Brasileiros
estão deixando Portugal em busca de novas oportunidades na Espanha
O
brasileiro Paulo Geronimo espera ser um dos beneficiados pelo processo de
regularização extraordinária iniciado em abril, que pretende legalizar a
situação de milhares de imigrantes que já vivem na Espanha.
Após sete anos em Portugal,
ele se mudou para o país vizinho com a família em 2025.
"Até
já tínhamos conseguido regularizar nossa situação em Portugal, mas, nos últimos
anos, começamos a sentir um aumento da hostilidade contra brasileiros, com
frases como 'volta para a tua terra'. Também fomos atraídos por salários mais
altos. E tivemos sorte de nos mudar antes do processo de regularização — o que
nos permite ser beneficiados", conta Paulo. Com anos de experiência como
motorista de caminhão em Portugal, ele já conseguiu a promessa de um contrato
de trabalho na Espanha e está desenvolvendo um app para conectar motoristas e
empresas espanholas.
Com um
discurso oficial mais positivo em relação à imigração e
políticas voltadas a melhorar as condições de vida dos imigrantes, a Espanha
tem seguido um caminho diferente não só dos EUA,
mas também de vários países europeus — entre eles, Portugal, que hoje abriga a
maior comunidade brasileira na Europa (mais
de 500 mil pessoas).
Soma-se
a isso o fato de a Espanha ser uma das economias que mais crescem na União
Europeia e não é difícil entender por que a história de Paulo
está longe de ser um caso isolado.
Nos
últimos meses — e com mais intensidade após o anúncio da regularização
extraordinária — multiplicaram-se, em grupos de WhatsApp de brasileiros na
Espanha, as dúvidas de conterrâneos que vivem em Portugal sobre como (e se
valeria a pena) mudar-se para o país vizinho. Também surgiram novos grupos,
alguns com centenas de membros, que compartilham informações práticas sobre a
mudança.
O
interesse é particularmente forte nas regiões de fronteira, onde, muitas vezes,
mudar de país significa, literalmente, atravessar uma ponte. E não vem apenas
de imigrantes em situação irregular, mas também de quem já está regularizado.
Mônica Rovaris, por exemplo, professora universitária aposentada com dupla
cidadania brasileira e italiana, decidiu se mudar do norte de Portugal para a
Galícia, no noroeste da Espanha, com o marido e dois filhos.
"Nossa
impressão é que Portugal não soube equacionar muito bem o aumento da imigração:
há um clima de maior hostilidade e os serviços de atendimento aos imigrantes
colapsaram. Meu marido, que é brasileiro, estava há dois anos esperando pela
renovação do visto de residência", diz Mônica.
Com
base em dados do governo espanhol, o Consulado do Brasil em Madri estima que a
comunidade de brasileiros oficialmente residente na Espanha tenha atingido 195
mil pessoas em 2025, contra 156 mil em 2022 — um aumento de cerca de 25% em
apenas três anos.
Só no
último trimestre, 6,3 mil brasileiros se mudaram para o país, segundo o
Instituto Nacional de Estatística (INE) — um ritmo que, anualizado, poderia
ultrapassar 25 mil e indica uma aceleração do movimento migratório. O Consulado
também reporta aumento na demanda por serviços consulares, sugerindo
crescimento da comunidade.
A
regularização extraordinária se aplica apenas a imigrantes que já estavam na
Espanha até o final de dezembro de 2025 — ou seja, recém-chegados não serão
contemplados. Ainda assim, o interesse crescente pode ser explicado por uma
combinação de fatores, que vão desde o endurecimento das regras migratórias em
Portugal até a busca por melhores salários e condições de vida.
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Aperto migratório em Portugal
Em
2025, a coalizão governista de centro-direita que governa Portugal (Aliança
Democrática, AD) uniu-se ao partido de direita radical Chega, de forte viés
anti-imigração, para aprovar mudanças na Lei de Estrangeiros. Entre outras
medidas, a nova legislação elimina a possibilidade de imigrantes solicitarem
residência após entrarem no país como turistas e endurece as regras de
reagrupamento familiar.
O
Parlamento português também aprovou este ano uma nova Lei de Nacionalidade, que
amplia de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de
brasileiros para o pedido de nacionalidade e elimina a concessão automática a
filhos de imigrantes nascidos em Portugal. A lei ainda precisa ser sancionada
pelo presidente, o ex-líder socialista António José Seguro, que pode submetê-la
ao Tribunal Constitucional. Mas ainda que haja qualquer mudança pontual, a
expectativa é de que um endurecimento seja aprovado mais cedo ou mais tarde.
"Até
2024, Portugal tinha um dos sistemas de imigração mais liberais da Europa: quem
chegasse e conseguisse trabalho já podia se regularizar e, após cinco anos,
obter nacionalidade. Agora, essa porta foi fechada", diz o sociólogo Pedro
Góis, da Universidade de Coimbra.
