Luís
Nassif: Projeto Brasil - porque as terras raras comandarão a reindustrialização
no país
Quando
se fala em terras raras, especialmente na relevância delas para a
reindustrialização do país, ainda há muita mitologia, muita dificuldade para
entender as possibilidades que se abrem com ela. Praticamente nenhuma associação industrial
montou, até agora, um projeto mapeando as possibilidades com a cadeia produtiva
das terras raras, da extração aos produtos finais.
Vamos a
um exercício rápido em torno dessas possibilidades.
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Peça 1 – a cadeia produtiva
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Setores industriais ao longo da cadeia produtiva de terras raras
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Elo 1 — Geologia e pesquisa mineral
Reservas
de 21 Mt (2ª maior reserva do mundo), ainda subqualificadas tecnicamente.
Setores
que emergem: geotecnologia e software (modelagem 3D, IA geológica aplicada à
prospecção); sondagem e laboratórios analíticos (ensaios, metrologia mineral,
qualificação de jazidas).
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Elo 2 — Extração (lavra)
Produção
atual residual frente ao potencial. Projetos Serra Verde (GO) e Caldeira (MG)
são os mais avançados.
Setores
que emergem: equipamentos de mineração (máquinas, sensores, automação de
lavra); logística e infraestrutura (ferrovias, portos, armazenamento de
concentrado).
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Elo 3 — Beneficiamento (concentração)
Etapa
incipiente no Brasil, com gargalo logístico entre mina e planta.
Setores
que emergem: plantas de beneficiamento (flotação, hidrometalurgia); engenharia
química e ambiental (gestão de rejeitos, licenciamento, passivo ambiental).
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Elo 4 — Refino químico (óxidos e metais)
Principal
gargalo. China domina mais de 70% do processamento global. Brasil praticamente
ausente neste elo, que concentra o maior valor agregado da cadeia.
Setores
que emergem: química fina e separação (extração por solvente, troca iônica —
CETEM e IPEN têm rotas laboratoriais comprovadas); materiais avançados
(cerâmicas técnicas, catalisadores, fósforos para iluminação, vidros
especiais).
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Elo 5 — Insumos intermediários (ligas e compostos)
Brasil
importa hoje da China. Etapa que converte óxidos em matéria-prima industrial.
Setores
que emergem: metalurgia especial (ligas NdFeB e SmCo para ímãs, precursores de
baterias como NMC e LFP); fertilizantes e agroquímica (fosfatados, potássicos e
nitrogenados — conexão direta com segurança alimentar e redução de dependência
externa).
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Elo 6 — Manufatura avançada (componentes)
Brasil
ausente. Importa a totalidade dos produtos finais que dependem de terras raras.
Setores
que emergem: ímãs permanentes (motores elétricos, turbinas eólicas de geração
direta, alto-falantes, equipamentos de ressonância magnética — nó estratégico
de toda a cadeia); baterias e veículos elétricos (células, módulos, packs para
EVs, ônibus e armazenamento estacionário); energia eólica e solar (geradores,
inversores, painéis fotovoltaicos — WEG é âncora potencial para demanda de
ímãs).
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Elo 7 — Reciclagem e economia circular
Embrionário
no Brasil. INCT PaTrIA tem rotas laboratoriais para recuperação de elementos.
Setores
que emergem: mineração urbana (recuperação de eletroeletrônicos, baterias
exauridas, ímãs usados); logística reversa e serviços (coleta, triagem,
certificação, rastreabilidade digital — espaço natural para PMEs e startups).
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Setores transversais — presentes em toda a cadeia
Quatro
setores atravessam todos os elos e não pertencem a nenhum em particular:
Software
e automação (IA aplicada à geologia e à produção, IoT industrial, gêmeos
digitais de plantas); instrumentação (sensores especializados, metrologia,
certificação de qualidade mineral); P&D e universidades (CETEM, IPEN, INCT
PaTrIA, universidades federais — base científica que já existe e precisa de
escala industrial); finanças e capital (BNDES, Finep, debêntures incentivadas,
fundos de participação — camada de capital paciente sem a qual os outros elos
não se financiam).
