A
mãe que refez a vida após ser abandonada com filha com zika
O aroma
de frango refogado com coentro, cenoura e batata se espalha pela casa. O
ensopado depois vai para o liquidificador, virando uma papinha para nutrir
tanto a filha bebê quanto a mais velha.
Ester
Emanuelly, de 1 ano e meio, engole com gosto as colheradas que a mãe lhe dá na
boca enquanto quica pelo sofá.
Sophia
Emanuelly, de 10, se alimenta de outra forma: por uma sonda que leva a papinha
direto para seu estômago. Há dois anos que é assim, depois da cirurgia de
gastrostomia que ela fez por causa dos vômitos recorrentes, refluxo e da
broncoaspiração quando comia — alguns dos muitos problemas causados pela
síndrome congênita do vírus da zika.
"Ela
nem sente o gosto, mas percebe quando a alimentação está entrando e faz o
movimento de mastigação", diz a mãe, Ianka Mikaelle, de 28 anos, enquanto
enche mais uma seringa de 10 ml com o almoço e a encaixa na sonda para
pressionar o êmbolo com a papinha alaranjada.
Sophia
nasceu no auge da epidemia de zika, em 30 de janeiro de 2016. Ianka tinha 17
anos quando soube que a bebê de 7 meses que carregava na barriga tinha
microcefalia, causada pela virose transmitida pelo Aedes aegypti.
"Foi
nesse tempo que o pai dela me deixou. Ele disse que estava com nojo de mim, que
me desprezava, e me deixou, me abandonou", contou Ianka à BBC News Brasil
na época.
Conhecemos
mãe e filha quando Sophia era recém-nascida, no ambulatório especializado em
microcefalia do Hospital Municipal Pedro 1º, em Campina Grande, na Paraíba, e
mantivemos contato com Ianka desde então.
Quando
Sophia fez 10 anos, reencontramos mãe e filha na Paraíba e conhecemos os novos
integrantes da família.
Vitor
Francisco de Lima, de 27 anos, com quem Ianka se casou em 2023, e que adotou
Sophia de imediato como uma filha; e Ester, que nasceu em dezembro de 2024.
Efraim ainda estava na barriga de Ianka na nossa visita e veio ao mundo em 30
de abril.
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Uma década, um dia após o outro
Como em
cada aniversário, Ianka se esmerou na comemoração dos 10 anos de Sophia.
Preparou uma festa com docinhos, balões e um vestido de princesa para a filha,
tudo em tons de lavanda, tema que escolheu por simbolizar "serenidade,
pureza e unção para cura na Bíblia".
"Eu
nunca deixei passar nenhum aniversário em branco, porque cada dia é uma vitória
para a gente", conta.
O marco
de uma década superou em muito as previsões que Ianka recebeu quando Sophia
nasceu.
"Eu
estava muito empolgada pelos 10 anos. Eu dizia: 'Meu Deus, Sophia, tu vai fazer
10 anos, vai fazer uma década já de vida!'. Para quem os médicos disseram que
nem ia nascer com vida...", comemora a mãe.
Apesar
de todas as dificuldades do começo, Ianka diz que a situação hoje é ainda mais
difícil. "Porque, apesar de já fazer 10 anos, a gente vive todos os dias
achando que vai ser o último."
O medo
aumenta com cada "amiguinho" que se despede — no ano passado, Ianka
conta que diversas crianças da geração de Sophia morreram em Campina Grande.
"É
muito dolorido para as mães, e para a gente também. A cada perda, o medo vem
ainda maior", afirma.
Um dia,
um pesadelo a despertou para o desejo de ser mãe novamente.
"Eu
sonhei que perdia Sophia. Sophia morria no meu sonho, e eu falava que não
queria mais ser mãe. Eu acordei muito assustada e decidi que a família estava
pronta para crescer de novo", relembra.
