segunda-feira, 11 de maio de 2026


 Endometriose silenciosa pode comprometer fertilidade

Na semana em que se celebra o Dia Internacional da Luta contra a Endometriose (7 de maio), especialistas fazem um alerta: a doença continua sendo silenciosa em milhares de mulheres e, muitas vezes, só é descoberta após anos de tentativas frustradas de engravidar ou durante investigação de infertilidade. Considerada uma condição crônica e inflamatória, a endometriose afeta cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Embora os sintomas clássicos incluam cólicas intensas, dor pélvica, dor durante as relações sexuais e alterações intestinais, especialistas alertam que nem todas as pacientes apresentam sinais evidentes da doença. Em alguns casos, a endometriose evolui de forma silenciosa.

Foi o que aconteceu com a professora Denise Gonçalves Dias. Ela descobriu a doença aos 35 anos, durante o processo de investigação para engravidar. “O diagnóstico para mim foi uma surpresa. Até então eu desconhecia. Não sentia sintomas fortes e descobri pelo fato de querer engravidar”, relata.

<><> Investigação tardia

A paciente afirma que decidiu mudar completamente os hábitos de vida após a confirmação do diagnóstico. “Fiz tratamento natural com suplementos e uma mudança radical de estilo de vida. Optei pela cirurgia robótica por ser uma técnica nova e avançada, com resultados satisfatórios principalmente ao que eu desejava. A cirurgia foi tranquila”, conta.

De acordo com o cirurgião Marcos Travessa, coordenador do Núcleo de Ginecologia do Instituto Brasileiro de Cirurgia Robótica (IBCR), um dos principais desafios ainda é o atraso no diagnóstico. “Muitas mulheres passam anos convivendo com dores incapacitantes acreditando que isso é normal. Em outros casos, a doença praticamente não apresenta sintomas e só é descoberta na investigação da infertilidade. Isso reforça a importância do acompanhamento ginecológico regular e da escuta atenta às queixas femininas”, afirma.

Segundo o especialista, a endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio — camada que reveste o útero — cresce fora da cavidade uterina, podendo atingir ovários, trompas, intestino, bexiga e outros órgãos da pelve.

“Trata-se de uma doença inflamatória que pode comprometer qualidade de vida, fertilidade, saúde emocional e relações sociais. Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances de controle adequado e preservação da fertilidade”, acrescenta Travessa.

<><> Cirurgia robótica

A médica ginecologista Gabrielli Tigre, também do IBCR, destaca que a cirurgia robótica tem ampliado as possibilidades de tratamento em casos mais complexos da doença. “A cirurgia robótica permite movimentos mais precisos, visão ampliada e maior delicadeza na retirada dos focos de endometriose, especialmente em regiões profundas e de difícil acesso. Isso contribui para recuperação mais rápida, menos dor pós-operatória e melhores resultados funcionais”, explica.

Ela ressalta que a escolha do tratamento depende do estágio da doença, dos sintomas e dos objetivos da paciente. “Cada mulher deve ser avaliada de forma individualizada. Nem toda endometriose exige cirurgia, mas os casos avançados frequentemente precisam de abordagem especializada”, pontua.

Especialistas reforçam que sintomas menstruais incapacitantes não devem ser normalizados. Dor intensa, dificuldade para engravidar, desconforto nas relações sexuais e alterações intestinais cíclicas estão entre os principais sinais de alerta. “A mulher não precisa aceitar a dor como algo natural. Sofrimento intenso durante o período menstrual merece investigação”, conclui Marcos Travessa.

        Principais razões do comprometimento da fertilidade

A endometriose pode comprometer a fertilidade ao criar inflamação crônica, distorcer a anatomia pélvica e afetar a qualidade dos óvulos. A doença causa aderências (cicatrizes) que podem bloquear as trompas, dificultar a captação do óvulo e prejudicar a implantação do embrião no útero, afetando cerca de 40% das pacientes.

>>>> Principais razões do comprometimento da fertilidade:

        Aderências e Bloqueios Anatômicos:

Focos de endometriose agem como uma "cola" na pelve, unindo órgãos como útero, ovários e trompas, o que impede a movimentação natural necessária para a captação do óvulo e a fecundação.

        Inflamação Pélvica Crônica:

A inflamação constante altera o ambiente, prejudicando a qualidade dos óvulos e a movimentação dos espermatozoides, além de atrapalhar o transporte do embrião para o útero.

