Nuno
Vasconcellos: Nem tudo é festa!
Por
mais que, daqui por diante, apareçam políticos interessados em comemorar a
redução da jornada de trabalho, que atualmente prevê seis dias de labuta por um
de descanso, e queiram tirar proveito da aprovação dessa medida, como se
tivessem apoiado a proposta desde o primeiríssimo momento, ninguém conseguirá
tirar essa bandeira das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A vitória
é dele e de sua insistência em transformar esse tema numa das principais
medidas dessa reta final de mandato.
Embora
a tramitação da matéria ainda não tenha passado pela Câmara e ainda precise, na
sequência, ser submetida ao crivo do Senado para entrar em vigor, sua aprovação
já pode ser dada como favas contadas. Pode ser que a vitória não seja
suficiente para compensar de forma imediata os danos colaterais que as derrotas
da semana retrasada causaram à popularidade do presidente.
Só para
lembrar, as derrotas se referem à rejeição do advogado-geral da União Jorge
Messias para uma vaga no STF e a derrubada dos vetos do presidente ao projeto
que reduz a pena dos condenados pelas manifestações do 8 de janeiro de 2023.
Mas, pelo menos, servirá para mostrar que Lula não desistiu da corrida
eleitoral e continua firme na campanha pela reeleição. É isso aí: a redução da
jornada de trabalho das atuais 44 horas semanais para 40 horas e, mais tarde,
36 horas, sem qualquer redução de salário tem sido um tema frequente do debate
político nos últimos dias — e nem mesmo a visita de Lula a Washington, para uma
reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quinta-feira
passada, reduziu o interesse que o tema tem despertando entre os políticos.
'GRITO
DO TRABALHADOR'
O
projeto que sacramentará a matéria, como se sabe, tramita em regime de
“urgência constitucional” no Congresso. Em abril, a matéria foi aprovada pela
Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e, depois, pela Comissão Especial
convocada para tratar do assunto. Desde a semana passada, o tema vem sendo
discutido em “audiências públicas” que mais parecem palanques destinados à
colheita de frutos eleitorais do que uma tentativa sincera de perfeiçoar o
texto que irá a plenário.
“O
governo acha plenamente sustentável reduzir a jornada para 40 horas semanais
imediatamente, sem redução de salário e com duas folgas na semana. Esse é o
grito do trabalhador e da trabalhadora”, declarou o ministro do Trabalho Luiz
Marinho, que fala em nome de Lula nas audiências. Na quarta-feira, por exemplo,
a caravana destinada a discutir o assunto fez escala em João Pessoa, Paraíba —
e o encontro terminou sem que um único subsídio fosse acrescentado ao texto.
Tudo o que se ouviu ali foi a reafirmação do apoio e aplausos ao governo que
levou a medida adiante.
A
Paraíba, como se sabe, é reduto eleitoral do presidente da Câmara dos Deputados
Hugo Motta — que, obviamente fez questão de aparecer com destaque nas
fotografias da audiência pública. O local do encontro, por sinal, foi uma
exigência de Motta. Além da necessidade de projetar o próprio nome para renovar
seu mandato na Câmara, Motta se esforça para garantir para seu pai, ex-prefeito
da cidade de Patos, Nabor Wanderley, uma das vagas na disputa pelo Senado nas
eleições de outubro na chapa apoiada por Lula.
A
tentativa de se apoiar na popularidade inquestionável de Lula nos estados
nordestinos ficou evidente na insistência de Motta em sediar o evento em seu
reduto eleitoral. As próximas audiências já estão programadas. Elas estão
previstas para acontecer em Minas Gerais, no dia 15, em São Paulo, no dia 21,
no Rio Grande do Sul, ainda sem data marcada, e em encontros com confederações
de trabalhadores, centrais sindicais e outros interessados, na Câmara dos
Deputados.
