Áudios
revelam suposta trama entre Honduras, EUA e Israel para ingerência política na
América Latina
O
ex-presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández, está no centro de uma trama
para desestabilizar governos legítimos na América Latina junto aos Estados
Unidos e Israel, enquanto planejava retornar ao poder em Honduras.
Áudios
vazados de aplicativos de mensagens, atribuídos ao ex-presidente de Honduras
e publicados pelo portal
Diario Red, mostram supostas negociações com apoio de setores ligados aos
governos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Os áudios
expostos foram gravados entre janeiro e abril deste ano.
Segundo
o material divulgado, Hernández teria articulado um plano para retornar à
presidência hondurenha com apoio político e financeiro internacional. Ele
cumpria 45 anos de prisão por narcotráfico, mas recebeu, no final do ano
passado, um perdão presidencial
de Trump,
mesmo sob acusações de participar de um esquema que levou mais de 400
toneladas de cocaína para os Estados Unidos.
Um dos
trechos considerados graves pela reportagem mostra um áudio que seria de
Hernández orientando o uso de "todo tipo de violência" para
garantir o controle da população hondurenha, alegando atender a um pedido de
Trump. A determinação teria sido repassada ao presidente do Congresso
Nacional, Tomás Zambrano.
A
reportagem aponta, ainda, que o atual presidente
hondurenho, Nasry
Asfura, teria sido eleito com apoio político de Trump e atuaria como uma figura
de transição para viabilizar o retorno de Hernández ao poder. Os áudios
mencionam supostos acordos envolvendo expansão das Zonas de Emprego e
Desenvolvimento Econômico (ZEDEs), instalação de uma nova base militar e
criação de legislação favorável a empresas estrangeiras de inteligência
artificial.
Além
disso, os vazamentos mostram o interesse em intervir em governos
latino-americanos,
especialmente na Colômbia e no México, governados por Gustavo
Petro e Claudia Sheinbaum, respectivamente.
Os áudios divulgados
mostram conversas entre Hernández, Nasry Asfura e a vice-presidente María
Antonieta Mejía sobre a criação de uma estrutura de comunicação sustentada
por recursos públicos de Honduras e aportes do governo de Javier Milei, em
valores em torno de US$ 350 mil (R$ 1,7 milhão). Segundo a reportagem, a
iniciativa teria como finalidade promover
desinformação contra
os governos de Petro e Sheinbaum. Outros alvos de desinformação seriam os
ex-presidentes de Honduras Manuel Zelaya e Xiomara Castro.
Em
outro áudio atribuído a Hernandez em conversa com Asfura, ele solicita uma
transferência em dinheiro no valor de US$ 150 mil (R$ 734 mil) e afirma
que uma "unidade de jornalismo digital" será montada e administrada
por algum membro do Partido Republicano ligado ao presidente dos Estados
Unidos. Em outra parte da conversa, o atual presidente do país caribenho sugere
que enviará mais US$ 150 mil.
"Daqui,
dos Estados Unidos, um centro de informações, para não conseguirem nos rastrear
lá em Honduras. Vai ser como um site de notícias da América Latina. Conversei
por telefone com o presidente Javier Milei e foi um sucesso. Muito, muito,
muito bom, e acho que neste momento podemos fazer grandes coisas por toda a
América Latina. Há alguns processos contra o México, alguns processos contra a
Colômbia e, o mais importante, contra Honduras, neste caso contra a família
Zelaya", revela um dos trechos da conversa do ex-presidente hondurenho
sobre o plano de montar um canal para atacar políticos latino-americanos.
Outro
braço operacional para "manipular o senso comum", conforme o
portal, seriam as igrejas evangélicas, entendidas como instrumentos de
mobilização política contra Xiomara Castro. No país, fiéis já foram mobilizados
a protestarem contra a ex-presidente, como em uma marcha em agosto do ano
passado.
"Precisamos
fazer algo ainda mais importante, que é conseguir o apoio de todas as igrejas. São as igrejas que
garantirão que as pessoas esqueçam o passado e pensem que foi a esquerda a
culpada", mostra mais um trecho atribuído a Hernandez, também ao
parlamentar Tomás Zambrano.
