segunda-feira, 11 de maio de 2026

Como o Escudo das Américas redefine a Influência dos EUA sob a ‘Doutrina Donroe’

Nos últimos anos, a política externa dos Estados Unidos tem sinalizado uma revalorização do Hemisfério Ocidental como espaço estratégico prioritário. Em um contexto marcado pela intensificação da competição entre grandes potências, especialmente com a presença crescente da China e, em menor medida, da Rússia na América Latina, Washington parece retomar, ainda que sob novas formas, a lógica de organização de sua esfera de influência regional. Nesse cenário, iniciativas políticas, econômicas e militares passam a ser interpretadas não de forma isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de contenção, reorganização e projeção de poder no continente.

Em seu Discurso sobre o Estado da União, Donald Trump retoma a proposta de tarifas globais de 10% sob a ótica da segurança nacional, enquadrando tais medidas não apenas como instrumentos de política econômica, mas como recuperação de centenas de bilhões de dólares que, segundo o discurso oficial, teriam sido transferidos de forma desfavorável aos interesses norte-americanos. Nesse contexto, as tarifas são também apresentadas como ferramentas estratégicas capazes de influenciar dinâmicas internacionais, encerrando conflitos armados e abrindo janelas para renegociações justas e benéficas para ambas as partes. Ainda neste pronunciamento, o presidente dos Estados Unidos enfatiza o papel do país na restauração da segurança e da primazia norte-americana no Hemisfério Ocidental, destacando as operações militares voltadas ao combate do narcotráfico, bem como a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, como evidência da reestruturação logística de Washington para a região.

Essa abordagem dialoga com as diretrizes da National Security Strategy (Estratégia Nacional de Segurança), publicada em 2025, que atribui maior destaque ao Hemisfério Ocidental em comparação com administrações anteriores. A arquitetura da segurança nacional se baseia na visão de que Washington considera a região como parte da sua fronteira de segurança interna, fazendo com que o continente tenha adquirido uma posição que não tinha antes, o que reflete o protagonismo crescente da segurança hemisférica. Os Estados Unidos propõem recrutar aliados históricos para o fortalecimento do controle migratório, a contenção dos fluxos de narcóticos e a promoção da segurança e da estabilidade em domínios terrestres e marítimos. Tal orientação articula-se ao princípio estratégico da “paz por meio da força”, incentivando a atuação coordenada entre as forças armadas dos Estados Unidos e os países da região. Paralelamente, o governo busca expandir sua influência hemisférica com o aprofundamento de parcerias estratégicas, reforçando sua posição como principal parceiro econômico e securitário. Nesse sentido, observa-se a retomada da tradição da Doutrina Monroe, antagonizando potências extrarregionais, para reconquistar sua primazia regional em determinados setores, cujo espaço tem sido contestado por China e Rússia nas últimas décadas.

Formulada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe procurava minar a influência colonial europeia na América e estabelecia o compromisso de Washington de não se envolver em conflitos internos da Europa. Isso visava, respectivamente, impedir a expansão européia na América e preservar seu espaço geopolítico. Posteriormente, essa doutrina passou a ser associada a práticas intervencionistas, tendo essa dimensão ampliada a partir do Corolário Roosevelt, de 1904, que fortaleceu a visão de que os Estados Unidos poderiam realizar intervenções em países latino-americanos para “estabilizar” governos considerados incapazes de cumprir preceitos e obrigações internacionais. Dessa forma, é no fim do século XIX que essa doutrina passa a ser reinterpretada como justificativa para ações intervencionistas realizadas em Cuba, Nicarágua, República Dominicana e Haiti, associadas, na literatura, ao apoio a processos políticos que resultaram na instalação de regimes militares na Argentina, Chile, Brasil e Uruguai, na década de 1960 e início da década de 1970.

Assim como a Doutrina Monroe evidencia a América Latina como esfera prioritária de interesse estratégico dos Estados Unidos, o governo Trump em seu segundo mandato busca restaurar o poder e as prioridades americanas de maneira consistente com os interesses de segurança do país. Analistas nomeiam essa abordagem como “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, apelidada de “Doutrina Donroe”, na qual há um reforço da lógica hemisférica nas decisões estratégicas.

