segunda-feira, 11 de maio de 2026

Como a grande mídia apaga candidaturas de esquerda

Ela é dentista do SUS, mãe de dois filhos, militante do movimento negro e de mulheres, e foi escolhida por unanimidade pelo Partido Unidade Popular (UP) para disputar a Presidência da República em 2026. Seu nome é Samara Martins. Mas, para parte da imprensa brasileira, Samara simplesmente não existe.

Enquanto veículos de grande circulação anunciam uma corrida presidencial formada exclusivamente por homens, Samara Martins acumula agenda, percorre o país e constrói uma pré-candidatura formalizada desde fevereiro. Há uma mulher negra disputando a Presidência, mas a mídia decidiu que ela não existe. Vale acrescentar que esta não é a primeira vez de Samara em uma chapa presidencial: em 2022, ela foi vice de Léo Péricles, seu companheiro de partido.

á quatro anos, Léo Péricles já denunciava o apagamento de sua chapa na disputa presidencial. O então candidato não foi convidado para nenhum debate. O mesmo aconteceu com a candidata do PSTU naquele mesmo pleito. Vera Lúcia Martins, mulher negra, sindicalista e nordestina, concorria à Presidência pela segunda vez, numa chapa puro-sangue que tinha como vice Raquel Tremembé, indígena maranhense e defensora de direitos humanos.

Fica evidente que há uma predileção entre os responsáveis por comunicar sobre a política e as eleições que apenas um determinado perfil de candidatos é merecedor de atenção. Trata-se de estratégia na disputa de narrativa, não de mero desconhecimento. Uma atitude deliberada que põe em xeque o direito do eleitor e da eleitora de fazer uma escolha bem informada. Somadas, as chapas de Léo e Samara e a de Vera Lúcia e Raquel tiveram cerca de 80 mil votos. Um número muito distante do necessário para a vitória, mas que não pode passar em branco.

A imprensa tradicional estrutura a cobertura eleitoral em torno de critérios de viabilidade definidos por ela mesma – pesquisas de intenção de voto, alianças partidárias, tempo de televisão. Quem não aparece nas pesquisas não aparece nas páginas, quem não aparece nas páginas não aparece nas pesquisas. E aqui cabe estender a crítica também aos institutos de pesquisa que, mesmo notificados pelos partidos sobre as candidaturas, escolhem não incluir os nomes dos postulantes nos levantamentos. Os canais se fecham para as candidaturas que desafiam o perfil histórico de quem ocupa o poder, ou seja, homens brancos, e uma parcela significativa do eleitorado fica impossibilitado de se ver melhor representado por quem tem muito mais em comum do ponto de vista da origem, do perfil sócio-demográfico e de agendas.

Samara Martins rompe com o perfil do mainstream da política em todas as dimensões. É mulher, é negra, é de esquerda, é de um partido fundado numa conjuntura política totalmente diferente dos demais – pós-crise de 2008, pós-jornadas de junho de 2013 e pós-impeachment da primeira e única mulher a assumir a Presidência do Brasil. Sua ausência na cobertura levanta uma pergunta direta ao sistema político e à mídia que o cobre: quem decide quem pode disputar o poder?

O apagamento de candidaturas como a de Samara Martins, mais do que uma omissão jornalística, é uma forma de violência política de gênero e raça. Para além de ameaças e agressões físicas, a violência política contra mulheres, sobretudo negras, também opera pelo silêncio, incidindo diretamente sobre aquilo de que uma candidatura mais necessita: a visibilidade.

