Como
os Lundgren criaram o império das Pernambucanas e as controvérsias que cercam a
família
Anita
Harley, controladora e um dia principal executiva da rede varejista
Pernambucanas, pode ter se tornado conhecida de um novo público com a série
documental O Testamento, da Globoplay. Mas ela foi por muito tempo a cara da
marca, ao menos nas décadas mais recentes dos 118 anos de existência da
empresa.Anita está para o Grupo Pernambucanas — que inclui a rede varejista e
uma empresa de soluções financeiras, a Pefisa — mais ou menos como Luiza
Trajano está para a Magalu, ou como Abílio Diniz esteve para o Grupo Pão de
Açúcar.
Há dez
anos, contudo, ela sofreu um AVC e desde 2016 habita, incomunicável, um quarto
do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. As rocambolescas disputas em torno de
sua curatela, e consequentemente de sua sucessão no Grupo Pernambucanas, são o
cerne dramático da produção, uma das mais assistidas do catálogo de streaming
da Globoplay em 2026. Era mesmo de se esperar que seu séquito se alvoroçasse
por um patrimônio pessoal um dia estimado em pouco menos de R$ 2 bi, além,
claro, pelo controle da varejista. Mas é preciso reconhecer que, se a marca
Pernambucanas ainda possui recall, notadamente em cidades menores, hoje ela
está bem longe de ser a potência econômica que um dia foi.
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Da Suécia ao Brasil
A
história das Pernambucanas começa com o sueco Herman Lundgren (1835–1907), que
chegou ao Brasil em 1855, aos 20 anos, sem saber falar português. Filho de uma
família de comerciantes, ele cresceu em uma Suécia ainda majoritariamente
agrícola, que só se industrializaria no fim do século 19. Nesse período, o país
viveu profundas transformações sociais e uma intensa onda migratória: entre
1850 e 1914, mais de um quinto da população emigrou, em grande parte para os
Estados Unidos. "Ele veio na aventura, saiu da Suécia para o clima
tropical. Largou tudo e foi para o Nordeste", contou Elisabeth Lundgren em
depoimento ao projeto Museu do Pessoa, em 2019, que resgatou memórias da
família Lundgren.
No
Brasil, Herman reunia vantagens raras: falava três idiomas — sueco, inglês e
alemão —, possuía o desembaraço social e atuava em um ambiente livre de
concorrência minimamente qualificada. Essas habilidades permitiram que ele
trabalhasse como intérprete de comerciantes estrangeiros que chegavam ao porto
de Recife, cidade onde se fixou após passagens rápidas pelo Rio de Janeiro e
Salvador. Mas foi como despachante aduaneiro que ele iniciou sua trajetória
empreendedora. Mais tarde, tornou-se representante consular da Suécia (então em
união com a Noruega) e naturalizou-se brasileiro. A partir daí, passou a formar
sociedades voltadas à exportação de produtos nordestinos, como sal potiguar,
cera de carnaúba e couro de cabra. Foi justamente essa posição privilegiada no
porto do Recife, acompanhando de perto os produtos que chegavam ao Brasil, que
lhe permitiu identificar uma fragilidade do mercado: a dependência de pólvora
importada.
Num
Brasil em que apenas uma fábrica militar, em Magé (RJ), atendia parte da
demanda por pólvora — em alta devido à Guerra do Paraguai — os prognósticos
eram promissores para a produção local. Nesse contexto, Herman estruturou em
1866 a Sociedade Anônima Pernambuco Powder Factory, dando início à produção de
pólvora no país e a construção de uma fortuna que sustentaria sua trajetória
empresarial no Brasil.
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Fábrica de tecidos
Embora
a pólvora tenha sido o ponto de partida de sua ascensão econômica, foi no setor
têxtil que Herman Lundgren e seus sucessores — principalmente os filhos
Frederico e Arthur — construíram o legado empresarial que seria administrado
por Anita Harley quase um século depois. Tudo começou em 1904, com a aquisição
de uma fábrica de tecidos em Paulista, então distrito de Olinda, ao norte do
Recife. De acordo com reportagens da época, a fábrica estava praticamente
falida, mas Herman utilizou os lucros obtidos com o negócio da pólvora para
reerguê-la e fundar a Companhia de Tecidos Paulista (CTP).
