O
'Jesus grego' que foi cancelado pelo cristianismo
O
enredo é bem conhecido do mundo religioso. Trata-se da história de um homem
barbudo, que trajava túnica simples e que viveu há cerca de 2 mil anos. Era
reconhecido como sábio, dotado de excelente oratória e teria realizado
milagres: curado doentes, ressuscitado mortos, alimentado famintos. Acabou
reunindo seguidores.
Provocou
a ira dos poderosos romanos e chegou a ser condenado por eles.
Mas
alcançou a vida eterna, levado de corpo e alma para os céus.
Não,
não se trata de Jesus de Nazaré. Esta narrativa, que cabe perfeitamente naquela
que está na base da religiosidade cristã, é um resumo do que teria sido a vida
de um outro personagem extraordinário, um sujeito que também teria vivido no
primeiro século da Era Comum: Apolônio de Tiana.
E não é
por acaso que muitos o definem como o "Jesus grego" ou o "Jesus
pagão". A mitologia erguida ao redor de sua biografia guarda semelhanças
muito grandes com a narração presente nos evangelhos que contam a trajetória da
figura central da religiosidade cristã.
"Após
sua morte, sua figura passou a ser venerada em algumas cidades do mundo grego
oriental", comenta o filósofo Dennys Garcia Xavier, professor na
Universidade Federal de Uberlândia. "Em certos locais houve até estátuas e
honras cívicas. No entanto, isso não se transformou em igreja organizada ou
corpo doutrinário sistemático. Menos ainda em um culto litúrgico estruturado
dotado de escritura sagrada normativa."
Pouco
se sabe de fato sobre quem foi Apolônio, embora haja um consenso entre
historiadores de que, assim como Jesus de Nazaré, foi uma figura que existiu de
fato. O mais provável é que ele tenha nascido por volta do ano 15 em Tiana,
antiga cidade da Capadócia em região da atual Turquia, e morrido por volta do
ano 100 na antiga cidade grega de Éfeso, também na atual Turquia.
"Certamente
existiu Apolônio, assim como existiu Jesus. Não há dúvida quanto a isso. Mas em
ambos os casos, suas biografias obedeciam a padrões e expectativas por parte do
público e dos padrões da época", comenta o filósofo Gabriele Cornelli, professor
na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro Sábios, Filósofos, Profetas
ou Magos?, que trata, como diz o subtítulo, da "magia incômoda de Apolônio
de Tiana e Jesus de Nazaré".
De
origem grega, Apolônio foi um filósofo da linha neopitagórica, praticante do
ascetismo — ou seja, alguém que renunciava aos prazeres em busca de um
desenvolvimento espiritual, com disciplina moral e busca pelo conhecimento — e
teria viajado disseminando seus ensinamentos.
Acredita-se
que ele era de família abastada e, desde muito jovem, tenha estudado filosofia.
"Também
é possível que ele tenha viajado pelo Mediterrâneo e pelo Oriente, atuando como
uma espécie de filósofo itinerante, algo comum em sua época", esclarece a
historiadora Semíramis Corsi Silva, professora na Universidade Federal de
Uberlândia (UFU).
Conforme
explica o historiador Daniel Brasil Justi, professor na Universidade Federal do
Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), a carência de referências documentais contemporâneas a Apolônio é algo
relativamente recorrente a figuras dessa época. Mas sua existência pode ser
comprovada pela chamada múltipla atestação — ou seja, por relatos de autores
diferentes e sem relação entre si que tratam do mesmo indivíduo.
O que
não significa que tudo o que se diga a respeito dele seja verdadeiro.
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Contaminação literária
"O
personagem de Apolônio de Tiana é um ótimo exemplo de como história e ficção
podem se misturar", diz Silva. "Em termos gerais, a maioria dos
pesquisadores considera que ele provavelmente existiu como um filósofo
itinerante do século 1º, oriundo da Capadócia, então província do Império
Romano. No entanto, a imagem que chegou até nós está marcada por elementos
literários."