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Peça 2 – empresas já existentes
Aqui,
uma relação de empresas já existentes, potenciais interessadas em ingressar em
uma das etapas. O levantamento foi feito com o uso de Inteligência Artificial.
Boa pergunta — vou cruzar o mapa setorial com o que existe no tecido industrial
brasileiro, distinguindo empresas já presentes na cadeia, empresas de setores
adjacentes que poderiam migrar, e instituições públicas que seriam âncoras.Mapa
completo abaixo, distinguindo empresas já presentes, candidatas naturais por
adjacência setorial, e instituições públicas âncora.
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Elo 1 — Geologia e pesquisa mineral
Instituições
públicas âncoras: CPRM (Serviço Geológico do Brasil), que precisa de ampliação
de orçamento para mapear os distritos prioritários em velocidade compatível com
a disputa global; CETEM (Centro de Tecnologia Mineral), vinculado ao MCTI, com
expertise acumulada em caracterização de depósitos de terras raras.
Empresas
privadas já atuantes: a ADL Mineração é uma empresa brasileira que atua em
minerais estratégicos e terras raras e realizou o primeiro embarque privado de
monazita do país em 2026, para Canadá e EUA. A CBMM (Companhia Brasileira de
Metalurgia e Mineração), controlada pelo grupo Moreira Salles, domina 80% do
nióbio mundial e representa o único caso brasileiro de controle nacional sobre
um mineral estratégico do início ao fim da cadeia.
Candidatas
por adjacência: empresas de software geológico como a Geoambiente e startups de
IA para prospecção, que já atuam em petróleo e gás e poderiam migrar para
mineração de terras raras.
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Elo 2 — Extração (lavra)
A Serra
Verde, em Minaçu (GO), era a única produtora em larga escala de terras raras
pesadas fora da Ásia — e foi adquirida pela norte-americana USA Rare Earth por
US$ 2,8 bilhões em abril de 2026. Essa venda é o episódio central do debate
sobre soberania: o ativo estratégico mais relevante do país saiu do controle
nacional antes de qualquer marco legal que pudesse condicioná-la. A australiana
Meteoric Resources detém o Projeto Caldeira em Poços de Caldas (MG), com
licença prévia concedida em 2025 e início de operações previsto para 2026. A
também australiana Viridis Mining possui o Projeto Colossus, com reservas de
argilas iônicas ricas em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio no sul de
Minas Gerais, e anunciou a construção de um centro de pesquisa e processamento
em Poços de Caldas sem uso de tecnologia chinesa. A St George Mining, dona do
Projeto Araxá, está localizada ao lado da CBMM e prevê início de operações em
2027.
O
quadro é revelador: a extração está sendo dominada por empresas australianas e
americanas, não por capital nacional. A ADL Mineração é a exceção brasileira
com operação concreta.
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Elo 3 — Beneficiamento (concentração)
Empresas
do setor discutem a instalação de plantas de refino no Vale do Jequitinhonha e
em Poços de Caldas, mas pedem incentivos, financiamento e previsibilidade
regulatória para viabilizar projetos.
Candidatas
nacionais: a Vale, maior mineradora do país, tem capacidade de engenharia e
capital para entrar no beneficiamento de terras raras, mas sua estratégia atual
está focada em ferro, cobre e níquel. A Braskem tem expertise em química de
processo que é transferível para a etapa de concentração. Empresas de
engenharia pesada como a Odebrecht Engenharia Industrial (hoje rebatizada) e a
Construtora Andrade Gutierrez poderiam construir e operar plantas.
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Elo 4 — Refino químico (óxidos e metais)
Este é
o elo mais crítico e onde a dependência da China é mais intensa. A China
responde por cerca de 60% da mineração mundial de terras raras e mais de 85% do
processamento e fabricação de ímãs de alta performance.
