segunda-feira, 11 de maio de 2026

Anna Jarvis, a mulher que inventou o Dia das Mães e depois se arrependeu

As comemorações do Dia das Mães variam de país para país, mas são poucos os lugares no mundo onde a data não é celebrada.

Nas Américas, o dia geralmente é comemorado em maio — no segundo domingo do mês — embora alguns países, como México, Guatemala e El Salvador, celebrem alguns dias antes.

Independentemente da data, essa celebração tradicional se tornou um dos períodos mais importantes do ano para os negócios, principalmente aqueles que vendem cartões, flores, chocolates e outros itens para presente.

Muitos filhos, netos, irmãos e parceiros conhecem bem a data, mas poucos sabem a história por trás da origem do costume de comemorar o amor materno em uma data específica.

<><> Campanha em homenagem a uma mãe

A tradição vem dos gregos, que no início da primavera homenageavam Reia, a mãe de todos os deuses, com rituais e oferendas.

Mas o reconhecimento oficial desse costume começou no século XX, nos Estados Unidos, graças à insistência de uma mulher que nunca foi mãe, mas decidiu homenagear a sua.

Em 1905, Anna Jarvis iniciou uma campanha pelo que chamou de "Dia das Mães", após a morte de sua mãe, Ann Reeves Jarvis.

Três anos depois, ela organizou uma homenagem para a mãe, mesmo que a data não fosse um feriado oficial, e tornou-se uma ativista da causa.

Sua luta para que o dia fosse oficialmente reconhecido durou anos. A motivação de Jarvis veio de uma oração que sua mãe lhe mostrou certa vez.

"Espero e rezo para que alguém, um dia, reconheça um dia em memória das mães, para celebrar o serviço incomparável que elas prestam à humanidade em todas as áreas da vida", dizia a oração.

A inspiração também veio do trabalho que a própria Ann Reeves realizou durante a Guerra Civil Americana.

Em 1850, no estado da Virgínia Ocidental, ela criou uma espécie de grupo de trabalho com mulheres para cuidar dos soldados e trabalhar por melhorias na saúde pública. Ela chamou esses dias de trabalho de "Dia das Mães".

Anna Jarvis começou sua campanha para reservar um dia especial para as mães enviando cartas todos os anos para congressistas, governadores, celebridades e outras pessoas importantes.

Alguns políticos zombaram de seus esforços, dizendo que, se o Dia das Mães fosse oficializado, eles também teriam que instituir o "Dia da Sogra".

Em 1911, no entanto, todos os estados da União reconheceram o feriado e, três anos depois, foi oficialmente adotado que o segundo domingo de maio seria comemorado com um feriado em homenagem às mães.

O desejo de Jarvis havia sido atendido e ela finalmente podia se orgulhar de ter sido a "mãe" do Dia das Mães.

No entanto, pouco depois, ele percebeu que havia "criado um monstro". A data comemorativa tornou-se um excelente pretexto para os comerciantes, que aproveitaram a oportunidade para estimular a compra de presentes.

<><> Atividade comercial

A data tornou-se o tema principal das campanhas publicitárias no início de maio e ganhou considerável apoio nas indústrias de flores e cartões.

A história por trás do Dia das Mães — a luta de Jarvis para homenagear o trabalho de sua própria mãe e de outras mulheres — era o roteiro perfeito para impulsionar ainda mais as vendas.

No entanto, a mulher mais responsável pela data comemorativa não gostou da direção comercial que ela havia tomado, então decidiu boicotá-la.

A ativista que outrora lutara pela criação do dia agora se mobilizava para eliminá-lo.

"Jarvis considerava o Dia das Mães sua 'propriedade intelectual e legal', não parte do domínio público", escreveu Katharine Lane Antolini, autora de A Comemoração da Maternidade: Anna Jarvis e a Luta pelo Controle do Dia das Mães.

"Ela aspirava que este dia fosse um 'dia sagrado' que homenageasse a mãe que colocava as necessidades de seus filhos acima das suas próprias", acrescentou Antolini.

"Ela nunca quis que o Dia das Mães se tornasse um dia para presentes caros, como aconteceu com alguns outros feriados no início do século XX."

Antolini, professora de estudos de gênero em uma universidade na Virgínia Ocidental, mora a cerca de 45 minutos de Grafton, onde fica a igreja que Jarvis e sua mãe frequentavam, hoje o Santuário Internacional do Dia das Mães.

De acordo com a pesquisa de Antolini, Anna Jarvis criticava os comerciantes que "se aproveitavam" do evento, chamando-os de "violadores de direitos autorais, vândalos comerciais e aproveitadores descarados".

Ela chegou a protestar contra floriculturas, que aumentaram seus preços em maio, e ameaçou processar muitas empresas que lucraram com a celebração.