Silva
estudou o tema em seu doutorado realizado na Universidade Estadual Paulista.
Essa
contaminação literária a respeito da vida real de Apolônio foi causada
principalmente pela obra Vida de Apolônio de Tiana, livro escrito por Flávio
Filóstrato (170-250), um grego sofista que se dedicou a produzir essa biografia
elogiosa e com contornos místicos a respeito de Apolônio no século 3º.
Segundo
Justi, há o entendimento de que registros breves de ditos e supostos milagres
realizados por Apolônio tenham servido como pano de fundo para a biografia
dele.
Filóstrato
narrou a trajetória de Apolônio por meio de inúmeras viagens. De acordo com o
filósofo Cornelli, o que explica que os relatos são cheios de episódios
fantásticos é que, na maneira como se biografavam personalidades naquela época,
o enredo precisava mostrar que pessoas notáveis eram grandiosas do começo ao
fim da vida. "Não tem a ideia da evolução do pouco para o muito. Tem de
ser extraordinário do alfa ao ômega", contextualiza.
"Sabemos
muito pouco sobre a vida real de Apolônio. O que temos é um quebra-cabeças
sobre o mundo onde ele esteve, considerando que ele era um filósofo e que teria
transitado muito pelo Mediterrâneo e, talvez, até pela Mesopotâmia",
comenta Cornelli.
Para o
pesquisador, é de se supor que ele tenha visitado cidades importantes daquela
época, como Atenas, Roma e Alexandria.
Como
concordam os pesquisadores, a Vida de Apolônio de Tiana muito provavelmente foi
um texto encomendado a Filóstrato pela imperatriz romana Júlia Domna (170-217).
"Tinha intenções claras de exaltar o personagem ao qual a dinastia
severiana [que governou de 193 a 235] parece ter admirado e até cultuado",
pontua Silva.
"A
grande questão é que esse livro pode muito bem ser uma biografia romanceada,
muito mais do que uma biografia propriamente dita", afirma o filósofo Aldo
Dinucci, professor na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
No
livro estão narrados feitos extraordinários realizados por Apolônio — curas,
previsões e um rol de milagres.
"Ele
seria o homem sagrado mais famoso da antiguidade, só perdendo para Jesus",
comenta Dinucci.
E teria
viajado muito. "Os relatos falam em visita aos brâmanes na Índia e aos
filósofos que andavam nus na Etiópia", diz Dinucci. "E entre seus
feitos estaria a ressurreição de uma garota." Apolônio seria um homem de
oratória impressionante e que, no início de sua missão, havia feito um voto de
silêncio de cinco anos.
Acredita-se
que a obra de Filóstrato tinha interesse em engrandecer o personagem tanto por
seus gostos próprios como pela predileção da dinastia que estava no poder em
Roma.
A
existência de Apolônio como personagem histórico apoia-se no fato de que ele
também é mencionado em outras obras. "De forma mais sóbria e até
crítica", salienta Silva. É o caso de autores como o historiador romano
Dião Cássio (155-229). "Isso reforça a ideia de que sua vida não se trata
de uma invenção completa", diz a historiadora.
"Além
disso, há a tradição de cartas atribuídas a Apolônio. Embora a autenticidade
delas seja discutida, isso indica que já na Antiguidade circulava a imagem de
Apolônio como mestre filosófico e conselheiro, para além da biografia escrita
por Filóstrato", argumenta ela.
Por
conta desse cenário, o mais aceito hoje é que Apolônio seja um personagem real.
Mas alguém que teve sua vida progressivamente reinterpretada e, como enfatiza
Silva, "enriquecida pela tradição literária, adquirindo contornos que
misturam história e ficção".
Não
muito diferente do que costuma acontecer com personagens religiosos.
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Contemporâneos mas desconhecidos
Embora
Apolônio e Jesus possivelmente tenham sido praticamente contemporâneos, não há
evidências de que um tenha sabido da existência do outro.
