A
música sertaneja filha do agronegócio
Começando
com um comentário simplório: onde a vaca vai, o boi vai atrás; onde o negócio
vai, a cultura vai atrás.
Como se
sabe, o modo de produção e as relações econômicas e sociais que dele derivam
desenham a cara da sociedade. Os caminhos que a música sertaneja seguiu desde o
começo do século XX são evidências disso. Ela já foi a música de caipiras, cuja
origem era a zona rural de uma agricultura atrasada. Hoje ela se diz
universitária e se ancora no agronegócio, que nos nossos dias é a principal
atividade da economia do país.
A
música caipira, também chamada de sertaneja, começa por ser o modo de expressão
de artistas originários do meio rural do interior paulista, dominado pelo
latifúndio do café — à margem do qual se produziam em pequenas propriedades os
alimentos do dia a dia, o leite, o porco, o frango, ovos, a verdura, as frutas,
para as cidades e para a subsistência.
Naqueles
terreiros se encontravam o caipira paulista, vindo do indígena, do negro e do
português, suas modas e danças como o cateretê, com os descendentes do italiano
e do espanhol e suas memórias musicais. Deles vai nascer um tipo de música, a
moda de viola, que faz o elogio da vida no campo em contraste com a vida na
cidade, que trata da relação do peão com o gado, da beleza da natureza, das
tristezas do caboclo, o amor, o drama.
Esses
artistas, de um falar diferente do falar urbano, chamado de caipira com um tom
de desdém, apesar disso encontraram um público nas cidades, divulgaram essas
músicas, as levaram para o disco e a rádio. São aqueles mesmos chamados jecas,
de mãos calejadas pela foice e a enxada, saídos da roça pela força de sua
poética e o som de suas violas. Como Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho e
tantos outros.
Nas
décadas seguintes, o país se industrializou, as cidades cresceram, a sociedade
mudou. Expressando essas mudanças, a cultura musical encontrou outras formas. A
música sertaneja de São Paulo incorporou influências nordestinas e gaúchas, do
México e do Paraguai, do country dos Estados Unidos. Foram introduzidos outros
instrumentos, como o acordeon (sanfona), bateria e guitarra, mas manteve seus
temas principais. Posteriormente, iria passar por grandes modificações.
O
agronegócio nasceu na ditadura militar. No final da década de 1960, o governo
da época, a ditadura militar, acossado pela pressão do excedente de camponeses
sem terra e pelos nordestinos flagelados pela seca, tentou induzi-los a imigrar
para o Centro-Oeste e Norte, Mato Grosso, então vazios populacionais. Os
camponeses resistiram. Queriam terra, mas no Centro-Sul, perto das cidades e
estradas, onde havia (e há) enormes latifúndios improdutivos. Sem alternativa,
uma parte deles seguiu para o Norte. Acabaram como mão de obra nos latifúndios
modernizados instalados por ali.
Porque
a política do governo tinha outra abordagem, a de promover a implantação de
empresas agropecuárias para ocupar o enorme vazio. Fez estradas, deu grandes
extensões de terra, promoveu incentivos fiscais para estimular os investimentos
no Pará, Rondônia, Mato Grosso. Foi o PIN (Plano de Integração Nacional), um
processo de modernização conservadora. Pecuaristas de São Paulo, Minas Gerais e
até multinacionais como a Volkswagen participaram de imenso desmatamento e
implantação de pastagens para criação de gado.
Depois,
na década de 1980, vieram os agricultores, muitos vindos do Rio Grande do Sul e
Paraná. Trouxeram sua cultura gaúchesca e a música vanerão. Começaram a plantar
soja, milho e algodão para a exportação. O mercado internacional estava sedento
dessas commodities. Grandes multinacionais se envolveram no processo,
instalando-se no centro do sistema — Cargill, Dreyfus, Bunge etc. — passaram a
controlar os investimentos para os grandes agricultores, a produção e venda de
adubos, venenos, máquinas e tratores. Desde a década de 1980, dominam os preços
do produto colhido, valorado na Bolsa de Chicago, e se encarregam de sua
exportação, seja para a China ou qualquer outra parte.
Esse
sistema internacional associado aos grandes produtores brasileiros se tornou
conhecido como agronegócio. Isso porque não envolve apenas a agricultura, mas
um sistema industrial de financiamento, produção e comércio de máquinas, adubos
e agrotóxicos, importação de insumos e exportação da produção.
