segunda-feira, 11 de maio de 2026

Áudios revelam suposta trama entre Honduras, EUA e Israel para ingerência política na América Latina

O ex-presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández, está no centro de uma trama para desestabilizar governos legítimos na América Latina junto aos Estados Unidos e Israel, enquanto planejava retornar ao poder em Honduras.

Áudios vazados de aplicativos de mensagens, atribuídos ao ex-presidente de Honduras e publicados pelo portal Diario Red, mostram supostas negociações com apoio de setores ligados aos governos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Os áudios expostos foram gravados entre janeiro e abril deste ano.

Segundo o material divulgado, Hernández teria articulado um plano para retornar à presidência hondurenha com apoio político e financeiro internacional. Ele cumpria 45 anos de prisão por narcotráfico, mas recebeu, no final do ano passado, um perdão presidencial de Trump, mesmo sob acusações de participar de um esquema que levou mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos.

Um dos trechos considerados graves pela reportagem mostra um áudio que seria de Hernández orientando o uso de "todo tipo de violência" para garantir o controle da população hondurenha, alegando atender a um pedido de Trump. A determinação teria sido repassada ao presidente do Congresso Nacional, Tomás Zambrano.

A reportagem aponta, ainda, que o atual presidente hondurenho, Nasry Asfura, teria sido eleito com apoio político de Trump e atuaria como uma figura de transição para viabilizar o retorno de Hernández ao poder. Os áudios mencionam supostos acordos envolvendo expansão das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDEs), instalação de uma nova base militar e criação de legislação favorável a empresas estrangeiras de inteligência artificial.

Além disso, os vazamentos mostram o interesse em intervir em governos latino-americanos, especialmente na Colômbia e no México, governados por Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum, respectivamente.

Os áudios divulgados mostram conversas entre Hernández, Nasry Asfura e a vice-presidente María Antonieta Mejía sobre a criação de uma estrutura de comunicação sustentada por recursos públicos de Honduras e aportes do governo de Javier Milei, em valores em torno de US$ 350 mil (R$ 1,7 milhão). Segundo a reportagem, a iniciativa teria como finalidade promover desinformação contra os governos de Petro e Sheinbaum. Outros alvos de desinformação seriam os ex-presidentes de Honduras Manuel Zelaya e Xiomara Castro.

Em outro áudio atribuído a Hernandez em conversa com Asfura, ele solicita uma transferência em dinheiro no valor de US$ 150 mil (R$ 734 mil) e afirma que uma "unidade de jornalismo digital" será montada e administrada por algum membro do Partido Republicano ligado ao presidente dos Estados Unidos. Em outra parte da conversa, o atual presidente do país caribenho sugere que enviará mais US$ 150 mil.

"Daqui, dos Estados Unidos, um centro de informações, para não conseguirem nos rastrear lá em Honduras. Vai ser como um site de notícias da América Latina. Conversei por telefone com o presidente Javier Milei e foi um sucesso. Muito, muito, muito bom, e acho que neste momento podemos fazer grandes coisas por toda a América Latina. Há alguns processos contra o México, alguns processos contra a Colômbia e, o mais importante, contra Honduras, neste caso contra a família Zelaya", revela um dos trechos da conversa do ex-presidente hondurenho sobre o plano de montar um canal para atacar políticos latino-americanos.

Outro braço operacional para "manipular o senso comum", conforme o portal, seriam as igrejas evangélicas, entendidas como instrumentos de mobilização política contra Xiomara Castro. No país, fiéis já foram mobilizados a protestarem contra a ex-presidente, como em uma marcha em agosto do ano passado.

"Precisamos fazer algo ainda mais importante, que é conseguir o apoio de todas as igrejas. São as igrejas que garantirão que as pessoas esqueçam o passado e pensem que foi a esquerda a culpada", mostra mais um trecho atribuído a Hernandez, também ao parlamentar Tomás Zambrano.