"Não
existe qualquer evidência histórica confiável de contato direto entre eles, nem
sequer indireto", diz Xavier. "Isso não deve surpreender o homem
contemporâneo. O mundo romano do século 1º era vastíssimo, e figuras religiosas
itinerantes surgiam aos borbotões em diversas regiões simultaneamente. Jesus
atuou principalmente na Galileia e na Judeia. Apolônio circulou sobretudo pela
Ásia Menor, Síria, Egito e Grécia, ao que parece."
"Essa
é uma questão interessante porque aproxima duas figuras que, embora
contemporâneas, pertencem a tradições diferentes. Apolônio de Tiana e Jesus de
Nazaré teriam vivido no início do século 1º e ambos foram posteriormente
associados a feitos extraordinários", comenta Silva. "Porém, não há
evidência histórica de que tenham tido conhecimento um do outro. As fontes que
mencionam Apolônio, especialmente a obra de Filóstrato, são relativamente
tardias e não fazem referência a Jesus ou ao movimento cristão. Da mesma forma,
os textos do Novo Testamento não mencionam Apolônio."
Cornelli
diz ser possível que Filóstrato tenha ouvido falar sobre Jesus — mas acha
improvável que ele tenha tido contato com os textos que narravam a vida do
nazareno. "Na época, ele não era alguém tão importante", ressalta.
A
historiadora Silva lembra que os seguidores de ambos, estes sim, de alguma
forma esbarraram na história um do outro. Ela nota que a partir do final do
século 3º, com o cristianismo começando a se consolidar, há registros de
autores estabelecendo comparações entre o nazareno e o tianeu.
"Sosiano
Hierócles, escritor e político romano ativo no final do século 3º e início do
4º, escreveu uma obra conhecida como Amante da Verdade, na qual teria
apresentado Apolônio com um exemplo de sábio comparável, ou até superior, a
Jesus", comenta a historiadora.
O bispo
cristão Eusébio de Cesareia (265-339), considerado o primeiro historiador do
cristianismo, não gostou. Rebateu com um tratado intitulado Contra Hierócles,
no qual defendia a singularidade de Jesus.
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Magia e charlatanismo
Silva
frisa ainda que há nos textos greco-romanos diversos textos que apresentam
Apolônio de forma mais crítica. Era a oposição entre a teurgia e a goécia — um
lado visto como ligado aos deuses, outro demoníaco. "Em certos relatos,
ele não aparece como um sábio ascético que não comia ou vestia nada vindo de
animais em busca de pureza e elevação", comenta. "Nessa outra
tradição, ele é associado à figura do 'goēs', alguém ligado a práticas de
encantamento, feitiçaria e manipulação de forças ocultas."
Ela
explica que esta era uma visão pejorativa. E Apolônio foi qualificado como
ligado a magia goética em uma homilia do arcebispo de Constantinopla João
Crisóstomo (347-407). Cirilo de Alexandria (375-444) era outro bispo que também
o criticava. "Para esses autores, o tianeu era um charlatão", observa
a historiadora.
Para o
historiador Justi, há uma diferença etimológica que separa a narrativa de Jesus
da de Apolônio — e isto permeia a descrição do fantástico que eles supostamente
faziam. Enquanto a tradição latina adotada pelo cristianismo derivou para a
palavra milagre, a linha grega dos relatos de Apolônio empregava a ideia do
taumaturgo. Ou seja: do que fazia encantamentos, maravilhas.
Gradualmente,
o cristianismo passou a demonizar um lado, como sendo o da magia, e valorizar o
outro, como sendo o do divino. Com a consolidação da religião baseada nos
ensinamentos de Jesus, veio o apagamento de Apolônio.
"Por
trás das duas figuras, há um campo semântico diferente", comenta Justi.
"Mas ambos estão no âmbito da magia, em crenças que dominavam o
Mediterrâneo da época."
A
diferença, explica o historiador, é que gradualmente se consolida a ideia de
que um era um divino, enquanto o outro o feiticeiro.
