segunda-feira, 11 de maio de 2026

JBS de Joesley Batista é alvo de megainvestigação do governo Trump

A reunião dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em Washington nesta quinta-feira (7) coincide com uma nova rodada de ameaças do governo dos Estados Unidos contra gigantes brasileiras da carne que operam no país.

Embora o tema não tenha feito parte da agenda dos presidentes na Casa Branca, múltiplas movimentações à margem da agenda diplomática indicam que a pauta está no radar das autoridades federais norte-americanas.

Em entrevista coletiva após a reunião, na embaixada do Brasil em Washington, Lula brincou a respeito do menu do almoço oferecido por Trump na Casa Branca, que incluiu filé bovino grelhado: "Fiquei curioso para saber se era carne brasileira, mas não quis perguntar porque poderia não ser".

Horas depois de a notícia da viagem-relâmpago de Lula aos EUA vir à tona na segunda-feira (4), o governo norte-americano anunciou detalhes de uma megainvestigação sobre a indústria de carne no país por suspeita de "práticas anticompetitivas", seguindo uma postagem presidencial feita em novembro de 2025.

No alvo das apurações estão as chamadas Quatro Grandes (Big Four) do setor, responsáveis por cerca de 85% da atividade nos Estados Unidos. E duas dessas gigantes são brasileiras ou controladas por capital brasileiro: a JBS Foods USA e a National Food.

Maior processadora de carne do mundo, a JBS é líder do setor em solo americano por meio da marca JBS Foods USA.

Já a National Food é controlada pela brasileira MBRF, resultante da fusão entre a BRF e a Marfrig.

Na lista de quatro gigantes estão também a Cargill e a Tyson Foods, de capital norte-americano.

O empresário Joesley Batista, do Conselho de Administração da J&F, holding que abriga a JBS Foods USA, teria sido um dos articuladores do encontro entre Lula e Trump, segundo a agência Reuters.

A processadora de carne de frango Pilgrim's Pride, uma das subsidiárias da JBS Foods USA, esteve entre as maiores doadoras de campanha de Trump em 2024, com um aporte de US$ 5 milhões (R$ 24,6 milhões).

Batista esteve em Washington na quinta-feira (7/5) ao mesmo tempo em que ocorria a reunião entre Lula e Trump na Casa Branca, segundo informações do jornal O Globo.

A investigação contra a megaindústria da carne havia sido antecipada em novembro de 2025 em postagem de Trump na sua rede social Truth Social, sem especificar os nomes das companhias.

<><> Companhias brasileiras no alvo

Na segunda-feira (4), além de citar nominalmente as Quatro Grandes, representantes do governo dos Estados Unidos responsáveis pelas investigações fizeram declarações duras sobre o peso brasileiro no setor.

O tom do anúncio contrastou com o clima ameno e otimista do encontro entre Trump e Lula.

"[...] Metade das Quatro [Grandes] são brasileiras. E no meu mundo das tarifas eu me lembro vividamente de que recentemente, quando o presidente [Trump] impôs tarifas sobre o Brasil em razões de ações prejudiciais para o povo americano", afirmou Peter Navarro, conselheiro especial para Comércio e Manufatura do governo dos Estados Unidos, que participou do anúncio da investigação no Departamento de Justiça.

"O que aconteceu? O lobby da carne, representado por brasileiros, silenciosamente ameaçou a Casa Branca de que nós veríamos a carne vendida nos supermercados americanos indo para onde? China", prosseguiu.

E concluiu: "Não é apenas com abuso de preços e cartel que devemos nos preocupar. É também com a influência de estrangeiros em nossa cadeia de abastecimento".

Economista com formação em Harvard, Navarro acompanha Trump desde o primeiro mandato (2017-2020) e é considerado o principal inspirador das políticas protecionistas do presidente norte-americano.

