Como
a grande mídia apaga candidaturas de esquerda
Ela é
dentista do SUS, mãe de dois filhos, militante do movimento negro e de
mulheres, e foi escolhida por unanimidade pelo Partido Unidade Popular (UP)
para disputar a Presidência da República em 2026. Seu nome é Samara Martins.
Mas, para parte da imprensa brasileira, Samara simplesmente não existe.
Enquanto
veículos de grande circulação anunciam uma corrida presidencial formada
exclusivamente por homens, Samara Martins acumula agenda, percorre o país e
constrói uma pré-candidatura formalizada desde fevereiro. Há uma mulher negra
disputando a Presidência, mas a mídia decidiu que ela não existe. Vale
acrescentar que esta não é a primeira vez de Samara em uma chapa presidencial:
em 2022, ela foi vice de Léo Péricles, seu companheiro de partido.
á
quatro anos, Léo Péricles já denunciava o apagamento de sua chapa na disputa
presidencial. O então candidato não foi convidado para nenhum debate. O mesmo
aconteceu com a candidata do PSTU naquele mesmo pleito. Vera Lúcia Martins,
mulher negra, sindicalista e nordestina, concorria à Presidência pela segunda
vez, numa chapa puro-sangue que tinha como vice Raquel Tremembé, indígena
maranhense e defensora de direitos humanos.
Fica
evidente que há uma predileção entre os responsáveis por comunicar sobre a
política e as eleições que apenas um determinado perfil de candidatos é
merecedor de atenção. Trata-se de estratégia na disputa de narrativa, não de
mero desconhecimento. Uma atitude deliberada que põe em xeque o direito do
eleitor e da eleitora de fazer uma escolha bem informada. Somadas, as chapas de
Léo e Samara e a de Vera Lúcia e Raquel tiveram cerca de 80 mil votos. Um
número muito distante do necessário para a vitória, mas que não pode passar em
branco.
A
imprensa tradicional estrutura a cobertura eleitoral em torno de critérios de
viabilidade definidos por ela mesma – pesquisas de intenção de voto, alianças
partidárias, tempo de televisão. Quem não aparece nas pesquisas não aparece nas
páginas, quem não aparece nas páginas não aparece nas pesquisas. E aqui cabe
estender a crítica também aos institutos de pesquisa que, mesmo notificados
pelos partidos sobre as candidaturas, escolhem não incluir os nomes dos
postulantes nos levantamentos. Os canais se fecham para as candidaturas que
desafiam o perfil histórico de quem ocupa o poder, ou seja, homens brancos, e
uma parcela significativa do eleitorado fica impossibilitado de se ver melhor
representado por quem tem muito mais em comum do ponto de vista da origem, do
perfil sócio-demográfico e de agendas.
Samara
Martins rompe com o perfil do mainstream da política em todas as dimensões. É
mulher, é negra, é de esquerda, é de um partido fundado numa conjuntura
política totalmente diferente dos demais – pós-crise de 2008, pós-jornadas de
junho de 2013 e pós-impeachment da primeira e única mulher a assumir a
Presidência do Brasil. Sua ausência na cobertura levanta uma pergunta direta ao
sistema político e à mídia que o cobre: quem decide quem pode disputar o poder?
O
apagamento de candidaturas como a de Samara Martins, mais do que uma omissão
jornalística, é uma forma de violência política de gênero e raça. Para além de
ameaças e agressões físicas, a violência política contra mulheres, sobretudo
negras, também opera pelo silêncio, incidindo diretamente sobre aquilo de que
uma candidatura mais necessita: a visibilidade.
A
ausência de cobertura, a recusa em reconhecer sua legitimidade, a decisão
editorial de tratar certas candidaturas como irrelevantes antes que o voto
aconteça – tudo isso é violência. Quando parte da imprensa ignora uma
candidata, não há neutralidade e sim uma escolha que viola frontalmente
princípios democráticos básicos, como a igualdade de condições na disputa e o
pluralismo político. Esse mecanismo tem consequências: candidaturas
invisibilizadas atraem menos financiamento, menos filiações, menos tempo de
mídia. O apagamento midiático retroalimenta a exclusão estrutural, que, por sua
vez, justifica o apagamento midiático. Para mulheres negras, essa porta é ainda
mais estreita: elas enfrentam simultaneamente o filtro de gênero e o filtro
racial numa imprensa que, segundo o Reuters Institute, não tem nenhum
editor-chefe negro em veículos da mídia hegemônica brasileira. Nenhum homem
negro, muito menos uma mulher negra.
