Entre
paredes cinzentas, a vida insiste
Há
lugares que tentamos esquecer, mas que permanecem. Não porque ficaram no
passado, mas porque continuam existindo em nossas mentes e no cotidiano real,
repetindo cenas, corpos e condições que não deveriam persistir. Em Beirute, um
antigo hospital, que já foi símbolo de cuidado e inovação tecnológica, hoje
abriga centenas de pessoas deslocadas pela guerra. O edifício, marcado por
paredes, tetos e pisos cinzentos, infiltrações e janelas improvisadas com
tecidos e papelão, tornou-se um abrigo coletivo para quase quatrocentas
pessoas: mães, idosos, pacientes em diálise ou em tratamento contra o câncer.
Famílias inteiras que, mais uma vez, foram forçadas a deixar suas casas.
Ali, a
guerra não é apenas um acontecimento. É uma condição que se prolonga no tempo.
O retorno de Maryam Srour, gerente de comunicação de MSF no Líbano, ao prédio,
um ano e meio depois de sua primeira visita, revela a repetição: as mesmas
dificuldades, os mesmos sons, como a água pingando, pessoas tossindo, os mesmos
improvisos para conter o frio e a chuva. O espaço, que já foi referência em
saúde, hoje expõe a precariedade de vidas deslocadas, muitas delas pela segunda
ou terceira vez.
Mais de
um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas no Líbano diante da
intensificação dos bombardeios e das ordens de evacuação em larga escala. O
deslocamento, nesse contexto, deixa de ser exceção e passa a organizar a vida
cotidiana.
Sem
água corrente e sem banheiros adequados, a sobrevivência se torna um esforço
contínuo. Subir escadas carregando galões de água, compartilhar sanitários
entre dezenas de pessoas, adaptar espaços improvisados para viver com o mínimo
de dignidade são algumas das condições enfrentadas diariamente. Em um prédio de
12 andares, cada nível revela uma nova camada de dificuldades.
No
terceiro andar, uma recém-nascida repousa em um quarto improvisado. Nour nasceu
durante bombardeios, em meio à fuga da família. A mãe, vigilante, limpa o
ambiente de forma quase obsessiva, tentando proteger a filha em um espaço onde
o vento e a chuva atravessam as paredes.
No
corredor, duas crianças com dificuldades cognitivas e de mobilidade brincam em
silêncio. O tratamento que vinham recebendo foi interrompido pela guerra. A
rotina agora gira em torno do básico: água, comida, abrigo.
“Eu só
quero que eles tenham um futuro”, diz a tia. A frase ecoa em um contexto onde o
futuro parece constantemente adiado.
As más
condições de água, saneamento e higiene não são apenas uma questão de conforto.
Elas impactam diretamente a saúde. Infecções, doenças de pele e outras
enfermidades evitáveis tornam-se mais frequentes, especialmente entre crianças
e pessoas já vulneráveis. Em alguns casos, pessoas reduzem a ingestão de água
para evitar a necessidade de usar banheiros coletivos, agravando ainda mais os
riscos.
“Sem
água e saneamento, até se manter saudável se torna uma luta diária”, resume uma
profissional envolvida no trabalho de assistência. É nesse cenário que atua
Médicos Sem Fronteiras, por meio de clínicas móveis e ações voltadas à melhoria
das condições de água e saneamento no Líbano. Instalação de tanques, construção
de banheiros e chuveiros, distribuição de kits de higiene e atendimento médico
são algumas das iniciativas implementadas em centenas de abrigos no país. Essas
intervenções, embora fundamentais, revelam também a dimensão do problema:
garantir o básico torna-se uma tarefa complexa em contextos de deslocamento
prolongado.
Em um
dos andares, Hassana enfrenta outro tipo de desafio. Diagnosticada com câncer
pouco antes de ser deslocada, ela precisa realizar radioterapia e, ao mesmo
tempo, se isolar para evitar riscos a si mesma e aos outros. Em um abrigo
coletivo, essa exigência se torna praticamente impossível.
A
solução vem com a instalação de uma latrina dentro de seu quarto, que se
configura como uma mudança simples, mas que transforma sua possibilidade de
cuidado. “Estou pronta para morrer”, ela havia dito anteriormente, “mas não
quero machucar ninguém enquanto isso.” Quandose reencontra com Maryam, está
diferente. Mais leve. A possibilidade de manter o tratamento com dignidade
altera não apenas sua condição clínica, mas sua disposição diante da vida. Ela
mostra seus pássaros, que conseguiu resgatar, e sorri.
Pequenos
gestos, pequenas presenças, pequenas infraestruturas. Tudo isso compõe o
cuidado nesses contextos. Mas há algo que não se instala com equipamentos: a
confiança. Ela se constrói na presença constante. No retorno. Na escuta. No
gesto repetido de responder às demandas, por mais básicas que sejam. Em um
cenário marcado por perdas sucessivas (casa, trabalho, território), essa
continuidade torna-se um dos poucos elementos estáveis.
As
pessoas se aproximam, pedem ajuda, compartilham histórias. Não apenas por
necessidade, mas porque reconhecem ali uma presença que não desaparece
imediatamente. Ainda assim, as necessidades seguem imensas.
O
prédio não é exceção. Em todo o Líbano, milhares de pessoas vivem em condições
semelhantes, como em escolas, tendas, construções inacabadas. A vida cotidiana
é atravessada pela incerteza e pela ausência de garantias básicas. E, no
entanto, algo persiste. Uma mãe que cuida. Crianças que brincam. Pessoas que
mantêm vínculos, objetos, pequenos animais. Gestos que afirmam a continuidade
da vida mesmo em meio à precariedade.
“Isso
vai passar”, diz Hassana. “Minha doença vai passar. Esta guerra vai passar.”
Entre paredes cinzas, a esperança não aparece como promessa distante. Ela se
manifesta no cotidiano.
E
talvez seja isso que mais interpela: não apenas a existência dessas vidas em
condições tão adversas, mas o fato de que tais condições seguem sendo
produzidas e mantidas.
*Texto
escrito em colaboração com Médicos Sem Fronteiras
Fonte: Por Roger Flores Ceccon, no Le Monde

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