<><> Captura de Nicolás Maduro e projeção de poder no hemisfério

Nesse contexto mais amplo de reconfiguração estratégica no Hemisfério Ocidental, a captura de Nicolás Maduro, em território venezuelano, figura como um dos episódios mais emblemáticos — e, ao mesmo tempo, mais sensíveis — da atuação recente dos Estados Unidos na América Latina. Não se trata apenas de um evento de grande repercussão política, mas de um fato que, por sua natureza e pelas circunstâncias em que ocorreu, permite uma leitura mais aprofundada sobre os padrões contemporâneos de projeção de poder na região.

A operação, realizada na madrugada de 3 de janeiro de 2026, envolveu bombardeios em Caracas e a mobilização de forças especiais norte-americanas, culminando na captura de Maduro e sua remoção para os Estados Unidos, onde passou a responder a acusações de narcotráfico, terrorismo e conspiração internacional. O episódio foi posteriormente confirmado por autoridades norte-americanas e amplamente repercutido na imprensa internacional, sendo descrito como uma operação militar de grande escala com impactos imediatos na dinâmica política venezuelana.

A reação internacional evidenciou as tensões inerentes a esse tipo de operação, que vê na atuação do governo americano a formulação de precedentes para ações futuras. Organizações internacionais e diversos governos questionaram a legalidade da ação, apontando possíveis violações à soberania estatal e às normas que regulam o uso da força no sistema internacional. Esse tipo de crítica não é irrelevante e reflete um dilema clássico das Relações Internacionais: a tensão entre segurança e legalidade, entre eficácia estratégica e legitimidade normativa.

Sob uma perspectiva estratégica, a captura pode ser interpretada como uma demonstração concreta de projeção de poder no Hemisfério Ocidental. Não se trata apenas de uma resposta a acusações criminais previamente formuladas contra o líder venezuelano, mas de um sinal claro de que os Estados Unidos estão dispostos a empregar instrumentos de hard power — inclusive de natureza militar — para lidar com ameaças percebidas em sua área de interesse imediato. Os desdobramentos da operação reforçam essa leitura. A captura de Maduro foi seguida por reconfigurações políticas internas na Venezuela, incluindo a ascensão de uma liderança interina e a retomada de relações diplomáticas com Washington, além de mudanças relevantes no setor energético e na inserção internacional do país. Tais movimentos indicam que a ação não se limitou a um objetivo pontual, mas produziu efeitos estruturais na organização política e econômica do Estado venezuelano.

Ainda assim, independentemente da posição que se adote nesse debate, o dado central permanece: a captura de Nicolás Maduro não pode ser compreendida como um evento isolado. Trata-se, antes, de um episódio que se insere em uma dinâmica mais ampla de revalorização do Hemisfério Ocidental na estratégia dos Estados Unidos, marcada por maior assertividade, maior disposição de atuação direta e uma leitura mais clara da região como espaço prioritário de interesse. Em última análise, o caso venezuelano permite observar, com maior nitidez, o retorno de uma lógica clássica das Relações Internacionais: a centralidade do poder, da segurança e da influência regional. Nesse sentido, mais do que um fato pontual, a captura de Maduro revela um movimento mais profundo — o de reinserção da América Latina no núcleo das disputas estratégicas contemporâneas.

<><> “Cuba precisa mudar drasticamente”: pressão externa e reconfiguração estratégica

Localizada a cerca de 150 quilômetros do estado da Flórida, no sul dos EUA, os EUA têm mantido Cuba sob pressão desde a revolução de 1959, liderada por Fidel Castro, que tinha como um de seus pilares o discurso anti-imperialista. Esse movimento levou ao rompimento das relações político-diplomáticas com os EUA em 1960 e marcou o início de uma relação de confronto que permanece até hoje. Sem acesso ao mercado norte-americano, Cuba passou a depender da União Soviética para abastecimento energético, o que levou a adotar o socialismo em 1961. Depois da dissolução, Cuba passou por dificuldades relacionadas ao fornecimento energético. Com a eleição de Hugo Chávez, em 1998, a Venezuela assumiu o papel de principal fornecedor de petróleo à Cuba, se mantendo assim até este ano.

