no rio localizados na área do
empreendimento.
Em um
relatório finalizado em 27 de março, analistas da Secretaria de Estado de Meio
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad, órgão responsável pelo
licenciamento ambiental da operação) apontaram que vários parâmetros de
poluição, como presença de metais pesados e turbidez, estavam acima dos limites
máximos estabelecidos pela regulamentação ambiental.
O
documento, ao qual a Agência Pública teve acesso, relata irregularidades
identificadas em uma vistoria técnica realizada em conjunto com o Ibama em
novembro do ano passado. Os analistas envolvidos apontam para um quadro de
“degradação” ambiental e aconselharam que a Serra Verde seja multada em R$ 12,5
milhões por poluir o córrego Laje e em R$ 120 mil por “apresentar estudo
ambiental omisso” sobre a qualidade das águas superficiais e subterrâneas
impactadas pelo empreendimento.
Segundo
a Semad, os autos de infração foram devidamente lavrados e, agora, seguem o
processo de sanção administrativa ambiental. Além dos autos por poluição do
córrego e por estudo ambiental omisso, a mineradora foi alvo de outros sete
autos de infração por desmatamentos, mineração irregular e outras
irregularidades.
“O
processo passou por audiência de autocomposição, ocasião em que o empreendedor
apresentou uma série de documentos e informações que demandam análise
complementar pela equipe técnica, a fim de subsidiar a decisão quanto à
celebração, ou não, de acordo”, afirmou por email à Pública Robson Disarz,
subsecretário de Licenciamento, Fiscalização e Controle Ambiental.
Entre
parâmetros fora da conformidade para as águas impactadas pelo empreendimento
estão os valores para manganês. Trata-se de um metal pesado que pode ser
encontrado naturalmente no solo e em rios, mas que em excesso pode provocar
turbidez e odor da água, além de riscos para a saúde das pessoas e do meio
ambiente a depender do tempo e do grau de exposição. O manganês é um dos
principais elementos presentes no rejeito da extração de terras raras realizada
pela Serra Verde e, segundo a análise da Semad, foi identificado em valores
superiores ao permitido em diferentes pontos de córregos impactados pelo
empreendimento.
Instalada
na área rural de Minaçu, cidade de 27 mil habitantes quase na fronteira com o
Tocantins, a Serra Verde começou a operar comercialmente em 2024, depois de
quase 15 anos de pesquisas minerais na área, levantamento de capital e
construção da infraestrutura necessária. Atualmente, é considerada a maior
operação fora da Ásia a extrair os principais elementos de terras raras,
essenciais em várias tecnologias – de veículos elétricos e turbinas eólicas a
mísseis e jatos militares.
A
empresa tem promovido sua localização em solo brasileiro como um diferencial
estratégico para as indústrias que utilizam terras raras, dependentes
majoritariamente da China – país dono das maiores reservas conhecidas desses
elementos e especializado em toda sua cadeia produtiva, respondendo por 89% da
separação (etapa do processamento) e mais de 90% da produção de superímãs.
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Por que isso importa?
• Relatório da S&P 500, maior índice
de mercado de ações dos EUA aponta uma aceleração nos investimentos privados em
mineração de terras raras fora da China
• O Brasil tem a segunda maior reserva de
terras raras do mundo atrás, somente, da China
Em meio
às tensões geopolíticas, essa dependência passou a ser vista como um problema
para outros países e, em especial, para o governo americano de Donald Trump,
que está investindo em fontes de terras raras fora da China. Entre elas, a
Serra Verde.
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Negócio bilionário
Na
semana passada, a mineradora anunciou uma operação de compra pela americana USA
Rare Earth, num negócio de 2,8 bilhões de dólares que inclui o compromisso de
fornecimento de 100% da produção para os EUA por 15 anos. Antigos donos da
Serra Verde, os fundos americanos Denham Capital e The Energy and Minerals
Group e a empresa britânica de investimentos Vision Blue, serão sócios da nova
empresa combinada, cujo objetivo declarado é se tornar uma multinacional líder
na cadeia produtiva de terras raras fora da Ásia, com empreendimentos nos EUA,
Brasil, Reino Unido e França.
Antes
disso, a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados
Unidos, agência de investimentos do governo federal americano, já havia fechado
um pacote de financiamento de 565 milhões de dólares para a Serra Verde que
inclui a opção de aquisição pelo governo dos EUA de uma participação acionária
minoritária da mineradora.
Além da
localização estratégica, a Serra Verde também promove sua operação como uma
mineração de baixo impacto ambiental, já que explora um depósito de argila
iônica. Esse tipo de solo é, em tese, mais fácil e barato de explorar do que
depósitos de “pedra dura”. Encontrados nos EUA e na Austrália, esses depósitos
exigem a abertura de crateras profundas com uso de explosivos e são muito mais
radioativos. Já o método da Serra Verde consiste em remover as camadas mais
superficiais do solo, lavar a argila com uma solução de água e sal para extrair
as terras raras e, depois de um tempo, tapar os buracos abertos com a mesma
argila retirada anteriormente. Esse processo utiliza grande quantidade de água,
que a mineradora puxa do rio Cana Brava e afirma reciclar.
“Nosso
processo é quase uma extração ‘natureba’ de terras raras. Sem resíduo
radioativo, buscando proteger os cursos d’água, as nascentes e respeitando os
parâmetros ambientais originais”, afirmou Luciano Borges, então vice-presidente
da mineradora em uma reunião com a comunidade em 2022, quando a operação ainda
estava engatinhando. Ele saiu da Serra Verde em 2024 após a implementação total
da operação.