O
economista, jornalista e político Raul de Góis (1907–1994), em biografia
publicada em 1963 e considerada "apologética", descreve o cenário
encontrado pelos Lundgren: um "lugar renegado do progresso", "em
seus últimos arrancos de vida", habitado por "uma miserável
população, subnutrida e doente, alojada em palhoças".
A
reativação da fábrica transformou Paulista e deu à família Lundgren forte
influência na região. De acordo com o projeto Museu da Pessoa, a economia local
passou a girar em torno da indústria, e grande parte dos moradores trabalhava
no negócio dos "suecos", que eram vistos como "referência de
riqueza" e "construtores da cidade".
Se a
entrada no setor têxtil foi, em parte, fruto de oportunidade — e a sorte, como
se diz, sorri a quem trabalha — os Lundgren logo se beneficiariam do contexto
econômico.
Um ano
após a aquisição, o governo Rodrigues Alves elevou a tarifa de importação de
tecidos de 15% para 50%, fortalecendo a produção nacional. Nos anos seguintes,
a família ampliaria sua atuação com a aquisição de outra fábrica têxtil na
Paraíba, consolidando sua presença no setor. "Eu diria que essa família é
pioneira na industrialização no Nordeste. As fábricas se concentravam no eixo
Rio-São Paulo e eles criaram um polo diferente, uma visão diferente, com um
mercado que ainda era inesperado", declarou Francisco Mussnich ao projeto
Museu da Pessoa.
Com a
morte de Herman Lundgren, em 1907, a CTP passa a ser dirigida de fato por seus
filhos Frederico e Arthur, que dariam novo impulso ao negócio. Em 1908 eles
fundam, no Recife, a primeira loja própria para a venda dos tecidos produzidos
pela fábrica, então chamada Lojas Paulista — embrião do que viria a se tornar a
rede Pernambucanas. "Quem transforma a estoparia em comércio é a segunda
geração, que tem esse marco empreendor, que vai carregar o negócio para um
estágio de comercio bastante inovador", disse Derek Lundgren em depoimento
também ao Musseu Pessoa.
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A origem das Casas Pernambucanas
A
primeira loja surgiu já sob o comando de Arthur e Frederico Lundgren, marcando
uma virada nos negócios da família. A estratégia era clara: integrar produção e
venda, eliminando intermediários — comuns à época — e, assim, reduzir o preço
final dos produtos. O modelo garantia uma vantagem competitiva relevante. O
livro Pernambucanas – 100 anos com a família brasileira, publicado em 2008, é
explícito ao apontar que a empresa buscava romper o "monopólio do setor de
atacado" de tecidos, então dominado por comerciantes portugueses no
Nordeste.
Sob a
liderança de Arthur Lundgren, a entrada no varejo foi marcada por práticas
pouco usuais no Brasil da época, como o estabelecimento de preços fixos —
"sem regateio" — e o lançamento da marca dos "bons tecidos"
Olho, que oferecia "garantia absoluta" de que as cores das fazendas
não desbotariam. Esse posicionamento era sustentado pela tecnologia dos teares
importados da Europa e pela atuação de técnicos estrangeiros, sobretudo alemães
e ingleses.
Se, no
início, a operação se assemelhava a um barracão junto à fábrica de Paulista, a
expansão foi rápida. Já em 1920, os irmãos Lundgren contavam com cerca de
duzentas lojas varejistas próprias, espalhadas pelo Nordeste, comercializando
tanto a produção da família quanto a de outras fábricas. Na época, dizia-se que
qualquer cidade brasileira decente deveria ter "igreja, mercado, cinema e
uma filial das Casas Pernambucanas". A chegada ao Sudeste marcou uma nova
fase do negócio. São Paulo conheceu sua primeira unidade ainda na década de
1910, na Praça da Sé, no coração da cidade, uma demonstração da importância
dada pela família à localização dos pontos de venda. Foi também a partir desse
crescimento que a rede passou a adotar o nome Casas Pernambucanas.