Cresceu
de tal forma que, após 40 anos, se tornou o principal contribuinte para o PIB
da economia brasileira, ao mesmo tempo em que a indústria nacional mergulhava
em uma crise prolongada, perdendo espaço e atrasando-se tecnologicamente.
Trata-se de uma reprimarização da economia do país. Isto é, as atividades
econômicas primárias passaram a predominar, o país retornando a uma condição de
fornecedor de matérias-primas para o mercado internacional e sendo obrigado a
importar produtos industrializados, muitos dos quais antes produzia. Exemplo: o
Brasil produzia seus trens: locomotivas, vagões, trilhos; hoje importa.
O
agronegócio se desenvolveu a partir do Centro-Sul, São Paulo, Paraná, Rio
Grande do Sul, e se expandiu para o Centro-Oeste e Norte, Mato Grosso do Sul,
Mato Grosso, Goiás, Pará, Rondônia, depois para o Leste: Bahia, Piauí,
Tocantins, Maranhão. Grande desmatamento da floresta e do cerrado, cobrindo o
solo com produção de soja, milho, algodão e pastagens para o gado, quase tudo
para a exportação.
Essa
agroindústria torna-se responsável por transformações como a expansão da malha
rodoviária e o surgimento de centros produtivos em torno de seu território em
cidades de pequeno e médio porte que funcionam como agrofornecedores, as
oficinas, hotéis, escritórios de assessoria agronômica. E emergem como símbolos
ideológicos de modernidade (amplo uso da internet), riqueza, sucesso.
À
sombra desse sistema de hegemonia capitalista, se desenvolveu um ambiente
cultural próprio, presente nas relações sociais, inclusive na música, como se
verá adiante, e que se caracteriza pelo posicionamento político conservador,
cujos representantes nas entidades de governo e do Parlamento irão se tornar
predominantes no cenário tanto local como nacional. Em 2026, a maior bancada no
Congresso Nacional é a do agronegócio.
A
modernização das práticas agrícolas com a inclusão de novas tecnologias,
equipamentos sofisticados e novos métodos de tratamento do solo exigia mão de
obra mais desenvolvida. Essa demanda foi atendida não só pela imigração dos
centros urbanos do Centro-Sul como pela implantação massiva de novas
universidades pelo interior do país promovida pelos governos do PT (com Lula de
2003 a 2010 e Dilma até 2016). Assim, os jovens do interior ganhavam
oportunidade de se preparar para atender à procura dessa nova mão de obra,
formando-se majoritariamente em agronomia, medicina veterinária e zootecnia,
entre outras disciplinas.
A
música sertaneja predomina nesse ambiente rural. Ela será absorvida, mas também
modificada pelos novos artistas que vão surgindo à sombra do agronegócio,
procurando atender a um novo público, pela primeira vez majoritariamente jovem
e, como os novos artistas, eles também fazendo parte da juventude
universitária.
Estudantes
não só estudam, mas se divertem. Foi nesse contexto, através de jovens artistas
que tocavam em festas e barzinhos em cidades-chave do agronegócio, como Campo
Grande, no Mato Grosso do Sul, que o sertanejo universitário despontou. Sua
origem se localiza entre 2003 e 2005, com o lançamento de álbuns precursores
como Palavras de Amor, de Cesar Menotti e Fabiano. Tratam de “expressão em
formação” na medida em que incorporam elementos da música sertaneja anterior
tanto quanto os que se gestavam.
O
agronegócio, preocupado com sua própria imagem, criticado como “conservador”,
“atrasado”, “destruidor do meio ambiente”, buscou estratégias de marketing para
se apresentar positivamente com expressões como “O agro é tech, o agro é pop, o
agro é tudo”. E, principalmente no início, incentivou o sertanejo universitário
como uma expressão representativa do ambiente rural modernizado.
O
surgimento desse subgênero se deu em um momento de crise da indústria
fonográfica. Os novos artistas, fazendo gravações sem sofisticação, se
apresentando ao vivo em bares, festas, foram além: encontram caminhos
alternativos para divulgar amplamente sua música por meio da internet, pela
pirataria, plataformas de streaming como Netflix, Spotify e redes sociais como
TikTok, Facebook e Instagram. Foi o gênero musical que melhor aproveitou a
grande janela da internet.
Logo,
essa vertente foi abraçada pelo mercado musical capitalista, que investiu nos
artistas e em marketing e propaganda. Não foi a primeira vez que concepções
artísticas surgiram atreladas a estratégias de mercado. A arte no capitalismo,
transformada em mercadoria, está sujeita às imposições da indústria de bens
culturais, cuja meta prioritária é o lucro.
