OMS
espera novos casos de hantavírus, mas descarta pandemia
A
Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta quinta feira (07/05) que o
surto de hantavírus identificado em um navio de cruzeiro que agora navega rumo
à ilha de Tenerife deve permanecer limitado e que não há risco pandêmico.
"Embora
seja um incidente sério, a OMS avalia o risco para a saúde pública como
baixo", afirmou o diretor geral da organização, Tedros Adhanom
Ghebreyesus.
"A
OMS está trabalhando com vários governos e parceiros na resposta, dentro desse
marco. Nossas prioridades são garantir atendimento aos pacientes afetados,
proteger e tratar com dignidade os passageiros que permanecem no navio e evitar
qualquer nova disseminação do vírus", continuou.
Maria
Van Kerkhove, diretora interina do Departamento de Ameaças Epidêmicas e
Pandêmicas da OMS, afirmou que a situação atual está contida e não guarda
qualquer paralelo com a pandemia de covid 19. "Isso não é coronavírus. É
um vírus completamente diferente. Conhecemos esse patógeno — os hantavírus
circulam há bastante tempo. Mas quero ser absolutamente clara: não é o início
de uma nova pandemia".
Ela
destacou que a transmissão não ocorre da mesma forma que a do coronavírus.
"É algo que exige contato muito próximo, íntimo, como temos observado. E a
maioria dos hantavírus nem sequer se transmite entre pessoas".
O
diretor de alerta e resposta da OMS, Abdi Rahman Mahamud, também reforçou que o
surto não deve se expandir "caso as medidas de saúde pública sejam
implementadas e haja solidariedade entre os países".
"Trata
se de uma epidemia limitada, restrita a um navio de cruzeiro; portanto, a ideia
de enviar mensagens ao mundo inteiro e causar pânico não é necessária",
afirmou. "Acreditamos que isso não resultará em novas cadeias de
transmissão".
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Doze países notificados
Ainda
assim, há expectativa de que novos casos sejam identificados. Até o momento,
cinco casos foram confirmados a bordo da embarcação, além de outros três
suspeitos. Três pessoas morreram: um casal holandês e uma alemã.
Contudo,
segundo a operadora do navio, a Oceanwide Expeditions, 40 passageiros — além do
corpo de um cidadão holandês que havia morrido anteriormente — desembarcaram na
remota ilha britânica de Santa Helena em 24 de abril, antes de ser tomado
conhecimento do surto de hantavírus. 29 deles não retornaram ao navio e
seguiram viagem por outros meios.
Como o
período de incubação pode chegar a seis meses, a OMS comunicou que 12 países
foram notificados devido ao desembarque de seus cidadãos: Reino Unido, Canadá,
Dinamarca, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, São Cristóvão e Névis, Singapura,
Suécia, Suíça, Turquia e Estados Unidos. A Argentina enviará 2.500 kits
diagnósticos a laboratórios de cinco países.
Entre
os passageiros que desembarcaram, estava uma mulher holandesa que deixou o
barco com o corpo do marido, falecido a bordo em 11 de abril. A mulher seguiu
então para a África do Sul em um voo comercial e também faleceu após desmaiar
no aeroporto de Joanesburgo.
Na
Alemanha, uma mulher que, segundo as autoridades, teve contato com a alemã que
faleceu no navio de cruzeiro no dia 2 de maio continua em observação no
Hospital Universitário de Düsseldorf, no estado da Renânia do Norte-Vestfália.
Ela foi evacuada para testes no dia 6 de maio.
Entre
outros casos, um paciente que chegou à Holanda por via marítima também testou
positivo para o vírus. O Hospital Radboud, em Nijmegen, anunciou que o
Instituto Nacional de Saúde Pública e Meio Ambiente da Holanda (RIVM) confirmou
“que o paciente internado está infectado com o hantavírus”. O paciente já foi
informado.
A
doença é rara e normalmente transmitida por roedores infectados, sobretudo por
meio de urina, fezes e saliva. O vírus Andes, presente na América do Sul, é o
único hantavírus com transmissão documentada entre humanos.
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Navio segue a Tenerife
O
navio, de bandeira holandesa, deixou Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril,
iniciando sua rota pelo Atlântico até Cabo Verde. Nesta quarta feira, a
embarcação voltou a zarpar rumo ao norte, em direção a Tenerife.
De
acordo com a ministra da Saúde da Espanha, Mónica García Gómez, o navio de
cruzeiro atracará no porto de Granadilla "dentro de três dias".
A ilha
turística conta com uma clínica especializada em epidemias. A tripulação e os
passageiros serão examinados nesse local e, se necessário, receberão tratamento
médico.
• O que é o hantavírus
A morte
de três pessoas e o adoecimento de mais três a bordo de um navio de cruzeiro
foi atribuído a um suspeito surto de hantavírus no domingo (04/05), de acordo a
Organização Mundial da Saúde (OMS). O
caso foi registrado quando a embarcação MV Hondius percorria a rota entre
Ushuaia, na Argentina, e Cabo Verde.
A
agência das Nações Unidas reportou em comunicado que investigações detalhadas
estão em andamento, incluindo novos testes laboratoriais e investigações
epidemiológicas. O sequenciamento do vírus também está em curso.
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Surto pode sair do navio?
O
hantavírus é transmitido principalmente pelo contato com roedores ou com sua
urina, saliva ou fezes. Só em casos raros há transmissão direta entre humanos,
diz a OMS.