Para
dar conta da expansão da rede e padronizar a gestão das lojas, um manual de
procedimentos chegou a ser redigido, nos anos 1930, abordando diversos aspectos
do dia-a-dia no ponto de venda. Sempre houve grande preocupação com publicidade
e com a localização das filiais, com preferência clara pelas ruas comerciais.
"Não há razões para se temer a vizinhança de concorrentes fortes",
registra Góis a partir do documento interno. O manual também consagra um
princípio que se tornaria central no varejo: o cliente sempre tem razão:
"Não devemos nos esquecer que em nossas lojas mandam os clientes e por
causa disso deve ser feito tudo para agradá-los o mais possível. O cliente uma
vez mal servido não volta." Ao longo das décadas seguintes, a varejista
continuaria a crescer, tornando-se a maior rede de varejo do Brasil nas décadas
de 1940 e 1950, com mais de 400 lojas, segundo o projeto Museu da Pessoa.
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Construção de vilas operárias
Em
1924, quando já tinham centenas de lojas espalhadas pelo país, os herdeiros de
Herman adquiriram uma segunda fábrica têxtil em Rio Tinto, na Paraíba, onde
implantaram a Companhia de Tecidos Rio Tinto. Assim como em Paulista, a fábrica
foi acompanhada da construção de uma vila operária para os trabalhadores
morarem, aproveitando a política tributária favorável ao uso da terra da época.
Ao mesmo tempo em que garantia emprego e infraestrutura, esse modelo de
cidade-fábrica também implicava forte controle sobre a vida dos trabalhadores,
limitando sua autonomia e contato com o mundo exterior.
No
artigo Da Aldeia da Preguiça à ativa colmeia operária – o processo de
constituição da cidade-fábrica Rio Tinto – Parahyba do Norte, o pesquisador
Eltern Campina Vale descreve como se organizava a vida dos operários em Rio
Tinto. "[Núcleos] Foram estruturados no sentido de conter ao máximo seus
moradores, evitando interferências e contatos externos vistos como
perturbadores de suas finalidades industriais. Ofereciam trabalho, moradia e
todos os equipamentos necessários à existência e à ocupação do tempo livre do
trabalhador. Retendo o grupo operário, buscava-se prevenir seu contágio por
ambientes tidos como degradantes ou por indivíduos tidos como
corrompidos."
No
mesmo artigo, o pesquisador se vale de uma passagem do livro de Raul de Góis
para dizer que, quando confrontado com a ideia de que a localidade Aldeia da
Preguiça, em Rio Tinto, era pouco adequada para uma vila operária, pois era
formada por lotes de terras "ruins", pantanosas e ocupadas por
indígenas – que seriam desterrados –, Arthur Lundgren responde que lá sua
família iria "plantar gente".
Aos
contratadores que buscavam essa gente para ser "plantada", Frederico
Lundgren, também herdeiro, dizia que pretendia fazer em suas terras da Paraíba
uma verdadeira "Manchester", a cidade inglesa que por décadas foi o
maior benchmarking fabril do Ocidente. Campina menciona o dirigente sindical
João Batista Fernandes, que afirma que Frederico sugeria a seus agenciadores
seduzir os futuros operários ao dizer que em Rio Tinto "até das torneiras,
em vez de água, jorra leite".
Ao
longo das décadas, esse modelo também daria origem a tensões sociais e
conflitos trabalhistas, cujos reflexos se estendem até hoje. Por décadas,
moradores dessas vilas pagaram aluguel à Companhia de Tecidos Rio Tinto. Em
2022, o governo da Paraíba desapropriou cerca de 700 dessas moradias, que ainda
pertenciam à empresa e a seus descendentes. Ainda assim, a família Lundgren
segue como uma das principais proprietárias imobiliárias da cidade.