¨
Caso Honduragate revela o que todos já sabíamos
Não
deveria surpreender ninguém que os Estados Unidos tenham mais uma vez
articulado uma aliança com o pior da direita latino-americana para defender
interesses econômicos e geopolíticos na região. O Honduragate confirma
um padrão que, embora liderado por figuras do Partido Republicano, corresponde
a objetivos que transcendem qualquer linha partidária.
O ponto
de partida mais revelador é o indulto de Trump a Juan Orlando Hernández (JOH),
ex-presidente de Honduras e narcotraficante condenado por um tribunal federal
norte-americano por colaboração com o Cartel de Sinaloa. A credibilidade da
Casa Branca no enfrentamento de uma crise de opioides que mata mais de 80 mil
norte-americanos por ano é, no mínimo, questionável diante da libertação de JOH
– que, como os áudios agora revelam, tinha uma missão muito mais urgente a
cumprir do que qualquer esforço antidrogas. Essa missão era coordenar uma
operação de comunicação política financiada por interesses norte-americanos,
contratando consultores e lobistas para interferir nos processos eleitorais do
México e da Colômbia. Entre eles, Roger Stone – operador histórico da direita
norte-americana, condenado por mentir ao Congresso e por obstrução da justiça
no âmbito da investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016,
posteriormente perdoado pelo próprio Trump, e notoriamente conectado a
interesses empresariais para os quais atua extensivamente como lobista. A
pergunta que surge, e que permanece sem resposta, é a mais simples de todas:
quem contratou Roger Stone para fazer lobby pela libertação de JOH?
O
esforço de reconfiguração política do continente em direção à direita não é
novidade, mas está em franca ascendência após um ciclo marcado por derrotas
eleitorais da esquerda no Equador, no Panamá e no Chile, e pela deposição de
Nicolás Maduro – o único líder da região cuja remoção do poder só foi possível
mediante ação militar direta.
O
projeto é liderado pelo Partido Republicano, mas os interesses econômicos e
geopolíticos que o sustentam revelam uma agenda mais ampla e bipartidária:
garantir governos submissos, conter a presença comercial e econômica chinesa e
assegurar acesso unilateral a minerais de terras-raras. Os áudios vazados de
JOH ilustram essa lógica com precisão no contexto hondurenho. JOH, oriundo do
Partido Nacional – o mesmo que protagonizou o golpe de Estado contra Manuel
Zelaya em 2009 – fala nos áudios da eliminação de zonas econômicas especiais
que beneficiam populações locais, da construção de um corredor ferroviário
transcontinental via contrato com a General Electric e da instalação de uma
base militar norte-americana em Roatán. Essencialmente configuram a convergência
de interesses económicos e geopolíticos: por um lado garantir condições de
exploração da força de trabalho e do saqueio dos recursos, por outro
militarizar o continente, instalando um mecanismo de coerção contra nossas
soberanias.
O pano
de fundo é a preocupação com a crescente presença da China no continente, cujo
comércio com a América Latina e o Caribe cresceu de cerca de 12 bilhões para
mais de 450 bilhões de dólares nas últimas duas décadas.
Esse
avanço chinês explica parcialmente a postura da administração Trump em relação
ao México num periodo de renegociação do Acordo Estados Unidos México Canadá
(T-MEC pelas suas siglas em espanhol). Durante esta renegociação, a agenda
estadunidense busca limitar os insumos chineses nas cadeias produtivas
norte-americanas. Também por meio de uma cláusula de contenção, proíbe México e
Canadá de celebrarem acordos de livre comércio com “economias não de mercado” –
colidindo diretamente com a estratégia mexicana de atrair investimentos
industriais chineses no marco do Plan México de desenvolvimento econômico.
Assim,
as ameaças de ataques com drones em território nacional mexicano e as recentes
acusações contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, fazem parte de uma
sequência de ataques políticos que pretendem debilitar um governo de esquerda
que porta um projeto nacional que defende sua soberania. Tanto a presidenta
Claudia Sheinbaum Pardo como o partido Morena têm denunciado publicamente a
campanha de desinformação e perseguição judicial como um ataque político
coordenado a partir de Washington em articulação com a direita mexicana.
