Maria
Luiza Falcão: A guerra de Netanyahu como método - do sul de Gaza ao sul do
Líbano
A
guerra no sul do Líbano entrou em uma nova fase — e não é apenas pela
intensidade dos combates ou pelo número crescente de deslocados. O que se
observa agora é algo mais grave: a consolidação de um padrão operacional que já
havia sido testado em Gaza e que passa a ser explicitamente replicado sob o
governo de Benjamin Netanyahu.
Não se
trata apenas de uma escalada militar. Trata-se da institucionalização de uma
forma específica de conduzir a guerra.
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Relatos
recentes, baseados em imagens de satélite, vídeos verificados e testemunhos de
civis, mostram a destruição sistemática de cidades inteiras próximas à
fronteira entre Israel e o Líbano.
Vilarejos
como Bint Jbeil, Houla e Aitaroun foram reduzidos a escombros.
Infraestruturas essenciais — casas, escolas, hospitais, redes de energia e
abastecimento de água — foram atingidas de forma extensa e, em muitos casos,
irreversível. Imagens dessa destruição são objeto de matéria divulgada em 3 de
maio pelo New York Times, de autoria de Samuel Gramados, Abdi Latif Dahir e
Santana Varghese, intitulada: “Israel afirmou que está aplicando o modelo de
Gaza no Líbano. Veja como ficou a devastação” (tradução livre).
O mais
inquietante, no entanto, não está apenas na escala da devastação, mas na sua
lógica.
Autoridades
israelenses passaram a afirmar abertamente que estão aplicando no sul do Líbano
o mesmo modelo utilizado em Gaza. Essa declaração, por si só, desloca o debate
da esfera do “erro” ou do “excesso” para o terreno da estratégia deliberada.
O que
está em curso não é uma sucessão de operações militares isoladas. É a aplicação
de uma doutrina.
Essa
doutrina se baseia em três pilares: destruição territorial em larga escala,
deslocamento massivo da população e criação de zonas tampão inabitáveis. Ao
transformar regiões inteiras em espaços inviáveis para a vida civil, o objetivo
deixa de ser apenas neutralizar um adversário armado e passa a incluir a
reconfiguração do território.
A
justificativa apresentada é conhecida: combater o Hezbollah, que operaria a
partir de áreas civis. Esse argumento, no entanto, entra em colapso diante da
evidência empírica. Quando bairros inteiros são demolidos e sistemas básicos de
sobrevivência são destruídos, já não se trata de atingir alvos militares
específicos. Trata-se de atingir as condições de existência de uma população.
Esse
ponto é central.
O
direito internacional humanitário não proíbe apenas ataques indiscriminados.
Ele proíbe a destruição de infraestrutura civil sem justificativa militar clara
e proporcional. Quando esse desmantelamento se torna sistemático, como indicam
os dados disponíveis, a linha entre operação militar e punição coletiva deixa
de ser tênue — ela é ultrapassada.
Não por
acaso, organizações como a Human Rights Watch têm sido diretas
ao classificar esse tipo de prática como potencial crime de guerra.
Mas o
padrão não se limita ao teatro de operações terrestres.
Ele se
estende ao controle das condições de sobrevivência — inclusive por meio do
bloqueio de ajuda humanitária. A recente interceptação, em águas
internacionais, de uma flotilha civil que se dirigia à Faixa de Gaza expõe essa
lógica com clareza.
Entre
os detidos estava o ativista brasileiro Thiago Ávila, integrante da
chamada Global Sumud Flotilla. Segundo relatos divulgados pela
própria organização e por sua defesa, Ávila foi submetido a agressões físicas,
mantido em isolamento e denunciou tratamento degradante durante sua detenção em
território israelense. Há ainda informações de que teria iniciado greve de fome
em protesto. Essas denúncias, se confirmadas, colocam o caso em um patamar
ainda mais preocupante no que diz respeito ao respeito a direitos fundamentais
de civis.
As
autoridades israelenses não confirmaram as acusações específicas, limitando-se
a afirmar que a interceptação ocorreu no contexto de atividades consideradas
ilegais.
Ainda
assim, o episódio é revelador.