Por
ora, não está clara a extensão do surto nem onde ele começou – nem, portanto, a
magnitude dos riscos sanitários. O longo tempo de incubação do vírus dificulta
o diagnóstico, uma vez que pode demorar até várias semanas para a doença se
manifestar.
O navio
está parado perto de Praia, capital de Cabo Verde, sem autorização de
desembarque, a fim de proteger a população local.
As
pessoas geralmente são expostas ao hantavírus em casas, cabanas ou galpões,
sobretudo ao limpar espaços fechados com pouca ventilação ou explorar áreas
onde há fezes de camundongos. Os roedores podem carregar o vírus por toda a
vida sem adoecer.
A OMS
afirmou nesta segunda-feira que não há motivo para pânico ou restrições de
viagens e que o risco para o público em geral é baixo. "As infecções por
hantavírus são incomuns e geralmente estão ligadas à exposição a roedores
infectados. Embora graves em alguns casos, não são facilmente transmitidas
entre pessoas", destacou o diretor regional da agência para a Europa, Hans
Kluge, em um comunicado.
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Quais são os sintomas de hantavirose?
Os
primeiros sintomas da infecção são geralmente semelhantes aos da gripe – febre,
dores de cabeça e dores musculares – e as duas doenças mais comuns causadas por
infeção por hantavírus são a "síndrome pulmonar por hantavírus"
(SPH), presente no continente americano, e a "febre hemorrágica com
síndrome renal" (FHSR), mais frequente na Europa e na Ásia.
"No
início da doença, realmente pode ser difícil diferenciar o hantavírus de uma
gripe", disse Sonja Bartolome, médica do UT Southwestern Medical Center,
em Dallas.
Quando
ocorre síndrome pulmonar por hantavírus, os sintomas geralmente aparecem entre
uma e oito semanas após o contato com um roedor infectado. A infecção pode
progredir rapidamente, e pacientes costumam relatar sensação de aperto no
peito, porque os pulmões se enchem de água. A SPH tem uma alta taxa de
mortalidade, de cerca de 40%.
Já nos
casos de febre hemorrágica com síndrome renal, geralmente a doença se manifesta
dentro de uma ou duas semanas. A mortalidade varia de 1% a 15% dos pacientes,
segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).
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Casos no Brasil
A
síndrome pulmonar por hantavírus é mais comumente encontrada na América do
Norte e na América do Sul. No caso sul-americano, a constatação de importante
comprometimento cardíaco levou a hantavirose a ser chamada de Síndrome
Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH).
Dados
do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, houve 31 casos confirmados no
ano passado, em comparação a 44 em 2024 e 115 em 2015. De 2015 a 2025, foram 948 casos confirmados.
A mortalidade média é de 46,5% no país.
"Diversos
fatores ambientais estão associados com o aumento no registro de casos de
hantavirose, e estão ligados ao aumento da população de roedores silvestres
como, o desmatamento desordenado, a expansão das cidades para áreas rurais e as
áreas de grande plantio, favorecendo a interação entre homens e roedores
silvestres," explica a pasta.
A
região Sul é o epicentro de infecções diagnosticadas, registrando 17 casos em
2025. "As infecções ocorrem principalmente em áreas rurais, em situações
ocupacionais relacionadas à agricultura, sendo o sexo masculino com faixa
etária de 20 a 39 anos o grupo mais acometido," diz ainda o Ministério da
Saúde.
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Outros casos na História
Estudos
indicam que os hantavírus existem há séculos, com surtos documentados na Ásia e
na Europa. No Hemisfério Oriental, eles têm sido associados, sobretudo, à febre
hemorrágica e à insuficiência renal.
Segundo
a revista médica The Lancet, o nome vem da região do rio Hantan, na Coreia do
Sul, onde o vírus foi identificado na década de 1970.
No
início da década de 1990 um grupo até então desconhecido de hantavírus surgiu
no sudoeste dos Estados Unidos como causa de uma doença respiratória aguda,
hoje conhecida como síndrome pulmonar por hantavírus.
Autoridades
sanitárias começaram a monitorar o vírus após um surto ocorrido em 1993 em
quatro estados – Arizona, Colorado, Novo México e Utah. A doença ganhou atenção
no ano passado após a morte de Betsy Arakawa, esposa do ator Gene Hackman, após
uma infecção por hantavírus.
Em
2020, pelo menos um caso de transmissão do vírus de Seul, que pertence à
família do hantavirus, foi confirmado por autoridades.
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Incógnita sobre tratamento
Ainda
não há tratamento específico e nem cura para a doença, mas o atendimento médico
precoce pode aumentar as chances de sobrevivência.
Apesar
de anos de pesquisa, restam muitas perguntas não respondidas. Não está claro
por que a doença é leve para alguns e muito grave para outros, nem como os
anticorpos se desenvolvem.
A
melhor forma de evitar o vírus é minimizar o contato com roedores e suas fezes.
Especialistas recomendam o uso de luvas de proteção e uma solução de água
sanitária para limpar fezes de roedores. Alertam, ainda, contra varrer ou
aspirá-las, o que pode fazer o vírus se dispersar no ar.
O
Ministério da Saúde lista ainda como medidas de prevenção roçar o terreno perto
de casas, dar destino adequado ao entulho e manter alimentos estocados em
recipientes fechados e à prova de roedores.
Fonte:
DW Brasil

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