A ausência de cobertura, a recusa em reconhecer sua legitimidade, a decisão editorial de tratar certas candidaturas como irrelevantes antes que o voto aconteça – tudo isso é violência. Quando parte da imprensa ignora uma candidata, não há neutralidade e sim uma escolha que viola frontalmente princípios democráticos básicos, como a igualdade de condições na disputa e o pluralismo político. Esse mecanismo tem consequências: candidaturas invisibilizadas atraem menos financiamento, menos filiações, menos tempo de mídia. O apagamento midiático retroalimenta a exclusão estrutural, que, por sua vez, justifica o apagamento midiático. Para mulheres negras, essa porta é ainda mais estreita: elas enfrentam simultaneamente o filtro de gênero e o filtro racial numa imprensa que, segundo o Reuters Institute, não tem nenhum editor-chefe negro em veículos da mídia hegemônica brasileira. Nenhum homem negro, muito menos uma mulher negra.

O padrão se repete dentro dos próprios partidos: nas eleições de 2024, 26 legendas descumpriram a cota mínima de 30% de candidaturas femininas em mais de 700 municípios. Nesse mesmo ano o Congresso Nacional aprovou a PEC da Anistia, que concedeu perdão aos partidos que descumpriram, nas eleições anteriores, as cotas estabelecidas de distribuição de recursos públicos para mulheres e negros. Além de isentá-los de sanções como multas, devolução de valores ou suspensão de fundo partidário, a norma permitiu que os valores que deveriam ser aplicados, mas não foram, sejam reinvestidos nas eleições seguintes.

Tudo isso converge para o debate que o Brasil trava agora em torno do PL 896/2023, aprovado pelo Senado em março. A criminalização da misoginia vai definir que tipo de ambiente político e midiático o país quer construir. Quando parte da mídia apaga candidaturas de mulheres negras ao mesmo tempo em que noticia a aprovação de uma lei contra a misoginia, o paradoxo é revelador: o problema que a lei quer combater está também nas escolhas editoriais de quem cobre o debate.

Visibilidade é poder. Decidir quem aparece é decidir quem existe politicamente. E numa democracia que ainda engatinha na representação de mulheres[1], a imprensa tem responsabilidade sobre o que reproduz e o que silencia.

Samara Martins é pré-candidata. O resto é escolha editorial.

•        O porquê dos “esquecimento”

A percepção de que a grande mídia "esquece" ou invisibiliza candidatos de esquerda é um tema complexo e objeto de frequentes debates no cenário político brasileiro, com análises apontando para diversas causas:

•        Critérios de Visibilidade e Pesquisas:

A mídia tradicional frequentemente utiliza a intenção de voto nas pesquisas como critério para definir a cobertura, o que pode criar um "círculo vicioso": candidatos com menos visibilidade aparecem menos nas pesquisas, e por aparecerem menos, recebem menos cobertura, perpetuando o esquecimento.

•        Gestão de Redes Sociais e Algoritmos:

Argumenta-se que as redes sociais, com suas gestões algorítmicas, podem privilegiar conteúdos de direita e extrema-direita, o que, combinado com uma comunicação considerada ineficiente por parte de setores da esquerda, diminui a presença e o engajamento desses candidatos no debate público.

•        Interesses Econômicos e Políticos:

Alguns analistas sugerem que grandes veículos de comunicação, sendo empresas capitalistas, tendem a favorecer projetos políticos alinhados ao capital, o que pode levar à omissão ou cobertura crítica de candidatos à esquerda.

•        Mudança no Cenário de Comunicação:

Há uma avaliação de que a direita e a extrema-direita investiram mais recursos e ocuparam de forma mais eficiente o espaço das redes sociais e novas mídias, criando um ecossistema de comunicação mais contundente que fala diretamente com sua base, diminuindo a relevância da mídia tradicional para esses eleitores.

•        Percepção de viés na imprensa:

Existe um debate intenso sobre o viés da imprensa. Enquanto alguns apontam a invisibilização da esquerda, outros, como debatedores citados em, alegam um viés de esquerda na profissão. No entanto, pesquisas citadas em indicam uma baixa identificação da população brasileira com a esquerda, o que também reflete na cobertura.

Em resumo, a falta de visibilidade parece resultar de uma combinação entre os critérios de noticiabilidade da imprensa, a eficácia das estratégias de comunicação em redes sociais e o contexto econômico e político das empresas de mídia.