AVANÇO
CIVILIZATÓRIO
Para o
governo, como se sabe, o assunto é tratado como questão de honra. A redução da
jornada é vista como uma oportunidade de turbinar a popularidade de Lula que,
se não sofreu a queda acentuada que se previa em consequência das derrotas
recentes, há muito tempo não consegue embicar para cima e garantir a
tranquilidade que os apoiadores do presidente esperavam ter na corrida pela
reeleição.
A
divulgação massiva do esforço pela aprovação da redução da jornada, como se
percebe, tem sido parte destacada da corrida em busca do prestígio perdido.
Tanto assim que, nas últimas semanas, foi lançada uma campanha publicitária que
tenta colar a redução da jornada à imagem de Lula. As peças de divulgação
insistem na ideia de que 'tempo é direito' e que a redução da jornada melhorará
a qualidade de vida do trabalhador.
As
críticas, é claro, não demoraram a surgir, mas, pelo que se vê até aqui, elas
são tímidas e não impedirão a aprovação da medida. O que se vê, ao contrário, é
a adesão cada vez maior de políticos da oposição ao projeto. Afinal, como
acontece nos anos eleitorais, as questões de fundo serão evitadas e todos os
políticos — sejam do governo, sejam da oposição — não medirão esforços para
afagar o eleitor. Independentemente das consequências negativas que isso pode
gerar para a saúde da economia no médio prazo, isso é do jogo.
Não
importa se, mais uma vez, o afago virá na forma de medidas populistas e
irresponsáveis — contra as quais poucos parecem ter coragem de se opor, sob a
desculpa de que isso poderá revelar um prejuízo considerável no momento em que
as urnas forem abertas. Numa situação como essa, é bom ter sempre em mente que
as aparências valem mais do que a essência da proposta. Sendo assim, todas —
ou, senão, a maioria — das avaliações da redução da jornada levam em conta os
benefícios que ela pode trazer para o cidadão — ou melhor, para o eleitor. Mas
poucas se mostram minimamente preocupadas em medir o impacto que a medida terá
sobre a saúde financeira das empresas, principalmente as de médio e pequeno
porte. Esse é o x da questão.
Em
tempo: ninguém em sã consciência pode se opor a uma proposta que poderá levar
ao aumento do tempo que o trabalhador dedica à família, ao descanso e ao lazer.
Mais do que uma questão econômica, essa possibilidade deve ser tratada como
medida de avanço civilizatório. O problema não é conceder um dia a mais de
descanso. O risco é fazer isso de qualquer maneira e, no final, ao invés de
aumentar o tempo de descanso, eliminar o emprego e acabar com a renda do
trabalhador. O problema não é a festa da aprovação da medida, mas a ressaca do
dia seguinte.
TRATAMENTO
SUPERFICIAL
Os
cálculos feitos pelos apoiadores da medida pecam pela absoluta falta de
precisão. E, também, pela insistência em apontar os benefícios sem considerar
minimamente as eventuais consequências negativas. De acordo com os dados do
Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do
Trabalho, o Brasil tem cerca de 50 milhões de pessoas com vínculos formais de
trabalho. A maioria, cerca de 40 milhões, tem as carteiras assinadas pelo
regime CLT. Os outros são funcionários públicos estatutários — da União, dos
estados e dos municípios.
É aí
que a pegadinha começa. Sempre que Marinho fala do percentual de trabalhadores
que cumprem a jornada seis por um, o governo usa como numerador os 50 milhões
de vínculos formais — ou seja, inclui os servidores públicos na conta. Por
esses números, apenas 30% dos trabalhadores contratados no país são regidos
pelo sistema seis por um. Caso se considerasse apenas os 40 milhões de
contratados em regime CLT, o percentual de trabalhadores que passarão a ser
contemplados imediatamente com duas folgas por semana — e não com apenas uma —,
o percentual saltaria automaticamente para 37%.
E mais:
um número expressivo de funcionários públicos no Brasil é contratado pelo
regime CLT. De acordo com o Anuário de Gestão de Pessoas no Serviço Público de
2024, os últimos disponíveis, há mais ou menos 1,5 milhão de servidores nessa
situação. Excluindo-se esse grupo da base de cálculo, como seria correto, visto
que a medida afeta apenas o setor privado, percebe-se que quase 40% dos
profissionais com carteira assinada trabalham pelo regime seis por um.