"Percebi
que era melhor eu ter [mais filhos] antes disso acontecer e eu desistir de ser
mãe. Porque eu gosto de ser mãe, eu amo ser mãe. E meu esposo queria muito ter
mais filhos também."
Ianka
conheceu Vitor pelo Instagram quando Sophia tinha 4 anos. Os dois gostavam de
malhar, e ela costumava postar vídeos fazendo exercícios. Um dia, uma de suas
postagens apareceu no feed de Vitor.
"Ele
comentou, 'qualquer dia vamos treinar juntos?'. Eu respondi, 'acho que tu mora
um pouquinho longe. Eu moro em Campina Grande, na Paraíba, e tu mora em São
Paulo...'", relembra Ianka ao lado marido, os dois rindo, ele examinando o
chão, acanhado.
Ianka
lhe contou sobre seus dois filhos, Sophia, e o primogênito, Emanuel Felipe, que
ela teve quando ainda era adolescente. O menino tem 12 anos e hoje mora com os
avós.
Foram
cinco meses de conversas pela internet, até que Vitor decidiu largar o emprego
em São Paulo — onde era técnico de máquinas de alta pressão para lava-jatos —
para conhecer Ianka e suas duas crianças.
"Até
que foi uma loucura que a gente fez", diz Ianka.
"Tanto
ele, de abandonar tudo lá, quanto eu, de colocar uma pessoa que nem tinha visto
pessoalmente dentro de casa. Mas a gente tinha uma certeza de que ia dar certo.
Acho que era Deus. Minha mãe orava o tempo inteiro para Deus não deixar mais
ninguém passar pela minha vida se não fosse a pessoa certa. E essa pessoa foi
ele."
Mesmo
antes de se conhecerem, Vitor perguntava a Ianka sobre os cuidados com Sophia,
querendo aprender como ela dava comida, como dava remédios. "Isso foi
aumentando o interesse, porque ele já quis cuidar da minha filha sem nem
começar um relacionamento comigo. Desde que chegou, ele já foi um pai para a
Sophia."
Os dois
se casaram em dezembro de 2023.
"Eu
levo ela pro sofá, levo ela para a cama, ajudo a dar banho, faço a
comida...", diz Vitor, que se emociona ao falar do amor pela filha.
"Eu
não vi isso como uma dificuldade. Eu olhei Sophia, pronto. Era minha filha. Eu
me apaixonei logo por Sophia. Ela é mais do que uma filha. Não tem como
explicar."
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Indenização e melhorias
Os dez
anos de vida de Sophia coincidiram com uma grande transformação financeira para
a família, após a entrada em vigor, no ano passado, do PL 6064/23, que prevê o
pagamento de uma indenização de R$ 50 mil e uma pensão vitalícia para as
famílias de crianças com síndrome congênita associada ao vírus da zika.
Ianka,
que até o ano passado recebia um salário-mínimo por mês de auxílio e recorria à
Justiça para conseguir suplementos alimentares e fraldas, recebeu a indenização
em dezembro e passou a contar com a pensão mensal que equivale ao teto da
Previdência (R$ 8.475,55).
"Com
a indenização chegando, eu pude pensar em coisas que jamais pude dar para
Sophia, porque eu nunca pude trabalhar", diz Ianka.
Ela e
Vitor chegaram a montar um negócio caseiro para vender bolos e doces, e ele
chegou a trabalhar em um bar, mas tudo acabava interrompido por causa das
demandas com Sophia e Ester.
"Como
a ajuda foi muito grande, agora a gente vai poder se manter e dar à Sophia tudo
que ela precisa", diz Ianka.
Como
outras mães de crianças com microcefalia associada ao vírus da zika em Campina
Grande, ela ganhou uma casa da Prefeitura do programa Minha Casa, Minha Vida
depois que Sophia nasceu.
Agora,
está reformando para aumentar o quarto de dormir (todos ficam no mesmo cômodo
por medo de deixar Sophia sozinha) e para que a filha possa fazer fisioterapia
em casa.
