segunda-feira, 11 de maio de 2026

Fim da escala 6x1 colocaria Brasil 'em sintona com grande parte do mundo ocidental', diz Financial Times

O jornal britânico Financial Times publicou na quinta-feira (7/5) uma reportagem na qual afirma que o fim da escala 6x1 — em que se trabalha seis dias por semana, com um dia de folga — colocaria o Brasil "em linha com grande parte do mundo ocidental". A proposta é defendida pelo governo brasileiro e está sendo discutida no Congresso.

"Enquanto alguns no Ocidente defendem uma semana de trabalho de quatro dias na era da inteligência artificial, o Brasil só agora busca reduzir a jornada de milhões de seus trabalhadores de seis para cinco dias", diz a reportagem do jornal intitulada "Lula propõe o fim da semana de trabalho de seis dias no Brasil".

"A medida do Brasil colocaria o país em linha com grande parte do mundo ocidental, onde a semana de trabalho foi encurtada à medida que a maior produtividade e os salários mais altos possibilitaram mais tempo livre", diz o jornal, citando que, segundo o governo brasileiro, a medida afetaria 15 milhões de brasileiros com empregos formais que trabalham na escala 6x1. Outros 37 milhões se beneficiariam com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem perda salarial, pelos cálculos do governo.

O Financial Times diz que este mês "marca o centenário da Ford, que se tornou a primeira grande empregadora dos EUA a conceder aos seus funcionários um fim de semana de dois dias."

"Os brasileiros trabalharam, em média, pouco menos de 2 mil horas no total em 2023, cerca de 50% a mais do que os alemães, que trabalharam 1.335 horas, segundo o [site científico] Our World in Data."

Mas, segundo o jornal, a proposta "está longe de ter sua aprovação garantida em um legislativo cada vez mais hostil e dominado por conservadores que impuseram derrotas dolorosas a Lula recentemente" — uma menção à reprovação no Senado da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

"Os opositores afirmam que o plano pode prejudicar a economia, aumentando os custos para as empresas", diz o jornal.

O Financial Times também fala que os apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva esperam que, mesmo que não seja aprovada antes das eleições, essa pauta daria a ele "uma vantagem sobre seu principal rival no pleito de outubro, o senador Flávio Bolsonaro".

Além disso, "o ex-sindicalista Lula" estaria buscando "se reconectar com sua base trabalhadora", segundo o jornal.

"Durante seu primeiro mandato, de 2003 a 2010, Lula recebeu elogios internacionais por reduzir significativamente a pobreza. Desde que retornou ao poder, há três anos, ele isentou do imposto de renda os trabalhadores de baixa renda, aumentou o salário mínimo e reforçou os benefícios sociais", diz o Financial Times.

"Contudo, apesar do forte crescimento do PIB e do desemprego relativamente baixo, seus índices de aprovação nas pesquisas de opinião pública têm caído. Esses números, frequentemente atribuídos à inflação persistente e ao endividamento das famílias, ajudam a explicar o foco de Lula no plano [para acabar com a escala] 6x1."

O jornal destaca que entidades do setor privado afirmam que as propostas podem prejudicar a criação de empregos ou até mesmo levar a demissões, citando dados da Fecomércio-SP, que estimam que a redução da jornada para 40 horas semanais poderia aumentar os custos por hora em 10%. Já o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) afirma em estudo que os custos seriam suportáveis, e sem provas concretas de perda de postos de emprego.

"Mas mesmo que uma semana de trabalho mais curta force empresas e trabalhadores a serem mais produtivos, haverá contrapartidas: a cultura de longas jornadas de trabalho nos EUA é um dos principais motivos pelos quais os trabalhadores americanos ganham mais do que seus homólogos europeus", diz a reportagem do Financial Times.

"Pesquisadores do FMI argumentam que a solução não é forçar as pessoas a trabalharem mais do que desejam, mas sim inserir mais pessoas no mercado de trabalho por meio de políticas como licença parental mais abrangente — e ajudá-las a continuar trabalhando até idades mais avançadas."

No fim do mês passado, duas propostas para acabar com a escala 6x1 avançaram em comissões no Congresso brasileiro. As medidas passam agora a ser analisadas por uma nova comissão especial e, se aprovadas, podem seguir para votação nos plenários da Câmara dos Deputados e do Senado.

•        Escala 6×1: Quem teme a redução da jornada? Por Heitor Scalambrini Costa

O Projeto de Lei 1838/2026 encaminhado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prevê a vigência imediata da redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário. Seguindo tendência mundial, se aproxima de países sul americanos e europeus que já reduziram a carga horária de trabalho abaixo de 40 horas semanais. Caso aprovado pelo Congresso Nacional estabelecerá uma nova referência para o mercado de trabalho brasileiro, com impacto direto sobre milhões de trabalhadores, promovendo uma das maiores mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em décadas.

Mesmo com inúmeros benefícios, tanto para o patrão como para o trabalhador, a implantação da jornada 5×2 (5 dias trabalhados e 2 dias com descansados remunerados) refletirá positivamente na economia do país; mas mesmo assim sofre resistência de parcela da classe empresarial, de políticos de extrema direita, e de parte da sociedade desinformada, que se alimenta de “fake News”. A grande maioria daqueles contrários à proposta, insistem em afirmar que mudar a jornada fragiliza empregos e a economia. Esse discurso de “quebra da economia” ou “desemprego em massa” foi usado anteriormente contra a implementação do salário mínimo, do 13º salário, das férias remuneradas, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e da redução da jornada semanal de 48 para 44 horas na Constituição de 1988.

