terça-feira, 12 de maio de 2026

A investigação que mostra a ação de mercenários latino-americanos na guerra do Sudão

Uma rede de mercenários colombianos, apoiada pelos Emirados Árabes Unidos, forneceu assistência fundamental aos rebeldes das Forças de Apoio Rápido do Sudão (RSF, na sigla em inglês). Sua participação permitiu ao grupo capturar, no ano passado, a cidade de El-Fasher, no oeste do país, segundo um estudo recentemente publicado.

Realizada pela organização de análise de segurança Conflict Insights Group (CIG), a investigação empregou dados obtidos do rastreamento dos telefones celulares dos combatentes colombianos.

Os EAU vêm negando reiteradamente dar apoio às RSF, que combatem o exército regular sudanês há três anos.

A queda de El-Fasher, no Estado sudanês de Darfur do Norte, foi um dos episódios mais brutais do conflito e gerou a pior crise humanitária do mundo, com dezenas de milhares de mortes e milhões de pessoas deslocadas.

A CIG acompanha de perto as evidências da extensa assistência militar dos Emirados às RSF, mas "esta é a primeira investigação que consegue comprovar com segurança o envolvimento dos EAU", segundo o diretor da entidade, Justin Lynch.

"Estamos divulgando aquilo que os governos sabem há tempos: que existe um vínculo direto entre Abu Dhabi e as RSF", afirma ele.

Lynch destaca que o relatório "demonstra que os mercenários que utilizavam drones viajaram de uma base nos Emirados Árabes Unidos para o Sudão, antes da captura de El-Fasher pelas Forças de Apoio Rápido (RSF)".

"Os mercenários que participaram das operações com drones chegaram a dar à sua rede de wi-fi o nome da sua unidade, vinculada a uma empresa que operava dos Emirados Árabes Unidos."

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, declarou no ano passado que os mercenários são "espectros da morte" e que seu recrutamento constituía uma "forma de tráfico de pessoas".

A BBC pediu posicionamento do governo dos Emirados sobre as informações divulgadas.

Os Emirados Árabes Unidos já emitiram comunicados rejeitando as acusações de que apoia as RSF, qualificando-as de "falsas e infundadas". Também condenaram, "da forma mais enérgica", as atrocidades cometidas em El-Fasher.

Analistas concordam que o apoio estrangeiro aos dois grupos tem sido fundamental para a continuação e a expansão da guerra civil sudanesa.

A CIG afirma que utilizou tecnologia comercial projetada para personalizar anúncios de publicidade na sua investigação.

Com isso, a entidade conseguiu rastrear mais de 50 telefones celulares no Sudão, entre abril de 2025 e janeiro deste ano.

Seus operadores eram mercenários colombianos. Alguns deles atuavam em zonas controladas pelas RSF de onde foram lançados drones.

A organização também empregou dados de acompanhamento de voos, imagens de satélite, vídeos nas redes sociais, notícias e artigos acadêmicos para respaldar suas análises.

Segundo o relatório, os dados detalham uma rede que demonstra a presença dos mercenários em diversos centros de operações regionais, principalmente em um centro de treinamento militar dos Emirados Árabes Unidos em Ghayathi (Abu Dhabi).

Foi possível, por exemplo, rastrear um celular da Colômbia até o Aeroporto Internacional Zayad, em Abu Dhabi, e dali até o centro de treinamento, onde também havia outros quatro aparelhos configurados em espanhol, o idioma falado na Colômbia.

Dois destes telefones foram transportados posteriormente para o Estado de Darfur do Sul, no Sudão, e outro para Nyala, a capital de facto das RSF. Ali, ele foi conectado às redes de wi-fi "ANTIAEREO" e "AirDefense" ("defesa aérea", em inglês).

Nyala é um centro importante para os mercenários colombianos e para as operações com drones das RSF, segundo o relatório. A CIG documentou atividade significativa de drones na região e identificou mais de 40 aparelhos usando o idioma espanhol.

Em outro estudo de caso, a CIG rastreou um celular da Colômbia até Nyala e, dali, até El-Fasher em outubro passado, quando as RSF tomaram a cidade, depois de um cerco de 18 meses.

Enquanto estava em El-Fasher, o aparelho se conectou a uma rede de wi-fi chamada "ATACADOR", segundo o relatório.

A CIG identificou outros aparelhos associados a mercenários colombianos, que também estiveram presentes durante a tomada da cidade por parte das RSF.

A queda da cidade foi acompanhada por atrocidades em massa, qualificadas como crimes de guerra e crimes contra a humanidade pelo promotor do Tribunal Penal Internacional (TPI) e descritas por pesquisadores da ONU como atos com "características de genocídio".

