segunda-feira, 11 de maio de 2026

Rivalidade sino-estadunidense é oportunidade única para o Brasil desde que faça o 'dever de casa'

A China acaba de tornar o Brasil seu destino nº 1 de investimentos globais, ultrapassando os EUA, segundo o relatório anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CBBC).

Ao todo, foram investidos US$ 6,1 bilhões (R$ 30 bilhões) no Brasil em 2025 — um salto de 45% em relação a 2024 — distribuídos em um recorde de 52 projetos. O Brasil agora absorve 10,9% de todo o capital chinês investido no exterior, já os EUA, 6,8%.

As principais áreas foram mineração, onde os investimentos mais que triplicaram, veículos elétricos — a chinesa BYD respondeu por 72% das vendas de veículos eletrificados no Brasil — e manufatura, que ultrapassou mineração quanto petróleo.

O conselho anunciou também que empresas chinesas investiram US$ 85,5 bilhões (R$ 420 bilhões) no Brasil em 355 projetos desde 2007, em 20 dos 26 estados brasileiros.

Além disso, enquanto as importações e exportações para os EUA vêm caindo mensalmente desde março, as vendas para a China cresceram 32,5% em abril, chegando a US$ 11,61 bilhões (R$ 57,3 bilhões) . Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (7) pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

O incremento inédito e os valores que impressionam são consequência da disputa crescente entre China e EUA na região latino-americana em torno de recursos naturais e mercados, como apontaram especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil.

Para o pesquisador Matheus Cecílio, doutor em Economia Política Internacional pela Universidade Federal Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante do LabChina, a rivalidade sino-estadunidense no jogo geopolítico mundial é singularmente promissora para o Brasil.

"Acho que o Brasil nunca esteve em uma situação tão proveitosa. O Brasil, historicamente, se beneficia de momentos de amplitude estratégica, em que ele consegue jogar com vários lados ao mesmo tempo [...]. O fundamental para o Brasil é saber fazer com o investimento direto externo, o que a China fez com o investimento direto externo na sua época de desenvolvimento", defendeu ele.

Logo, o momento é de utilizar o investimento estrangeiro de uma maneira estratégica e disciplinada, com políticas robustas de conteúdo local, transferência tecnológica. "Para que isso não vire só mais uma etapa na longa cadeia do Brasil de ser um receptor de produtos estrangeiros, investimentos estrangeiros, tecnologias estrangeiras, mas que nem sempre se refletem na nossa construção autônoma e nacional de uma capacidade produtiva e tecnológica própria".

<><> Inversão dos papéis

Cecílio ressaltou o mundo assiste atualmente uma inversão da narrativa tradicional e dos papéis que as duas potências desempenharam no passado.

Ele explicou que se antes os Estados Unidos, na liderança do bloco ocidental, eram os defensores tradicionais e históricos do livre comércio, sobretudo, após a Segunda Guerra Mundial, essa narrativa agora está sendo adotada pela China. "Agora o que a gente está vendo é o oposto."

Nesse cenário, a América Latina ganhou valor ainda mais crucial para a economia global hoje, pontuou o pesquisador.

"O que a gente tem visto é mais a redivisão do mundo em blocos, e a América Latina aparece como uma região em franca disputa nesse novo momento da economia política global, que é um momento de redefinição de blocos, redefinição de zonas de interesse, e, principalmente, de blocos comerciais".

Para além da complementaridade produtiva entre China e América Latina, o atual panorama geopolítico delicado torna a região extremamente relevante para o país asiático, que vem enfrentando dificuldades no acesso a alguns mercados. "O investimento chinês tem sofrido mais escrutínio na Europa, na América do Norte, por exemplo."

"Já a América Latina e a África e outras regiões da Ásia aparecem como áreas ainda abertas ou áreas ainda bastante permeáveis ao capital chinês".

Bruno Hendler, especialista em relações internacionais e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), corroborou com a visão de Cecílio ao citar grandes empreendimentos, como o porto de de Chancay, que está sendo construído com financiamento chinês, no Peru, como exemplo dessa disputa na região.

"A América Latina, especificamente América do Sul, se tornam um palco de influência estratégica de cooperação em setores mais técnicos, porque esses investimentos decorrem não apenas de negociação de mercado, de oportunidade de lucro das empresas, mas decorrem de um planejamento estatal chinês de se projetar em setores estratégicos, de infraestrutura, de comunicação, de energia", disse à reportagem.

Na avaliação de Hendler, Brasil e a América Latina, de forma geral, acabam impelidos a optar pelo modelo de sistemas chineses ou por sistemas ocidentais. Entretanto, o Brasil tem uma margem de barganha em alguns setores para baratear custos, absorver algum tipo de tecnologia, gerar empregos de alto valor.

"O Brasil é metade do PIB da América do Sul. Por si só, esse aumento de investimento, reflete a importância que o Brasil tem. Então, esses últimos anos de estabilidade econômica e macroeconômica no Brasil fez com que o mercado brasileiro se tornasse mais atraente ainda para investimento externo. Enquanto os investimentos ocidentais vão perdendo fôlego, a China aparece como um grande investidor. De forma geral, isso significa que a China representa uma alternativa para essa projeção tradicional ocidental", concluiu.

•        Brasil promulga lei para simplificação do comércio no Mercosul

O governo brasileiro promulgou nesta sexta-feira (08/05) medidas para agilizar e simplificar negociações no âmbito do Mercosul.

O decreto que prevê o Acordo sobre Facilitação do Comércio do Mercosul, firmado em dezembro de 2019 por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, está publicado no Diário Oficial da União.