Ainda
que esses números ajudem a jogar um pouco mais de luz sobre o debate, o tema
segue sendo tratado de forma superficial. Desde que a deputada Erika Hilton
(PSOL/SP) apresentou um projeto de lei com a proposta de redução da jornada, a
temperatura em torno dessa discussão vem se elevando. O governo abraçou a causa
e a transformou em prioridade — certamente com os olhos voltados para os
dividendos eleitorais que a medida poderá render. Até aí, tudo bem! Todo
governo do mundo tem todo direito de transformar seus projetos em bandeiras
eleitorais e utilizá-las para tentar estender seu tempo no poder. Isso é do
jogo. O que também é do jogo, mas não é correto, é omitir informações
importantes do eleitor.
Vamos
lá: o projeto que Erika Hilton apresentou no dia 25 de fevereiro de 2025 não
fazia qualquer avaliação da capacidade das empresas privadas arcarem com a
elevação de custos que virá com a redução da jornada. A ideia avançou e o
projeto de Hilton, que previa três dias de ócio para quatro dias de batente,
felizmente foi reduzido a um adendo da PEC 221/2019, do deputado Reginaldo
Lopes (PT/MG). Mais bem estruturada, mas nem por isso mais precisa, a PEC é a
base do texto relatado pelo deputado Léo Prates (Republicanos/BA) e aprovado
por uma Comissão Especial da Câmara.
Onde
está o problema? Bem... Hoje é domingo, 10 de maio de 2026. Ou seja, já se
passaram 439 dias desde que Erika Hilton desencadeou a discussão da redução da
jornada com a apresentação de seu Projeto de Lei. As datas são mencionadas aqui
apenas para lembrar que não é a falta de tempo que explica a inexistência de
uma avaliação mais detida dos impactos da medida sobre as empresas privadas e
sobre o provável aumento de demissões que o projeto pode acarretar.
Tempo
para isso houve de sobra. O que não houve foi interesse em expor com seriedade
os riscos que se seguirão à aprovação dessa medida populista. A falta de dados
consistentes não chega a ser uma novidade. No nível superficial do debate
político que acontece no Brasil, qualquer dado mais aprofundado é considerado
desnecessário. Tudo, no final das contas, acaba se reduzindo a mais um round da
velha batalha do 'nós contra eles', ou dos 'ocupantes do andar de cima contra
os moradores do porão' que, nos últimos anos, domina o cenário político
brasileiro.
CARICATURA
GROTESCA
No
Brasil, o 'empresário' ou, como os sindicalistas adoram dizer, o 'patrão',
carrega uma imagem extremamente negativa — e tudo o que for feito para
prejudicá-lo é visto pela esquerda como um serviço prestado ao trabalhador.
Quando se fala em patrão, a figura que surge na cabeça de boa parte da
militância é a do nababo endinheirado, que enche a pança com o que há de bom e
de melhor, e vive às custas do suor do trabalhador. Esse sujeito 'malvadão' e
'espertalhão' é pintado como alguém que maltrata os subalternos e faz tudo o
que está a seu alcance para espoliar o pobre trabalhador e encher ainda mais o
bolso de dinheiro.
Essa
caricatura de 'empresário' vem sendo cuidadosamente desenhada pelos militantes
de esquerda desde o final do século 19, início do século 20. Ela serve para
ilustrar a ideia de que a vida é um eterno campo de batalhas da luta de
classes. A imagem grotesca, porém, não resiste ao mínimo confronto com a
realidade do Brasil — onde a maioria dos 'patrões' leva uma vida muito parecida
com as dos trabalhadores que contrata.
Existem
no Brasil cerca de 24 milhões de CNPJ ativos, mas a multiplicidade de critérios
de classificação torna difícil saber quantos deles são realmente operacionais e
qual é a divisão exata do cadastro entre micro, pequenas, médias e grandes
empresas. Os números são do Mapa de Empresas, do Ministério do
Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Acredite!