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'Espião nazista'
Arthur
Lundgren morreu em 1967, aos 85 anos, tendo passado seis décadas como
"capitão" da Pernambucanas. Seu poder se estendeu ao domínio
político, tendo sido eleito deputado antes mesmo da revolução de 1930, segundo
o obituário do carioca O Jornal, além de prefeito de Rio Tinto. Ele sofreu
severa oposição do interventor e depois duas vezes governador de Pernambuco
Agamenon Magalhães (1893-1952), seu grande adversário político, que aproveitou
a adesão do Brasil aos países aliados na Segunda Guerra, em 1942, para tentar
fazer pespegar em Arthur a imagem de espião nazista.
Era uma
época em que a propaganda nazista era transmitida por vias oficiais,
especialmente por meio dos consulados alemães no Brasil, como registra a
pesquisadora Juliana Ferreira Capos Leite em sua tese de mestrado de 2017 na
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). No trabalho, ela escreve:
"Em Pernambuco, assim como em outros vários estados da federação, a
propaganda nazista estava diretamente relacionada ao partido e ao consulado
alemão. Tais instituições se entrelaçavam na organização referente a essas
atividades." "O material de propaganda", segue ela, "era
distribuído na capital para empresas parceiras do consulado e em cidades do
interior do estado". Entre essas empresas, estava a dos Lundgren. Além
disso, na cidade de Rio Tinto, na Paraíba, onde também funcionava uma filial da
Companhia de Tecidos Paulista, estava localizada uma "subfilial" do
Partido nazista "A região fazia parte do complexo industrial da família
Lundgren, área definida pela polícia política como 'um reduto de atividades nazistas'
por se tratar de um local com significativa concentração de alemães."
A
historiadora Susan Lewis, contudo, não acredita no envolvimento dos membros da
família Lundgreen com o Partido Nazista. Segundo ela, não há provas
contundentes da relação entre a família Lundgren e o nazismo. "Posso dizer
com segurança que não há documentos que comprovem isso. O que eu defendo é que,
com a necessidade de centralizar o poder político na Era Vargas, o estado criou
mecanismos para diminuir a força da família, por isso essas acusações",
disse em entrevista ao Diário de Pernambuco.
Por
meio de nota, a Pernambucanas informou que "não possui qualquer vinculação
com narrativas ou interpretações relacionadas a trajetórias familiares que não
dizem respeito à sua atuação empresarial". "Sua estrutura de
governança é independente, com Conselho de Administração próprio e gestão
profissional. A Companhia repudia de forma inequívoca qualquer forma de
discriminação ou intolerância, incluindo o antissemitismo", afirmou. "Com
mais de 100 anos de atuação, a companhia pauta suas decisões por princípios de
ética, transparência, respeito, diversidade e inclusão, refletidos em suas
práticas e compromissos públicos", acrescentou em nota.
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Como está hoje as Pernambucanas
No
ranking de 2024 das 300 maiores empresas de varejo do Brasil, publicado pelo
Instituto Retail Think Tank (RTT), a companhia aparece em 45º lugar em
faturamento — estava em 43ª no ano anterior. Imediatamente à sua frente, em
2024, estavam Cacau Show e Supermercados Condor. Mas os R$ 6,1 bilhões de
receita que a colocam nessa posição contam apenas parte da história.
A
margem Ebtida, melhor indicador de lucratividade operacional, foi de 1,8% em
2024 — bem abaixo do resultado de 9,9% em 2023. A Magalu teve um faturamento
quase oito vezes maior, de R$ 47,28 bi, e margem Ebtida de 7,8%. O faturamento
de 2025, recentemente publicado, não difere muito do exercício anterior.
Considerado
como um ano "economicamente desafiador" na Carta do Relatório de
Administração, 2025 tem como marcas para a empresa o início da operação de um
braço logístico de transporte próprio, esforços para a redução da dívida,
aumento do tíquete médio de consumo em 4,1% e incremento de participação do
vestuário na receita geral, agora para 68%. Também marca a criação da nova
marca corporativa: Grupo Pernambucanas.
A
empresa chegou a 2026 com 11 mil funcionários e 470 lojas próprias em 15
estados brasileiros além do Distrito Federal. Sócio do RTT e um dos
responsáveis pelo ranking, o consultor Alberto Serrentino vê
"resiliência" na Pernambucanas. "A marca é muito forte, com
presença no interior, base forte de clientes, [operação de] crédito, mas os
problemas societários a fizeram ficar muito tempo sem expandir e perder visão
de longo prazo", diz.