A mesma
lógica de pressão coercitiva se aplica à Colômbia, embora com resultados que
merecem atenção. Após meses de um esforço do governo estadunidense de cercar e
sabotar o governo Petro, o país aderiu à Iniciativa do Cinturão e Rota em maio
de 2025. Em fevereiro de 2026 houve uma aproximação entre Washington e
Colômbia, com a visita de Gustavo Petro aos Estados Unidos, visita esta que foi
marcada pelo clima de tensão criado pelo sequestro de Nicolás Maduro e Cilia
Flores. É nesse contexto que a Colômbia se prepara para o primeiro turno de sua
eleição presidencial em 31 de maio, com Iván Cepeda, candidato do Pacto
Histórico apoiado por Petro, liderando as pesquisas, com mais de 44% das
intenções de voto, frente a uma direita fragmentada. Washington, que já
endossou Milei e Asfury, certamente não assiste passivamente a essa corrida.
Some-se
a isso a disputa pelas terras-raras. A América Latina concentra algumas das
reservas estratégicas mais significativas do planeta: lítio no triângulo
formado por Argentina, Chile e Bolívia; nióbio e elementos de terras-raras no
Brasil; depósitos relevantes no México e no Peru. Para Washington, garantir
acesso privilegiado a esses recursos é tanto uma prioridade econômica quanto um
imperativo geopolítico na campanha de conter a China e eliminar qualquer
possibilidade de multipolaridade. O governo Lula tem reagido com uma política
de soberania mineral em construção: instalou o Conselho Nacional de Política
Mineral, aprovou na Câmara o marco regulatório para minerais críticos e
estratégicos e avança com a proposta de criação da Terrabras, uma estatal voltada
à exploração de terras-raras. O alerta foi reforçado pela aquisição recente da
Serra Verde, a única mineradora de terras-raras em operação no Brasil, pela
empresa norte-americana USA Rare Earth, operação que elevou a preocupação
dentro do governo brasileiro sobre os limites reais do controle nacional sobre
esses ativos.
O que
está em curso é uma campanha de pressão máxima, com instrumentos econômicos,
militares (veja o Escudo das Américas) e políticos contra os governos de
esquerda da região. Cuba, Venezuela, México e Colômbia já estão na mira, por
vias distintas mas articuladas. Quanto ao Brasil, à medida que Lula consolide
relações com a China, avance uma política externa soberana, ou assuma uma
política de integração regional mais ambiciosa, as condições para uma
interferência norte-americana de maior escala só se aprofundam. A questão é
apenas em que forma essa interferência se concretizará.
Enquanto
isso, a direita regional opera com financiamento farto, coordenação estratégica
e o respaldo aberto do Império. O mesmo consultor político que trabalhou para
Trump, Bukele, Milei e Asfury também esteve presente nas manifestações
brasileiras de 2022 que contestaram a eleição de Lula – um lembrete de que essa
rede opera de forma contínua e transnacional. A evidência de coordenação e
colaboração que o caso Honduragate oferece só revela o que já sabemos bem:
nossos países são permanentemente vulnerados pela intervenção estadunidense que
opera junto com as elites nacionais dos nossos países. A questão não é se os
Estados Unidos buscarão influenciar a eleição presidencial brasileira, senão
como.
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Após encontro com Trump, Lula diz estar 'muito tranquilo' na relação com os EUA
Presidente
Lula afirma que "colocou a verdade sobre a mesa" no encontro com
Trump.
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou nesta sexta-feira (8) sua relação
com os Estados Unidos e o encontro com o presidente estadunidense, Donald
Trump, em Washington, D.C, ao defender uma política externa baseada na
soberania nacional e na ampliação das parcerias internacionais do Brasil.
"Estamos
trabalhando com os EUA muito seriamente", afirmou Lula durante cerimônia
do setor elétrico.
O
presidente acrescentou que "a China se tornou o principal parceiro do
Brasil porque os EUA abandonaram o Brasil". O presidente também
afirmou estar confiante na relação bilateral com Washington.
"Estou
muito tranquilo na relação com os EUA." No mesmo contexto, Lula fez uma
crítica à postura de subordinação internacional. "Ninguém respeita
lambe-botas."
Lula
acrescentou ainda que seu foco é ampliar as relações com vários países.