"A CIG considera que a rede de mercenários dos EAU e da Colômbia tem responsabilidade conjunta por estes fatos", afirma o relatório.

"A magnitude das atrocidades e o cerco a El-Fasher não teriam ocorrido sem as operações com drones proporcionadas pelos mercenários", destaca Lynch. Ele indica provas de que eles também colaboraram com o cerco das RSF.

Segundo o relatório, os mercenários operavam como parte da brigada Lobos do Deserto, como pilotos de drones, instrutores e membros da artilharia.

Um deles se conectou a redes de wi-fi denominadas "DRONES" e "LOBOS DEL DESIERTO", com o celular configurado em espanhol.

A brigada é liderada pelo coronel aposentado do exército da Colômbia Álvaro Quijano, segundo o portal de notícias colombiano La Silla Vacía. Quijano reside nos Emirados Árabes Unidos e sofreu sanções dos governos dos EUA e do Reino Unido, por recrutar colombianos para combater no Sudão.

Os Lobos do Deserto foram empregados e pagos por uma empresa com sede nos Emirados Árabes Unidos. Ela tem vínculos documentados com altos funcionários do governo dos EAU, segundo La Silla Vacía e documentos obtidos pela CIG, indica o relatório.

A CIG também afirma ter identificado aparelhos com configuração em espanhol em um porto da Somália com vínculos com os Emirados Árabes Unidos, bem como em uma cidade do sudeste da Líbia, considerada centro logístico do fluxo de armas para as RSF, supostamente viabilizado pelos Emirados.

Estimava-se anteriormente que havia poucas centenas de combatentes colombianos no Sudão.

Os Estados Unidos estabeleceram sanções a cidadãos colombianos e empresas associadas em duas ocasiões, por recrutar mercenários para lutar no Sudão. A primeira vez foi em dezembro do ano passado e novas sanções foram criadas em meados de abril.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos afirmou que combatentes colombianos apoiaram a captura de El-Fasher pelas RSF, mas evitou estabelecer conexão direta com os Emirados Árabes Unidos.

¨      Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão

Centenas de ex-soldados colombianos foram atraídos para a guerra civil no Sudão com promessas de salários atraentes dos Emirados Árabes. Mas muitos deles encontraram a morte em um campo de batalha distante, e aqueles que sobreviveram estão envolvidos em crimes graves. 

Esta investigação revela como mercenários colombianos foram parar do outro lado do mundo, em uma rede de guerra, lucro e silêncio que se estende dos Andes aos campos de extermínio na região sudanesa de Darfur.

“Até hoje, seu corpo não foi repatriado”, disse à AFP a viúva de um ex-soldado colombiano morto no Sudão, que não quis ter seu nome divulgado, por medo de represálias.

O ex-soldado, 33, viajou para o Sudão em meados de 2024. Ele integrava um grupo enviado por empresários sancionados pelos Estados Unidos para um conflito que já deixou dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados ameaçados de fome.

A partir de depoimentos, registros corporativos e verificações de imagens nos campos de batalha, a AFP revela como colombianos reforçam as fileiras das Forças de Apoio Rápido (FAR), um grupo paramilitar acusado de genocídio. Seguem abaixo as principais descobertas:

* Recrutados pela internet, a maioria deles foi levada para o Sudão via Emirados Árabes, onde recebeu treinamentos rápidos.

* Usaram pelo menos duas rotas para chegar ao Sudão: pelo leste da Líbia, leal aos Emirados, ou por uma base aérea em Bosaso, na Somália, que abriga militares emiradenses.

* Imagens verificadas de mercenários e testemunhas os situam em combates sangrentos em Darfur.

* Um ex-coronel colombiano sancionado pelos Estados Unidos é apontado por um antigo sócio como cérebro da operação de envio de 2.500 mercenários para lutar ao lado dos paramilitares das FAR no Sudão.

– País em chamas –

O Sudão está mergulhado em uma guerra entre as FAR e o Exército – controlado pelo governo de fato desde 2023 -, alimentada por interesses dos Emirados Árabes, do Egito, do Irã e da Arábia Saudita, entre outros.

Mercenários estrangeiros, principalmente de países africanos, como Eritreia e Chade, surgiram em ambos os lados. Mas a operação mais sofisticada é a dos colombianos, cobiçados por sua experiência com drones e artilharia, que recebem entre US$ 2.500 e US$ 4.000 mensais, cerca de seis vezes o que ganham do Exército, segundo um ex-militar.

O governo americano sancionou neste mês quatro colombianos e suas empresas que fazem parte dessa rede, sem mencionar o elo emiradense: a empresa Global Security Services Group (GSSG), sediada em Abu Dhabi.

