segunda-feira, 11 de maio de 2026

As big techs e a era de guerras sem fim

Guerra e caos.

Assim se apresenta o capitalismo após a sua evolução mais recente. Isto após ter sido parcialmente diferenciado da práxis neoliberal dos anos 80 e 90 que abalou o mundo.

Como já foi dito em outro artigo, ambos os termos contribuem para definir o que vivenciamos hoje como uma condição de não exceção.

Estes dois substantivos trazem-nos automaticamente à ideia o Olimpo da demência em que se está tornando a Casa Branca. Mas o trumpismo — mais cedo ou mais tarde, por uma razão ou por outra — chegará ao seu fim; a guerra e o caos não, pelo menos enquanto não houver uma nova mudança na longa e abalada vida do capitalismo.

Os interesses e os investimentos — financeiros e políticos — por detrás desta evolução são incontornáveis e não preveem recuos. O que está em jogo é uma visão do mundo em que o que mais conta é o controle sobre os recursos energéticos e naturais estratégicos. A função desempenhada por Israel, com todas as consequências que acarreta, cabe também nesta lógica.

Duas empresas estão tornando-se cada vez mais centrais no cenário global assim delineado.

Graças à fama — defini-la como sombria é fazer-lhe um favor — do seu fundador, Peter Thiel, a Palantir anda há alguns anos nas manchetes de jornais e revistas pelo mundo afora.

O sistema Palantir é, na realidade, muito mais do que apenas a Palantir. Neste sistema, ocupa uma posição de destaque uma empresa que, tal como a anterior, tem um nome retirado do Senhor dos Anéis, a Anduril. A ligação entre as duas é muito estreita: uma não pode sobreviver sem a outra.

Um esclarecimento necessário. Não sendo jornalistas e não tendo, portanto, acesso a fontes ou arquivos especializados, baseamos a pesquisa inicial sobre este mundo no DeepSeek, o chatbot chinês. A confiança que aí se deposita tem a ver com um elemento encorajador. Cada informação apresentada vem com pelo menos um link para artigos que a sustentam. Na maioria dos casos, foram publicados na imprensa norte-americana, cuja leitura confirmou as informações fornecidas pelo chatbot. Como sempre acontece, os links levam a outros links, o que permitiu reconstruir — muito parcialmente, claro — uma realidade extremamente complexa.

Anduril nasce por iniciativa de um grupo de ex-colaboradores de Thiel — Brian Schimpf, Trae Stephens e Matt Grimm — em 2017, no seio de uma iniciativa totalmente concertada com a Palantir. O fundador inicial, na verdade, foi Palmer Luckey. Após a venda ao Facebook da sua antiga empresa, por dois mil milhões de dólares em 2014, deu vida — junto com os três ex-Palantir e por meio do financiamento de Thiel e outros especuladores financeiros de capitais de risco — à Anduril.

Não foi a única startup que a Palantir financiou. A estratégia de business insider da empresa de Thiel levou à criação de outras, todas bem colocadas na órbita da Palantir e, obviamente, localizadas no Vale do Silício. Esta estratégia tornou-se famosa nos meios de informação estadunidenses, e não só, por um nome que não deixa dúvida: a Máfia da Palantir.

Peter Thiel, em suma, criou — e ainda está aperfeiçoando — uma máquina de guerra planetária sem precedentes históricos. Os imensos meios financeiros de que esta máquina de morte dispõe tornam a galáxia Palantir/Anduril o ator principal no cenário bélico que temos à nossa frente hoje em dia. Dispensável será dizer que o maior financiador e utilizador dessas iniciativas de “tanatopolítica” é o governo dos EUA. Mas não é o único, como veremos.

A Anduril e a Palantir desempenham um papel central no “regime de guerra” global. Não se trata apenas de duas empresas que desfrutam de uma posição privilegiada para obter contratos riquíssimos. Peter Thiel, Palmer Luckey e alguns dos seus colaboradores teorizam, sugerem intervenções e influenciam escolhas políticas nos níveis mais elevados.

O primeiro — para além de ser outras coisas — é considerado o criador do vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o inspirador do horrível e ridículo Pete Hegseth. O segundo, que se definiu como “sionista radical”, foi visitar Israel secretamente e reuniu-se com o primeiro-ministro Netanyahu. Do resto, também o CEO da Palantir, Alex Karp, nunca escondeu ser um firme defensor de Israel, considerando a defesa do estado terrorista um imperativo moral e existencial.