¨      Caso Honduragate revela o que todos já sabíamos

Não deveria surpreender ninguém que os Estados Unidos tenham mais uma vez articulado uma aliança com o pior da direita latino-americana para defender interesses econômicos e geopolíticos na região. O Honduragate confirma um padrão que, embora liderado por figuras do Partido Republicano, corresponde a objetivos que transcendem qualquer linha partidária.

O ponto de partida mais revelador é o indulto de Trump a Juan Orlando Hernández (JOH), ex-presidente de Honduras e narcotraficante condenado por um tribunal federal norte-americano por colaboração com o Cartel de Sinaloa. A credibilidade da Casa Branca no enfrentamento de uma crise de opioides que mata mais de 80 mil norte-americanos por ano é, no mínimo, questionável diante da libertação de JOH – que, como os áudios agora revelam, tinha uma missão muito mais urgente a cumprir do que qualquer esforço antidrogas. Essa missão era coordenar uma operação de comunicação política financiada por interesses norte-americanos, contratando consultores e lobistas para interferir nos processos eleitorais do México e da Colômbia. Entre eles, Roger Stone – operador histórico da direita norte-americana, condenado por mentir ao Congresso e por obstrução da justiça no âmbito da investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016, posteriormente perdoado pelo próprio Trump, e notoriamente conectado a interesses empresariais para os quais atua extensivamente como lobista. A pergunta que surge, e que permanece sem resposta, é a mais simples de todas: quem contratou Roger Stone para fazer lobby pela libertação de JOH?

O esforço de reconfiguração política do continente em direção à direita não é novidade, mas está em franca ascendência após um ciclo marcado por derrotas eleitorais da esquerda no Equador, no Panamá e no Chile, e pela deposição de Nicolás Maduro – o único líder da região cuja remoção do poder só foi possível mediante ação militar direta.

O projeto é liderado pelo Partido Republicano, mas os interesses econômicos e geopolíticos que o sustentam revelam uma agenda mais ampla e bipartidária: garantir governos submissos, conter a presença comercial e econômica chinesa e assegurar acesso unilateral a minerais de terras-raras. Os áudios vazados de JOH ilustram essa lógica com precisão no contexto hondurenho. JOH, oriundo do Partido Nacional – o mesmo que protagonizou o golpe de Estado contra Manuel Zelaya em 2009 – fala nos áudios da eliminação de zonas econômicas especiais que beneficiam populações locais, da construção de um corredor ferroviário transcontinental via contrato com a General Electric e da instalação de uma base militar norte-americana em Roatán. Essencialmente configuram a convergência de interesses económicos e geopolíticos: por um lado garantir condições de exploração da força de trabalho e do saqueio dos recursos, por outro militarizar o continente, instalando um mecanismo de coerção contra nossas soberanias. 

O pano de fundo é a preocupação com a crescente presença da China no continente, cujo comércio com a América Latina e o Caribe cresceu de cerca de 12 bilhões para mais de 450 bilhões de dólares nas últimas duas décadas.

Esse avanço chinês explica parcialmente a postura da administração Trump em relação ao México num periodo de renegociação do Acordo Estados Unidos México Canadá (T-MEC pelas suas siglas em espanhol). Durante esta renegociação, a agenda estadunidense busca limitar os insumos chineses nas cadeias produtivas norte-americanas. Também por meio de uma cláusula de contenção, proíbe México e Canadá de celebrarem acordos de livre comércio com “economias não de mercado” – colidindo diretamente com a estratégia mexicana de atrair investimentos industriais chineses no marco do Plan México de desenvolvimento econômico.

Assim, as ameaças de ataques com drones em território nacional mexicano e as recentes acusações contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, fazem parte de uma sequência de ataques políticos que pretendem debilitar um governo de esquerda que porta um projeto nacional que defende sua soberania. Tanto a presidenta Claudia Sheinbaum Pardo como o partido Morena têm denunciado publicamente a campanha de desinformação e perseguição judicial como um ataque político coordenado a partir de Washington em articulação com a direita mexicana. 