Os Emirados negam as acusações do Sudão e de organizações internacionais de suposto apoio aos paramilitares. Segundo um funcionário do alto escalão do governo emiradense, isso faz parte de um “padrão de desinformação” para “desviar a atenção do trabalho vital de acabar com essa guerra brutal”.

– Treinamento de crianças –

Familiares dos mercenários sofrem em silêncio. O marido da viúva colombiana morreu três meses após embarcar para o Sudão em meados de 2024, quando a campanha paramilitar para tomar o oeste de Darfur cambaleava.

Embora relatórios apontem dezenas de milhares de rebeldes, eles têm pouca experiência e equipamento. São hábeis em incursões brutais, mas não em operações de longo alcance, como os colombianos.

Com o apoio dos sul-americanos, segundo os Estados Unidos, a milícia tomou em outubro El Fasher, último reduto do Exército, em meio a relatos de execuções em massa, sequestros e estupros.

Vídeos geolocalizados pela AFP mostram colombianos dentro e no entorno da cidade antes de ela ser tomada. Em um veículo blindado, eles atravessam as ruínas do campo de refugiados de Zamzam, enquanto ouvem reggaeton. “Está destruída”, diz um deles, com sotaque colombiano.

O campo foi invadido pelos milicianos em abril. Mais de 400 mil pessoas fugiram e até mil foram assassinadas, no que sobreviventes chamam de massacres étnicos.

Imagens mostram o homem com sotaque colombiano posando com crianças e fuzis. Outras mostram seus companheiros ensinando um combatente a acionar um lança-foguetes. Fotografias posteriores mostram o corpo ensanguentado do homem, chamado de “comandante”.

O governo sudanês afirma que até 80 colombianos somaram-se ao cerco desde agosto, e que 43 foram mortos. Segundo a chancelaria colombiana, vários deles foram enganados por “redes de tráfico de pessoas”.

– ‘Interessado em trabalhar?’ –

Um ano após se aposentar, um suboficial colombiano especializado em drones recebeu no WhatsApp uma mensagem incomum: “Algum veterano interessado em trabalhar? Procuramos reservistas de qualquer força.”

O ex-militar, 37, que contou sua história à AFP, disse que solicitou informações, e que uma pessoa, que se identificou como ex-coronel da força aérea, disse a ele que a oferta era em Dubai e pagaria um salário mensal de US$ 4.200.

Todos os anos, milhares de soldados colombianos se aposentam ainda jovens, e recebem uma remuneração baixa. Alguns deles encontram oportunidades na indústria de segurança privada do Golfo.

O ex-militar aceitou a proposta, mas, em telefonema posterior, foi informado de que Dubai seria apenas uma escala de dois meses para “treinamento”, e que ele seria enviado para a África em seguida, onde participaria de missões de reconhecimento com drones.

Desconfiado, o ex-militar entrou em contato com um amigo em uma empresa de segurança nos Emirados Árabes, e foi advertido de que, provavelmente, acabaria no Sudão, o que o fez desistir da proposta.

Um dos colombianos que aceitaram a oferta, o ex-militar Christian Lombana, documentou em redes sociais sua viagem até o Sudão via França e Abu Dhabi. O Bellingcat, grupo de pesquisadores que usa dados públicos disponíveis na internet, destaca fotografias que o situam no sudeste da Líbia, em uma área controlada pelo comandante Khalifa Haftar, que tomou o poder com o apoio dos Emirados.

Desde o começo da guerra no Sudão, o território de Haftar tem sido um corredor vital para os paramilitares das FAR, por meio do fornecimento de armas, combustível e combatentes.

Dias após a sua publicação no TikTok, o comboio de Lombana sofreu uma emboscada no deserto de Darfur. Um vídeo viralizado compartilhado por um combatente rival mostra os documentos do ex-militar espalhados na areia, juntamente com fotos de sua família. Em seu passaporte, havia carimbos de entrada nos Emirados Árabes e na Líbia.

O governo colombiano nunca confirmou a morte de Lombana. Outros mercenários, ainda vivos e identificados pela AFP, compartilharam recentemente fotos em Dubai, Abu Dhabi e cidades europeias. Um deles publicou no TikTok vídeos no deserto, em que aparecia vestido com uniforme militar. Outro se descreveu no Instagram como “mercenário”.

– Escala na Somália –

Documentos e depoimentos apontam o ex-coronel colombiano Álvaro Quijano como coordenador do negócio. Segundo um antigo sócio ouvido pela AFP, o major reformado Omar Rodríguez, Quijano “suspendeu” a operação após reveses militares em 2024, e a retomou posteriormente, com alterações.

Recentemente, os mercenários passaram a transitar por Bosaso, na Somália. Moradores da região disseram à AFP que viram pelotões de estrangeiros uniformizados no local.