Ele
indica que a lógica da guerra ultrapassa o campo de batalha e se projeta sobre
qualquer tentativa de romper o cerco humanitário. O controle não é apenas
territorial — é também sobre fluxos de ajuda, circulação de pessoas e, em
última instância, sobre a própria possibilidade de sobrevivência.
Esses
episódios, quando analisados em conjunto, revelam coerência.
Não são
eventos isolados. São expressões de uma mesma racionalidade.
E há um
elemento ainda mais perturbador, que emerge das evidências empíricas.
Imagens
comparativas indicam que áreas de maioria xiita — base social do Hezbollah —
sofreram níveis de destruição significativamente maiores do que localidades
vizinhas com outras composições religiosas. Se esse padrão se confirma, a
guerra incorpora uma dimensão de seletividade que se aproxima perigosamente de
uma lógica de punição coletiva com traços sectários.
Isso
altera qualitativamente o conflito.
Não se
trata mais apenas de um enfrentamento entre um Estado e uma organização armada.
Trata-se de uma guerra que passa a operar sobre o tecido social e demográfico,
reorganizando o território por meio da destruição.
A
consequência mais imediata é o deslocamento em massa. Mais de um milhão de
pessoas já foram forçadas a deixar suas casas no Líbano desde a retomada dos
combates. Mas o dado mais relevante não é o número — é a ausência de horizonte
de retorno.
A
criação de “zonas tampão” ocupadas militarmente e a devastação das cidades
tornam o deslocamento, na prática, permanente.
E é
aqui que a comparação com Gaza se torna incontornável.
O que
antes poderia ser interpretado como um caso extremo agora aparece como um
modelo replicável. Um modelo que transforma a destruição em instrumento de
controle territorial e político — e que se consolida sob a liderança de
Netanyahu como uma estratégia de longo prazo.
Isso
deveria provocar uma reação internacional imediata.
Mas não
provoca.
O
sistema internacional assiste, reage com declarações formais e segue incapaz de
impor limites efetivos. O direito internacional é invocado, mas não aplicado.
As denúncias se acumulam, mas não produzem consequências proporcionais.
Esse
descompasso não é acidental. Ele reflete a assimetria de poder que estrutura a
ordem internacional contemporânea. Normas existem — mas sua aplicação depende
de quem as viola.
O
resultado é a normalização progressiva de práticas que, até pouco tempo atrás,
seriam amplamente reconhecidas como inaceitáveis.
E esse
talvez seja o ponto mais grave de todos.
A
guerra que se desenrola hoje não está apenas redefinindo o equilíbrio de forças
no Oriente Médio. Ela está redefinindo os limites do que o mundo passa a
tolerar como prática de guerra.
Quando
a demolição de cidades inteiras deixa de ser exceção e passa a ser método, não
estamos apenas diante de uma tragédia humanitária.
Estamos
diante de um sistema internacional que escolhe — de forma cada vez menos
disfarçada — o que está disposto a ignorar.
¨
Trump abandona objetivos maximalistas nas negociações com
o Irã, aponta mídia
O
presidente norte-americano, Donald Trump, não está alcançando seus objetivos
iniciais na guerra contra o Irã, informa a mídia estadunidense.
A
reportagem destaca que a perspectiva de um acordo negociado sobre o programa nuclear
iraniano é
algo que Trump já rejeitou expressamente.
"Trump
não está conseguindo o que queria inicialmente dessa guerra. Em sua aparente
ansiedade para acabar com um conflito que se mostrou mais intenso do que ele
previa e que afundou seus números nas pesquisas para mínimos históricos,
Trump parece ter abandonado muitas de suas demandas iniciais
maximalistas", ressalta a publicação.
Segundo
a matéria, outro objetivo que desapareceu rapidamente foi a mudança de governo no Irã, que nem sequer é
mais discutida.
Trump
afirmou que o assassinato de vários líderes iranianos resultou em uma mudança
de regime político, mas esse argumento não se sustenta, principalmente
porque o atual líder supremo é filho de seu antecessor.
Outra
prioridade na inconsistente lista de metas do governo americano era interromper
o apoio do Irã a aliados no Oriente Médio, como Hamas e
Hezbollah.