A mesma lógica de pressão coercitiva se aplica à Colômbia, embora com resultados que merecem atenção. Após meses de um esforço do governo estadunidense de cercar e sabotar o governo Petro, o país aderiu à Iniciativa do Cinturão e Rota em maio de 2025. Em fevereiro de 2026 houve uma aproximação entre Washington e Colômbia, com a visita de Gustavo Petro aos Estados Unidos, visita esta que foi marcada pelo clima de tensão criado pelo sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores. É nesse contexto que a Colômbia se prepara para o primeiro turno de sua eleição presidencial em 31 de maio, com Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico apoiado por Petro, liderando as pesquisas, com mais de 44% das intenções de voto, frente a uma direita fragmentada. Washington, que já endossou Milei e Asfury, certamente não assiste passivamente a essa corrida.

Some-se a isso a disputa pelas terras-raras. A América Latina concentra algumas das reservas estratégicas mais significativas do planeta: lítio no triângulo formado por Argentina, Chile e Bolívia; nióbio e elementos de terras-raras no Brasil; depósitos relevantes no México e no Peru. Para Washington, garantir acesso privilegiado a esses recursos é tanto uma prioridade econômica quanto um imperativo geopolítico na campanha de conter a China e eliminar qualquer possibilidade de multipolaridade. O governo Lula tem reagido com uma política de soberania mineral em construção: instalou o Conselho Nacional de Política Mineral, aprovou na Câmara o marco regulatório para minerais críticos e estratégicos e avança com a proposta de criação da Terrabras, uma estatal voltada à exploração de terras-raras. O alerta foi reforçado pela aquisição recente da Serra Verde, a única mineradora de terras-raras em operação no Brasil, pela empresa norte-americana USA Rare Earth, operação que elevou a preocupação dentro do governo brasileiro sobre os limites reais do controle nacional sobre esses ativos.

O que está em curso é uma campanha de pressão máxima, com instrumentos econômicos, militares (veja o Escudo das Américas) e políticos contra os governos de esquerda da região. Cuba, Venezuela, México e Colômbia já estão na mira, por vias distintas mas articuladas. Quanto ao Brasil, à medida que Lula consolide relações com a China, avance uma política externa soberana, ou assuma uma política de integração regional mais ambiciosa, as condições para uma interferência norte-americana de maior escala só se aprofundam. A questão é apenas em que forma essa interferência se concretizará.

Enquanto isso, a direita regional opera com financiamento farto, coordenação estratégica e o respaldo aberto do Império. O mesmo consultor político que trabalhou para Trump, Bukele, Milei e Asfury também esteve presente nas manifestações brasileiras de 2022 que contestaram a eleição de Lula – um lembrete de que essa rede opera de forma contínua e transnacional. A evidência de coordenação e colaboração que o caso Honduragate oferece só revela o que já sabemos bem: nossos países são permanentemente vulnerados pela intervenção estadunidense que opera junto com as elites nacionais dos nossos países. A questão não é se os Estados Unidos buscarão influenciar a eleição presidencial brasileira, senão como.  

<><> Após encontro com Trump, Lula diz estar 'muito tranquilo' na relação com os EUA

Presidente Lula afirma que "colocou a verdade sobre a mesa" no encontro com Trump.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou nesta sexta-feira (8) sua relação com os Estados Unidos e o encontro com o presidente estadunidense, Donald Trump, em Washington, D.C, ao defender uma política externa baseada na soberania nacional e na ampliação das parcerias internacionais do Brasil.

"Estamos trabalhando com os EUA muito seriamente", afirmou Lula durante cerimônia do setor elétrico.

O presidente acrescentou que "a China se tornou o principal parceiro do Brasil porque os EUA abandonaram o Brasil". O presidente também afirmou estar confiante na relação bilateral com Washington.

"Estou muito tranquilo na relação com os EUA." No mesmo contexto, Lula fez uma crítica à postura de subordinação internacional. "Ninguém respeita lambe-botas."

Lula acrescentou ainda que seu foco é ampliar as relações com vários países. "Vai continuar acontecendo muita coisa, e vai continuar acontecendo com a China, com a Alemanha".

