As
big techs e a era de guerras sem fim
Guerra
e caos.
Assim
se apresenta o capitalismo após a sua evolução mais recente. Isto após ter sido
parcialmente diferenciado da práxis neoliberal dos anos 80 e 90 que abalou o
mundo.
Como já
foi dito em outro artigo, ambos os termos contribuem para definir o que
vivenciamos hoje como uma condição de não exceção.
Estes
dois substantivos trazem-nos automaticamente à ideia o Olimpo da demência em
que se está tornando a Casa Branca. Mas o trumpismo — mais cedo ou mais tarde,
por uma razão ou por outra — chegará ao seu fim; a guerra e o caos não, pelo
menos enquanto não houver uma nova mudança na longa e abalada vida do
capitalismo.
Os
interesses e os investimentos — financeiros e políticos — por detrás desta
evolução são incontornáveis e não preveem recuos. O que está em jogo é uma
visão do mundo em que o que mais conta é o controle sobre os recursos
energéticos e naturais estratégicos. A função desempenhada por Israel, com
todas as consequências que acarreta, cabe também nesta lógica.
Duas
empresas estão tornando-se cada vez mais centrais no cenário global assim
delineado.
Graças
à fama — defini-la como sombria é fazer-lhe um favor — do seu fundador, Peter
Thiel, a Palantir anda há alguns anos nas manchetes de jornais e revistas pelo
mundo afora.
O
sistema Palantir é, na realidade, muito mais do que apenas a Palantir. Neste
sistema, ocupa uma posição de destaque uma empresa que, tal como a anterior,
tem um nome retirado do Senhor dos Anéis, a Anduril. A ligação entre as duas é
muito estreita: uma não pode sobreviver sem a outra.
Um
esclarecimento necessário. Não sendo jornalistas e não tendo, portanto, acesso
a fontes ou arquivos especializados, baseamos a pesquisa inicial sobre este
mundo no DeepSeek, o chatbot chinês. A confiança que aí se deposita tem a ver
com um elemento encorajador. Cada informação apresentada vem com pelo menos um
link para artigos que a sustentam. Na maioria dos casos, foram publicados na
imprensa norte-americana, cuja leitura confirmou as informações fornecidas pelo
chatbot. Como sempre acontece, os links levam a outros links, o que permitiu
reconstruir — muito parcialmente, claro — uma realidade extremamente complexa.
Anduril
nasce por iniciativa de um grupo de ex-colaboradores de Thiel — Brian Schimpf,
Trae Stephens e Matt Grimm — em 2017, no seio de uma iniciativa totalmente
concertada com a Palantir. O fundador inicial, na verdade, foi Palmer Luckey.
Após a venda ao Facebook da sua antiga empresa, por dois mil milhões de dólares
em 2014, deu vida — junto com os três ex-Palantir e por meio do financiamento
de Thiel e outros especuladores financeiros de capitais de risco — à Anduril.
Não foi
a única startup que a Palantir financiou. A estratégia de business insider da
empresa de Thiel levou à criação de outras, todas bem colocadas na órbita da
Palantir e, obviamente, localizadas no Vale do Silício. Esta estratégia
tornou-se famosa nos meios de informação estadunidenses, e não só, por um nome
que não deixa dúvida: a Máfia da Palantir.
Peter
Thiel, em suma, criou — e ainda está aperfeiçoando — uma máquina de guerra
planetária sem precedentes históricos. Os imensos meios financeiros de que esta
máquina de morte dispõe tornam a galáxia Palantir/Anduril o ator principal no
cenário bélico que temos à nossa frente hoje em dia. Dispensável será dizer que
o maior financiador e utilizador dessas iniciativas de “tanatopolítica” é o
governo dos EUA. Mas não é o único, como veremos.
A
Anduril e a Palantir desempenham um papel central no “regime de guerra” global.
Não se trata apenas de duas empresas que desfrutam de uma posição privilegiada
para obter contratos riquíssimos. Peter Thiel, Palmer Luckey e alguns dos seus
colaboradores teorizam, sugerem intervenções e influenciam escolhas políticas
nos níveis mais elevados.
O
primeiro — para além de ser outras coisas — é considerado o criador do
vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o inspirador do horrível e ridículo Pete
Hegseth. O segundo, que se definiu como “sionista radical”, foi visitar Israel
secretamente e reuniu-se com o primeiro-ministro Netanyahu. Do resto, também o
CEO da Palantir, Alex Karp, nunca escondeu ser um firme defensor de Israel,
considerando a defesa do estado terrorista um imperativo moral e existencial.