Instituições
com capacidade técnica comprovada: IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e
Nucleares), que já tem rotas de separação por troca iônica e extração por
solvente; CETEM, cujos grupos do INCT PaTrIA dominam separação com pureza acima
de 99,9% em escala laboratorial. O gargalo, como a SBPC explicitou, é a
passagem para escala industrial — plantas-piloto de TRL 6-8.
A
operação da Serra Verde em Minaçu passou a integrar a primeira cadeia de
suprimentos de terras raras da mina ao ímã fora da Ásia, com preços mínimos
garantidos para disprósio e térbio — mas agora sob controle americano, não
brasileiro.
Candidata
natural de capital nacional: a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), que
historicamente processou monazita com extração de terras raras como subproduto
e tem infraestrutura instalada em Caetité (BA) e Caldas (MG).
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Elo 5 — Insumos intermediários (ligas e compostos)
A CBMM
é o único modelo brasileiro de sucesso neste elo: produz ferronióbio e óxido de
nióbio em escala industrial e exporta produto processado, não minério bruto. É
o template que o Plano de Metas propõe replicar para terras raras. Para
fertilizantes e fosfatados, a Mosaic Fertilizantes (controlada pela americana
Mosaic, mas com operações integradas no Brasil) e a Yara Brasil são candidatas
ao desenvolvimento de fosfato processado com minerais críticos associados. A
Petrobras tem capacidade para entrar em catalisadores baseados em terras raras
para refino, segmento onde já é usuária intensiva desses materiais.
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Elo 6 — Manufatura avançada
Este é
o elo onde a oportunidade brasileira é maior e a ausência mais custosa.
A WEG,
maior fabricante de motores elétricos da América Latina, é candidata natural ao
desenvolvimento de ímãs permanentes de NdFeB — ela já fabrica os motores que
consomem esses ímãs, mas hoje importa 100% deles da China. Uma cadeia integrada
WEG–planta de ímãs–refinaria de óxidos seria o núcleo de uma política
industrial real neste elo.
Para
energia eólica, a Vestas e a Siemens Gamesa já têm fábricas no Brasil e
poderiam ser âncoras de demanda para ímãs permanentes produzidos localmente. A
Embraer tem interesse estratégico no segmento de motores elétricos para
aeronaves e poderia puxar uma demanda qualificada de ligas especiais.
Para
veículos elétricos, a BYD (instalada em Camaçari, BA) e a Volkswagen (que
anunciou eletrificação da linha brasileira) são demandantes potenciais de
baterias e ímãs produzidos no Brasil — mas até hoje nenhum acordo de conteúdo
nacional foi formalizado.
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Elo 7 — Reciclagem e economia circular
Este é
o espaço natural para PMEs e startups. Empresas como a Sinctronics (reciclagem
de eletroeletrônicos, joint venture da Foxconn com a Positivo) já atuam na
cadeia de resíduos e poderiam migrar para a recuperação de terras raras. A
Braskem tem expertise em química de recuperação de materiais. Startups de
logística reversa como a Cataki e plataformas digitais de rastreabilidade
mineral poderiam ocupar o tecido nervoso desse elo.
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O quadro sintético e o problema central
O
professor Luiz Jardim Wanderley, da UFF, resume o padrão histórico que se
repete: o Brasil mantém a mesma dependência que teve com o ouro colonial, com o
ferro e até o petróleo — exporta minerais e consome pouco no mercado nacional.
Sem avançar nas etapas de beneficiamento e refino, o país tende a continuar
importando produtos de maior valor agregado, mesmo sendo dono da matéria-prima
bruta. O mapa de empresas confirma isso: no elo de extração há capital
australiano e americano; no refino há ausência quase total; na manufatura há
demandantes (WEG, Embraer, montadoras) sem fornecedores nacionais. A cadeia
existe em potencial — os atores estão presentes em elos separados, sem conexão
industrial entre eles. O papel do marco legal aprovado seria criar os incentivos
para que essa conexão se forme.
Fonte:
Jornal GGN

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