Como
Países Baixos se tornaram terceiro maior exportador de alimentos do mundo
apesar do território pequeno
Centenas
de pés de tomate crescem protegidos por uma grande estrutura de vidro. Mas esta
não é uma estufa comum.
Desde
os níveis de gás até a cor da luz, cada variável é monitorada por sensores que
enviam as informações para computadores que, por sua vez, rodam algoritmos
refinados com inteligência artificial.
O
resultado é uma produção até cinco vezes maior do que a de uma estufa de baixa
tecnologia na América Latina.
As
plantas estão localizadas no campus da Universidade e Centro de Pesquisa de
Wageningen (WUR), nos Países Baixos, um centro de renome mundial para pesquisa
em produção de alimentos.
A
universidade fica no coração do chamado Food Valley ("Vale
da Alimentação", em tradução literal do inglês), um complexo de centros de
pesquisa que permitiu que os Países Baixos se tornassem o terceiro maior
exportador de alimentos do mundo (em valor monetário) com um território de
pouco mais de 41.000 km², 70 vezes menor que a Argentina.
Como
isso foi possível? A BBC Mundo (serviço em língua espanhola da BBC) conversou
com especialistas da Universidade de Wageningen, incluindo pesquisadores
latino-americanos, sobre inovações na produção de alimentos no país, possíveis
aplicações na América Latina e o grande desafio para os Países Baixos: reduzir
o consumo de energia e aumentar a sustentabilidade.
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Condições favoráveis
Tanto o
clima quanto a localização geográfica favorecem os Países Baixos, afirma à
reportagem o cientista Leo Marcelis, chefe do grupo de Horticultura e
Fisiologia Vegetal da Universidade de Wageningen.
"Temos
um clima razoável e água em abundância. Temos um clima marítimo; os verões não
são muito quentes e os invernos não são extremamente frios", aponta ele.
O país
também tem milhões de potenciais consumidores europeus nas proximidades,
acrescenta Marcelis, e o maior porto de transbordo da Europa Ocidental para o
setor agrícola, Roterdã.
Entre
os principais produtos exportados estão vegetais, carne, laticínios, plantas
ornamentais e flores. Os maiores mercados são Alemanha, Bélgica, França e Reino
Unido, entre outros.
Grandes
quantidades de matéria-prima também são importadas para processamento e
exportação.
Os
Países Baixos são um dos principais exportadores mundiais de produtos de cacau,
por exemplo, e o maior importador de grãos de cacau, que são processados em produtos
semiacabados, como pasta de cacau, manteiga e cacau em pó,
para exportação.
Marcelis
enfatiza que, historicamente, a produção agrícola no país também tem sido
caracterizada por uma tradição de abertura.
"Há
um aspecto muito importante que talvez nos diferencie de muitos outros países:
a colaboração e a cooperação."
A troca
de experiências entre os agricultores é uma tradição secular, evidente nos
leilões de hortaliças e flores e nas cooperativas de produtores.
"Os
agricultores costumam se encontrar semanalmente. Eles visitam as fazendas uns
dos outros para ver as plantações e aprender uns com os outros."
E essa
troca é facilitada pelas curtas distâncias entre eles.
"Nosso
país é muito pequeno. Aqui na universidade, estamos mais ou menos no centro da
rede. Em duas horas de carro, você pode chegar ao ponto mais ao sul ou ao
extremo norte do país; para o oeste, não posso dirigir duas horas porque
chegaria ao mar antes disso; e para o leste, em meia hora você está na
Alemanha."
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'Todo um ecossistema' de inovação
Para
além das condições geográficas ou das tradições, o sistema de produção de
alimentos nos Países Baixos é movido por uma inovação constante.
"Aqui
temos a universidade, mas também empresas derivadas da universidade, muitas
vezes fundadas por pessoas que trabalham na universidade ou por alunos que
criaram suas próprias empresas e querem manter-se conectados a
Wageningen", explica Marcelis.
"No
campus, também temos os departamentos de pesquisa de grandes empresas como a
Unilever ou a FrieslandCampina, que é uma das principais cooperativas de
laticínios. Você se encontra, portanto, cercado por todo um ecossistema
aqui."
A
universidade recebe financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa dos Países
Baixos.
Mas
"muitas das verbas nacionais só conseguimos obter em cooperação com uma
empresa, que, por sua vez, tem de arcar com parte dos custos da pesquisa".
"Isso
significa que, se pesquisamos algo, precisa estar relacionado ao que as
empresas consideram relevante, o que nos obriga a colaborar com elas para
facilitar a transferência dos resultados para os agricultores. Claro que também
temos financiamento para pesquisa puramente fundamental."