O
padrão se repete dentro dos próprios partidos: nas eleições de 2024, 26
legendas descumpriram a cota mínima de 30% de candidaturas femininas em mais de
700 municípios. Nesse mesmo ano o Congresso Nacional aprovou a PEC da Anistia,
que concedeu perdão aos partidos que descumpriram, nas eleições anteriores, as
cotas estabelecidas de distribuição de recursos públicos para mulheres e
negros. Além de isentá-los de sanções como multas, devolução de valores ou
suspensão de fundo partidário, a norma permitiu que os valores que deveriam ser
aplicados, mas não foram, sejam reinvestidos nas eleições seguintes.
Tudo
isso converge para o debate que o Brasil trava agora em torno do PL 896/2023,
aprovado pelo Senado em março. A criminalização da misoginia vai definir que
tipo de ambiente político e midiático o país quer construir. Quando parte da
mídia apaga candidaturas de mulheres negras ao mesmo tempo em que noticia a
aprovação de uma lei contra a misoginia, o paradoxo é revelador: o problema que
a lei quer combater está também nas escolhas editoriais de quem cobre o debate.
Visibilidade
é poder. Decidir quem aparece é decidir quem existe politicamente. E numa
democracia que ainda engatinha na representação de mulheres[1], a imprensa tem
responsabilidade sobre o que reproduz e o que silencia.
Samara
Martins é pré-candidata. O resto é escolha editorial.
• O porquê dos “esquecimento”
A
percepção de que a grande mídia "esquece" ou invisibiliza candidatos
de esquerda é um tema complexo e objeto de frequentes debates no cenário
político brasileiro, com análises apontando para diversas causas:
• Critérios de Visibilidade e Pesquisas:
A mídia
tradicional frequentemente utiliza a intenção de voto nas pesquisas como
critério para definir a cobertura, o que pode criar um "círculo
vicioso": candidatos com menos visibilidade aparecem menos nas pesquisas,
e por aparecerem menos, recebem menos cobertura, perpetuando o esquecimento.
• Gestão de Redes Sociais e Algoritmos:
Argumenta-se
que as redes sociais, com suas gestões algorítmicas, podem privilegiar
conteúdos de direita e extrema-direita, o que, combinado com uma comunicação
considerada ineficiente por parte de setores da esquerda, diminui a presença e
o engajamento desses candidatos no debate público.
• Interesses Econômicos e Políticos:
Alguns
analistas sugerem que grandes veículos de comunicação, sendo empresas
capitalistas, tendem a favorecer projetos políticos alinhados ao capital, o que
pode levar à omissão ou cobertura crítica de candidatos à esquerda.
• Mudança no Cenário de Comunicação:
Há uma
avaliação de que a direita e a extrema-direita investiram mais recursos e
ocuparam de forma mais eficiente o espaço das redes sociais e novas mídias,
criando um ecossistema de comunicação mais contundente que fala diretamente com
sua base, diminuindo a relevância da mídia tradicional para esses eleitores.
• Percepção de viés na imprensa:
Existe
um debate intenso sobre o viés da imprensa. Enquanto alguns apontam a
invisibilização da esquerda, outros, como debatedores citados em, alegam um
viés de esquerda na profissão. No entanto, pesquisas citadas em indicam uma
baixa identificação da população brasileira com a esquerda, o que também
reflete na cobertura.
Em
resumo, a falta de visibilidade parece resultar de uma combinação entre os
critérios de noticiabilidade da imprensa, a eficácia das estratégias de
comunicação em redes sociais e o contexto econômico e político das empresas de
mídia.
