Seriam
os déficits comerciais sempre ruins?
Todos
parecem ter uma opinião firme sobre déficits comerciais.
Para
alguns, eles são sinal inequívoco de declínio econômico. Para outros, não
passam de identidades contábeis sem maior relevância analítica. Recentemente,
ganhou espaço entre os economistas mais atentos à questão cambial a percepção
de que o papel do dólar como moeda-chave no sistema financeiro e comercial
global — e sua suposta sobrevalorização — não explicaria totalmente os déficits
comerciais experimentados pelos Estados Unidos, e que tampouco sua eventual
desvalorização seria capaz de reverter a desindustrialização experimentada pelo
país nas últimas décadas.
A ideia
de que uma moeda mais fraca restauraria automaticamente a capacidade industrial
de um país ignora fatores decisivos como a organização global das cadeias
produtivas, as escolhas de política doméstica, e as transformações estruturais
da economia mundial. Na prática, desvalorizações cambiais tendem a produzir
algo muito mais facilmente previsível: pressões inflacionárias politicamente
custosas, normalmente sem a correspondente desejável transformação produtiva.
Na verdade, é razoável esperar que, ao invés de estimular o desenvolvimento da
indústria doméstica, a desvalorização cambial mal planejada acabe atrapalhando
ainda mais o processo, ao tornar ainda menos acessíveis bens e tecnologias
necessárias para o aprimoramento da indústria.
Mas
parar aí é insuficiente.
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A camada ausente na análise: a demanda global por ativos em dólar
Para
compreender a persistência dos déficits comerciais estadunidenses, é preciso
reformular a pergunta.
Em vez
de perguntar:
“Por
que os Estados Unidos estariam se tornando menos competitivos?”
Devemos
perguntar:
“Por
que o resto do mundo deseja acumular dólares?” e “Quão estável é esse
comportamento?”
Essa
mudança de perspectiva altera completamente a análise.
Quando
uma moeda é demandada não apenas como meio de pagamento, mas também como ativo
financeiro — para reservas, poupanças e composição de portfólios — o país
“exportador de moeda” (país cuja moeda é amplamente demandada como ativo
internacional) passa a ocupar uma posição estrutural singular:
Ele
acaba irresistivelmente pressionado a fornecer esses ativos.
E a
única forma de fazê-lo, em termos agregados, é incorrendo em déficits.
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A assimetria que sustenta o desequilíbrio
Há uma
assimetria simples, mas decisiva que determina o desequilíbrio cambial:
• o resto do mundo deseja acumular ativos
denominados em dólar
• os Estados Unidos não possuem demanda
equivalente por moedas estrangeiras
Daí
decorre uma implicação mecânica inevitável.
Quando
agentes estrangeiros obtêm dólares, frequentemente optam por retê-los como
riqueza financeira, em vez de gastá-los em bens e serviços produzidos nos
Estados Unidos.
Já
quando os Estados Unidos obtêm moeda estrangeira, fazem-no, em geral, para
adquirir importações.
O
resultado é um fluxo persistente de bens e serviços em direção aos Estados
Unidos cujo valor excede o valor dos bens e serviços enviados pelos Estados
Unidos ao exterior — não primordialmente por desalinhamentos cambiais, mas em
função de preferências globais de portfólio.
Uma
forma de interpretar esse processo é afirmar que o déficit comercial é
“financiado” pela venda de dólares (ativos denominados em dólar) a
estrangeiros. Alternativamente, imagine que o desequilíbrio comercial seja
reflexo de estrangeiros plenamente dispostos a receberem e reterem a moeda
estadunidense (ou substitutos dela) em troca de bens e serviços, e portadores
de dólares igualmente satisfeitos em obter bens e serviços em troca da moeda
americana.
De
maneira mais fundamental, quando estrangeiros acumulam dólares como riqueza,
estão efetivamente “emprestando” aos Estados Unidos — ainda que sem prazo de
vencimento ou previsão de sua conversão em bens reais ou ativos imateriais. Ou
seja, estão tomando um título de dívida (como insistimos sempre, a própria
moeda é uma dívida estatal) em troca de bens e serviços enviados a
estrangeiros.
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Déficits como espelho, não como falha
Sob
essa perspectiva, o déficit comercial de um “exportador de moeda” deixa de ser
um sintoma automático de fragilidade.
Ele
passa a ser o reflexo contábil da disposição do resto do mundo em acumular
ativos denominados na moeda do país.
Ou
seja, o déficit comercial estadunidense expressa o papel desempenhado pelos
Estados Unidos como fornecedor de ativos seguros e líquidos ao sistema
internacional.
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E isso é necessariamente ruim?
Não.
Se o
resto do mundo está disposto a enviar bens e serviços reais em troca de ativos
nominais emitidos pelo país, isso pode representar uma vantagem significativa.
O país
emissor obtém:
• bens de consumo
• bens de capital
• acesso a recursos reais
em
troca de passivos facilmente emissíveis denominados em sua própria moeda.
