Como
o Escudo das Américas redefine a Influência dos EUA sob a ‘Doutrina Donroe’
Nos
últimos anos, a política externa dos Estados Unidos tem sinalizado uma
revalorização do Hemisfério Ocidental como espaço estratégico prioritário. Em
um contexto marcado pela intensificação da competição entre grandes potências,
especialmente com a presença crescente da China e, em menor medida, da Rússia
na América Latina, Washington parece retomar, ainda que sob novas formas, a
lógica de organização de sua esfera de influência regional. Nesse cenário,
iniciativas políticas, econômicas e militares passam a ser interpretadas não de
forma isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de contenção,
reorganização e projeção de poder no continente.
Em seu Discurso sobre o Estado da União, Donald Trump retoma
a proposta de tarifas globais de 10% sob a ótica da
segurança nacional, enquadrando tais medidas não apenas como instrumentos de
política econômica, mas como recuperação de centenas de bilhões de dólares que,
segundo o discurso oficial, teriam sido transferidos de forma desfavorável aos
interesses norte-americanos. Nesse contexto, as tarifas são também apresentadas
como ferramentas estratégicas capazes de influenciar dinâmicas internacionais,
encerrando conflitos armados e abrindo janelas para renegociações justas e
benéficas para ambas as partes. Ainda neste pronunciamento, o presidente dos
Estados Unidos enfatiza o papel do país na restauração da segurança e da
primazia norte-americana no Hemisfério Ocidental, destacando as operações
militares voltadas ao combate do narcotráfico, bem como a captura de Nicolás Maduro na
Venezuela,
como evidência da reestruturação logística de Washington para a região.
Essa
abordagem dialoga com as diretrizes da National Security Strategy (Estratégia
Nacional de Segurança), publicada em 2025, que atribui maior destaque ao
Hemisfério Ocidental em comparação com administrações anteriores. A arquitetura
da segurança nacional se baseia na visão de que Washington considera a região
como parte da sua fronteira de segurança interna, fazendo com que o continente
tenha adquirido uma posição que não tinha antes, o que reflete o protagonismo
crescente da segurança hemisférica. Os Estados Unidos propõem recrutar aliados
históricos para o fortalecimento do controle migratório, a contenção dos fluxos
de narcóticos e a promoção da segurança e da estabilidade em domínios
terrestres e marítimos. Tal orientação articula-se ao princípio estratégico da
“paz por meio da força”, incentivando a atuação coordenada entre as forças
armadas dos Estados Unidos e os países da região. Paralelamente, o governo
busca expandir sua influência hemisférica com o aprofundamento de parcerias
estratégicas, reforçando sua posição como principal parceiro econômico e
securitário. Nesse sentido, observa-se a retomada da tradição da Doutrina
Monroe, antagonizando potências extrarregionais, para reconquistar sua primazia
regional em determinados setores, cujo espaço tem sido contestado por China e
Rússia nas últimas décadas.
Formulada
em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe procurava minar
a influência colonial europeia na América e estabelecia o compromisso de
Washington de não se envolver em conflitos internos da Europa. Isso visava,
respectivamente, impedir a expansão européia na América e preservar seu espaço
geopolítico. Posteriormente, essa doutrina passou a ser associada a práticas
intervencionistas, tendo essa dimensão ampliada a partir do Corolário
Roosevelt, de 1904, que fortaleceu a visão de que os Estados Unidos poderiam
realizar intervenções em países latino-americanos para “estabilizar” governos
considerados incapazes de cumprir preceitos e obrigações internacionais. Dessa
forma, é no fim do século XIX que essa doutrina passa a ser reinterpretada como justificativa para ações
intervencionistas realizadas
em Cuba, Nicarágua, República Dominicana e Haiti, associadas, na literatura, ao
apoio a processos políticos que resultaram na instalação de regimes militares
na Argentina, Chile, Brasil e Uruguai, na década de 1960 e início da década de 1970.
Assim
como a Doutrina Monroe evidencia a América Latina como esfera prioritária de
interesse estratégico dos Estados Unidos, o governo Trump em seu segundo
mandato busca restaurar o poder e as prioridades americanas de maneira
consistente com os interesses de segurança do país. Analistas nomeiam essa
abordagem como “Corolário Trump à Doutrina Monroe”,
apelidada de “Doutrina Donroe”, na qual há um reforço da lógica hemisférica
nas decisões estratégicas.