• Fatores que levam ao “esquecimento”
Com
base no cenário político de maio de 2026, a percepção de que a grande mídia
"esquece" ou apaga candidaturas de esquerda, especialmente as que não
estão alinhadas diretamente ao núcleo do governo Lula, é frequentemente
atribuída a critérios editoriais focados em intenção de voto e polarização. [1,
2]
>>>>
Analistas observam os seguintes fatores para essa cobertura:
• Critérios de Visibilidade baseados em
Pesquisas:
Veículos
de comunicação tradicionais tendem a focar na cobertura de candidatos com maior
intenção de voto, o que cria um círculo vicioso: candidatos com menos
visibilidade nas pesquisas iniciais recebem menos cobertura, dificultando o
aumento de sua popularidade.
• Foco na Polarização (Lula vs. Direita):
A
cobertura eleitoral de 2026 tem sido intensamente concentrada na disputa entre
o presidente Lula e representantes da direita (como Flávio Bolsonaro, Ratinho
Jr., Caiado ou Zema), o que ofusca candidaturas de esquerda mais à esquerda
(como do PSOL ou UP).
• A "Invisibilização" de
Alternativas:
Críticos
apontam que a mídia, ao focar apenas nos principais "donos do jogo",
decide ativamente quem existe politicamente, apagando nomes, incluindo
candidaturas negras e de esquerda, que poderiam trazer novos debates.
• Articulação Política e Economia:
Estudos
indicam que a imprensa concentra a pauta em articulação política e economia,
muitas vezes ignorando agendas sociais ou culturais mais à esquerda que dominam
discussões em redes sociais, mas não ganham manchetes.
• Desgaste e Alianças:
• No início de maio de 2026, o cenário
mostra o governo Lula lidando com alta desaprovação (chegando a 52% em
pesquisas) e enfrentando dificuldades em articular uma frente de
centro-esquerda ampla, o que também reflete na forma como a mídia aborda a
unidade desse espectro político.
Essa
dinâmica faz com que candidaturas de esquerda fora da estrutura principal do PT
tenham dificuldades em furar a bolha da cobertura jornalística tradicional, que
privilegia os nomes já considerados competitivos.
• A esquerda nas cordas. Por Lucas Schuina
Quando
esteve em Vitória, em fevereiro, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da
Presidência da República, Guilherme Boulos (Psol), foi questionado numa
coletiva de imprensa sobre o crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas
de intenção de voto para presidente, e reagiu com certo deboche. “O Flávio
Bolsonaro desmaiou no debate lá no Rio de Janeiro [para prefeito, em 2016].
Imaginem como é que ele vai ficar no debate com Lula”, comentou.
Boulos
também deu a entender que, no momento de votar, a população vai conseguir
enxergar as coisas com clareza. “Quem é que está defendendo o fim da escala
6×1? O Lula. Nós. Quem é que está contra? O bolsonarismo. Veja o que o seu
Valdemar Costa Neto [presidente do Partido Liberal] disse esses dias numa
plateia de empresários, de que vai trabalhar dia e noite para poder não deixar
votar o projeto da escala 6×1. Na hora da eleição, em outubro, quando o povo
for decidir, o povo vai lembrar disso”, acrescentou.
Natural
que o ministro quisesse transmitir a sensação de que o lulismo estava no
controle da situação. Mas a verdade é que, desde aquela entrevista, o cenário
só piorou. Flávio Bolsonaro já aparece à frente de Lula no segundo turno,
segundo a maior parte das pesquisas, ainda que em empate técnico. A
desaprovação do Governo Lula chegou a 52%, segundo pesquisa da Real Time Big
Data divulgada na semana passada pela imprensa nacional. Esse enfraquecimento
fez com que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se sentisse à
vontade para articular uma derrota histórica, com a primeira rejeição de uma
indicação para ministro do STF em 132 anos.
Isso
acontece em meio a um cenário socioeconômico aparentemente positivo no Brasil:
menor taxa de desemprego da série histórica, baixa inflação, crescimento do
Produto Interno Bruto (PIB), elevação da renda. O que é, então, que o povo não
está enxergando? Por que parecemos cada vez mais próximos de uma volta da
extrema direita à Presidência?
