segunda-feira, 11 de maio de 2026

OMS espera novos casos de hantavírus, mas descarta pandemia

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta quinta feira (07/05) que o surto de hantavírus identificado em um navio de cruzeiro que agora navega rumo à ilha de Tenerife deve permanecer limitado e que não há risco pandêmico.

"Embora seja um incidente sério, a OMS avalia o risco para a saúde pública como baixo", afirmou o diretor geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

"A OMS está trabalhando com vários governos e parceiros na resposta, dentro desse marco. Nossas prioridades são garantir atendimento aos pacientes afetados, proteger e tratar com dignidade os passageiros que permanecem no navio e evitar qualquer nova disseminação do vírus", continuou.

Maria Van Kerkhove, diretora interina do Departamento de Ameaças Epidêmicas e Pandêmicas da OMS, afirmou que a situação atual está contida e não guarda qualquer paralelo com a pandemia de covid 19. "Isso não é coronavírus. É um vírus completamente diferente. Conhecemos esse patógeno — os hantavírus circulam há bastante tempo. Mas quero ser absolutamente clara: não é o início de uma nova pandemia".

Ela destacou que a transmissão não ocorre da mesma forma que a do coronavírus. "É algo que exige contato muito próximo, íntimo, como temos observado. E a maioria dos hantavírus nem sequer se transmite entre pessoas".

O diretor de alerta e resposta da OMS, Abdi Rahman Mahamud, também reforçou que o surto não deve se expandir "caso as medidas de saúde pública sejam implementadas e haja solidariedade entre os países".

"Trata se de uma epidemia limitada, restrita a um navio de cruzeiro; portanto, a ideia de enviar mensagens ao mundo inteiro e causar pânico não é necessária", afirmou. "Acreditamos que isso não resultará em novas cadeias de transmissão".

<><> Doze países notificados

Ainda assim, há expectativa de que novos casos sejam identificados. Até o momento, cinco casos foram confirmados a bordo da embarcação, além de outros três suspeitos. Três pessoas morreram: um casal holandês e uma alemã.

Contudo, segundo a operadora do navio, a Oceanwide Expeditions, 40 passageiros — além do corpo de um cidadão holandês que havia morrido anteriormente — desembarcaram na remota ilha britânica de Santa Helena em 24 de abril, antes de ser tomado conhecimento do surto de hantavírus. 29 deles não retornaram ao navio e seguiram viagem por outros meios.

Como o período de incubação pode chegar a seis meses, a OMS comunicou que 12 países foram notificados devido ao desembarque de seus cidadãos: Reino Unido, Canadá, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, São Cristóvão e Névis, Singapura, Suécia, Suíça, Turquia e Estados Unidos. A Argentina enviará 2.500 kits diagnósticos a laboratórios de cinco países.

Entre os passageiros que desembarcaram, estava uma mulher holandesa que deixou o barco com o corpo do marido, falecido a bordo em 11 de abril. A mulher seguiu então para a África do Sul em um voo comercial e também faleceu após desmaiar no aeroporto de Joanesburgo.

Na Alemanha, uma mulher que, segundo as autoridades, teve contato com a alemã que faleceu no navio de cruzeiro no dia 2 de maio continua em observação no Hospital Universitário de Düsseldorf, no estado da Renânia do Norte-Vestfália. Ela foi evacuada para testes no dia 6 de maio.

Entre outros casos, um paciente que chegou à Holanda por via marítima também testou positivo para o vírus. O Hospital Radboud, em Nijmegen, anunciou que o Instituto Nacional de Saúde Pública e Meio Ambiente da Holanda (RIVM) confirmou “que o paciente internado está infectado com o hantavírus”. O paciente já foi informado.

A doença é rara e normalmente transmitida por roedores infectados, sobretudo por meio de urina, fezes e saliva. O vírus Andes, presente na América do Sul, é o único hantavírus com transmissão documentada entre humanos.

<><> Navio segue a Tenerife

O navio, de bandeira holandesa, deixou Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, iniciando sua rota pelo Atlântico até Cabo Verde. Nesta quarta feira, a embarcação voltou a zarpar rumo ao norte, em direção a Tenerife.

De acordo com a ministra da Saúde da Espanha, Mónica García Gómez, o navio de cruzeiro atracará no porto de Granadilla "dentro de três dias".

A ilha turística conta com uma clínica especializada em epidemias. A tripulação e os passageiros serão examinados nesse local e, se necessário, receberão tratamento médico.

•        O que é o hantavírus

A morte de três pessoas e o adoecimento de mais três a bordo de um navio de cruzeiro foi atribuído a um suspeito surto de hantavírus no domingo (04/05), de acordo a Organização Mundial da Saúde (OMS).  O caso foi registrado quando a embarcação MV Hondius percorria a rota entre Ushuaia, na Argentina, e Cabo Verde.

A agência das Nações Unidas reportou em comunicado que investigações detalhadas estão em andamento, incluindo novos testes laboratoriais e investigações epidemiológicas. O sequenciamento do vírus também está em curso.

<><> Surto pode sair do navio?