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Quando o déficit é motivo de preocupação?
Para um
“exportador de moeda”, o problema não está no déficit em si.
Ele
surge quando/se detentores desses ativos decidem converter suas posições
nominais em acesso efetivo a bens, serviços ou ativos estratégicos.
Nesse
momento, emergem pressões reais:
• aumento da demanda por ofertas
insuficientemente elásticas (pressões inflacionárias)
• e, potencialmente, transferência de
controle sobre recursos estratégicos para agentes estrangeiros
A
questão central para um “exportador de moeda”, portanto, não é eliminar o
déficit, mas sim administrar a capacidade produtiva doméstica e os efeitos
distributivos de um sistema em que o resto do mundo deseja manter riqueza na
forma de passivos denominados na sua moeda. Adicionalmente, é necessário se
preparar legalmente para que estoques da moeda nacional acumulados externamente
não sejam usados para transferir propriedades estrategicamente importantes para
o controle de estrangeiros.
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Déficits e superávits: duas faces de um mesmo fenômeno
Da
mesma forma que déficits comerciais não são necessariamente problemáticos,
superávits também não são, por si só, virtuosos.
O caso
da China é ilustrativo.
Ao
longo de décadas, o país acumulou superávits comerciais persistentes — isto é,
aceitou fornecer bens reais em troca de ativos denominados em moeda
estrangeira. Essa estratégia permitiu acumular reservas que, posteriormente,
foram mobilizadas para adquirir:
• energia
• recursos minerais
• terras
• tecnologia
• e outros insumos estratégicos
indisponíveis domesticamente
Esses
movimentos foram fundamentais para viabilizar sua transformação produtiva.
Já o
Brasil contemporâneo oferece um contraste eloquente.
Em anos
recentes o país experimentou sucessivos superávits comerciais que poderiam ter
se traduzido em importações mais baratas e maior acesso a bens e tecnologias.
Em
muitos casos, no entanto, esses superávits foram acompanhados pela decisão de
agentes privados de manter receitas em dólar no exterior, aproveitando
diferenciais de juros e oportunidades de ganho financeiro associadas ao carry
trade.
O
resultado foi uma utilização menos estratégica — e, em muitos casos, orientadas
apenas pela especulação privada — desses fluxos externos, com menor impacto
desejável sobre a transformação produtiva doméstica.
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Reenquadrando o debate
O
debate sobre déficits comerciais costuma ser conduzido em termos morais ou
simplificadores.
Mas ele
deveria ser conduzido em termos estruturais.
• A desvalorização cambial não resolve a
desindustrialização
• A posição de uma moeda no sistema
internacional (o quanto e para que ela é demandada) influencia estruturalmente
os fluxos comerciais
A
questão relevante passa a ser:
qual o
papel de uma economia na arquitetura monetária global — e como esse papel se
articula com sua capacidade produtiva e suas escolhas de política econômica?
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A verdadeira fronteira de política
Se
déficits e superávits refletem, em parte, a demanda global por determinados
ativos monetários, o desafio não é eliminá-los.
É
gerenciar:
• a capacidade produtiva
• os efeitos distributivos
• as pressões inflacionárias
• e o controle sobre ativos estratégicos
em um
mundo no qual a moeda é, ao mesmo tempo, instrumento de troca e forma de
riqueza.
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Conclusão
Déficits
comerciais não são uma fábula moral.
São um
resultado estrutural da organização do sistema monetário internacional.
Às
vezes, indicam fragilidade.
Mas, em
outros casos, refletem simplesmente o custo — ou o privilégio — de emitir o
ativo que o mundo deseja acumular.
• Como parar de ficar para trás? Por Luiz
Carlos Bresser-Pereira
Em
edição recente de Valor econômico (16/04), o jornalista Assis Moreira nos conta
como o Brasil continua ficando dramaticamente para trás no plano econômico. Em
2011, o PIB per capita do Brasil era equivalente a apenas 31,18% da média dos
19 países mais ricos. Dez anos depois, caiu para 26,44%. O Brasil, portanto,
continua a não fazer a convergência para o nível de renda per capita dos países
ricos. Pelo contrário, vai ficando cada vez mais para trás.
Nestes
termos, de acordo com o recente relatório da OCDE no qual Assis Moreira se
baseia, o PIB per capita do Brasil é cerca de 1/3 desses 19 países, lembrando
que entre eles há países de renda média. Se considerássemos apenas os cinco
países mais ricos, o 1/3 passará para 1/5!
Segundo
o relatório, o investimento tem sido fraco e o crescimento da produtividade
estagnou. Para crescer de forma sustentada o Brasil precisaria dar prioridade
estratégica à educação e à infraestrutura.
Nesse
mesmo dia, também no jornal Valor econômico, Jorge Arbache chega mais próximo
do problema no artigo “Não basta reformar, é preciso saber crescer”. E nos
lembra que “nos anos 1990 a economia brasileira estabilizou, privatizou e
liberalizou, e, ainda assim, não entregou o crescimento sustentado que se
esperava”.