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Monitoramentos feitos pela mineradora não são adequados, aponta Semad
De lá
para cá, o relatório da Semad aponta para um quadro diferente. A análise da
qualidade da água que identificou vários parâmetros acima dos limites adequados
foi feita a partir de dados apresentados em março do ano passado pela própria
mineradora. Segundo os analistas da Semad, porém, esses monitoramentos não têm
sido feitos de forma adequada. Eles apontaram informações desencontradas e
ausência de comprovações técnicas, como laudos ou registros fotográficos, que
pudessem atestar a veracidade das informações apresentadas pela Serra Verde.
Ainda assim, trataram com preocupação as informações apresentadas.
Um
exemplo: praticamente todos os pontos monitorados em córregos que correm abaixo
de um tanque escavado em uma das cavas para receber água da chuva apresentaram
valores para quantidade de manganês acima do permitido. Isso pode estar
relacionado a outro problema identificado pela vistoria: falha na drenagem das
águas da chuva, que não estaria evitando que essas águas escorram pelas áreas
de extração e carreguem sedimentos e rejeitos para os cursos hídricos no
entorno. A área de operação da Serra Verde é montanhosa, possui nascentes e
córregos – como o Taboca, o Laje e o Areias –, além do rio Cana Brava.
Em uma
vistoria de 2024, o Ibama e a Semad já tinham apontado para problemas no
sistema de drenagem da mineradora. Na mais recente, ainda que reconheçam que a
Serra Verde fez avanços e melhorias nas estruturas, constataram que a drenagem,
nas palavras do Ibama, “permanece como um ponto crítico do empreendimento”.
Para os
analistas da Semad, as medidas aplicadas se mostraram insuficientes para “sanar
a grande quantidade de sedimentos que estão sendo aportados para os corpos
d’água devido a exposição direta do solo às intempéries da chuva”.
Esse
problema, diz a análise técnica, foi agravado pelo fato de a mineradora ter
desmatado mais de 300 hectares sem autorização ambiental, incluindo em uma área
de nascentes, o que também rendeu multa, como foi revelado pelo Observatório da
Mineração.
Em
parte da área desmatada, os analistas verificaram processos erosivos, que estão
causando o assoreamento do córrego Laje, “reduzindo sua profundidade, alterando
o fluxo hídrico, prejudicando os habitats aquáticos e afetando severamente a
ictiofauna [conjunto de espécies de peixes] local”, como registrou o laudo
técnico da Semad.
“O
transporte de sedimentos aumenta a turbidez da água, reduzindo a penetração de
luz e afetando organismos aquáticos”, diz o documento, ao qual a reportagem
teve acesso. “A elevação da turbidez e o acúmulo de sedimentos agravam as
condições sanitárias e estéticas do curso d’água”, completa o laudo.
Para os
analistas do órgão estadual, a mineradora precisa adotar medidas corretivas
imediatas, como “contenção das áreas degradadas, estabilização das encostas,
recomposição da cobertura vegetal e implementação de sistema eficiente de
controle do escoamento superficial, com vistas à minimização do transporte de
sedimentos para o leito do córrego”.
Por
meio de imagens de satélite, eles também identificaram que na mesma área das
nascentes do córrego houve exploração mineral irregular em aproximadamente 140
hectares não contemplados pelo plano de lavra autorizado na licença ambiental.
Por isso, lavraram um auto de infração contra a mineradora no valor de R$ 262
mil.
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Produtores rurais relatam preocupação
O
córrego Laje deságua em outro, o Areias, que passa por pequenas propriedades
próximas à Serra Verde. No ano passado, quando a Pública esteve em Minaçu, um
desses proprietários relatou que a partir da operação da mineradora o córrego
ficou “sujo”, com uma espécie de gordura que conferia à água, antes
transparente e cristalina, um aspecto avermelhado. O medo dele era de que a
água estivesse afetando a saúde de suas vacas, que bebiam no córrego. No final
de 2024, ele disse ter contado pelo menos seis casos de abortos bovinos em
sequência, o que nunca havia acontecido antes.
Uma
fonte local com conhecimento da situação disse que o problema continua e que
outros pequenos proprietários também estão preocupados com a qualidade das
águas dos córregos.
A
reportagem fez uma série de perguntas à Serra Verde sobre os problemas
identificados na vistoria conjunta e no relatório da Semad. “A Serra Verde
mantém um engajamento construtivo com os reguladores. Estamos trabalhando
juntos para concluir essas questões”, respondeu a empresa.
Na
vistoria de novembro, os analistas identificaram outros problemas, como o uso
de explosivos, que não é autorizado pela licença, e a disposição irregular de
efluentes sanitários, além do agravamento dos processos erosivos, sem a devida
resposta pela empresa.
O
licenciamento ambiental da operação da mineradora foi realizado pela Semad, por
meio de um acordo com o Ibama assinado ainda em 2016. No ano seguinte, a Serra
Verde obteve a primeira licença ambiental necessária. Em 2023, depois de
identificar o desmatamento de aproximadamente 84 hectares sem autorização, a
Semad alterou a licença de funcionamento para uma modalidade “corretiva”. Para
regularizar o empreendimento, a mineradora precisa realizar um plano ambiental
e atender uma série de medidas condicionantes estipuladas na licença, vigente
até 2028.
Fonte:
Por Isabel Seta, da Agencia Pública

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