Os
projetos, acrescenta Marcelis, exigem um acordo inicial com cada empresa.
"São
estabelecidas regras sobre o grau de transparência ou confidencialidade dos
resultados e sobre quando eles podem ser publicados, algo que, para nós como
universidade, é importante: fazer boa ciência. E, claro, também existem acordos
sobre direitos de propriedade intelectual."
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Estufas com sensores
Esse
ecossistema fomentou inúmeras inovações na produção agrícola do país, desde
drones e escaneamento do solo para o uso inteligente de fertilizantes em
cultivos a céu aberto até estufas de alta tecnologia.
Em
estufas, "em Wageningen, desenvolveram um sistema tão eficiente que
permite rendimentos de até 100 kg de tomates por metro quadrado por ano",
afirma à BBC Mundo a cientista mexicana Cristina Zepeda, professora associada
de fitotecnia em Wageningen.
"Em
uma estufa no México, sem muita tecnologia, talvez com alguma tela de
sombreamento, a produção gira em torno de 20 kg por metro quadrado por
ano."
O
cientista brasileiro Nilson Vieira Junior, professor associado em Wageningen
especializado em fisiologia vegetal e modelagem computadorizada de culturas,
disse à reportagem que, nas estufas dos Países Baixos, "o uso da terra
praticamente desapareceu".
"As
plantas são cultivadas em substratos, o que permite maior controle do
fornecimento de nutrientes e possibilita a reutilização quase completa da água
de irrigação, aumentando significativamente a eficiência do uso da água e
reduzindo drasticamente o impacto ambiental e a poluição gerada na produção de
alimentos", afirma.
"Esses
sistemas permitem o controle preciso das condições ambientais às quais as
plantações são expostas, incluindo temperatura, níveis de CO2 (dióxido de
carbono), umidade relativa e radiação."
Cada
variável, como a cor da luz, é monitorada por sensores, diz Zepeda.
"Temos
luzes LED de diferentes cores que permitem que as plantas produzam mais.
As
plantas possuem certos pigmentos que percebem diferentes cores, como vermelho,
infravermelho e azul, e esses pigmentos sinalizam certas moléculas para iniciar
a produção de diferentes compostos", explica a cientista.
"Com
uma luz mais vermelha, por exemplo, a produção de pigmentos como antocianinas
ou licopeno é ativada. Podemos moldar a planta para produzir os compostos que
mais nos interessam."
"Realizamos
extensos experimentos com luzes de diferentes cores e medimos como os níveis de
açúcar, licopeno e amido mudam com diferentes porcentagens de luz azul ou
vermelha."
Vieira
Junior observa que uma das principais áreas de pesquisa atual é a criação de
sistemas autônomos.
"Esses
sistemas combinam sensores que monitoram variáveis climáticas
e o estado fisiológico das plantas com modelos de simulação
de crescimento de culturas", diz ele.
"Com
o auxílio da inteligência artificial, esses sistemas não apenas recomendam
estratégias de manejo mais eficientes, mas também controlam automaticamente o
clima e a operação da estufa."
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O principal gargalo: energia
Marcelis
afirma que o próximo passo no controle de variáveis será
abandonar as estufas e adotar fazendas verticais em ambientes fechados,
completamente independentes das condições externas ou da luz
solar.
Esses
sistemas se tornarão mais comuns no futuro, acrescenta ele, mas, assim como as
estufas, exigem grandes quantidades de energia.
"O
consumo de energia é o principal gargalo, e é por isso que grande parte de
nossa pesquisa se concentra nesse aspecto", destaca Marcelis.
Para a
professora Zepeda, "o maior desafio aqui nos Países Baixos é que uma
enorme quantidade de energia é usada para aquecer estufas, porque temos um
clima muito frio. Então, precisamos queimar gás natural e acender luzes
adicionais."
"A
horticultura representa 10% do consumo nacional de gás do país. É muito caro, e
o governo já declarou que não se poderá usar mais gás até 2050. Tudo terá que
vir de fontes renováveis", ela acrescenta
Zepeda
pesquisa atualmente como reduzir o consumo de energia fazendo com que as
plantas funcionem como "baterias".
A
energia renovável flutua dependendo das condições do vento e da radiação solar,
e o consumo de energia na estufa também pode flutuar, explica ela.
"As
plantas crescem na natureza com noites mais frias e dias mais quentes, e
conseguem suportar mudanças de temperatura e luz sem perder muita
produtividade. E se, por exemplo, houver excesso de produção de eletricidade e
ela for mais barata, é aí que dizemos: 'Ok, vamos aquecer a estufa'."
