JBS
de Joesley Batista é alvo de megainvestigação do governo Trump
A
reunião dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em Washington
nesta quinta-feira (7) coincide com uma nova rodada de ameaças do governo dos
Estados Unidos contra gigantes brasileiras da carne que operam no país.
Embora
o tema não tenha feito parte da agenda dos presidentes na Casa Branca,
múltiplas movimentações à margem da agenda diplomática indicam que a pauta está
no radar das autoridades federais norte-americanas.
Em
entrevista coletiva após a reunião, na embaixada do Brasil em Washington, Lula
brincou a respeito do menu do almoço oferecido por Trump na Casa Branca, que
incluiu filé bovino grelhado: "Fiquei curioso para saber se era carne
brasileira, mas não quis perguntar porque poderia não ser".
Horas
depois de a notícia da viagem-relâmpago de Lula aos EUA vir à tona na
segunda-feira (4), o governo norte-americano anunciou detalhes de uma
megainvestigação sobre a indústria de carne no país por suspeita de
"práticas anticompetitivas", seguindo uma postagem presidencial feita
em novembro de 2025.
No alvo
das apurações estão as chamadas Quatro Grandes (Big Four) do setor,
responsáveis por cerca de 85% da atividade nos Estados Unidos. E duas dessas
gigantes são brasileiras ou controladas por capital brasileiro: a JBS Foods USA
e a National Food.
Maior
processadora de carne do mundo, a JBS é líder do setor em solo americano por
meio da marca JBS Foods USA.
Já a
National Food é controlada pela brasileira MBRF, resultante da fusão entre a
BRF e a Marfrig.
Na
lista de quatro gigantes estão também a Cargill e a Tyson Foods, de capital
norte-americano.
O
empresário Joesley Batista, do Conselho de Administração da J&F, holding
que abriga a JBS Foods USA, teria sido um dos articuladores do encontro entre
Lula e Trump, segundo a agência Reuters.
A
processadora de carne de frango Pilgrim's Pride, uma das subsidiárias da JBS
Foods USA, esteve entre as maiores doadoras de campanha de Trump em 2024, com
um aporte de US$ 5 milhões (R$ 24,6 milhões).
Batista
esteve em Washington na quinta-feira (7/5) ao mesmo tempo em que ocorria a
reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, segundo informações do jornal O
Globo.
A
investigação contra a megaindústria da carne havia sido antecipada em novembro
de 2025 em postagem de Trump na sua rede social Truth Social, sem especificar
os nomes das companhias.
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Companhias brasileiras no alvo
Na
segunda-feira (4), além de citar nominalmente as Quatro Grandes, representantes
do governo dos Estados Unidos responsáveis pelas investigações fizeram
declarações duras sobre o peso brasileiro no setor.
O tom
do anúncio contrastou com o clima ameno e otimista do encontro entre Trump e
Lula.
"[...]
Metade das Quatro [Grandes] são brasileiras. E no meu mundo das tarifas eu me
lembro vividamente de que recentemente, quando o presidente [Trump] impôs
tarifas sobre o Brasil em razões de ações prejudiciais para o povo
americano", afirmou Peter Navarro, conselheiro especial para Comércio e
Manufatura do governo dos Estados Unidos, que participou do anúncio da
investigação no Departamento de Justiça.
"O
que aconteceu? O lobby da carne, representado por brasileiros, silenciosamente
ameaçou a Casa Branca de que nós veríamos a carne vendida nos supermercados
americanos indo para onde? China", prosseguiu.
E
concluiu: "Não é apenas com abuso de preços e cartel que devemos nos
preocupar. É também com a influência de estrangeiros em nossa cadeia de
abastecimento".
Economista
com formação em Harvard, Navarro acompanha Trump desde o primeiro mandato
(2017-2020) e é considerado o principal inspirador das políticas protecionistas
do presidente norte-americano.
"Essa
investigação da JBS e da National Beef denota que a relação Brasil-Estados
Unidos mergulhou em um enredo pautado em [política] antitruste, inflação
alimentar e nacionalismo econômico", afirma Priscila Caneparo, doutora em
Direito das Relações Econômicas Internacionais pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP) e professora do Curso de Relações Internacionais
da Unicuritiba.