•        Fatores que levam ao “esquecimento”

Com base no cenário político de maio de 2026, a percepção de que a grande mídia "esquece" ou apaga candidaturas de esquerda, especialmente as que não estão alinhadas diretamente ao núcleo do governo Lula, é frequentemente atribuída a critérios editoriais focados em intenção de voto e polarização. [1, 2]

>>>> Analistas observam os seguintes fatores para essa cobertura:

•        Critérios de Visibilidade baseados em Pesquisas:

Veículos de comunicação tradicionais tendem a focar na cobertura de candidatos com maior intenção de voto, o que cria um círculo vicioso: candidatos com menos visibilidade nas pesquisas iniciais recebem menos cobertura, dificultando o aumento de sua popularidade.

•        Foco na Polarização (Lula vs. Direita):

A cobertura eleitoral de 2026 tem sido intensamente concentrada na disputa entre o presidente Lula e representantes da direita (como Flávio Bolsonaro, Ratinho Jr., Caiado ou Zema), o que ofusca candidaturas de esquerda mais à esquerda (como do PSOL ou UP).

•        A "Invisibilização" de Alternativas:

Críticos apontam que a mídia, ao focar apenas nos principais "donos do jogo", decide ativamente quem existe politicamente, apagando nomes, incluindo candidaturas negras e de esquerda, que poderiam trazer novos debates.

•        Articulação Política e Economia:

Estudos indicam que a imprensa concentra a pauta em articulação política e economia, muitas vezes ignorando agendas sociais ou culturais mais à esquerda que dominam discussões em redes sociais, mas não ganham manchetes.

•        Desgaste e Alianças:

•        No início de maio de 2026, o cenário mostra o governo Lula lidando com alta desaprovação (chegando a 52% em pesquisas) e enfrentando dificuldades em articular uma frente de centro-esquerda ampla, o que também reflete na forma como a mídia aborda a unidade desse espectro político.

Essa dinâmica faz com que candidaturas de esquerda fora da estrutura principal do PT tenham dificuldades em furar a bolha da cobertura jornalística tradicional, que privilegia os nomes já considerados competitivos.

•        A esquerda nas cordas. Por Lucas Schuina

Quando esteve em Vitória, em fevereiro, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (Psol), foi questionado numa coletiva de imprensa sobre o crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto para presidente, e reagiu com certo deboche. “O Flávio Bolsonaro desmaiou no debate lá no Rio de Janeiro [para prefeito, em 2016]. Imaginem como é que ele vai ficar no debate com Lula”, comentou.

Boulos também deu a entender que, no momento de votar, a população vai conseguir enxergar as coisas com clareza. “Quem é que está defendendo o fim da escala 6×1? O Lula. Nós. Quem é que está contra? O bolsonarismo. Veja o que o seu Valdemar Costa Neto [presidente do Partido Liberal] disse esses dias numa plateia de empresários, de que vai trabalhar dia e noite para poder não deixar votar o projeto da escala 6×1. Na hora da eleição, em outubro, quando o povo for decidir, o povo vai lembrar disso”, acrescentou.

Natural que o ministro quisesse transmitir a sensação de que o lulismo estava no controle da situação. Mas a verdade é que, desde aquela entrevista, o cenário só piorou. Flávio Bolsonaro já aparece à frente de Lula no segundo turno, segundo a maior parte das pesquisas, ainda que em empate técnico. A desaprovação do Governo Lula chegou a 52%, segundo pesquisa da Real Time Big Data divulgada na semana passada pela imprensa nacional. Esse enfraquecimento fez com que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se sentisse à vontade para articular uma derrota histórica, com a primeira rejeição de uma indicação para ministro do STF em 132 anos.

Isso acontece em meio a um cenário socioeconômico aparentemente positivo no Brasil: menor taxa de desemprego da série histórica, baixa inflação, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), elevação da renda. O que é, então, que o povo não está enxergando? Por que parecemos cada vez mais próximos de uma volta da extrema direita à Presidência?