Assim,
o sertanejo universitário teve amplificada sua presença junto ao público, em
feiras e exposições agropecuárias, e nos rodeios, como os de Barretos (SP) e
Expo Londrina (PR), AgroShow e muitos outros eventos. Em seguida, seus artistas
chegaram a mega shows na TV e no rádio, sua música virou trilha de novela da TV
Globo, tornando-se o fenômeno musical de maior repercussão, não só nas regiões
do agronegócio, mas em todo o país, empolgando principalmente a juventude.
Para
teóricos como Theodor Adorno, em Introdução à Sociologia da Música, tais
músicas não são autênticas manifestações de cultura de massas produzida pelo
povo. Trata-se de um produto da indústria cultural.
De
fato, hoje o cenário sertanejo é de um processo de intensificação da divisão de
trabalho por meio de startups e escritórios especializados nas composições de
hits, de onde surgem todo dia canções compostas e em seguida lançadas no
mercado. Realizadas por grupos de autores, eles repartem a renda obtida através
de direitos autorais.
Isso só
foi possível a partir da concentração de capitais investidos no setor, o que o
tornou o centro da indústria cultural brasileira do século XXI. Os
investimentos nessa vertente musical foram além dos festejos agropecuários,
desenvolveram uma série de festivais próprios de música sertaneja, como o
Caldas Country e o Villa Mix, ambos oriundos de Goiás.
A
estratégia de lançamentos faz uso generalizado do tradicional “jabá”, que é a
compra de espaço na emissora de TV ou rádio, que torna visível o artista ou uma
canção específica em detrimento de outras produções. Um artista que fatura de
20 a 40 milhões por ano sustenta sua visibilidade gastando 500 mil reais para
cada faixa que divulga no rádio. O único risco que corre é de a música dar
errado.
Esse
subgênero musical tem encontrado muitas resistências, a começar por parte de
artistas sertanejos tradicionais como Zezé de Camargo, que o qualificou de
“mentira marqueteira”, e críticos musicais como Mário Marques, que disse: “é
uma praga!” Na população, há quem não goste e o chame de “sertanojo” e outros
epítetos depreciativos.
Afinal,
que música é essa? Apropria-se da rítmica e sonoridade da música sertaneja
tradicional. E acrescenta à viola e violão o acordeon e a guitarra, absorvendo
um toque country. Importa outras características, como o chapéu e botas de
cowboy e cinturão com largas fivelas. A temática varia desde a crônica da vida
universitária, como em Faculdade da Pinga: “da faculdade não sei quando que eu
saio formado/mas na escola da pinga eu já tenho doutorado”.
O tema
do “amor” aparece combinado com o universo das festividades dos rodeios, festas
de peão, feiras e exposições agropecuárias e até referências ao sucesso
econômico individual, como no caso de:
Eu vou
fazer um leilão/Quem dá mais pelo meu coração…
Um
exemplo significativo desse subgênero musical, fruto cultural do agronegócio e
de um ambiente universitário voltado para o rural, é a música Aceito sua
decisão/Pois é, da dupla João Bosco & Vinicius. Em um vídeo, seis músicos
estão sentados em banquinhos e caixotes num gramado, tendo ao fundo uma casa em
ruínas tipicamente rural. Dois cantores com sotaque caipira, carregado nos
erres, acompanhados por parceiros no acordeon, viola, violão e guitarra. A
melodia tem toques de guarânia. Descreve a cena de um casal se separando:
tudo
bem, pode ir, eu aceito sua decisão/abro a porta da sala e a ajudo com as malas
(…) finalizo nosso caso tudo entre nós acabado/ porta aberta para a solidão…
O
sertanejo universitário foi assim chamado porque a maioria dos artistas veio
desse meio universitário que se formou em capitais do interior do país, como
Campo Grande. E também porque, principalmente no início, seu público era
majoritariamente jovem e em grande parte universitário.
Hoje
esse subgênero faz parte de um grande complexo da indústria cultural do país.
Cobrando cachês milionários, seus artistas têm acumulado fortunas. Muitas de
suas músicas alcançaram sucesso nacional e, pelo menos uma, Ai se eu te pego!
do paranaense Michel Teló, teve repercussão internacional. Michel Teló veio das
origens desse gênero musical, apresentando-se nos barzinhos do início dos anos
2000, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Talvez seja o maior representante do
sertanejo universitário. Mas nunca frequentou a universidade.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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