        Comprometimento do Útero (Adenomiose):

A presença de tecidos fora do útero pode gerar uma resposta imunológica que dificulta a fixação do embrião (nidação), reduzindo a receptividade do endométrio.

        Endometriomas Ovarianos:

Cistos nos ovários, comuns na endometriose, podem diminuir a reserva ovariana (quantidade de óvulos) e afetar a ovulação.

Embora a endometriose seja uma causa comum de infertilidade, muitas mulheres conseguem engravidar naturalmente ou com o auxílio de tratamentos de reprodução assistida, como a fertilização in vitro.

        O que causa a endometriose

A endometriose é uma condição ginecológica na qual o tecido que normalmente reveste a parte de dentro do útero, chamado endométrio, cresce fora do útero, principalmente na região pélvica das pessoas do sexo feminino (entre o umbigo e a virilha).

>>>> Sintomas

Os sintomas da endometriose são diversos e incluem:

        dismenorreia (cólicas menstruais): principal sintoma da doença em 62,2% dos casos

        dor pélvica crônica ou constante: pode ocorrer de forma intermitente ao longo do ciclo menstrual. Apresenta características diversas, como desconforto, dor pulsante, e frequentemente piora com o tempo

        dor durante a relação sexual: está relacionada principalmente a lesões profundas na vagina

        alterações intestinais: distensão abdominal, sangramento nas fezes, constipação e dor anal durante o período menstrual

        infertilidade: dificuldade para engravidar após um ano de tentativa

Embora a maioria das pessoas do sexo feminino com endometriose apresente alguns dos sintomas acima, outras podem ter a condição sem apresentar nenhum deles.

Além disso, esses sintomas também podem estar presentes em outras situações, que devem ser sempre investigadas. Assim, o acompanhamento com um(a) profissional de saúde para o esclarecimento do diagnóstico e o seguimento adequado.

>>>> Causas

As causas da endometriose não são totalmente conhecidas, embora existam diferentes hipóteses para explicar o seu surgimento:

        teoria da menstruação retrógrada: fenômeno comum à maioria das mulheres, em que o sangue da menstruação, em vez de sair pelo local habitual, siga pelas trompas para o interior do abdômen, o que possibilita a fixação de células endometriais (que são eliminadas junto com o sangue) e o desenvolvimento da endometriose em mulheres predispostas, por razões ainda desconhecidas

        teoria da metaplasia celômica: transformação de células de outra origem em células endometriais, que passam a crescer em locais inadequados

>>>> Diagnóstico

O diagnóstico é realizado por um(a) profissional de saúde, por meio de uma avaliação clínica adequada (história relatada pela paciente e exame físico). Alguns exames complementares também podem ser úteis, como exames de sangue e ultrassom, por exemplo. Diante da suspeita de endometriose, é possível acompanhar clinicamente a evolução do caso ou indicar cirurgia por videolaparoscopia (técnica cirúrgica realizada com o auxílio de uma câmera no abdômen).

O tempo médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico é de aproximadamente sete anos e, por vezes, a identificação da condição ocorre durante o processo de investigação de infertilidade.

>>>> Tratamento

A endometriose deve ser abordada com uma doença crônica e merece acompanhamento durante a vida reprodutiva da pessoa (todo o período em que ela pode engravidar), pois é nesse momento que a doença manifesta seus principais sintomas.

O tratamento deve ser direcionado para as queixas da pessoa, assim como para a localização e a extensão da doença. O uso de medicamentos pode ser eficaz no controle da dor pélvica e deve ser o tratamento de escolha na ausência de indicações absolutas para cirurgia.

O procedimento deve ser realizado por uma equipe de saúde qualificada, por meio de medicamentos hormonais e analgésicos e, quando necessário, pode incluir terapias complementares, como atividade física, fisioterapia, acupuntura e suporte psicológico.

>>>> Prevenção

Embora não seja possível prevenir a endometriose, algumas estratégias podem ajudar a reduzir o risco de desenvolvê-la ou de agravar os sintomas:

        dieta saudável: manter uma dieta equilibrada e rica em frutas, legumes, grãos integrais e fibras pode ser benéfico para pessoas com endometriose

        exercícios regulares: a prática regular de exercícios físicos pode ajudar a reduzir a inflamação e aliviar os sintomas da doença, como a dor

        gerenciamento do estresse: o estresse crônico pode agravar os sintomas da endometriose. Por esse motivo, estratégias de gerenciamento do estresse podem ajudar a reverter a situação, como a prática de meditação e ioga

 

Fonte: Carla Santana – assessora de imprensa/Agencia Einstein

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