Ao comentar o cenário internacional e os impactos econômicos da guerra envolvendo o Irã, Lula afirmou que o "Brasil é hoje o país menos vítima dos efeitos da guerra do Irã nos combustíveis". Atualmente o Brasil é autossuficiente em petróleo bruto, mas ainda precisa importar alguns derivados, como o diesel.

Sobre as tarifas impostas pela Casa Branca contra as importações brasileiras, o presidente brasileiro afirmou ser necessário "colocar a verdade sobre a mesa". Ao longo dos anos, os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de mais de US$ 400 bilhões o que torna o tarifaço injustificável sob a justificativa dada pelo presidente norte-americano, segundo Lula.

<><> Distribuidoras de energia

As declarações foram dadas durante evento em Brasília, em que Lula e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciaram um pacote de investimentos de cerca de R$ 130 bilhões em distribuição de energia elétrica até 2030.

Ao todo, serão contempladas 16 distribuidoras que atendem consumidores de 13 estados brasileiros. Os recursos serão empenhados pelas próprias distribuidoras, e não pelo governo federal.

Durante a cerimônia, também foram assinadas medidas para modernizar o setor elétrico e ampliar o acesso à energia no país. Lula e Silveira oficializaram a atualização do Decreto nº 11.628/2023, que moderniza o Programa Luz para Todos (LPT) e amplia o alcance para mais de 233 mil novas famílias.

O ministro Alexandre Silveira assinou ainda contratos de renovação com 14 distribuidoras de energia elétrica, entre elas Light, Equatorial, Neoenergia, CPFL, EDP e Energisa. A Enel ficou de fora do pacote.

As medidas ocorrem no contexto das novas regras estabelecidas pelo Decreto nº 12.068/2024, que criou exigências e critérios mais rígidos de qualidade para as distribuidoras. Entre as mudanças previstas estão a inclusão da satisfação do consumidor como indicador de desempenho das empresas, a obrigatoriedade de melhoria contínua da qualidade do fornecimento e a definição de metas para recomposição do serviço após eventos climáticos extremos.

A expectativa do governo é que os investimentos gerem mais de 100 mil empregos e permitam a capacitação de 30 mil profissionais.

Ao defender as mudanças, Alexandre Silveira afirmou que o "Luz para Todos é o maior programa de combate à pobreza energética do mundo" e ressaltou a "expansão sem precedentes das linhas de energia, interligando finalmente Roraima".

Ao tratar da qualidade do serviço prestado pelas distribuidoras, o ministro reconheceu as reclamações da população. Silveira afirmou ainda que está cobrando uma atuação mais rigorosa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

"O povo reclama com razão da qualidade da distribuição", disse. Ele também falou em priorizar a rede subterrânea e declarou: "Vamos caminhar para o fim dos apagões".

O ministro demonstrou confiança nas concessionárias, mas fez um alerta: "Tenho absoluta certeza que podemos confiar em todas as distribuidoras". Em seguida, acrescentou: "Mas se não cumprirem pode haver a caducidade".

Ao comentar problemas enfrentados no setor elétrico, Lula criticou duramente a Enel, sem citar diretamente a companhia. Segundo ele, a empresa "não cumpriu nada do que prometeu a mim e à primeira-ministra da Itália".

O presidente afirmou ainda que o governo decidiu antecipar as renovações contratuais para garantir os investimentos necessários. "Não vamos esperar o vencimento do contrato que vocês tinham, porque se faltar um mês, as empresas não vão fazer os investimentos", disse.

Ele também defendeu a parceria entre Estado e iniciativa privada. "Podemos sim apresentar ao país a ideia de que o estado pode trabalhar em parceria com empresários", afirmou. Ao final, Lula voltou a prometer estabilidade energética e defendeu que novos investimentos tecnológicos venham acompanhados de geração própria de energia. "O Brasil não vai ter mais apagão."

 

Fonte: Sputnik Brasil/Opera Mundi

 

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