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Captura de Nicolás Maduro e projeção de poder no hemisfério
Nesse
contexto mais amplo de reconfiguração estratégica no Hemisfério Ocidental, a
captura de Nicolás Maduro, em território venezuelano, figura como um dos
episódios mais emblemáticos — e, ao mesmo tempo, mais sensíveis — da atuação
recente dos Estados Unidos na América Latina. Não se trata apenas de um evento
de grande repercussão política, mas de um fato que, por sua natureza e pelas
circunstâncias em que ocorreu, permite uma leitura mais aprofundada sobre os
padrões contemporâneos de projeção de poder na região.
A
operação, realizada na madrugada de 3 de janeiro de 2026, envolveu bombardeios
em Caracas e a mobilização de forças especiais
norte-americanas,
culminando na captura de Maduro e sua remoção para os Estados Unidos, onde
passou a responder a acusações de narcotráfico, terrorismo e
conspiração internacional. O episódio foi posteriormente confirmado por
autoridades norte-americanas e amplamente repercutido na imprensa
internacional, sendo descrito como uma operação militar de grande escala com impactos imediatos na dinâmica
política venezuelana.
A
reação internacional evidenciou as tensões inerentes a esse tipo de operação,
que vê na atuação do governo americano a formulação de precedentes para ações
futuras. Organizações internacionais e
diversos governos questionaram a legalidade da ação, apontando possíveis
violações à soberania estatal e às normas que regulam o uso da força no sistema
internacional. Esse tipo de crítica não é irrelevante e reflete um dilema
clássico das Relações Internacionais: a tensão entre segurança e legalidade, entre
eficácia estratégica e legitimidade normativa.
Sob uma
perspectiva estratégica, a captura pode ser interpretada como uma demonstração
concreta de projeção de poder no Hemisfério Ocidental. Não se trata apenas de
uma resposta a acusações criminais previamente formuladas contra o líder
venezuelano, mas de um sinal claro de que os Estados Unidos estão dispostos a
empregar instrumentos de hard power — inclusive de natureza
militar — para lidar com ameaças percebidas em sua área de interesse imediato.
Os desdobramentos da operação reforçam essa leitura. A captura de Maduro foi
seguida por reconfigurações políticas internas na
Venezuela,
incluindo a ascensão de uma liderança interina e a retomada de relações
diplomáticas com Washington, além de mudanças relevantes no setor energético e
na inserção internacional do país. Tais movimentos indicam que a ação não se
limitou a um objetivo pontual, mas produziu efeitos estruturais na organização
política e econômica do Estado venezuelano.
Ainda
assim, independentemente da posição que se adote nesse debate, o dado central
permanece: a captura de Nicolás Maduro não pode ser compreendida como um evento
isolado. Trata-se, antes, de um episódio que se insere em uma dinâmica mais
ampla de revalorização do Hemisfério Ocidental na estratégia dos Estados
Unidos, marcada por maior assertividade, maior disposição de atuação direta e
uma leitura mais clara da região como espaço prioritário de interesse. Em
última análise, o caso venezuelano permite observar, com maior nitidez, o
retorno de uma lógica clássica das Relações Internacionais: a centralidade do
poder, da segurança e da influência regional. Nesse sentido, mais do que um
fato pontual, a captura de Maduro revela um movimento mais profundo — o de
reinserção da América Latina no núcleo das disputas estratégicas
contemporâneas.
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“Cuba precisa mudar drasticamente”: pressão externa e reconfiguração
estratégica
Localizada
a cerca de 150 quilômetros do estado da Flórida, no sul dos EUA, os EUA têm mantido Cuba sob pressão
desde a revolução de 1959, liderada por Fidel Castro, que tinha como um de seus
pilares o discurso anti-imperialista. Esse movimento levou ao rompimento das
relações político-diplomáticas com os EUA em 1960 e marcou o início de uma
relação de confronto que permanece até hoje. Sem acesso ao mercado
norte-americano, Cuba passou a depender da União Soviética para abastecimento
energético, o que levou a adotar o socialismo em 1961. Depois da dissolução,
Cuba passou por dificuldades relacionadas ao fornecimento energético. Com a eleição
de Hugo Chávez, em 1998, a Venezuela assumiu o papel de
principal fornecedor de petróleo à Cuba, se mantendo assim até este ano.