"Vai continuar acontecendo muita coisa, e vai continuar acontecendo com a
China, com a Alemanha".
Ao
comentar o cenário internacional e os impactos econômicos da guerra envolvendo o
Irã, Lula
afirmou que o "Brasil é hoje o país menos vítima dos efeitos da guerra do
Irã nos combustíveis". Atualmente o Brasil é autossuficiente em petróleo
bruto, mas ainda precisa importar alguns derivados, como o diesel.
Sobre
as tarifas impostas pela Casa Branca contra as importações brasileiras, o
presidente brasileiro afirmou ser necessário "colocar a verdade sobre
a mesa". Ao longo dos anos, os Estados Unidos acumularam um superávit
comercial de mais de US$ 400 bilhões o que torna o tarifaço
injustificável sob a justificativa dada pelo presidente norte-americano,
segundo Lula.
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Distribuidoras de energia
As
declarações foram dadas durante evento em Brasília, em que Lula e o ministro de
Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciaram um pacote de investimentos
de cerca de R$ 130 bilhões em distribuição de energia elétrica até 2030.
Ao
todo, serão contempladas 16 distribuidoras que atendem consumidores de 13
estados brasileiros. Os recursos serão empenhados pelas próprias
distribuidoras, e não pelo governo federal.
Durante
a cerimônia, também foram assinadas medidas para modernizar o setor elétrico e
ampliar o acesso à energia no país. Lula e Silveira oficializaram a atualização
do Decreto nº 11.628/2023, que moderniza o Programa Luz para Todos (LPT) e
amplia o alcance para mais de 233 mil novas famílias.
O
ministro Alexandre Silveira assinou ainda contratos de renovação com 14
distribuidoras de energia elétrica, entre elas Light, Equatorial,
Neoenergia, CPFL, EDP e Energisa. A Enel ficou de fora do pacote.
As
medidas ocorrem no contexto das novas regras estabelecidas pelo Decreto nº
12.068/2024, que criou exigências e critérios mais rígidos de qualidade para as
distribuidoras. Entre as mudanças previstas estão a inclusão da satisfação
do consumidor como indicador de desempenho das empresas, a obrigatoriedade de
melhoria contínua da qualidade do fornecimento e a definição de metas para
recomposição do serviço após eventos climáticos extremos.
A
expectativa do governo é que os investimentos gerem mais de 100 mil empregos e
permitam a capacitação de 30 mil profissionais.
Ao
defender as mudanças, Alexandre Silveira afirmou que o "Luz para Todos é o
maior programa de combate à pobreza energética do mundo" e ressaltou a
"expansão sem precedentes das linhas de energia, interligando finalmente
Roraima".
Ao
tratar da qualidade do serviço prestado pelas distribuidoras, o ministro
reconheceu as reclamações da população. Silveira afirmou ainda que está
cobrando uma atuação mais rigorosa da Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel).
"O
povo reclama com razão da qualidade da distribuição", disse. Ele também
falou em priorizar a rede subterrânea e declarou: "Vamos caminhar para o
fim dos apagões".
O
ministro demonstrou confiança nas concessionárias, mas fez um alerta:
"Tenho absoluta certeza que podemos confiar em todas as
distribuidoras". Em seguida, acrescentou: "Mas se não cumprirem
pode haver a caducidade".
Ao
comentar problemas enfrentados no setor elétrico, Lula criticou duramente a
Enel, sem citar diretamente a companhia. Segundo ele, a empresa "não
cumpriu nada do que prometeu a mim e à primeira-ministra da Itália".
O
presidente afirmou ainda que o governo decidiu antecipar as renovações
contratuais para garantir os investimentos necessários. "Não vamos esperar
o vencimento do contrato que vocês tinham, porque se faltar um mês, as empresas
não vão fazer os investimentos", disse.
Ele
também defendeu a parceria entre Estado e iniciativa privada. "Podemos sim
apresentar ao país a ideia de que o estado pode trabalhar em parceria com
empresários", afirmou. Ao final, Lula voltou a prometer estabilidade energética e defendeu que
novos investimentos tecnológicos venham acompanhados de geração própria de
energia. "O Brasil não vai ter mais apagão."
Fonte:
Sputnik Brasil/Opera Mundi

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