Além
das mudanças legais, também há indícios de um aumento das hostilidades contra
imigrantes. Dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) mostram que,
em 2025, foram registrados 449 casos de discriminação e incitação ao ódio e à
violência, contra 19 há uma década. Segundo uma pesquisa recente da Fundação
Francisco Manuel dos Santos, 51% dos portugueses acreditam que o número de
imigrantes brasileiros deveria diminuir.
Relatos
de discriminação no cotidiano tornaram-se mais frequentes segundo brasileiros
ouvidos pela BBC, e alguns casos de violência têm causado grande comoção na
comunidade — como o do
menino brasileiro que teve os dedos decepados na escola.
Para
Góis, a diferença no tom das políticas migratórias entre Portugal e Espanha se
explica, primeiro, pela orientação ideológica dos dois governos. Após oito anos
de governo socialista, a centro-direita assumiu o poder em Portugal em 2024,
mas sem maioria parlamentar — o que a obriga a negociar ora com os socialistas,
ora com o Chega, hoje a segunda maior força no Parlamento e que ficou em
segundo lugar nas eleições presidenciais deste ano, com cerca de 33% dos votos.
Na
Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário
Espanhol (PSOE), de centro-esquerda, está no poder desde 2018. "Essa
diferença evidentemente influencia diretamente o tom das políticas e do
discurso. E é um lembrete de que uma eventual alternância de governo também
poderia levar a mudanças na política migratória", diz Góis.
As
eleições gerais espanholas estão previstas para 2027 e, no momento, a média das
sondagens aponta para uma disputa acirrada entre o PSOE e o Partido Popular
(PP), de centro-direita, com ligeira vantagem para o último. O PP promete uma
"reforma profunda" para, nas suas palavras, "colocar ordem"
no sistema migratório espanhol — incluindo elevar os requisitos para a
nacionalidade —, mas sem "fechar as portas" e até facilitando algumas
vias de imigração legal, como o visto de busca de trabalho. As sondagens, porém,
também indicam um possível fortalecimento (em relação ao resultado de 2023) do
Vox, partido de direita radical de forte viés anti-imigração, com quem o PP
poderia eventualmente ter de pactuar para formar governo.
Além
dessa questão política, segundo Góis, também há uma diferença na escala da
imigração entre Espanha e Portugal. Embora a Espanha tenha recebido mais
imigrantes em termos absolutos na última década — cerca de 2,5 milhões —,
proporcionalmente o aumento foi maior em Portugal. "Portugal tem hoje
cerca de 1,6 milhão de imigrantes em uma população de 10 milhões, sendo que
aproximadamente 1 milhão chegou nos últimos dez anos. Para a Espanha (com 49
milhões de habitantes), isso equivaleria à chegada de quase 5 milhões de
pessoas", diz. "Em Portugal, esse volume trouxe uma série de
desafios, incluindo a sobrecarga dos serviços públicos de imigração."
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Políticas espanholas
Na
Espanha, o governo tem defendido publicamente a imigração como parte da solução
para desafios estruturais da economia, como o envelhecimento da população e a
escassez de mão de obra em setores como construção, hotelaria, logística e
cuidados.
"Do
ponto de vista do discurso, a Espanha se destacou dentro da União Europeia ao
afirmar de forma explícita que a imigração é fundamental para o crescimento
econômico — algo que nenhum outro governo disse com tanta clareza. E os dados
sustentam essa posição: entre 2002 e 2024, dos 5,2 milhões de pessoas que se
incorporaram à população ativa, 75% eram estrangeiras ou tinham dupla
nacionalidade", diz Claudia Finotelli, professora da Faculdade de Ciências
Políticas e Sociologia da Universidade Complutense de Madrid e diretora do
Grupo de Estudos sobre Migrações.
Nos
últimos anos, o crescimento da economia espanhola tem superado o de outros
países europeus, e economistas associam parte desse desempenho ao aumento da
imigração. Em 2025, o PIB da Espanha cresceu 2,8%, contra 0,2% da Alemanha e
0,9% da França; em Portugal, o crescimento foi de 1,9%. Esse dinamismo, aliado
a salários relativamente mais altos do que em Portugal, também tem atraído
brasileiros: o salário-mínimo na Espanha, por exemplo é de 1.221 euros (cerca
de R$ 7.040), versus 920 euros (cerca de R$ 5.300) em Portugal (nos dois
países, o trabalhador recebe 14 salários anuais).
Ao
mesmo tempo, como em toda a Europa, o aumento da imigração também trouxe
desafios — por exemplo, ao agravar a crise habitacional, que tem múltiplas
causas estruturais e é apontada como uma das principais dificuldades pelos
recém-chegados.
A
regularização extraordinária é a medida mais recente do governo espanhol para
avançar na integração de imigrantes que já vivem no país. O Executivo também
promete agilizar a homologação de diplomas estrangeiros — que em alguns casos
leva anos — e recentemente editou um decreto para eliminar as barreiras ao
acesso de imigrantes irregulares à saúde pública em todas as regiões do país,
garantindo uma harmonização das práticas nessa área.