"Essa investigação da JBS e da National Beef denota que a relação Brasil-Estados Unidos mergulhou em um enredo pautado em [política] antitruste, inflação alimentar e nacionalismo econômico", afirma Priscila Caneparo, doutora em Direito das Relações Econômicas Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professora do Curso de Relações Internacionais da Unicuritiba.

O resultado, na opinião da professora, é uma "contaminação da agenda bilateral" por meio de acusações de concentração de mercado e segurança alimentar.

Ao mesmo tempo, diz Priscila, ocorre um fortalecimento do discurso protecionista.

<><> Impopularidade e alta de preço da carne preocupam Trump

O efeito político da medida, segundo a pesquisadora, é colocar as grandes empresas brasileiras sob suspeita em setores considerados estratégicos pelos Estados Unidos.

As apurações anunciadas por Washington não são somente técnicas, sustenta Priscila.

"[Por meio da investigação das Quatro Grandes] o governo dos Estados Unidos tenta responder a uma pressão doméstica, que é o preço dos alimentos, que gera inflação e foi uma bandeira de campanha de Trump", afirma a professora.

O governo dos Estados Unidos anunciou também que vai recompensar financeiramente quem der informações sobre práticas ilícitas cometidas pela indústria da carne.

"Há uma politização e uma tentativa de securitização muito tênue dessa discussão [sobre as práticas comerciais das empresas], tentando trazê-la para o campo da segurança nacional", define Natali Hoff, doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professora do Curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Às voltas com queda nos índices de aprovação e uma decisiva campanha para as eleições legislativas de meio de mandato — marcadas para novembro de 2026 —, Trump tenta enfrentar uma das questões mais candentes para o eleitorado: o custo de vida. O preço da carne é um componente importante da inflação no país.

Para Natali, a investigação sobre empresas estrangeiras permite ao governo Trump "terceirizar" a culpa pelo aumento do preço da carne.

"Trump está muito enfraquecido, principalmente depois da Guerra do Irã, e com isso [a investigação das gigantes da carne], consegue tentar emplacar algum tipo de discurso diante do eleitorado, sejam consumidores ou pecuaristas, que se irritaram com a ampliação das importações de carne para lidar com a alta dos preços."

Em nota, a MBRF afirmou que atua em estrita conformidade com as leis de defesa da concorrência e mantém políticas robustas de governança e compliance.

"[...] Nos Estados Unidos as operações da National Beef [subsidiária da MBRF] têm uma característica especial, já que elas são baseadas em sociedade de longa data com cerca de 700 produtores locais, que juntos detêm aproximadamente 18% do capital da empresa", diz a nota.

A BBC News Brasil procurou a JBS e a J&F para tratar da investigação anunciada pelos Estados Unidos, mas não havia obtido resposta até o fechamento desta reportagem.

A BBC News Brasil também questionou o Ministério das Relações Exteriores do Brasil e os Departamentos de Agricultura e Justiça dos Estados Unidos sobre a investigação norte-americana, mas não havia recebido retorno até a finalização desta reportagem.

•        EUA vão oferecer recompensa por informações contra frigoríficos investigados por práticas abusivas, incluindo JBS e Marfrig

O governo dos Estados Unidos afirmou nesta semana que pagará uma recompensa a quem fornecer informações sobre frigoríficos investigados por práticas comerciais abusivas.

A JBS e a National Beef, controlada pela Marfrig nos Estados Unidos, são alvos da investigação. Além delas, as norte-americanas Cargill e Tyson Foods também são analisadas desde novembro do ano passado.

A operação começou por solicitação do presidente dos EUA, Donald Trump, que acusou as quatro empresas de elevarem os preços da carne bovina "por meio de conluio ilícito". Segundo o governo, entre 1980 e 1990, a fatia de gado comprada por esses frigoríficos passou de um terço para mais de 80% do total nacional.

O Departamento de Justiça informou que revisou mais de 3 milhões de documentos e ouviu centenas de pessoas do setor, como pecuaristas e produtores.