Os capitais de grande porte apostam naquilo que é provavelmente o maior negócio hoje em dia no planeta, tendo em conta todos os elementos que o rodeiam: a transformação da guerra tradicional em guerra tecnológica conduzida por meios autônomos. Mais uma vez, é Israel o principal campo de experimentação, e é aí, de fato, onde Kinetica Venture Capital e 8VC do Alex Moore, estão fazendo enormes investimentos neste sentido.

“Nós operávamos com o modelo da Segunda Guerra Mundial, de tanques e aviões… e agora é um novo paradigma; estamos repensando tudo”, disse Moore em sua primeira visita a Israel, como relata o artigo do Jerusalem Post.

O novo paradigma não tem a ver apenas com a aplicação de tecnologias em si. Tem a ver com a função da guerra, da multiplicidade de guerras simultâneas na definição de um novo cenário global. A guerra permanente está reorganizando o “sistema-mundo”, a função das instituições e das suas relações. Entretanto, a Palantir/Anduril está mudando o sentido mesmo de guerra.

O jogo em equipe entre as duas empresas definiu a divisão de tarefas estratégicas que se substancia no mote “from Edge to Cloud”, do campo de batalha à empresa-mãe.

A plataforma de IA Lattice constitui o maior ponto de força da Anduril. Consta de um sistema de olhos, ouvidos e braços: recolhe dados no terreno, via sensores, drones e outros equipamentos. Esses dados são transferidos à Palantir, que os elabora, define alvos e estratégias a serem adotadas em diferentes níveis de escala. Dito de uma forma mais clara: “A Lattice de Anduril manuseia os dados táticos em tempo real, enquanto a Artificial Intelligence Platform (AIP) e o Maven Smart System [ambos da Palantir] geram a modelação de dados em larga escala e o comando ao nível de teatro de operações”, como vem num artigo do Investing.com.

Um exemplo dessa parceria — sempre em prol de Israel e da Mossad — é a ação que levou à morte de quadros do Hezbollah nos últimos meses de 2024, por meio de explosivos colocados nos walkie-talkies por eles utilizados. Os dados para levar a cabo a ação foram recolhidos, elaborados pelas duas empresas norte-americanas e sucessivamente traduzidos em kill-chain pelo Mossad e pela IDF.

Aquele ataque representa um dos exemplos mais nítidos do processo de gamification (gamificação) da guerra, em que as sobreposições entre realidade “analógica” e realidade virtual — produzindo uma realidade mista — são constantes. Assim como já foi para alguns modelos operativos no âmbito laboral —o caso da Amazon —, as operações são geridas e atuadas por operadores em centros de comando, onde interagem com interfaces digitais, realidade mista e inteligência artificial.

Shyam Sankar, diretor de tecnologia da Palantir, tornou isso muito claro ao afirmar que “a arma mais importante e maleável não são os mísseis, mas o software”. O sistema da Palantir compila os dados provenientes do mundo real e transforma-os num tabuleiro de jogo, onde estão representados os pontos de interesse. O computador define o “campo de jogo” e as ações a cumprir. Neste momento, é a Anduril que entra no jogo, executando, por meio da plataforma Lattice, os comandos para ativar drones e outros sistemas autônomos de intervenção. Tudo acontece num ecrã, que, após a “intervenção”, volta a ser “limpo”.

Este processo faz com que a dita kill chain seja muito breve, assim como é em um videogame. Infelizmente, Gaza, o Líbano e o Irã estão aí a mostrar que se trata de algo bem longe de ser um jogo.

Para acabar com esta descrição do modelo Palantir/Anduril, poderia ser útil apresentar um trecho extraído do site da Anduril, esclarecedor da maneira como a máquina no seu complexo funciona.

“Forneceremos um mecanismo rápido e pronto para operacionalizar estas novas capacidades de IA diretamente através de programas de produção de defesa que já se encontram no terreno. O Maven Smart System, baseado na Plataforma Palantir, oferece uma plataforma empresarial de comando de missão que integra dados operacionais de larga escala e utiliza capacidades baseadas em IA para melhorar e acelerar a tomada de decisão humana em missões conjuntas, tais como informações e fogos. Da mesma forma, a plataforma de software Lattice da Anduril oferece uma plataforma de autonomia de missão de proximidade (edge) que se integra diretamente com sistemas robóticos e utiliza capacidades baseadas em IA para automatizar e orquestrar a condução de missões conjuntas, tais como defesa aérea e reconhecimento. A Anduril e a Palantir estão unindo estes sistemas complementares, proporcionando uma capacidade operacional contínua desde a proximidade até à empresa, que serve como plataforma de implementação para novas aplicações de IA que qualquer pessoa pode construir. Esta plataforma já está implementada e a ser utilizada pela Anduril e pela Palantir para os seus próprios fins corporativos e em contratos governamentais, o que permite que este trabalho comece imediatamente.”