Os
capitais de grande porte apostam naquilo que é provavelmente o maior negócio
hoje em dia no planeta, tendo em conta todos os elementos que o rodeiam: a
transformação da guerra tradicional em guerra tecnológica conduzida por meios
autônomos. Mais uma vez, é Israel o principal campo de experimentação, e é aí,
de fato, onde Kinetica Venture Capital e 8VC do Alex Moore, estão fazendo
enormes investimentos neste sentido.
“Nós
operávamos com o modelo da Segunda Guerra Mundial, de tanques e aviões… e agora
é um novo paradigma; estamos repensando tudo”, disse Moore em sua primeira
visita a Israel, como relata o artigo do Jerusalem Post.
O novo
paradigma não tem a ver apenas com a aplicação de tecnologias em si. Tem a ver
com a função da guerra, da multiplicidade de guerras simultâneas na definição
de um novo cenário global. A guerra permanente está reorganizando o
“sistema-mundo”, a função das instituições e das suas relações. Entretanto, a
Palantir/Anduril está mudando o sentido mesmo de guerra.
O jogo
em equipe entre as duas empresas definiu a divisão de tarefas estratégicas que
se substancia no mote “from Edge to Cloud”, do campo de batalha à empresa-mãe.
A
plataforma de IA Lattice constitui o maior ponto de força da Anduril. Consta de
um sistema de olhos, ouvidos e braços: recolhe dados no terreno, via sensores,
drones e outros equipamentos. Esses dados são transferidos à Palantir, que os
elabora, define alvos e estratégias a serem adotadas em diferentes níveis de
escala. Dito de uma forma mais clara: “A Lattice de Anduril manuseia os dados
táticos em tempo real, enquanto a Artificial Intelligence Platform (AIP) e o
Maven Smart System [ambos da Palantir] geram a modelação de dados em larga
escala e o comando ao nível de teatro de operações”, como vem num artigo do
Investing.com.
Um
exemplo dessa parceria — sempre em prol de Israel e da Mossad — é a ação que
levou à morte de quadros do Hezbollah nos últimos meses de 2024, por meio de
explosivos colocados nos walkie-talkies por eles utilizados. Os dados para
levar a cabo a ação foram recolhidos, elaborados pelas duas empresas
norte-americanas e sucessivamente traduzidos em kill-chain pelo Mossad e pela
IDF.
Aquele
ataque representa um dos exemplos mais nítidos do processo de gamification
(gamificação) da guerra, em que as sobreposições entre realidade “analógica” e
realidade virtual — produzindo uma realidade mista — são constantes. Assim como
já foi para alguns modelos operativos no âmbito laboral —o caso da Amazon —, as
operações são geridas e atuadas por operadores em centros de comando, onde
interagem com interfaces digitais, realidade mista e inteligência artificial.
Shyam
Sankar, diretor de tecnologia da Palantir, tornou isso muito claro ao afirmar
que “a arma mais importante e maleável não são os mísseis, mas o software”. O
sistema da Palantir compila os dados provenientes do mundo real e transforma-os
num tabuleiro de jogo, onde estão representados os pontos de interesse. O
computador define o “campo de jogo” e as ações a cumprir. Neste momento, é a
Anduril que entra no jogo, executando, por meio da plataforma Lattice, os
comandos para ativar drones e outros sistemas autônomos de intervenção. Tudo
acontece num ecrã, que, após a “intervenção”, volta a ser “limpo”.
Este
processo faz com que a dita kill chain seja muito breve, assim como é em um
videogame. Infelizmente, Gaza, o Líbano e o Irã estão aí a mostrar que se trata
de algo bem longe de ser um jogo.
Para
acabar com esta descrição do modelo Palantir/Anduril, poderia ser útil
apresentar um trecho extraído do site da Anduril, esclarecedor da maneira como
a máquina no seu complexo funciona.
“Forneceremos
um mecanismo rápido e pronto para operacionalizar estas novas capacidades de IA
diretamente através de programas de produção de defesa que já se encontram no
terreno. O Maven Smart System, baseado na Plataforma Palantir, oferece uma
plataforma empresarial de comando de missão que integra dados operacionais de
larga escala e utiliza capacidades baseadas em IA para melhorar e acelerar a
tomada de decisão humana em missões conjuntas, tais como informações e fogos.