Com a
captura de Nicolás Maduro pelos EUA, o envio de petróleo foram reduzidos
significativamente e a crise socioeconômica de Cuba se agravaram a partir das
restrições econômicas impostas pelos Estados Unidos. Desde janeiro, o governo de Donald Trump tem
limitado as exportações de petróleo para Cuba, uma decisão que provocou escassez de
combustível, aumentos acentuados de preços e prolongados apagões – o país já sofreu três blecautes em
todo o território nacional em março. As recentes crises econômica e energética
de Cuba decorrem de uma combinação de desafios estruturais de longa data e
decisões políticas,
incluindo o subinvestimento no setor energético, mas as políticas de maior
restrição e o reforço das sanções econômicas tendem a agravar essas
dificuldades desde que ele retornou ao cargo em 2025.
Altos funcionários dos EUA indicaram que o objetivo
final dessas políticas é promover a liberalização política e econômica em Cuba,
incluindo a possível destituição do presidente Miguel Díaz-Canel. “Cuba tem uma
economia que não funciona e um sistema político e governamental que não consegue
resolver o problema. Portanto, eles precisam mudar drasticamente”, disse o
secretário de Estado americano, Marco Rubio. “Eles têm algumas decisões
importantes a tomar por lá.”
Durante
seu segundo mandato, Trump tem implementado uma campanha de “pressão máxima”
contra Cuba como parte de uma estratégia mais ampla para afirmar a
primazia dos EUA no hemisfério e limitar a influência de potências externas
como a China e a Rússia. Tanto a Estratégia de Defesa Nacional quanto a
Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump priorizam o Hemisfério
Ocidental, enfatizando as ameaças de adversários estrangeiros e grupos
transnacionais, bem como a necessidade de reafirmar a hegemonia
dos EUA na região para proteger os interesses de Washington.
O
presidente aproveitou rapidamente essa aparente oportunidade ao retornar ao
cargo. Poucos dias após sua posse, Trump emitiu uma ordem executiva declarando que
Cuba “constitui uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos
EUA, citando seus laços com atores hostis como a Rússia. O governo também
autorizou tarifas sobre produtos de países terceiros que vendem ou fornecem
petróleo para a ilha.
A Casa
Branca intensificou a pressão econômica sobre Cuba em junho de 2025, quando Trump impôs novamente as rígidas
restrições de viagem ao turismo americano para a ilha, restringiu as
transações financeiras com entidades controladas pelos militares cubanos e
reforçou o apoio a um embargo econômico de décadas que limita severamente o
comércio entre os dois países.
Após a
operação militar dos EUA na Venezuela que resultou na remoção do então líder
Nicolás Maduro, Trump sinalizou que Cuba em breve
“cairia por vontade própria”. A Venezuela é a principal fonte de petróleo
para Cuba, que depende fortemente da importação de petróleo para a maior parte
de seu abastecimento energético. Embora Trump não
tenha pedido uma intervenção militar em Cuba, ele se referiu à ilha como uma
“nação falida” e levantou repetidamente a possibilidade de uma “tomada de poder amigável”. As tensões entre os
Estados Unidos e Cuba aumentaram ainda mais no início de março. Na cúpula
inaugural do Escudo das Américas, uma iniciativa
militar e de segurança multinacional liderada pelos EUA que envolve líderes de
toda a América Latina, Trump alertou que “Cuba está no fim da linha”.
Se, por
um lado, episódios como o da Venezuela evidenciam a disposição dos Estados
Unidos em recorrer a instrumentos diretos de poder, por outro, observa-se a
construção de uma estratégia mais abrangente, voltada à reorganização dos
alinhamentos regionais. Essa combinação entre ações pontuais e articulação
estrutural permite compreender a atuação norte-americana não apenas como
resposta a crises específicas, mas como parte de um redesenho mais amplo do
espaço hemisférico.
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“Escudo das Américas” e a redefinição de alinhamentos na região
Paralelamente
às operações militares referentes ao narcotráfico e ao caso venezuelano,
observa-se a construção de uma estratégia mais ampla de articulação regional
por parte dos Estados Unidos, frequentemente associada, ainda que de maneira
não formalizada, à ideia de um “Escudo das Américas”. Mais do que um conceito
doutrinário fechado, trata-se de uma prática estratégica em consolidação, que
revela um esforço de reorganização do espaço hemisférico a partir de critérios
mais claros de alinhamento, cooperação e delimitação de interesses.