A visão completa desta máquina e das suas funções vai muito além do âmbito estreitamente bélico. A leitura global — perfeitamente em linha com a filosofia do Thiel — da função dos Estados Unidos e dos seus homens “melhores” é contida no livro do Shyam Sankar, Mobilize, e bem sintetizada por Annie Jacobsen, numa apresentação elogiosa do trabalho de Sankar. Lê-se no site do livro:

“O que a América precisa é de visionários, rebeldes e até de heréticos para superar a inércia burocrática que sempre impediu as mudanças tectônicas. Durante demasiado tempo, o Pentágono rezou no altar dos processos. Ao capacitarmos indivíduos excepcionais e ao aproveitarmos o poder do capitalismo e da concorrência, podemos libertar o talento e a força necessários para ressuscitar a base industrial, evitar a Terceira Guerra Mundial — e ajudar o nosso país a construir, e a vencer”.

Os interesses da Palantir e Anduril, porém, não são limitados aos dois países mais (declaradamente) belicistas dos tempos assustadores que estamos vivenciando.

A Europa torna-se um campo de conquista destes dois gigantes made in USA, e os resultados já são bem visíveis.

Três países — Reino Unido, Alemanha e Polônia — adotaram, ao mais alto nível, o sistema por elas promovido, investindo quotas de capitais muito elevadas.

Devido à sua posição geográfica, que faz dela um país-fronteira, a Polônia é, sem dúvida, entre os três países nomeados, o que tece ligações mais complexas com Palantir e Anduril, no âmbito da produção bélica.

As encomendas atribuídas às duas empresas — que somam milhares de milhões de dólares — preveem a aquisição do sistema de IA e de cibersegurança da Palantir, assim como a cooperação com a Anduril, no que diz respeito ao sistema de mísseis autônomos.

O Reino Unido, por seu lado, tornou-se o quartel-general da Palantir na Europa. O investimento de 1,5 bilhão de libras servirá para a Palantir desenvolver capacidades alimentadas pela IA — já testadas na Ucrânia — para acelerar o processo de tomada de decisões, planejamento militar e definição de alvos.

Na Alemanha, as negociações envolveram principalmente a Anduril, por meio da parceria estabelecida com a gigante alemã da produção industrial bélica Rheinmetall. O acordo prevê o desenvolvimento e produção conjunta de sistemas autônomos definidos por software para as forças armadas europeias.

Isto significa que a parceria entre Anduril e Rheinmetall aponta a um mercado que vai para além das fronteiras alemãs, pois é “adaptada às necessidades individuais dos mercados europeus e pretende refletir a filosofia ‘construído com, e não para’”.

O resto do mundo não fica fora dos interesses das duas empresas. Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália e Emirados Árabes Unidos são apenas os países onde as parcerias com governos e/ou empresas locais são mais valiosas.

Escusado será dizer que a China e a Rússia têm planos equivalentes aos das duas empresas made in USA. As diferenças são formais (o papel do Estado, em primeiro lugar), mas também substanciais. As duas superpotências agiram de forma a produzir ecossistemas estatais muito complexos e articulados, baseados nos imensos fundos financeiros que detêm e na estrutura dos seus exércitos.

Em suma, parece que Thiel e os outros anarco-capitalistas se posicionam numa nova versão do que Tolkien descreveu nos anos 50. O Sauron que eles representam encarna o desejo de um poder absoluto e paranoico, a ser alcançado por todos os meios.

O Anticristo, evocado por Thiel como inimigo total, toma as feições de uma Hidra de muitas cabeças, cujo objetivo é opor-se ao processo de desenvolvimento que os homens “melhores” estão proporcionando à Terra Média.

O que ele define como Anticristo não passa da multidão de sujeitos que, diariamente, lutam por uma “vida justa”, porque onde há poder, há resistência.

 

Fonte: Por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães, em Outras Palavras

 

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