Bosaso fica em Puntland, uma região semiautônoma da Somália onde Abu Dhabi treina, arma e financia uma força marítima da autoridade local desde 2010, segundo especialistas da ONU. Fontes da segurança afirmam que militares emiradenses estão estacionados em uma área isolada do aeroporto.

No mês passado, surgiram relatos de um vazamento no sistema de vistos da Somália, que expôs dados de cerca de 35 mil pessoas, incluindo alguns colombianos que viajaram para o Sudão.

“Temos que investigar, e estamos fazendo isso”, disse à AFP o assessor de segurança nacional da Somália, Awes Hagi Yusuf, que destacou a necessidade de provas sólidas e de manter boas relações com os Emirados.

O ministro da Defesa somali declarou ao Parlamento que aviões voaram de Bosaso “em direção ao Chade e ao Níger, com destino ao oeste do Sudão”.

Um morador que frequenta o aeroporto a trabalho disse ter visto, entre março e julho, grupos de estrangeiros de pele clara, de “entre 30 e 40 anos, com porte militar, alinhados e transportados em aviões de carga”. Ele afirmou que eram escoltados com frequência a uma área do aeroporto que abriga militares dos Emirados.

Ali Jama, outro morador local, disse ter visto em abril estrangeiros com equipamento tático embarcarem em uma aeronave de carga.

Imagens de satélite e rastreadores de voo mostram uma atividade constante de aviões Ilyushin IL-76D nessa pista, iguais a outros identificados pela AFP em bases aéreas nos Emirados e na Líbia.

Várias famílias de mercenários colombianos mortos no Sudão lutam para receber um suposto seguro de vida, uma esperança que as afasta de entrevistas.

– Rota do dinheiro –

Na semana passada, os Estados Unidos sancionaram o ex-coronel Quijano e sua mulher, Claudia Oliveros, por serem figuras-chave de uma “rede transnacional” que recruta colombianos “para lutar ao lado do grupo paramilitar sudanês”.

“Desde setembro de 2024, centenas de ex-militares colombianos viajaram ao Sudão para lutar ao lado das FAR”, afirmou o Departamento do Tesouro, destacando que alguns deles treinaram menores de idade para o combate.

O ex-major Omar Rodríguez fundou a A4SI como uma agência de emprego em 2017. Ele buscou se associar a Quijano porque o ex-coronel tinha conexões melhores nos Emirados, explicou. Em 2022, endividado, Rodríguez vendeu suas ações à mulher de Quijano, atual proprietária da agência.

O ex-major conversou com a AFP em uma tentativa de limpar seu nome de uma operação “ilegal” de “tráfico” de pessoas que pretende “colocar 2.500 homens” no Sudão.

A AFP obteve 26 documentos assinados por colombianos na Líbia, nos quais eles autorizam a empresa emiradense GSSG a pagar seus salários por meio de uma empresa registrada no Panamá por Claudia Oliveros. Um contrato como “guarda de segurança” adverte sobre consequências “civis e penais” nos Emirados em caso de quebra de confidencialidade.

Registros corporativos emiradenses de 2018 mostram o empresário Mohamed Hamdan Alzaabi como proprietário da GSSG, descrita em seu site como “único fornecedor de serviços de segurança privada armada para o governo dos Emirados”.

A GSSG retirou recentemente de seu site uma seção que listava três dos seus clientes: o Ministério do Interior dos Emirados, a chancelaria e o Ministério de Assuntos Presidenciais.

Nem a GSSG nem suas redes associadas na América Latina, como a A4SI, aceitaram falar com a AFP.

– ‘Pessoas muito poderosas’ –

Os Emirados Árabes negam sua participação na guerra por meio de apoio aos paramilitares, apesar de relatórios de especialistas da ONU, parlamentares americanos e organizações internacionais apontarem o contrário.

“Os Emirados negam categoricamente qualquer acusação de terem fornecido, financiado, transportado ou facilitado” recursos para alimentar o conflito “por meio de qualquer canal ou corredor”, respondeu um funcionário consultado sobre a investigação.

Segundo diplomatas e analistas, o país tem interesse em jazidas de ouro, terras agrícolas e na posição estratégica do Sudão, com uma extensa costa no Mar Vermelho.

O Congresso da Colômbia aprovou recentemente uma lei que proíbe o recrutamento de mercenários, após décadas de relatos sobre ex-militares envolvidos em conflitos como os do Haiti, Afeganistão e da Ucrânia.

Mas a medida chegou tarde para um jovem de 25 anos morto em combate no Sudão no fim de 2024. “As cinzas já chegaram à Colômbia”, disse à AFP uma mulher, que se identificou como sua prima.

 

Fonte: BBC News África/SWI swissinfo.ch

 

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