O hantavírus é transmitido principalmente pelo contato com roedores ou com sua urina, saliva ou fezes. Só em casos raros há transmissão direta entre humanos, diz a OMS.

Por ora, não está clara a extensão do surto nem onde ele começou – nem, portanto, a magnitude dos riscos sanitários. O longo tempo de incubação do vírus dificulta o diagnóstico, uma vez que pode demorar até várias semanas para a doença se manifestar.

O navio está parado perto de Praia, capital de Cabo Verde, sem autorização de desembarque, a fim de proteger a população local.

As pessoas geralmente são expostas ao hantavírus em casas, cabanas ou galpões, sobretudo ao limpar espaços fechados com pouca ventilação ou explorar áreas onde há fezes de camundongos. Os roedores podem carregar o vírus por toda a vida sem adoecer.

A OMS afirmou nesta segunda-feira que não há motivo para pânico ou restrições de viagens e que o risco para o público em geral é baixo. "As infecções por hantavírus são incomuns e geralmente estão ligadas à exposição a roedores infectados. Embora graves em alguns casos, não são facilmente transmitidas entre pessoas", destacou o diretor regional da agência para a Europa, Hans Kluge, em um comunicado.  

<><> Quais são os sintomas de hantavirose?

Os primeiros sintomas da infecção são geralmente semelhantes aos da gripe – febre, dores de cabeça e dores musculares – e as duas doenças mais comuns causadas por infeção por hantavírus são a "síndrome pulmonar por hantavírus" (SPH), presente no continente americano, e a "febre hemorrágica com síndrome renal" (FHSR), mais frequente na Europa e na Ásia.

"No início da doença, realmente pode ser difícil diferenciar o hantavírus de uma gripe", disse Sonja Bartolome, médica do UT Southwestern Medical Center, em Dallas.

Quando ocorre síndrome pulmonar por hantavírus, os sintomas geralmente aparecem entre uma e oito semanas após o contato com um roedor infectado. A infecção pode progredir rapidamente, e pacientes costumam relatar sensação de aperto no peito, porque os pulmões se enchem de água. A SPH tem uma alta taxa de mortalidade, de cerca de 40%.

Já nos casos de febre hemorrágica com síndrome renal, geralmente a doença se manifesta dentro de uma ou duas semanas. A mortalidade varia de 1% a 15% dos pacientes, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

<><> Casos no Brasil

A síndrome pulmonar por hantavírus é mais comumente encontrada na América do Norte e na América do Sul. No caso sul-americano, a constatação de importante comprometimento cardíaco levou a hantavirose a ser chamada de Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH).

Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, houve 31 casos confirmados no ano passado, em comparação a 44 em 2024 e 115 em 2015.  De 2015 a 2025, foram 948 casos confirmados. A mortalidade média é de 46,5% no país.

"Diversos fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homens e roedores silvestres," explica a pasta.

A região Sul é o epicentro de infecções diagnosticadas, registrando 17 casos em 2025. "As infecções ocorrem principalmente em áreas rurais, em situações ocupacionais relacionadas à agricultura, sendo o sexo masculino com faixa etária de 20 a 39 anos o grupo mais acometido," diz ainda o Ministério da Saúde.

<><> Outros casos na História

Estudos indicam que os hantavírus existem há séculos, com surtos documentados na Ásia e na Europa. No Hemisfério Oriental, eles têm sido associados, sobretudo, à febre hemorrágica e à insuficiência renal.

Segundo a revista médica The Lancet, o nome vem da região do rio Hantan, na Coreia do Sul, onde o vírus foi identificado na década de 1970.

No início da década de 1990 um grupo até então desconhecido de hantavírus surgiu no sudoeste dos Estados Unidos como causa de uma doença respiratória aguda, hoje conhecida como síndrome pulmonar por hantavírus.

Autoridades sanitárias começaram a monitorar o vírus após um surto ocorrido em 1993 em quatro estados – Arizona, Colorado, Novo México e Utah. A doença ganhou atenção no ano passado após a morte de Betsy Arakawa, esposa do ator Gene Hackman, após uma infecção por hantavírus.

Em 2020, pelo menos um caso de transmissão do vírus de Seul, que pertence à família do hantavirus, foi confirmado por autoridades.

<><> Incógnita sobre tratamento

Ainda não há tratamento específico e nem cura para a doença, mas o atendimento médico precoce pode aumentar as chances de sobrevivência.

Apesar de anos de pesquisa, restam muitas perguntas não respondidas. Não está claro por que a doença é leve para alguns e muito grave para outros, nem como os anticorpos se desenvolvem.

A melhor forma de evitar o vírus é minimizar o contato com roedores e suas fezes. Especialistas recomendam o uso de luvas de proteção e uma solução de água sanitária para limpar fezes de roedores. Alertam, ainda, contra varrer ou aspirá-las, o que pode fazer o vírus se dispersar no ar.

O Ministério da Saúde lista ainda como medidas de prevenção roçar o terreno perto de casas, dar destino adequado ao entulho e manter alimentos estocados em recipientes fechados e à prova de roedores.

 

Fonte: DW Brasil

 

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