No
entanto, não há indicação de que isso ocorrerá. Os detalhes das
negociações relatados pela mídia dos EUA sequer mencionam os grupos aliados ao
Irã.
Notavelmente, os
objetivos maximalistas de Trump foram rapidamente descartados por sua
administração, inclusive quando ele deixou de fora os aliados do Irã das
recentes perspectivas de acordo, conclui o material.
O líder
norte-americano disse na quarta-feira (6) que encerraria a operação Fúria Épica
se Teerã aceitasse as condições de Washington. Em 3 de maio, os Estados
Unidos enviaram ao lado paquistanês uma resposta à proposta do Irã, composta
por 14 pontos. O porta-voz do Ministério das
Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que Teerã ainda estava analisando
o documento, mas, até o momento, não tomou uma decisão final.
¨
Chanceler iraniano: EUA escolhem aventura militar sempre
que há solução diplomática
O
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, comentando os novos
confrontos com os EUA, afirmou que Washington escolhe uma aventura militar
imprudente toda vez que uma solução diplomática está em cima da mesa.
Na
noite de sexta-feira (8), o Comando Central dos
EUA afirmou
que, em resposta aos ataques contra suas forças, atingiu alvos militares
iranianos. O comando militar do Irã alegou que os EUA haviam violado a trégua
ao lançar um ataque em várias partes do país. O Irã respondeu à violação do
cessar-fogo pelos EUA atacando navios americanos.
"Toda
vez que uma solução diplomática está em cima da mesa, os EUA escolhem uma
aventura militar imprudente", escreveu Araghchi na
rede social X.
O
Ministério das Relações Exteriores iraniano, em uma declaração à parte, acusou
os EUA de violar o cessar-fogo, denunciando as ações de Washington e
chamando-as de provocação. Ao mesmo tempo, a chancelaria iraniana destacou que a
ação dos EUA não obteve sucesso.
¨
Fracasso total: apesar dos ataques dos EUA, Irã ainda tem
70% do arsenal de mísseis, diz mídia
Apesar
dos ataques dos EUA e de Israel, o Irã ainda mantém 70% de seu arsenal de
mísseis da época anterior à guerra, informa um jornal britânico citando um
relatório da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês).
A
reportagem aponta que, ao contrário das afirmações da Casa Branca de que as armas
de Teerã foram em grande parte destruídas, o relatório de inteligência indica o
contrário.
"Isso
destaca um fracasso significativo da guerra dos EUA contra o Irã, que
pretendia impedir o [governo iraniano] de reforçar suas defesas convencionais e
reconstruir seu programa nuclear", ressalta a publicação.
Ao
mesmo tempo, Teerã reabriu a maioria de suas instalações de armazenamento
subterrâneo, reparou mísseis danificados e montou novos.
De
acordo com a análise da CIA, o Irã ainda possui cerca de 75% de seus
lançadores de mísseis móveis da época da guerra. Dessa forma, os EUA não
conseguiram atingir plenamente um de seus principais objetivos estratégicos, e
o presidente americano, Donald Trump, parece focado em
pôr fim à guerra.
Além
disso, o Irã pode fechar o estreito de Ormuz, o que aumentaria a pressão
econômica sobre Washington, enquanto o cessar-fogo está em vigor. Teerã também
tem capacidade de suportar um bloqueio naval dos EUA, observa o jornal.
O líder
norte-americano disse na quarta-feira (6) que encerraria a operação Fúria
Épica se Teerã aceitasse as condições de Washington. Em 3 de maio, os Estados
Unidos enviaram ao Paquistão uma resposta à proposta do Irã, composta por 14
pontos. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, disse que Teerã
ainda estava analisando o documento, mas, até o momento, não tomou uma decisão
final.
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Bloqueio marítimo dos EUA não danifica infraestrutura de
petróleo do Irã, acredita especialista
O
bloqueio naval dos EUA não causará muitos danos à infraestrutura petrolífera do
Irã, já que Teerã tem experiência em reduzir drasticamente a produção sob
pressão das sanções de Washington, disse Gregory Brew, especialista do fundo
analítico Eurasia Group, a uma agência de notícias norte-americana.