A
economista Juliane Furno poublicou um texto no portal The Intercept Brasil no
último 13 de abril, apontando algumas hipóteses interessantes, e alertando
contra análises superficiais do tipo “o povo é burro”. Juliane argumentou que
uma das respostas estaria no alto grau de endividamento das famílias, o que se
deve em grande medida à alta taxa de juros praticada pelo Banco Central, a
segunda maior do mundo. Nesse cenário, muitas pessoas talvez nem estejam vendo
a cor do dinheiro, tendo em vista que o que ganham é para arcar com as dívidas
anteriores.
Juliane
Furno também chamou a atenção para a situação da juventude, campo em que a
desaprovação de Lula é maior. Segundo dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) elencados pela economista, um em cada três
trabalhadores do Brasil tem formação acima da exigida para a função que ocupa,
e o salário médio de trabalhos que exigem ensino superior caiu 12% nos últimos
12 anos. Os jovens que chegaram às universidades por conta das políticas
petistas de expansão do ensino superior agora se depararam com empregos
precários, muito por conta da desindustrialização do país nas últimas décadas,
que tornou as atividades produtivas menos complexas.
Adicionando
mais um ponto em relação à análise de Juliane Furno, vale destacar, ainda, os
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad Contínua), divulgados
nessa sexta-feira (8), de que o rendimento médio dos trabalhadores brasileiros
atingiu valor recorde em 2025, mas a desigualdade cresceu junto. Ou seja,
existem certas estatísticas ocultas em meio aos números oficiais que precisam
ser levados em consideração.
E se
isso deixa o cenário ruim para a esquerda no Brasil em geral, pior ainda no
Espírito Santo. Por aqui, o PT indicou para a disputa para governador o seu
nome com maior capital eleitoral, o deputado federal Helder Salomão, mas que
parece ter colocado no sacrifício. Sem espaço dentro do projeto de Ricardo
Ferraço (MDB), o Partido dos Trabalhadores se viu obrigado a erguer um palanque
próprio, mas que enfrenta um alto nível de rejeição. Hoje, os candidatos mais
bem colocados nas pesquisas representam dois projetos de direita: de um lado,
um bolsonarista envergonhado (Lorenzo Pazolini); do outro, um antipestista
ferrenho que mantém certo diálogo com figuras identificadas como de “centro” ou
“progressistas” (Ricardo Feraço).
Em
relação ao Senado Federal, quem quiser pode ver o copo meio cheio ou meio
vazio. O favorito na disputa é o ex-governador Renato Casagrande (PSB), um
homem tido como de centro ou centro-esquerda (ou “socialista”, segundo o
bolsonarismo delirante), mas pragmático o suficiente para escolher como
sucessor uma pessoa que passa longe de ser progressista (no caso, Ricardo
Ferraço). A segunda candidatura de esquerda mais bem colocada é a do senador
Fabiano Contarato (PT), eleito em 2018 a partir de certo engano, já que muitos
o consideravam apenas um delegado linha-dura. Não vai ser fácil repetir a dose.
Nas
disputas proporcionais talvez estejam as maiores esperanças, mas aqui também
cabe uma reflexão importante. Lula e outros petistas falam com certa frequência
sobre a necessidade de eleger figuras de esquerda para o Congresso Nacional, de
forma a permitir que o governo dependa menos de acordos com o Centrão. Mas como
construir novas candidaturas competitivas se é o próprio governo que está
empoderando figuras do Centrão em detrimento de sua própria base? A conta não
fecha.
Tudo
isso nos leva a um cenário preocupante para o campo progressista, e não há
soluções fáceis para reverter. O Governo Lula tem investido com força na pauta
do fim escala 6×1. Talvez não tenha resultado eleitoral significativo por ser
uma medida cujo impacto não é sentido de imediato. De qualquer forma, é bom que
a esquerda leve a sério reformas estruturantes que contribuam com a elevação
real do padrão de vida da população.
Fonte:
Por Tainah Pereira e Marília Nascimento, em Outras Palavras/Google/Século
Diário

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