Ela também criticou a enorme indústria de cartões impressos que surgiu em torno da data, argumentando que a maneira de demonstrar apreço e homenagear as mães deveria ser por meio de cartas pessoais, escritas à mão.

Antolini escreve que algumas organizações tentaram alinhar o significado do feriado com a mudança na percepção da maternidade no século XX, combinando o aspecto doméstico com o impacto das mães na comunidade.

Mas Jarvis também rejeitou essa interpretação.

Antes de morrer em 1948, consumida por dívidas e depressão, Jarvis confessou a um jornalista: "Lamento profundamente ter criado o Dia das Mães."

<><> A data no Brasil

No Brasil, o Dia das Mães foi oficializado em 1932, com um decreto assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954).

"O segundo domingo de maio é consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana", diz a determinação.

Mas a consolidação da data veio mesmo na época do regime militar de 1964 a 1985.

"Copiava-se tudo dos Estados Unidos e houve, durante a ditadura, uma valorização enorme da família e das mães, em particular", diz a historiadora Mary Del Priore, autora de História das Mulheres no Brasil.

"A maternidade bem vivida, a mulher dedicada aos filhos era um perfil exaltado em concurso, valorizado e que ganhava capas de revista", lembra.

<><> Quanto dinheiro o Dia das Mães gera?

Assim como em muitos aspectos comerciais, os Estados Unidos lideram o consumo de bens e serviços relacionados ao Dia das Mães.

Outros países ao redor do mundo não apenas seguiram o exemplo na celebração deste feriado, como também incorporaram fortemente sua importância econômica.

Só nos EUA, as vendas do Dia das Mães representam mais de US$ 23 bilhões.

De acordo com sites especializados, os bens e serviços comprados neste dia não são apenas de filhos para mães. Os consumidores compram para todas as mulheres em suas vidas: filhas, irmãs, avós, madrinhas e outras parentes e amigas.

No Brasil, o Dia das Mães é a segunda data mais importante do varejo nacional.

A expectativa é que em 2026 a celebração movimente quase R$ 38 bilhões nos setores de comércio e serviços no país, levando cerca de 127 milhões de consumidores às compras, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil.

A pesquisa indica que os produtos campeões de venda devem estar na categoria moda, seguidos por produtos de beleza, chocolates e flores, e experiências, como almoçar fora ou viajar.

O levantamento revela ainda que os consumidores pretendem gastar em média R$ 294 com as compras e que as principais presenteadas serão mães, seguidas de esposas e sogras.

Porque, como dizem as campanhas, o amor de mãe não tem preço.

•        Como surgiu a comemoração do Dia das Mães no Brasil e por que a data varia no mundo

"O segundo domingo de maio é consagrado às mães, em comemoração aos sentimentos e virtudes que o amor materno concorre para despertar e desenvolver no coração humano, contribuindo para seu aperfeiçoamento no sentido da bondade e da solidariedade humana."

Assim declara o decreto de número 21.366, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954) e publicado em 5 de maio de 1932.

O documento ainda tece três considerações para justificar a lei:

•        "que vários dias do ano já foram oficialmente consagrados à lembrança e à comemoração de fatos e sentimentos profundamente gravados no coração humano";

•        "que um dos sentimentos que mais distinguem e dignificam a espécie humana é o de ternura, respeito e veneração, que evoca o amor materno"; e

•        "que o Estado não pode ignorar as legítimas imposições da consciência coletiva, e, embora não intervindo na sua expressão, e do seu dever reconhecê-las e prestar o seu apoio moral a toda obra que tenha por fim cultuar e cultivar os sentimentos que lhes imprimem, força afetiva de cultura e de aperfeiçoamento humano".

O modelo da efeméride brasileira foi copiado dos Estados Unidos, conforme apontam pesquisadores.

"Apesar de já existirem manifestações inclusive na Grécia Antiga e em outros países, o Dia das Mães como é visto hoje foi uma criação americana, do fim do século 19", afirma o psicólogo social Sérgio Silva Dantas, professor de marketing da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Se a data foi oficializada no Brasil em 1932, sua consolidação veio mesmo na época do regime militar de 1964 a 1985.

"Copiava-se tudo dos Estados Unidos e houve, durante a ditadura, uma valorização enorme da família e das mães, em particular", diz a historiadora Mary Del Priore, autora de História das Mulheres no Brasil.

"A maternidade bem vivida, a mulher dedicada aos filhos era um perfil exaltado em concurso, valorizado e que ganhava capas de revista", lembra.

<><> No Brasil

Mas se a data foi oficializada apenas em 1932 no Brasil e ganhou forte apelo comercial décadas mais tarde, Dantas conta que já havia comemorações anteriores no país.

"Segundo minhas pesquisas, havia homenagens principalmente ligadas a igrejas, em boa parte das igrejas cristãs", diz ele.

"Em maio se comemora o mês de Maria, a mãe de Jesus, então já se faziam associações ao papel da mãe."