O
resultado, na opinião da professora, é uma "contaminação da agenda
bilateral" por meio de acusações de concentração de mercado e segurança
alimentar.
Ao
mesmo tempo, diz Priscila, ocorre um fortalecimento do discurso protecionista.
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Impopularidade e alta de preço da carne preocupam Trump
O
efeito político da medida, segundo a pesquisadora, é colocar as grandes
empresas brasileiras sob suspeita em setores considerados estratégicos pelos
Estados Unidos.
As
apurações anunciadas por Washington não são somente técnicas, sustenta
Priscila.
"[Por
meio da investigação das Quatro Grandes] o governo dos Estados Unidos tenta
responder a uma pressão doméstica, que é o preço dos alimentos, que gera
inflação e foi uma bandeira de campanha de Trump", afirma a professora.
O
governo dos Estados Unidos anunciou também que vai recompensar financeiramente
quem der informações sobre práticas ilícitas cometidas pela indústria da carne.
"Há
uma politização e uma tentativa de securitização muito tênue dessa discussão
[sobre as práticas comerciais das empresas], tentando trazê-la para o campo da
segurança nacional", define Natali Hoff, doutora em Ciência Política pela
Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professora do Curso de Relações
Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Às
voltas com queda nos índices de aprovação e uma decisiva campanha para as
eleições legislativas de meio de mandato — marcadas para novembro de 2026 —,
Trump tenta enfrentar uma das questões mais candentes para o eleitorado: o
custo de vida. O preço da carne é um componente importante da inflação no país.
Para
Natali, a investigação sobre empresas estrangeiras permite ao governo Trump
"terceirizar" a culpa pelo aumento do preço da carne.
"Trump
está muito enfraquecido, principalmente depois da Guerra do Irã, e com isso [a
investigação das gigantes da carne], consegue tentar emplacar algum tipo de
discurso diante do eleitorado, sejam consumidores ou pecuaristas, que se
irritaram com a ampliação das importações de carne para lidar com a alta dos
preços."
Em
nota, a MBRF afirmou que atua em estrita conformidade com as leis de defesa da
concorrência e mantém políticas robustas de governança e compliance.
"[...]
Nos Estados Unidos as operações da National Beef [subsidiária da MBRF] têm uma
característica especial, já que elas são baseadas em sociedade de longa data
com cerca de 700 produtores locais, que juntos detêm aproximadamente 18% do
capital da empresa", diz a nota.
A BBC
News Brasil procurou a JBS e a J&F para tratar da investigação anunciada
pelos Estados Unidos, mas não havia obtido resposta até o fechamento desta
reportagem.
A BBC
News Brasil também questionou o Ministério das Relações Exteriores do Brasil e
os Departamentos de Agricultura e Justiça dos Estados Unidos sobre a
investigação norte-americana, mas não havia recebido retorno até a finalização
desta reportagem.
• EUA vão oferecer recompensa por
informações contra frigoríficos investigados por práticas abusivas, incluindo
JBS e Marfrig
O
governo dos Estados Unidos afirmou nesta semana que pagará uma recompensa a
quem fornecer informações sobre frigoríficos investigados por práticas
comerciais abusivas.
A JBS e
a National Beef, controlada pela Marfrig nos Estados Unidos, são alvos da
investigação. Além delas, as norte-americanas Cargill e Tyson Foods também são
analisadas desde novembro do ano passado.
A
operação começou por solicitação do presidente dos EUA, Donald Trump, que
acusou as quatro empresas de elevarem os preços da carne bovina "por meio
de conluio ilícito". Segundo o governo, entre 1980 e 1990, a fatia de gado
comprada por esses frigoríficos passou de um terço para mais de 80% do total
nacional.
O
Departamento de Justiça informou que revisou mais de 3 milhões de documentos e
ouviu centenas de pessoas do setor, como pecuaristas e produtores.