Assim
como Jesus, Apolônio também teve seguidores póstumos. A historiadora Silva,
contudo, lembra que o modelo não foi semelhante ao do cristianismo — não há
indícios de que tenha nascido uma religião organizada, com comunidades e
doutrina, a partir do legado do sábio grego.
"Não
foi uma religião fundada, mas sim um conjunto de pessoas que seguiam essas
ideias", aponta Justi.
"Mas
Filóstrato conta que chegou a visitar um templo dedicado ao culto de Apolônio
em Tiana", acrescenta Dinucci.
"As
fontes […] indicam que ele foi seguido como um mestre filosófico ligado ao
neopitagorismo, e admirado por seu estilo de vida ascético e pelos seus
ensinamentos", comenta Silva. "Após sua morte, sua reputação não só
continuou como foi ampliada. Ele passou a ser visto como um 'homem
divino'." Para ela, o que houve foi uma "recepção intelectual"
de sua figura.
Para os
especialistas, as histórias parecidas entre Jesus e Apolônio têm muito mais a
ver com o caldo cultural onde esses personagens foram ressignificados do que
com uma coincidência aleatória. "As semelhanças […] podem ser explicadas
principalmente pelo contexto cultural do mundo antigo", pontua Silva.
"Tanto nas tradições grego-romanas quanto nas orientais, em contatos e
confluências, era comum atribuir feitos extraordinários a figuras consideradas
'homens divinos', incluindo curas e narrativas de retorno da morte."
"Isso
não significa necessariamente que as histórias dependam uma da outra, mas que
compartilham um mesmo repertório religioso e literário da época", ressalta
ela, acrescentando que os embates entre cristãos e não-cristãos, reforçando as
comparações entre os dois, serviram para ampliar ainda mais a ideia de que
havia semelhanças.
Daí não
só os feitos ditos milagrosos de Apolônio, como também a crença de que ele não
teria morrido — mas sido levado aos céus e, depois da morte, como um
ressuscitado, reaparecido a algumas pessoas.
"Essas
histórias eram comuns na época sobre personagens importantes", pontua
Cornelli. "Eram tão extraordinários que precisavam ser percebidos com
algum tipo de poder divino ou alguma ligação especial com o divino. Isso
independia da religião, se grega, romana ou judaica."
Ele diz
que tais narrativas combinavam a junção do conhecimento, da sabedoria, do
ensinamento, das falas importantes e de algum tipo de poder divino — que
aparecia do nascimento à morte. Apolônio também, acreditava-se, tinha sido
fruto de uma concepção virginal — lembra Cornelli. "E no final da vida
morre, mas reaparece. Ressuscita", analisa ele. "A mesma maneira de
contar as histórias: um começo extraordinário até um fim extraordinário."
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Apagamento histórico
Justi
conta que o imperador Constantino (272-337), aquele que se converteu ao
cristianismo, acabou sepultando a memória de Apolônio. "Há evidências de
que, quando ele mandou destruir tudo [o que era ligado ao paganismo], foram
destruídos materiais ligados a Apolônio", comenta.
Embora
seja inevitável comparar o tianeu e o nazareno com os olhares contemporâneos, o
anacronismo torna esse paralelismo incorreto. "Atribuir a Apolônio a ideia
de um 'Jesus pagão' é desconhecer por completo a dinâmica da Bacia
Mediterrânea, em que havia um sem-número de personalidades parecidas com
Jesus", lembra Justi.
"Talvez
o ponto mais relevante seja compreender quem Apolônio realmente foi dentro da
tradição filosófica antiga", acredita Xavier. "Ele não foi um profeta
apocalíptico como Jesus, nem fundador de religião revelada. Foi antes um
representante tardio do ideal grego segundo o qual a filosofia é uma forma de
vida."
Para o
professor, Apolônio é "testemunho de que o século 1º foi um período
sobremaneira fértil em figuras carismáticas que procuravam reformar a vida
moral e religiosa do mundo antigo".
Fonte:
BBC News Brasil

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