Oficialmente,
espera-se que cerca de 500 mil pessoas sejam beneficiadas pelo processo de
regularização extraordinária, a maioria da América Latina. Mas o centro de
pesquisas Funcas estima que o número de imigrantes irregulares na Espanha possa
ultrapassar 800 mil.
"Há
tantas pessoas em situação irregular porque, diferentemente de outros países
com mercados de trabalho mais formais, na Espanha há uma economia informal
robusta que absorve essa migração", diz Raquel Martínez Buján, professora
da Faculdade de Sociologia da Universidade de La Coruña. "Existe um
discurso de controle de fronteiras, mas, na prática, a economia precisa dessa
mão de obra e há uma informalidade tolerada. Assim, muitas pessoas que entram
como turistas acabam trabalhando sem contrato em setores como agricultura ou
serviço doméstico."
Hoje, a
principal via de regularização não-extraordinária na Espanha é o chamado
"arraigo". Em linhas gerais, após dois anos vivendo na Espanha —
ainda que de forma irregular — em muitos casos o imigrante pode solicitar uma
autorização de residência, desde que comprove vínculos com o país, como uma
relação de trabalho ou estudos. Nacionais de países ibero-americanos, incluindo
o Brasil, podem pedir a cidadania após dois anos de residência legal no país.
A
regularização extraordinária permite que mesmo quem não cumpre os requisitos do
arraigo obtenha permissão de trabalho e residência, acelerando o acesso ao
emprego formal. Entre as condições estão não ter antecedentes criminais e ter
vivido na Espanha por ao menos cinco meses antes do fim de 2025.
O
governo afirma que a medida responde a uma "urgência social" e terá
impacto fiscal, ao trazer trabalhadores para a formalidade. "O que estamos
fazendo é reconhecer direitos de cidadãos que já estão no nosso país",
disse Sánchez. Críticos, como o Vox, argumentam que a medida poderia gerar um
"efeito chamada", incentivando novas entradas irregulares na
expectativa de futuras regularizações.
A
última regularização extraordinária na Espanha ocorreu em 2005 e legalizou a
situação de mais de 500 mil pessoas. Joan Monras, professor de economia da
Universidade Pompeu Fabra, analisou seus efeitos e concluiu que não só não
houve "efeito chamada" generalizado, como também houve aumento do
emprego formal e da arrecadação — cerca de 4.000 euros (cerca de R$ 23.000)
anuais por trabalhador —, sem pressão significativa sobre saúde ou educação.
"Em 2005, a regularização veio acompanhada de mais inspeções em locais de
trabalho e reforço do controle de fronteiras, o que mostra que há instrumentos
para evitar um eventual efeito chamada", afirma.
Monras
acrescenta que, no geral, os fluxos migratórios resultam de uma combinação mais
complexa de fatores de expulsão e de atração: "Há algumas razões que
empurram os imigrantes — crise econômica, violência, falta de oportunidades ou
questões políticas, como a crise na Venezuela — e outras que os atraem, como
crescimento econômico e oportunidades reais de trabalho. E as políticas de
terceiros países também contam: um endurecimento nos EUA pode desviar fluxos
para a Europa, por exemplo."
Até
agora, a imigração parece gerar menos polarização na Espanha do que em
Portugal.
Segundo
o Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS), o instituto público espanhol de
pesquisas de opinião, apenas 14,8% dos espanhóis apontam o tema como um dos
três principais problemas do país, atrás de habitação (43,5%), situação
econômica (22,5%), qualidade do emprego (18,4%) e "atuação do governo e de
partidos ou políticos concretos" (15,4%).
Outra
pesquisa do instituto de pesquisas 40dB, divulgada em 4 de maio, apontou que
38% dos espanhóis são a favor da regularização extraordinária e 33% são contra.
No entanto, na mesma pesquisa 60% dos entrevistados de nacionalidade espanhola
disseram que o número de imigrantes no país já estaria alto demais.
"O
debate existe, mas não tem gerado um conflito mais generalizado. Há tensões
pontuais, não um enfrentamento massivo", resume Martínez Buján.
Finotelli,
da Universidade Complutense de Madrid, ressalta que, para além do discurso, a
demanda por trabalhadores estrangeiros é estrutural em toda a Europa.
"Mesmo a Itália — governada pela direita radical de Giorgia Meloni — tem
anunciado os chamados 'decretos de fluxo' para milhares de trabalhadores
estrangeiros que são regularizações encobertas," diz.
Góis,
da Universidade de Coimbra, concorda: "No geral, os ciclos migratórios na
Europa tendem a alternar entre maior abertura e maior restrição, mas, no longo
prazo, a região precisará de mais trabalhadores para suprir necessidades
estruturais da sua economia", comenta. "Ainda assim, não há dúvidas
de que o caminho mais seguro para quem quer migrar são as vias legais que,
ainda que mais lentas, evitam situações de vulnerabilidade, exploração e
incerteza."
Fonte:
BBC News Brasil

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