A
recompensa pode variar de 15% a 30% do valor das multas se elas ultrapassarem
US$ 1 milhão. O pagamento será feito a quem fornecer informações sobre
possíveis crimes concorrenciais ou fraudes.
Em
nota, a MBRF afirmou que respeita as leis de defesa da concorrência. A empresa
acrescentou que, nos EUA, a National Beef atua em sociedade com 700 produtores
locais, que detêm cerca de 18% do capital da companhia.
O g1
procurou a JBS, mas não obteve retorno até a última atualização desta
reportagem.
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Foco nas empresas brasileiras
A JBS é
a maior produtora de carne nos EUA, segundo a empresa. Já a National Beef é a
quarta maior e é reconhecida como a mais lucrativa do setor no país, segundo a
Marfrig.
A
secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, afirmou na segunda-feira que
a propriedade estrangeira de grandes processadores de carne representa uma
ameaça ao país.
"Uma
empresa de propriedade brasileira detém cerca de um quarto do mercado e possui
um histórico documentado de corrupção internacional e atividade ilícita",
disse a secretária.
Ela
também associou a empresa a casos de corrupção, cartéis e trabalho escravo,
citando denúncias recentes. "O que já é ruim o suficiente por si só, mas
também é em detrimento dos grandes pecuaristas independentes e consumidores da
América", declarou.
No dia
29, o Ministério Público do Trabalho (MPT) do Pará pediu a condenação da JBS
em, no mínimo, R$ 118 milhões por trabalho análogo à escravidão na cadeia
produtiva da pecuária. Na ocasião, a empresa disse que "não foi notificada
sobre as ações mencionadas".
Além de
Rollins, o conselheiro do presidente Trump, Peter Navarro, disse que o lobby da
carne, representado por brasileiros, teria "ameaçado silenciosamente a
Casa Branca" em resposta ao tarifaço. Segundo ele, isso teria resultado no
desvio de carne dos EUA para a China.
Em
agosto, os EUA aplicaram uma tarifa de 50% sobre diversos produtos brasileiros
exportados para o país, incluindo carne. O Brasil é o principal fornecedor do
produto para a indústria norte-americana.
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Menos gado no pasto
Os
estoques de gado nos EUA caíram ao nível mais baixo em quase 75 anos, após
fazendeiros reduzirem seus rebanhos devido a uma seca prolongada, que
prejudicou as pastagens e elevou os custos de alimentação.
O
fornecimento ficou ainda mais restrito porque os EUA suspenderam, há um ano, a
maioria das importações de gado mexicano, diante de preocupações com a
disseminação da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que infesta o gado.
Apesar
de também serem grandes produtores, os EUA ainda precisam importar carne para
suprir a demanda dos consumidores, que se manteve firme e pressionou os preços.
A baixa
oferta obrigou frigoríficos a pagar mais pelo gado destinado à produção de
hambúrgueres e bifes.
• Em dezembro, a JBS informou que fecharia
de forma permanente uma fábrica nos arredores de Los Angeles, responsável por
preparar carne bovina para venda em supermercados dos Estados Unidos.
• O frigorífico rival Tyson Foods também
anunciou, em janeiro do ano passado, o fechamento de uma importante fábrica de
abate de gado em Nebraska, que emprega cerca de 3.200 pessoas.
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Pecuaristas insatisfeitos
Pecuaristas
norte-americanos criticam Trump desde outubro, após o presidente sugerir que o
país importe mais carne bovina da Argentina. Na ocasião, ele disse que usaria a
medida para reduzir os preços nos EUA, que atingiram níveis recordes.
Os
produtores viram o comentário como uma ameaça, em um momento de preços elevados
do gado e forte demanda dos consumidores americanos.
Trump
respondeu às críticas nas redes sociais e afirmou que eles estão em boa
condição econômica graças ao tarifaço imposto ao Brasil e a outros países.
"Os
pecuaristas, que eu amo, não entendem que a única razão pela qual estão indo
bem, pela primeira vez em décadas, é porque eu impus tarifas sobre o gado que
entra nos EUA, incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil", disse Trump em
sua rede social.
Fonte:
BBC News Brasil/g1

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