A
locomoção para o Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq),
onde Sophia é acompanhada desde pequena, vem se tornando inviável pelas dores
causadas pela escoliose da menina.
Apesar
de comemorar a indenização, Ianka se entristece, porque diz que conhece outras
mães em situação idêntica à sua que tiveram o benefício negado.
De
acordo com a Assessoria de Comunicação do INSS, 1.889 famílias já receberam
indenizações e 846 outras aguardam uma decisão. Um total de 1.850 está
recebendo a pensão vitalícia.
Segundo
o INSS, há casos em que as famílias tiveram o benefício negado "por não
atender aos requisitos da legislação" e que elas podem entrar com um
recurso ou um novo pedido caso discordem da decisão.
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'Zika ficou como um tormento'
As duas
gestações de Ianka após Sophia não vieram sem apreensão.
"O
zika ficou como um tormento para todas as mães, né? A cada ultrassom, tanto na
gravidez de Ester como na de Efraim, eu ficava supernervosa, chegava a dar dor
de barriga. Enquanto a médica não me falava que o cérebro estava normal, que
não tinha nada, eu não relaxava", conta Ianka.
"Acho
que esse trauma não vai sair da gente. Você não deseja isso para nenhum outro
filho seu, nem para ninguém, porque é uma dificuldade em tudo."
Ao
longo da última década, Ianka conseguiu sanar algumas dificuldades de Sophia.
Como no caso da cirurgia para se alimentar diretamente pelo estômago; ou do
aparelho que a filha passou a usar para dormir, evitando a apneia que às vezes
a deixava roxa de falta de ar.
Outros
problemas, entretanto, continuam e se agravam com o tempo. Por causa da
escoliose acentuada, Sophia não fica confortável em qualquer posição.
Além
disso, hoje só Vitor consegue carregá-la no colo, com seus 31 kg. É ele quem a
leva de casa para o carro, ou da cadeira de rodas para a cama, ou da cama para
o banho.
"Parece
que cada dia mais vai ficando um pouquinho pior, né? Eles vão crescendo e vai
prejudicando uma coisinha a mais", resume Ianka.
Mas a
vida de Sophia tem pequenas alegrias. Ela adora ver o céu e ficar na cadeira de
rodas no quintal da casa enquanto ouve hinos religiosos.
Apesar
de não falar ou andar, é nítido que sente as presenças e o carinho ao seu
redor. Seus olhos dançam com o movimento da casa. Se arregalam quando os pais
passam por ela. Sorriem quando Ianka trança seus longos cabelos ou encosta o
nariz no da filha, fazendo chamego. E também reagem às estripulias de Ester.
"Quando
a Ester chegou, Sophia só fazia rir. Se Ester chorasse, ela dava risada. Se
Ester reclamasse, ela ria. Até hoje é assim. Ester só vive cutucando ela o
tempo inteiro. Pega a perninha dela e fica balançando, como se fosse
fisioterapia, e Sophia só faz dar risada", conta Ianka.
Ianka
diz que ouviu muitos julgamentos desde que Sophia nasceu e que aprendeu a
filtrá-los. Pessoas a questionaram por não ter feito um aborto quando soube da
deficiência da filha. Depois, por querer ter mais filhos, se Sophia já
demandava tantos cuidados.
"As
pessoas me veem grávida de novo e falam, 'Meu Deus, tu é louca? E Sophia?' Mas
Sophia está sendo cuidada e amada do mesmo jeito, eu acho que até melhor do que
antes, porque agora tem Ester que anima a casa."
Efraim
chegou, completando a família. "Ter outras crianças fazendo barulho pela
casa vai ser outra vida para Sophia. É muito melhor para ela", diz Ianka.
"Eu
quero continuar a ser uma boa mãe pra Sophia, e ser uma boa mãe pra meus outros
filhos. Ter forças, né. Acho que nasci para isso."
Fonte:
BBC News Brasil

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