De acordo com a NBC
News,
autoridades ocidentais e analistas do setor de energia acreditam que o Irã
provavelmente será capaz de suportar a pressão do bloqueio naval
norte-americano por meses sem uma grande crise econômica ou danos de longo
prazo aos campos de petróleo.
"Eu não
acho que isso vá causar grandes danos à infraestrutura deles [dos
iranianos]. Eles sabem como fazer. Já fizeram isso antes", disse Brew.
A mídia
relatou que, depois que o bloqueio foi imposto há cerca de um
mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, e representantes de seu
governo esperavam uma crise iminente na indústria petrolífera
iraniana.
Em
particular, Trump afirmou que a infraestrutura petrolífera do Irã poderia
"explodir" se Teerã não pudesse exportar seu petróleo. No
entanto, esse cenário não se concretizou, apontou a agência de notícias,
ressaltando que o Irã se adaptou bem às condições do bloqueio.
Além
disso, embora o Irã ainda tenha que fechar alguns de seus poços, e os
reservatórios de petróleo estejam cheios e não estejam sendo esvaziados, o
petróleo iraniano pode ser amplamente utilizado no mercado interno do país, o
que permitirá que os campos continuem operando, acrescentou a mídia.
Em 28
de fevereiro, os Estados Unidos e Israel começaram a atacar alvos no Irã,
e mais de 3 mil pessoas foram vítimas da agressão. Em 8 de abril,
Washington e Teerã anunciaram um cessar-fogo. No entanto, violações da
trégua continuam sendo
registradas.
As
negociações ocorridas em Islamabad depois disso terminaram em vão, enquanto a retomada
das hostilidades não foi relatada, mas os Estados Unidos iniciaram um
bloqueio aos portos iranianos.
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Estoques mundiais de petróleo se esgotam com rapidez extrema por causa da
guerra no Irã, alerta mídia
O risco
de aumento acentuado de preços e de escassez de recursos no mundo está se
aproximando cada vez mais rapidamente à medida que o esgotamento das reservas
globais de petróleo se aproxima de um nível crítico, advertiu uma agência de
notícias ocidental.
De acordo com a
agência Bloomberg,
a guerra no Irã já estrangulou os fluxos de petróleo do golfo Pérsico a tal
ponto que o uso forçado das reservas globais de petróleo se aproxima do
volume cuja abertura acarreta riscos de um choque econômico.
"O
rápido declínio dos estoques significa que o risco de picos de preços e
déficits ainda mais acentuados está se aproximando, deixando governos e
indústrias com menos espaço para mitigar a perda de mais de um bilhão de barris
de oferta, dois meses após o fechamento quase total do estreito de Ormuz",
avalia a publicação.
Segundo
o texto, existe um "mínimo operacional" necessário para o
funcionamento normal do fluxo de petróleo e que atua como um amortecedor para o
sistema global. O esgotamento das reservas
mundiais está se aproximando desse nível, escreve o artigo.
"O
conflito já elevou os preços do petróleo e dos principais
combustíveis, ameaçando aumentar a inflação e alimentando o risco de uma
recessão global. Ele causou uma escassez de gás liquefeito e de petróleo
na Índia, forçou as companhias aéreas a cancelar voos e elevou os preços da
gasolina para os motoristas norte-americanos", observa a publicação.
Na
opinião dos autores do texto, os países asiáticos, apesar de terem sofrido
cortes nos fornecimentos de petróleo, ainda têm uma quantidade significativa de
energia. Na China, por exemplo, os
níveis de estoque são tão altos que Pequim está considerando exportar os
recursos.
Entretanto,
na Europa, altamente dependente do combustível de
aviação,
já há escassez desse produto e é observado um declínio constante nos estoques.
Assim, de acordo com o artigo, as reservas de combustível de aviação no hub
Amsterdã-Roterdã-Antuérpia diminuíram em um terço desde o início da guerra
no Irã, atingindo uma mínima de seis anos.
Em
meados de abril, a Marinha dos EUA começou a bloquear todo o tráfego
marítimo que entrava e saía dos portos iranianos em ambos os lados do estreito
de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global, derivados e
suprimentos de gás natural liquefeito.
Fonte:
Brasil 247/Sputnik Brasil

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