Com a captura de Nicolás Maduro pelos EUA, o envio de petróleo foram reduzidos significativamente e a crise socioeconômica de Cuba se agravaram a partir das restrições econômicas impostas pelos Estados Unidos. Desde janeiro, o governo de Donald Trump tem limitado as exportações de petróleo para Cuba, uma decisão que provocou escassez de combustível, aumentos acentuados de preços e prolongados apagões – o país já sofreu três blecautes em todo o território nacional em março. As recentes crises econômica e energética de Cuba decorrem de uma combinação de desafios estruturais de longa data e decisões políticas, incluindo o subinvestimento no setor energético, mas as políticas de maior restrição e o reforço das sanções econômicas tendem a agravar essas dificuldades desde que ele retornou ao cargo em 2025.

Altos funcionários dos EUA indicaram que o objetivo final dessas políticas é promover a liberalização política e econômica em Cuba, incluindo a possível destituição do presidente Miguel Díaz-Canel. “Cuba tem uma economia que não funciona e um sistema político e governamental que não consegue resolver o problema. Portanto, eles precisam mudar drasticamente”, disse o secretário de Estado americano, Marco Rubio. “Eles têm algumas decisões importantes a tomar por lá.”

Durante seu segundo mandato, Trump tem implementado uma campanha de “pressão máxima” contra Cuba como parte de uma estratégia mais ampla para afirmar a primazia dos EUA no hemisfério e limitar a influência de potências externas como a China e a Rússia. Tanto a Estratégia de Defesa Nacional quanto a Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump priorizam o Hemisfério Ocidental, enfatizando as ameaças de adversários estrangeiros e grupos transnacionais, bem como a necessidade de reafirmar a hegemonia dos EUA na região para proteger os interesses de Washington.

O presidente aproveitou rapidamente essa aparente oportunidade ao retornar ao cargo. Poucos dias após sua posse, Trump emitiu uma ordem executiva declarando que Cuba “constitui uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos EUA, citando seus laços com atores hostis como a Rússia. O governo também autorizou tarifas sobre produtos de países terceiros que vendem ou fornecem petróleo para a ilha.

A Casa Branca intensificou a pressão econômica sobre Cuba em junho de 2025, quando Trump impôs novamente as rígidas restrições de viagem ao turismo americano para a ilha, restringiu as transações financeiras com entidades controladas pelos militares cubanos e reforçou o apoio a um embargo econômico de décadas que limita severamente o comércio entre os dois países.

Após a operação militar dos EUA na Venezuela que resultou na remoção do então líder Nicolás Maduro, Trump sinalizou que Cuba em breve “cairia por vontade própria”. A Venezuela é a principal fonte de petróleo para Cuba, que depende fortemente da importação de petróleo para a maior parte de seu abastecimento energético. Embora Trump não tenha pedido uma intervenção militar em Cuba, ele se referiu à ilha como uma “nação falida” e levantou repetidamente a possibilidade de uma “tomada de poder amigável”. As tensões entre os Estados Unidos e Cuba aumentaram ainda mais no início de março. Na cúpula inaugural do Escudo das Américas, uma iniciativa militar e de segurança multinacional liderada pelos EUA que envolve líderes de toda a América Latina, Trump alertou que “Cuba está no fim da linha”.

Se, por um lado, episódios como o da Venezuela evidenciam a disposição dos Estados Unidos em recorrer a instrumentos diretos de poder, por outro, observa-se a construção de uma estratégia mais abrangente, voltada à reorganização dos alinhamentos regionais. Essa combinação entre ações pontuais e articulação estrutural permite compreender a atuação norte-americana não apenas como resposta a crises específicas, mas como parte de um redesenho mais amplo do espaço hemisférico.

<><> “Escudo das Américas” e a redefinição de alinhamentos na região

Paralelamente às operações militares referentes ao narcotráfico e ao caso venezuelano, observa-se a construção de uma estratégia mais ampla de articulação regional por parte dos Estados Unidos, frequentemente associada, ainda que de maneira não formalizada, à ideia de um “Escudo das Américas”. Mais do que um conceito doutrinário fechado, trata-se de uma prática estratégica em consolidação, que revela um esforço de reorganização do espaço hemisférico a partir de critérios mais claros de alinhamento, cooperação e delimitação de interesses.