A recompensa pode variar de 15% a 30% do valor das multas se elas ultrapassarem US$ 1 milhão. O pagamento será feito a quem fornecer informações sobre possíveis crimes concorrenciais ou fraudes.

Em nota, a MBRF afirmou que respeita as leis de defesa da concorrência. A empresa acrescentou que, nos EUA, a National Beef atua em sociedade com 700 produtores locais, que detêm cerca de 18% do capital da companhia.

O g1 procurou a JBS, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

<><> Foco nas empresas brasileiras

A JBS é a maior produtora de carne nos EUA, segundo a empresa. Já a National Beef é a quarta maior e é reconhecida como a mais lucrativa do setor no país, segundo a Marfrig.

A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, afirmou na segunda-feira que a propriedade estrangeira de grandes processadores de carne representa uma ameaça ao país.

"Uma empresa de propriedade brasileira detém cerca de um quarto do mercado e possui um histórico documentado de corrupção internacional e atividade ilícita", disse a secretária.

Ela também associou a empresa a casos de corrupção, cartéis e trabalho escravo, citando denúncias recentes. "O que já é ruim o suficiente por si só, mas também é em detrimento dos grandes pecuaristas independentes e consumidores da América", declarou.

No dia 29, o Ministério Público do Trabalho (MPT) do Pará pediu a condenação da JBS em, no mínimo, R$ 118 milhões por trabalho análogo à escravidão na cadeia produtiva da pecuária. Na ocasião, a empresa disse que "não foi notificada sobre as ações mencionadas".

Além de Rollins, o conselheiro do presidente Trump, Peter Navarro, disse que o lobby da carne, representado por brasileiros, teria "ameaçado silenciosamente a Casa Branca" em resposta ao tarifaço. Segundo ele, isso teria resultado no desvio de carne dos EUA para a China.

Em agosto, os EUA aplicaram uma tarifa de 50% sobre diversos produtos brasileiros exportados para o país, incluindo carne. O Brasil é o principal fornecedor do produto para a indústria norte-americana.

<><> Menos gado no pasto

Os estoques de gado nos EUA caíram ao nível mais baixo em quase 75 anos, após fazendeiros reduzirem seus rebanhos devido a uma seca prolongada, que prejudicou as pastagens e elevou os custos de alimentação.

O fornecimento ficou ainda mais restrito porque os EUA suspenderam, há um ano, a maioria das importações de gado mexicano, diante de preocupações com a disseminação da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que infesta o gado.

Apesar de também serem grandes produtores, os EUA ainda precisam importar carne para suprir a demanda dos consumidores, que se manteve firme e pressionou os preços.

A baixa oferta obrigou frigoríficos a pagar mais pelo gado destinado à produção de hambúrgueres e bifes.

•        Em dezembro, a JBS informou que fecharia de forma permanente uma fábrica nos arredores de Los Angeles, responsável por preparar carne bovina para venda em supermercados dos Estados Unidos.

•        O frigorífico rival Tyson Foods também anunciou, em janeiro do ano passado, o fechamento de uma importante fábrica de abate de gado em Nebraska, que emprega cerca de 3.200 pessoas.

<><> Pecuaristas insatisfeitos

Pecuaristas norte-americanos criticam Trump desde outubro, após o presidente sugerir que o país importe mais carne bovina da Argentina. Na ocasião, ele disse que usaria a medida para reduzir os preços nos EUA, que atingiram níveis recordes.

Os produtores viram o comentário como uma ameaça, em um momento de preços elevados do gado e forte demanda dos consumidores americanos.

Trump respondeu às críticas nas redes sociais e afirmou que eles estão em boa condição econômica graças ao tarifaço imposto ao Brasil e a outros países.

"Os pecuaristas, que eu amo, não entendem que a única razão pela qual estão indo bem, pela primeira vez em décadas, é porque eu impus tarifas sobre o gado que entra nos EUA, incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil", disse Trump em sua rede social.

 

Fonte: BBC News Brasil/g1

 

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