A medida foi assinada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, no exercício da Presidência da República, e decorre da aprovação do texto pelo Congresso Nacional em setembro de 2023.

O acordo estabelece regras comuns para facilitar o comércio intrazona, alinhadas às diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Organização Mundial de Aduanas (OMA).

Os principais pontos são:

•        ampliar o uso de documentação eletrônica;

•        adotar procedimentos aduaneiros mais rápidos e baseados em gestão de riscos;

•        promover a transparência regulatória;

•        estimular a cooperação entre autoridades de fronteira dos países.

O texto também prevê medidas específicas para o despacho mais célere de bens, inclusive perecíveis, a implementação do Guichê Único de Comércio Exterior e a ampliação do intercâmbio de documentos em formato digital, como certificados de origem e sanitários.

Além disso, o acordo busca reduzir custos e prazos, ampliar a previsibilidade das regras e oferecer maior segurança jurídica aos operadores de comércio exterior, com atenção especial às micro, pequenas e médias empresas.

Atos que venham a revisar o acordo ou gerar novos compromissos financeiros ao país continuarão sujeitos à aprovação do Congresso Nacional.

•        China ocupa quase 50% do mercado automotivo brasileiro com carros importados, diz mídia

Os veículos produzidos na China já representam metade dos carros novos importados vendidos no Brasil, escreve a revista Autoesporte.

A revista salienta que, entre janeiro e abril de 2026, mais de 80 mil veículos originários da China chegaram aos portos brasileiros, enquanto há um ano esse número era inferior a 50 mil.

"Praticamente metade dos veículos importados vendidos no Brasil vêm da China. Dos 168,1 mil veículos importados entre janeiro e abril de 2026, 80,1 mil saíram da China, o maior produtor do setor. Isso representa 47,7% das 168,1 mil unidades que o Brasil importou no período", detalha a publicação.

Com esse aumento, a China se tornou a principal fornecedora de carros importados para o Brasil, superando a Argentina, sua parceira histórica, que agora ocupa o segundo lugar. Do país vizinho, vieram apenas 54,9 mil veículos em 2026, o que representa uma queda de 20,2% em relação aos 68,8 mil importados no primeiro quadrimestre de 2025.

O forte crescimento das importações chinesas é evidenciado pela variação percentual em um ano: entre janeiro e abril de 2026, houve um aumento de 81,6% no volume de veículos embarcados para o Brasil. No total, foram 80,1 mil veículos, incluindo automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, contra 44,1 mil no mesmo período de 2025.

No entanto, o aumento do interesse dos brasileiros pelos carros chineses não explica sozinho esse salto de mais de 80% em apenas um ano, já que, desde o início de 2025, oito marcas chinesas iniciaram operações no Brasil com veículos importados, observa a revista.

Anteriormente, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 11,3% em abril, na comparação com o mesmo mês de 2025. Ao mesmo tempo, as vendas para a China cresceram 32,5%, passando de US$ 8,763 bilhões (R$ 43 bilhões), em abril de 2025, para US$ 11,61 bilhões (R$ 57,3 bilhões).

•        Exportações brasileiras para os EUA caem 11,3% e para a China crescem 32,5%

As exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 11,3% em abril, na comparação com o mesmo mês de 2025, de acordo com dados divulgados nesta quinta-feira (7) pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

As vendas para os EUA caíram para US$ 3,121 bilhões (R$ 15,3 bilhões) em abril, na comparação com US$ 3,517 bilhões (R$ 17,3 bilhões) de abril de 2025.

Já as importações de produtos estadunidenses caíram 18,1%, passando de US$ 3,780 bilhões (R$ 18,3 bilhões) para US$ 3,097 bilhões (R$ 14,8 bilhões).

Com isso, a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos fechou abril com superávit de US$ 20 milhões (R$ 98,9 milhões) para o Brasil.

A queda nas exportações brasileiras para o mercado dos EUA é a nona consecutiva, desde a imposição da sobretaxa de 50% aplicada pelo governo do presidente dos EUA, Donald Trump, em meados de 2025.

Mais cedo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido por Trump na Casa Branca. A reunião teve cerca de três horas de duração e incluiu um almoço. A prioridade do governo brasileiro na conversa foi o fim das tarifas.

Apesar da retirada de parte dos produtos brasileiros da lista tarifária, no fim do ano passado, o MDIC estima que 22% das exportações brasileiras continuem sujeitas às taxas impostas em julho de 2025. O grupo inclui itens submetidos apenas à tarifa adicional de 40% e também produtos que acumulam a alíquota extra com a taxa-base de 10%.

<><> Exportações para a China aumentam

O levantamento aponta ainda que, no mesmo período, as vendas para a China cresceram 32,5%, passando de US$ 8,763 bilhões (R$ 43 bilhões), em abril de 2025, para US$ 11,61 bilhões (R$ 57,3 bilhões).

As importações do país asiático também avançaram, com alta de 20,7%, passando de US$ 5,018 bilhões (R$ 24,7 bilhões) para US$ 6,054 bilhões (R$ 29,6 bilhões). O resultado garantiu ao Brasil um superávit comercial de US$ 5,56 bilhões (R$ 27,5 bilhões) com a China no quarto mês do ano.

De janeiro a abril, as exportações brasileiras para o mercado chinês cresceram 25,4%, totalizando US$ 35,61 bilhões (R$ 176 bilhões). Já as importações tiveram queda de 0,4%, somando US$ 23,96 bilhões (R$ 118 bilhões). O superávit brasileiro com a China no período chegou a US$ 11,65 bilhões (R$ 57,3 bilhões).

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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