Esse movimento deve ser compreendido à luz de um contexto mais amplo de competição entre grandes potências. A presença crescente da China na América Latina — especialmente por meio de comércio, investimentos em infraestrutura e financiamento — tem alterado o equilíbrio geoeconômico da região, tornando-se um elemento central na leitura estratégica de Washington. Ainda que essa presença não substitua integralmente a influência tradicional dos Estados Unidos, ela é suficiente para introduzir novos vetores de disputa e ampliar a margem de autonomia dos países latino-americanos.

Nesse cenário, a política externa norte-americana passa a operar por meio de uma combinação de instrumentos. Se, por um lado, permanecem possíveis ações diretas, por outro ganha relevo a construção de coalizões e o fortalecimento de vínculos com países considerados estratégicos. Iniciativas recentes envolvendo acordos de segurança, cooperação no combate ao narcotráfico e coordenação em matéria migratória evidenciam essa tentativa de estruturação de um ambiente regional mais alinhado aos interesses norte-americanos.

Ao mesmo tempo, essa lógica de aproximação seletiva produz efeitos indiretos relevantes. Países que aprofundam relações com atores extrarregionais — seja por meio de parcerias econômicas com a China, seja por alinhamentos políticos com Rússia ou Irã — passam a ser percebidos sob maior grau de cautela. Esse processo contribui para a formação de uma dinâmica mais nítida de alinhamentos e rivalidades no interior da própria América Latina, ainda que sem a rigidez de blocos formais.

Sob a ótica da grande estratégia, essa movimentação pode ser interpretada como um esforço de contenção e organização do ambiente regional. Ao reforçar parcerias e estabelecer critérios mais claros de cooperação, os Estados Unidos buscam não apenas ampliar sua influência, mas também reduzir a capacidade de penetração de potências externas no hemisfério. Trata-se, em essência, de uma tentativa de reordenar o espaço regional a partir de uma lógica de segurança ampliada, na qual fatores econômicos, políticos e estratégicos se articulam de forma cada vez mais integrada.

Esse processo, contudo, não se desenvolve sem tensões. A crescente presença chinesa, por exemplo, tem levado diversos países latino-americanos a adotar estratégias de diversificação de parcerias, evitando alinhamentos automáticos e buscando preservar margens de autonomia decisória. Ao mesmo tempo, a intensificação da rivalidade entre Estados Unidos e China tende a pressionar esses países a realizar escolhas mais explícitas, especialmente em setores considerados sensíveis, como infraestrutura, energia e tecnologia.

Nesse sentido, a ideia de um “Escudo das Américas” não deve ser compreendida como uma política homogênea ou plenamente consolidada, mas como um processo em construção, marcado por ajustes, ambiguidades e respostas diferenciadas por parte dos países da região. Mais do que uma simples retomada de padrões históricos, o que se observa é a adaptação de uma lógica clássica de influência regional às condições de um sistema internacional em transformação. Em conjunto com ações mais diretas, como no caso da captura de Nicolás Maduro, essa estratégia mais ampla evidencia um movimento mais profundo: o retorno da América Latina ao centro das disputas estratégicas contemporâneas.

Nesse contexto, a posição do Brasil adquire relevância particular. Ao mesmo tempo em que mantém relações diplomáticas tradicionais com Cuba e manifestou preocupação com os efeitos humanitários das sanções e do bloqueio energético, o governo brasileiro também buscou atuar de forma pragmática, inclusive por meio do envio de ajuda humanitária à ilha em meio ao agravamento da crise. Paralelamente, declarações oficiais indicam uma postura cautelosa em relação aos desdobramentos da captura de Nicolás Maduro, refletindo a tentativa de equilibrar princípios como soberania e não intervenção com as transformações em curso no ambiente regional. Essa postura evidencia os dilemas enfrentados por países de médio porte em um cenário de crescente polarização geopolítica, no qual a autonomia estratégica passa a depender, cada vez mais, da capacidade de navegar entre diferentes polos de poder.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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