Esse
movimento deve ser compreendido à luz de um contexto mais amplo de competição
entre grandes potências. A presença crescente da China na
América Latina —
especialmente por meio de comércio, investimentos em infraestrutura e
financiamento — tem alterado o equilíbrio geoeconômico da região, tornando-se
um elemento central na leitura estratégica de Washington. Ainda que essa
presença não substitua integralmente a influência tradicional dos Estados
Unidos, ela é suficiente para introduzir novos vetores de disputa e ampliar a
margem de autonomia dos países latino-americanos.
Nesse
cenário, a política externa norte-americana passa a operar por meio de uma
combinação de instrumentos. Se, por um lado, permanecem possíveis ações
diretas, por outro ganha relevo a construção de coalizões e o fortalecimento de
vínculos com países considerados estratégicos. Iniciativas recentes envolvendo
acordos de segurança, cooperação no combate ao narcotráfico e coordenação em
matéria migratória evidenciam essa tentativa de estruturação de um ambiente
regional mais alinhado aos interesses
norte-americanos.
Ao
mesmo tempo, essa lógica de aproximação seletiva produz efeitos indiretos
relevantes. Países que aprofundam relações com atores extrarregionais — seja
por meio de parcerias econômicas com a China, seja por alinhamentos políticos
com Rússia ou Irã — passam a ser percebidos sob maior grau de cautela. Esse
processo contribui para a formação de uma dinâmica mais nítida de alinhamentos
e rivalidades no interior da própria América Latina, ainda que sem a rigidez de
blocos formais.
Sob a
ótica da grande estratégia, essa movimentação pode ser interpretada como um
esforço de contenção e organização do ambiente regional. Ao reforçar parcerias
e estabelecer critérios mais claros de cooperação, os Estados Unidos buscam não
apenas ampliar sua influência, mas também reduzir a capacidade de penetração de
potências externas no hemisfério. Trata-se, em essência, de uma tentativa de
reordenar o espaço regional a partir de uma lógica de segurança ampliada, na
qual fatores econômicos, políticos e estratégicos se articulam de forma cada
vez mais integrada.
Esse
processo, contudo, não se desenvolve sem tensões. A crescente presença chinesa, por exemplo, tem
levado diversos países latino-americanos a adotar estratégias de diversificação
de parcerias, evitando alinhamentos automáticos e buscando preservar margens de
autonomia decisória. Ao mesmo tempo, a intensificação da rivalidade entre
Estados Unidos e China tende a pressionar esses países a realizar escolhas
mais explícitas, especialmente em setores considerados sensíveis, como
infraestrutura, energia e tecnologia.
Nesse
sentido, a ideia de um “Escudo das Américas” não deve ser compreendida como uma
política homogênea ou plenamente consolidada, mas como um processo em
construção, marcado por ajustes, ambiguidades e respostas diferenciadas por
parte dos países da região. Mais do que uma simples retomada de padrões
históricos, o que se observa é a adaptação de uma lógica clássica de influência
regional às condições de um sistema internacional em transformação. Em conjunto
com ações mais diretas, como no caso da captura de Nicolás Maduro, essa
estratégia mais ampla evidencia um movimento mais profundo: o retorno da
América Latina ao centro das disputas estratégicas contemporâneas.
Nesse
contexto, a posição do Brasil adquire relevância particular. Ao mesmo tempo em
que mantém relações diplomáticas tradicionais com Cuba e manifestou preocupação
com os efeitos humanitários das sanções e do bloqueio energético, o governo
brasileiro também buscou atuar de forma pragmática, inclusive por meio do envio de ajuda humanitária à ilha em meio
ao agravamento da crise. Paralelamente,
declarações oficiais indicam uma postura cautelosa em relação aos
desdobramentos da captura de Nicolás Maduro, refletindo a tentativa de
equilibrar princípios como soberania e não intervenção com as transformações em
curso no ambiente regional. Essa postura evidencia os dilemas enfrentados por
países de médio porte em um cenário de crescente polarização geopolítica, no
qual a autonomia estratégica passa a depender, cada vez mais, da capacidade de
navegar entre diferentes polos de poder.
Fonte:
Opera Mundi

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