Há registros de que em 12 de maio de 1918 ocorreu uma celebração dedicada ao Dia das Mães no Rio Grande do Sul, por iniciativa da Associação Cristã de Moços.

Já a Igreja Católica, no Brasil, acabou incorporando a tradição em 1947, por iniciativa do então cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, D. Jaime de Barros Câmara (1894-1971).

Segundo o professor do Mackenzie, a oficialização feita por Getúlio Vargas em 1932 atendeu a apelos da população. Era um momento de valorização da mulher como cidadã e, na ótica da época, seu papel materno precisava ser ressaltado também.

"Foi mais ou menos nesse período que as mulheres começaram a ter direito a voto", exemplifica o professor. "Vargas queria fazer uma ação junto ao público feminino."

Da celebração para o cunho comercial, o salto foi natural.

"Não demorou muito para a data ser associada à questão comercial, uma vez que na cultura ocidental tudo o que é comemoração está muito ligada ao consumo e, de alguma forma, trocamos presentes", contextualiza.

"Não há grandes registros históricos sobre como isso foi se desenvolvendo, mas o que se sabe é que o comércio começou a visualizar no Dia das Mães uma grande oportunidade."

O Dia das Mães é a segunda data mais importante do comércio brasileiro, perdendo apenas para o Natal.

"Supera o Dia dos Namorados, dos Pais e das Crianças, até pelo apelo emocional e sentimental que as mães representam", afirma Dantas.

Mas o reinado está um pouco ameaçado nos últimos anos por uma data bem menos afetiva.

"Hoje há uma certa concorrência da 'Black Friday' na disputa do segundo lugar. Para alguns produtos, a 'Black Friday' já é mais importante", analisa Marcel Solimeo, superintendente institucional da Associação Comercial de São Paulo.

"Mas consideramos que a 'Black Friday' é uma antecipação das compras de Natal, ou seja, os consumidores aproveitam as promoções de novembro para comprar os presentes de fim de ano", complementa ele.

"Já o Dia das Mães é uma data que representa um adicional significativo no primeiro semestre, sendo sem dúvida alguma a data comercial mais importante da primeira metade do ano. Para alguns segmentos, em especial os artigos de uso pessoal, o Dia das Mães é mais importante do que a 'Black Friday'."

Solimeo diz que a data foi ganhando espaço no calendário comercial brasileiro "porque apoia-se muito no apelo emocional, na importância que a figura materna tem em nossa cultura".

"Por isso acabou ganhando grande importância para o varejo. E os lojistas sempre usaram o Dia das Mães para — além de vender vestuário e artigos de uso pessoal (como perfumes, joias, maquiagem, bolsa) — comercializar eletrodomésticos", exemplifica.

"Sempre se vendeu a ideia de que o presente para a mãe é um presente para o lar. Assim, o segmento de móveis e eletrodomésticos historicamente tem um desempenho muito bom no Dia das Mães", analisa o superintendente.

"Hoje a narrativa é um pouco diferente, mas ainda assim as lojas continuam a usar a data para vender móveis e eletrodomésticos, até porque, se não for no Dia das Mães, só no final do ano haveria uma boa oportunidade para comercializar esses produtos de maior valor."

<><> Pelo mundo

Na antiguidade, a valorização da maternidade era concomitante ao início da primavera. Há registros de que, na Grécia Antiga a entrada da estação era festejada em honra a Reia, a mãe dos deuses.

Mas a data celebrada no Brasil e nos Estados Unidos — o segundo domingo de maio — não é unanimidade em todo o mundo contemporâneo.

Comemoram nesta data também países como África do sul, Chile, China, Dinamarca, Austrália, Itália, Japão, Cuba, Venezuela, Finlândia, Bélgica e outros. Em Portugal, por outro lado, a celebração ocorre no primeiro domingo de maio — assim como em Angola, Moçambique, Espanha, Cabo Verde, Hungria e Lituânia.

Noruegueses dedicam às mães o segundo domingo de fevereiro. Franceses e suecos, o último domingo de maio. Na Argentina e na Bielorrússia, o que vale é o terceiro domingo de outubro.

Tanto na Palestina como no Líbano, preserva-se o costume ancestral: Dia das Mães coincide com o primeiro dia da primavera.

Alguns países têm datas fixas para o Dia das Mães, independentemente do dia da semana. Na Bolívia, por exemplo, é o dia 27 de maio. Rússia, Sérvia, Montenegro, Romênia e Bulgária preferem o 8 de março.

Na Eslovênia, é dia 25 de março. Egito, Síria e alguns países árabes homenageiam as mães em 21 de março. Bélgica e Costa Rica usam o 15 de agosto, mesmo dia em que católicos celebram a Assunção de Nossa Senhora. Na antiga Iugoslávia, a comemoração era feita sempre duas semanas antes do Natal.

 

Fonte: BBC News

 

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