Assis
Moreira e Jorge Arbache querem mais “reformas”, mas não são mais as reformas
neoliberais. Que falharam e, mais do que isso, levaram o país à
quase-estagnação; pioraram, portanto, as condições para o Brasil voltar a se
desenvolver. Eles querem mais educação, mais investimento na infraestrutura e
mais ajuste fiscal. Que são políticas muito necessárias.
A
coordenação de uma economia capitalista ou é liberal, em que a intervenção do
Estado na economia é mínima, ou é desenvolvimentista em que essa intervenção é
moderada, ou ainda é máxima e temos o estatismo. A terceira forma é radical e
por isso, ineficiente. É impossível alocar os fatores de produção de uma
economia sem contar com o mercado. Mas contar apenas com o mercado para
coordenar economias complexas também é radical.
Adam
Smith, em 1776, fundou o liberalismo econômico ao criticar radicalmente o
mercantilismo. Mas os britânicos só se deixaram convencer pela nova ideologia
em 1844, quando o Reino Unido finalmente abriu sua economia. O caso americano é
mais claro ainda. Embora os americanos digam serem liberais desde George
Washington, eles só realmente abriram sua economia em 1980, e ainda assim, não
muito, como demostrou em 2013 Mariana Mazzucato com seu Estado empreendedor
(Companhia das Letras).
O caso
do Brasil é também um bom exemplo. A economia só começou a crescer
moderadamente quando passou a exportar café. E adotava o liberalismo econômico
que a impedia de se industrializar. Só começou a crescer satisfatoriamente e a
se industrializar a partir de 1930. Em 1990, depois da grande crise da dívida
externa dos anos 1980, o Brasil voltou ao liberalismo econômico,
desindustrializou-se e entrou em regime de quase-estagnação.
A
alocação eficiente dos meios de produção não prescinde do mercado, mas
igualmente não prescinde do Estado. O papel do mercado é coordenar os setores
naturalmente competitivos; a do Estado é coordenar os setores naturalmente
não-competitivos, manter em um nível adequado a demanda agregada e definir uma
estratégia de desenvolvimento, além de dar uma resposta aos constantes choques
de ofertas e às crises setoriais.
No
Brasil, hoje, o regime econômico é basicamente liberal, porque o Estado não tem
condições econômicas ou políticas para adotar um regime desenvolvimentista.
Desde os anos 1960 os liberais econômicos daqui e, principalmente, de fora,
martelaram que o desenvolvimentismo era a mesma coisa que o populismo (o que
era absurdo), mas só foram ouvidos no final dos anos 1980, depois de uma grande
crise econômica que os desenvolvimentistas não conseguiram resolver. Só o Plano
Brady e o Plano Real a resolveram. Mas as elites econômicas foram de tal forma
influenciadas pela barragem ideológica liberal que até hoje não oferecem
condições para que o Brasil volte ao desenvolvimentismo.
Mesmo o
regime econômico sendo liberal, porém, o Estado não para de intervir na
economia, mas o faz pontualmente, ou para apagar fogo, ou, no caso dos governos
Lula, diminuir a desigualdade. Não há qualquer projeto nacional de
desenvolvimento. Não há, nem pode haver.
Esse
projeto precisa de uma política de reindustrialização, que defina os meios para
chegar aos objetivos definidos. Precisa, do lado da oferta, ter uma política de
investimentos na educação e na infraestrutura e uma política industrial que se
baseie menos em subsídios e mais em tarifas aduaneiras. E do lado da demanda,
precisa de uma estratégia macroeconômica baseada em uma teoria macroeconômica
do desenvolvimento como é a teoria novo-desenvolvimentista.
Uma
estratégia que leve a economia brasileira a uma taxa de juros que gire em torno
da taxa de juros internacional mais o risco Brasil e de uma taxa de câmbio que
torne as empresas industriais que são tecnicamente competitivas também
economicamente competitivas. O que só é possível se houver uma clara rejeição
do déficit público e dos déficits em conta-corrente.
Baixar
a taxa de juros para o nível de outros países de renda média como o Brasil
talvez seja a tarefa mais difícil, porque os interesses em jogo são muito
grandes. Interesses dos rentistas e financistas, que hoje são dominantes aqui
como nos demais países capitalistas.
Tornar
a taxa de câmbio competitiva para as empresas tecnicamente competitivas é
também muito difícil. Primeiro, porque isto depende da taxa de juros; segundo,
porque os interesses em jogo são igualmente muito poderosos. Em lugar dos
rentistas e dos financistas, porém, quem se opõem às medidas necessárias são os
governos, que sabem que a população quer ter mais acesso aos bens, quer
consumir mais, e por isso – para serem reeleitos – nada fazem para depreciar o
real para o nível necessário.
Fonte:
Por Daniel Negreiros Conceição e outros, em Outras Palavras

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