Contrários a esta evolução, que pode ser chamada de civilizatória, são os mesmos em sua imensa maioria, que apoiaram os 21 anos de ditadura cívico-militar de 64, expresso nas manifestações de rua da extrema direita. São adeptos do totalitarismo, do autoritarismo como forma de governo, e cultuam como líder o ex-presidente julgado, condenado e preso, pelo crime de tentativa de golpe de Estado. Também defendem o controle da mídia com censura previa, e o desmantelamento das instituições democráticas, com supressão de direitos, e a abolição da liberdade de imprensa. São na realidade fascistas, que devem ser combatidos.

Os opositores a modernização nas relações trabalhistas, apoiaram o governo, do agora presidiário, na tentativa de implantar “uma nova reforma trabalhista”, com a medida provisória 905/2019 que propunha uma maior flexibilização da CLT, e que entre outras medidas taxava o seguro-desemprego, e facilitava o trabalho aos domingos. Felizmente foi revogada antes de ser votada. Na prática seria a precarização, o aumento da terceirização, a redução de direitos (como 13º e as férias) e o aumento da vulnerabilidade do trabalhador. O agora presidiário durante seu desastroso mandato presidencial, facilitou a vida do empregador, justificando como “estimulo a economia”, com ênfase na flexibilização das leis laborais.

Seguidores do agora candidato à presidência, o “bolsonarinho”, apresentaram na Câmara uma proposta, que é um verdadeiro descalabro; a desoneração para compensar as empresas com a mudança da jornada de trabalho, o que equivaleria a bolsa-patrão. Setores empresariais chegam a defender a absurda proposta da contratação por hora para compensar o fim da escala 6×1. Na realidade opõem que se faça justiça social, e nem que se cuide da saúde de homens e mulheres impactados por longas horas ininterruptas de trabalho.

Ao serem a favor das jornadas de trabalho que consomem todo o tempo da vida das pessoas, como a jornada de 6 dias de trabalho por 1 de descanso, impedem uma vida mais digna, com mais saúde física e mental, e o próprio fortalecimento das relações familiares.

Análises e estudos produzidos pelo Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade de Campinas (Unicamp), intitulado “O Brasil está pronto para trabalhar menos: a PEC da redução da jornada e o fim da escala 6×1”, e pela Norma Técnica nº 286/2025 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), intitulada “Tempo de trabalho e tempo de descanso: uma luta histórica”, demonstram que a jornada 6 x 1 compromete a recuperação física e mental do trabalhador, ao reduzir a frequência de descanso e fragmentar o tempo livre, além de enfraquecer vínculos familiares e comunitários, aspectos fundamentais para a saúde mental dos trabalhadores.

É desmedida e mentirosa a reação de setores empresariais, políticos e setores da sociedade civil, aliados e mesmo integrantes da extrema direita, diante da proposta do governo federal, tentando projetar um cenário de colapso econômico diante da redução da jornada. Ao afirmarem que esta medida irá desregular, gerar desemprego e quebrar empresas, não levam em conta o que ocorreu em diversos países que adotaram a redução da jornada.

Historicamente, sempre a ladainha foi a mesma, quando se tenta fazer justiça social, diminuir a ignóbil desigualdade existente no país, melhorar a vida do trabalhador, dos mais pobres e vulneráveis. Adotar “fake news” que o Brasil vai quebrar, curiosamente, são os mesmos argumentos utilizados no passado com a finalidade de gerar pânico, de colocar em dúvida a eficácia da medida.

É contraditório a ação da extrema direita e seus seguidores que tanto exaltam a valorização da família, manter um modelo que dificulta, e às vezes impede o convívio com filhos, a prática e devoção religiosa, o lazer e a simples vivência comunitária, notadamente para os trabalhadores com menor qualificação. A vida humana não pode ser resumida apenas a produção sob o ponto de vista meramente econômico, a pagar boletos, ela precisa ser efetivamente vivida. Reduzir a jornada máxima no Brasil é um passo fundamental para a qualidade de vida das famílias brasileiras.

A atuação de uma parcela majoritária do Congresso Nacional tem priorizando privilégios e retrocessos, com votações prejudiciais à classe trabalhadora, com o avanço de agendas da extrema direita, em vez de pautas populares. É hora de lutar pelo fim da escala 6×1, denunciar e combater a maioria do Congresso Nacional que age como verdadeiro “inimigo do povo”.

Em estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais pode elevar em média, o custo a 7,84%; e que para os maiores empregadores, o efeito total da redução da jornada sobre os custos não chega a 1%.  Segundo o Ipea, os custos da redução da jornada para 40 horas semanais seriam semelhantes aos impactos observados em reajustes do salário mínimo, o que indica uma capacidade de absorção da medida pelo mercado de trabalho, sem efeitos importantes sobre o emprego.

Neste debate, os que resistem a redução da jornada, se posicionam adeptos de uma sociedade neoescravocrata, cujo sistema social e econômico baseia-se na propriedade do tempo da vida de um ser humano por outro, imposto pela violência de uma grande reserva de mercado de mão de obra não organizada, que espera trabalhar, e que acaba aceitando situações inóspitas, degradantes, sem dignidade e de baixa remuneração. Algo que poderíamos denominar de “escravagismo moderno”.

A mobilização e pressão popular junto aos parlamentares é o caminho para a mudança na legislação trabalhista e de outras conquistas. Caberá aos trabalhadores, cidadãos, eleitores, juntamente com seus órgãos de classe, sindicatos, centrais sindicais, associações, aliados na defesa dos legítimos interesses da classe laboral, manifestarem nas ruas, cobrando dos seus parlamentares a votarem pela redução da jornada semanal sem redução de salário. E que nas próximas eleições a(o) eleitor(a) escolha seu representante entre aqueles(as) que tenham lado, o do trabalhador. Não se deixe enganar. É chegada a hora de garantir o direito de existir, e que haja vida além do trabalho.

 

Fonte: BBC News/Outras Palavras

 

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