Embora pouca gente tenha se dado conta disso, um ministério responsável pelo
empreendedorismo é um dos 39 que dão expediente na Esplanada, em Brasília!
Os
números não levam em conta as empresas inscritas no Inova Simples — que
contempla startups e empresas inovadoras. Mas, para efeito do raciocínio que se
faz aqui, esse dado é irrelevante. Nos 24 milhões considerados aqui, estão
incluídos os CNPJs sob responsabilidade dos chamados 'microempreendedores
individuais', os chamados MEI. São artesãos, costureiros, cozinheiros,
encanadores, motoristas, pedreiros, vigilantes e dezenas de prestadores de
serviço que formalizaram seus negócios por meio dessa modalidade. Eles somam
cerca de 12,6 milhões de pessoas.
Todos
os demais titulares dos demais 11,5 milhões de CNPJs ativos no Brasil,
independentemente do porte de suas organizações, são donos de negócios e,
portanto, empresários. De acordo com o Mapa de Empresas, 93,8% dos CNPJs do
país se referem às microempresas e empresas de pequeno porte.
De
acordo com os dados imprecisos que surgem do cruzamento dessas informações — e
que poderiam, perfeitamente, ter sido refinados desde que esse tema começou a
ser debatidos — algo em torno de 80% dos empregos com carteira assinada no
Brasil são gerados não pelas grandes e médias, mas pelas micro e pequenas
empresas do país.
Na
maioria dos casos, são empreendimentos discretos, que vivem e trabalham no
limite da capacidade financeira, cujos proprietários terão que fazer uma opção
radical no momento em que se virem obrigados a fazer com que a folha de
pagamentos inflacionada pela jornada de trabalho reduzida caiba na sua receita
de suas organizações.
Nesse
caso, eles se verão diante de duas alternativas trágicas. Em nome da
sobrevivência de seu negócio — que é o ganha-pão de suas famílias tanto quanto
o salário é o ganha-pão das famílias de seus empregados —, eles terão que
escolher. Ou demitem colaboradores — o que é sempre uma decisão difícil — ou
apelam para a informalidade e aceitam pagar os empregados 'por fora', mesmo
sabendo que, no país das taxas em que se transformou o Brasil, tentar burlar a
Receita é sempre um risco dobrado.
Sim! A
nova jornada de trabalho será um peso a mais nas costas dos pequenos
empresários, que já arcam com uma carga sobre-humana para manter seus negócios
operantes. Além de suportar com uma taxa de juros escorchante — que
praticamente os proíbe de contrair empréstimos; além de serem pressionados por
uma realidade tributária extorsiva; além de viver sob a ameaça de índices de
violência que impacta diretamente a rentabilidade dos negócios; além de serem
obrigados a investir em segurança e, muitas vezes, no plano de saúde dos
empregados — custos que, em países evoluídos, são bancados pelo Estado — e além
de enfrentar obstáculos que afetam a produtividade de seus negócios, os
empresários do país ainda têm contra si uma instituição poderosa, que atende
pelo nome de Justiça do Trabalho.
Se
ainda houvesse dúvidas em relação a isso, elas foram eliminadas na semana
passada, pelas declarações sinceras do presidente do Superior Tribunal do
Trabalho, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho. Num país em que a
polarização política chega até à escala cromática e a menção às cores azul e
vermelha é suficiente para mostrar para que lado pendem as decisões tomadas,
Mello Filho declarou com todas as letras na semana passada: “Eu diria que não
tem azul ou vermelho, tem quem tem interesse e tem quem tem causa. Nós,
vermelhos, temos causa, não temos interesse. E que isso fique bem claro para
quem fica divulgando isso aqui no país”, disse.
Num
país como o Brasil, em que a toda hora surge alguém disposto a dificultar a
vida do empresário, a redução da jornada é apenas um detalhe a mais. A
impressão que fica, no final das contas, é que ter um negócio no Brasil não é
para quem pensa em enriquecer, mas apenas para quem faz questão de viver
perigosamente.
Fonte:
O Dia

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