Com
capital fechado e uma governança truncada, a Pernambucanas precisou lutar
contra uma certa acefalia que já a obliterava muito antes de Anita chegar ao
poder com a morte de sua mãe, Helena Lundgren, em 1990. Disputas internas já
colocavam em campos opostos os herdeiros do fundador, o sueco Herman Lundgren.
Entre eles estava Arthur, que mais tarde se tornou pai de Helena e avô de
Anita. Essas rinhas familiares já haviam solapado parte das operações da
Pernambucanas. Como capitanias hereditárias, as operações e as lojas do Rio,
Ceará e Pernambuco foram entregues a ramos distintos da família, para, depois,
naufragarem nesses três estados. Isso fez com que as Pernambucanas encerrassem
suas atividades por todo o Nordeste, incluindo em Recife, na década de 90. A
falência teria ocorrido "por uma série de motivos, principalmente de
gestão". As lojas só retornaram a Pernambuco em 2021.
Para
Ivan Rizzo, professor da FIA Business School, de São Paulo, e coordenador da
área de varejo, "velocidade de tomada de decisão e a rápida implementação
em grande escala são fatores críticos para o sucesso de uma empresa desse
setor". Para ele, que falou por telefone à BBC News Brasil, isso não
costuma ser possível com uma "cadeia decisória confusa".
Após o
AVC de Anita, Sergio Borriello, antes CFO da Pernambucanas, assumiu como CEO
com metas auspiciosas: um plano de expansão com abertura de mais de 100 lojas
foi implementado. A Borriello também é creditado um esforço de atualização
tecnológica — providência imperiosa em tempos de varejo omnichannel (vendas em
todos os canais). Depois dele, a cadeira parece ter ficado abrasiva.
Em
agosto de 2024, com apenas dez meses na função, alegando razões pessoais,
Marcelo Labuto passou o bastão para o atual titular, Ricardo Doebeli,
ex-consultor da McKinsey e da Galeazzi & Associados — esta última uma
butique de reestruturação famosa por seu currículo de downsizings (diminuição
do tamanho de empresas) radicais. Em depoimento a uma edição do jornal Valor
Econômico de julho passado, Doebeli mencionou como movimento relevante de sua
gestão a criação de uma diretoria da Transformação, responsável por gestar um
programa de intraempreendedorismo aberto para todos os funcionários da empresa.
Ideias e propostas surgidas a partir daí, caso se mostrassem viáveis, poderiam
vir a ser implementadas.
Embora
quase sempre fiel a um modelo que parece datado, o de one-stop shop, em que
todas as compras podem ser resolvidas num mesmo lugar — e que teve no Brasil
apogeus e fracassos retumbantes como os dos magazines Mappin e Mesbla — a
Pernambucanas teve momentos de vanguarda ao longo de sua história,
especialmente nas estratégias de capilarização, do uso criativo e massivo da
publicidade e no lançamento de um crediário, chamado "Tentação", algo
incomum nos anos 1970. Ter chegado muito tarde à era digital pode ter como
causa, ou como uma de suas causas, os problemas de sucessão, mas não foi fácil
para a Pernambucanas sobreviver bem aos anos 1990, época de abertura do mercado
brasileiro aos produtos estrangeiros, responsável pela derrocada de diversas
concorrentes. É esse um dos momentos mais críticos na história da empresa
segundo Roberto Kanter, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que vê na
Pernambucanas um espírito sempre "conservador", "avesso a
modismos". Ainda assim, Kanter destaca que Luiza Trajano, cuja Magalu é
hoje benchmarking em transformação digital, inspirou-se não apenas na figura de
Anita, mas no comportamento da executiva, na "maneira como ela se fazia
presente nas lojas e de como se relacionava com os colaboradores". Ou,
mais precisamente, frisa Kanter, de como ambas, Anita e depois Luiza,
"entenderam os colaboradores como parte de uma grande família".
Fonte:
BBC News Brasil

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