Da mesma forma, a plataforma de software Lattice da Anduril oferece uma
plataforma de autonomia de missão de proximidade (edge) que se integra
diretamente com sistemas robóticos e utiliza capacidades baseadas em IA para
automatizar e orquestrar a condução de missões conjuntas, tais como defesa
aérea e reconhecimento. A Anduril e a Palantir estão unindo estes sistemas
complementares, proporcionando uma capacidade operacional contínua desde a
proximidade até à empresa, que serve como plataforma de implementação para
novas aplicações de IA que qualquer pessoa pode construir. Esta plataforma já
está implementada e a ser utilizada pela Anduril e pela Palantir para os seus
próprios fins corporativos e em contratos governamentais, o que permite que
este trabalho comece imediatamente.”
A visão
completa desta máquina e das suas funções vai muito além do âmbito
estreitamente bélico. A leitura global — perfeitamente em linha com a filosofia
do Thiel — da função dos Estados Unidos e dos seus homens “melhores” é contida
no livro do Shyam Sankar, Mobilize, e bem sintetizada por Annie Jacobsen, numa
apresentação elogiosa do trabalho de Sankar. Lê-se no site do livro:
“O que
a América precisa é de visionários, rebeldes e até de heréticos para superar a
inércia burocrática que sempre impediu as mudanças tectônicas. Durante
demasiado tempo, o Pentágono rezou no altar dos processos. Ao capacitarmos
indivíduos excepcionais e ao aproveitarmos o poder do capitalismo e da
concorrência, podemos libertar o talento e a força necessários para ressuscitar
a base industrial, evitar a Terceira Guerra Mundial — e ajudar o nosso país a
construir, e a vencer”.
Os
interesses da Palantir e Anduril, porém, não são limitados aos dois países mais
(declaradamente) belicistas dos tempos assustadores que estamos vivenciando.
A
Europa torna-se um campo de conquista destes dois gigantes made in USA, e os
resultados já são bem visíveis.
Três
países — Reino Unido, Alemanha e Polônia — adotaram, ao mais alto nível, o
sistema por elas promovido, investindo quotas de capitais muito elevadas.
Devido
à sua posição geográfica, que faz dela um país-fronteira, a Polônia é, sem
dúvida, entre os três países nomeados, o que tece ligações mais complexas com
Palantir e Anduril, no âmbito da produção bélica.
As
encomendas atribuídas às duas empresas — que somam milhares de milhões de
dólares — preveem a aquisição do sistema de IA e de cibersegurança da Palantir,
assim como a cooperação com a Anduril, no que diz respeito ao sistema de
mísseis autônomos.
O Reino
Unido, por seu lado, tornou-se o quartel-general da Palantir na Europa. O
investimento de 1,5 bilhão de libras servirá para a Palantir desenvolver
capacidades alimentadas pela IA — já testadas na Ucrânia — para acelerar o
processo de tomada de decisões, planejamento militar e definição de alvos.
Na
Alemanha, as negociações envolveram principalmente a Anduril, por meio da
parceria estabelecida com a gigante alemã da produção industrial bélica
Rheinmetall. O acordo prevê o desenvolvimento e produção conjunta de sistemas
autônomos definidos por software para as forças armadas europeias.
Isto
significa que a parceria entre Anduril e Rheinmetall aponta a um mercado que
vai para além das fronteiras alemãs, pois é “adaptada às necessidades
individuais dos mercados europeus e pretende refletir a filosofia ‘construído
com, e não para’”.
O resto
do mundo não fica fora dos interesses das duas empresas. Japão, Coreia do Sul,
Índia, Austrália e Emirados Árabes Unidos são apenas os países onde as
parcerias com governos e/ou empresas locais são mais valiosas.
Escusado
será dizer que a China e a Rússia têm planos equivalentes aos das duas empresas
made in USA. As diferenças são formais (o papel do Estado, em primeiro lugar),
mas também substanciais. As duas superpotências agiram de forma a produzir
ecossistemas estatais muito complexos e articulados, baseados nos imensos
fundos financeiros que detêm e na estrutura dos seus exércitos.
Em
suma, parece que Thiel e os outros anarco-capitalistas se posicionam numa nova
versão do que Tolkien descreveu nos anos 50. O Sauron que eles representam
encarna o desejo de um poder absoluto e paranoico, a ser alcançado por todos os
meios.
O
Anticristo, evocado por Thiel como inimigo total, toma as feições de uma Hidra
de muitas cabeças, cujo objetivo é opor-se ao processo de desenvolvimento que
os homens “melhores” estão proporcionando à Terra Média.
O que
ele define como Anticristo não passa da multidão de sujeitos que, diariamente,
lutam por uma “vida justa”, porque onde há poder, há resistência.
Fonte:
Por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães, em Outras Palavras

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