A economista Juliane Furno poublicou um texto no portal The Intercept Brasil no último 13 de abril, apontando algumas hipóteses interessantes, e alertando contra análises superficiais do tipo “o povo é burro”. Juliane argumentou que uma das respostas estaria no alto grau de endividamento das famílias, o que se deve em grande medida à alta taxa de juros praticada pelo Banco Central, a segunda maior do mundo. Nesse cenário, muitas pessoas talvez nem estejam vendo a cor do dinheiro, tendo em vista que o que ganham é para arcar com as dívidas anteriores.

Juliane Furno também chamou a atenção para a situação da juventude, campo em que a desaprovação de Lula é maior. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) elencados pela economista, um em cada três trabalhadores do Brasil tem formação acima da exigida para a função que ocupa, e o salário médio de trabalhos que exigem ensino superior caiu 12% nos últimos 12 anos. Os jovens que chegaram às universidades por conta das políticas petistas de expansão do ensino superior agora se depararam com empregos precários, muito por conta da desindustrialização do país nas últimas décadas, que tornou as atividades produtivas menos complexas.

Adicionando mais um ponto em relação à análise de Juliane Furno, vale destacar, ainda, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad Contínua), divulgados nessa sexta-feira (8), de que o rendimento médio dos trabalhadores brasileiros atingiu valor recorde em 2025, mas a desigualdade cresceu junto. Ou seja, existem certas estatísticas ocultas em meio aos números oficiais que precisam ser levados em consideração.

E se isso deixa o cenário ruim para a esquerda no Brasil em geral, pior ainda no Espírito Santo. Por aqui, o PT indicou para a disputa para governador o seu nome com maior capital eleitoral, o deputado federal Helder Salomão, mas que parece ter colocado no sacrifício. Sem espaço dentro do projeto de Ricardo Ferraço (MDB), o Partido dos Trabalhadores se viu obrigado a erguer um palanque próprio, mas que enfrenta um alto nível de rejeição. Hoje, os candidatos mais bem colocados nas pesquisas representam dois projetos de direita: de um lado, um bolsonarista envergonhado (Lorenzo Pazolini); do outro, um antipestista ferrenho que mantém certo diálogo com figuras identificadas como de “centro” ou “progressistas” (Ricardo Feraço).

Em relação ao Senado Federal, quem quiser pode ver o copo meio cheio ou meio vazio. O favorito na disputa é o ex-governador Renato Casagrande (PSB), um homem tido como de centro ou centro-esquerda (ou “socialista”, segundo o bolsonarismo delirante), mas pragmático o suficiente para escolher como sucessor uma pessoa que passa longe de ser progressista (no caso, Ricardo Ferraço). A segunda candidatura de esquerda mais bem colocada é a do senador Fabiano Contarato (PT), eleito em 2018 a partir de certo engano, já que muitos o consideravam apenas um delegado linha-dura. Não vai ser fácil repetir a dose.

Nas disputas proporcionais talvez estejam as maiores esperanças, mas aqui também cabe uma reflexão importante. Lula e outros petistas falam com certa frequência sobre a necessidade de eleger figuras de esquerda para o Congresso Nacional, de forma a permitir que o governo dependa menos de acordos com o Centrão. Mas como construir novas candidaturas competitivas se é o próprio governo que está empoderando figuras do Centrão em detrimento de sua própria base? A conta não fecha.

Tudo isso nos leva a um cenário preocupante para o campo progressista, e não há soluções fáceis para reverter. O Governo Lula tem investido com força na pauta do fim escala 6×1. Talvez não tenha resultado eleitoral significativo por ser uma medida cujo impacto não é sentido de imediato. De qualquer forma, é bom que a esquerda leve a sério reformas estruturantes que contribuam com a elevação real do padrão de vida da população.

 

Fonte: Por Tainah Pereira e Marília Nascimento, em Outras Palavras/Google/Século Diário

 

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