"Precisamos
dar à planta a oportunidade de acumular suas reservas de açúcar se o dia
estiver muito ensolarado, e se previrmos que amanhã estará um pouco mais frio,
podemos forçar a planta a usar esses açúcares."
Usar
plantas como baterias exige medir constantemente com sensores quanta
fotossíntese elas estão realizando, quanto açúcar estão produzindo e até mesmo
modelos computacionais mais avançados.
"É
nisso que nosso grupo está concentrando grande parte da pesquisa
atualmente."
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IA na pecuária
Uma das
inovações impulsionadas por Wageningen na pecuária é a redução das emissões de
metano de animais ruminantes, como vacas e ovelhas.
Esse
metano, um potente gás de efeito estufa, é gerado durante a fermentação dos
alimentos no trato digestivo dos animais e liberado principalmente por meio de
arrotos ou fezes.
"Alguns
animais produzem mais metano do que outros, e isso se deve em parte a fatores
genéticos", disse à BBC Mundo o professor Roel Veerkamp, chefe do Departamento
de Melhoramento Animal e Genômica da Universidade
de Wageningen e líder da iniciativa Global Methane Genetics, um projeto com
mais de 50 parceiros em 25 países, incluindo
programas na África e na América Latina.
"Selecionar
animais com baixas emissões em programas de melhoramento genético para a
próxima geração reduzirá significativamente as emissões ao longo do
tempo."
Veerkamp
afirma que uma redução
de 25% nas emissões em 25 anos é uma meta realista.
Outra
prioridade é melhorar o bem-estar animal.
Veerkamp
e seus colegas usam inteligência artificial para interpretar imagens e vídeos
de animais.
"Gravamos
vídeos de galinhas e vacas em grupos, ou de vacas individualmente caminhando em
frente a uma câmera. A partir dos vídeos, usamos IA para monitorar seu
comportamento: o quanto se movem, se se movem normalmente ou se têm problemas
nas patas, se descansam o suficiente ou se movem muito pouco", explica.
"Com
base nesses dados, desenvolvemos medidas para monitorar ou melhorar o bem-estar
animal."
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De Wageningen à América Latina
Todos
os anos, pessoas de todo o mundo frequentam os cursos da escola de verão de
Wageningen, incluindo o curso de estufas de alta tecnologia, que começa em 31
de agosto.
As
estufas nos Países Baixos exigem um investimento significativo, mas Zepeda
afirma que alguns elementos dessa tecnologia podem ser aplicados em regiões
como a América Latina.
Um
deles é a hidroponia, ou irrigação por gotejamento. "Aqui a água não é o
problema, mas é na América Latina", ela destaca.
Outra
opção é o uso de luz adicional de diferentes cores para ajudar as plantas a
produzirem mais.
Mas
tanto Zepeda quanto Vieira concordam que as soluções devem ser adaptadas a cada
contexto específico.
"É
importante ressaltar que não se trata de um simples processo de 'copiar e
colar'", afirma Vieira.
"Um
exemplo claro é o controle climático em estufas. Nos Países Baixos, o principal
desafio é aquecer o ambiente e fornecer luz artificial para compensar a baixa
radiação solar durante o inverno.
Na
América Latina, especialmente nas regiões tropicais, o desafio é praticamente o
oposto: reduzir as temperaturas excessivas e melhorar o aproveitamento da alta
disponibilidade de radiação solar.
Uma
possível tecnologia que poderia ser transferida, segundo Zepeda, é a parede
úmida ou sistema de resfriamento ativo, no qual a ventilação é feita pela
passagem de água fria através de mantas em uma extremidade da estufa e pela
instalação de um exaustor na outra extremidade para recircular o ar frio.
Para
Vieira, "o principal valor das inovações desenvolvidas em Wageningen
reside não na sua replicação direta, mas na sua adaptação inteligente, que
contribui para sistemas agrícolas mais eficientes, resilientes e sustentáveis na América
Latina".
Na
América Latina, os maiores desafios são diferentes.
"Com
uma população crescente, teremos que aumentar a produção de alimentos,
preservando os recursos naturais e promovendo a inclusão socioeconômica de
produtores com diferentes perfis, desde agricultores familiares até grandes
produtores", destaca Vieira.
"Precisamos
ser capazes de aumentar a produção de alimentos preservando simultaneamente os
recursos naturais e promovendo a inclusão socioeconômica de produtores com
diferentes perfis, desde agricultores familiares até grandes produtores",
observa ele.
"Um
dos principais desafios será produzir de forma mais eficiente e rentável, sem a
necessidade de expandir as fronteiras agrícolas para preservar a
biodiversidade."
"Além
disso, há uma crescente necessidade de promover sistemas de agricultura
regenerativa que não apenas minimizem os impactos ambientais, mas também
contribuam para a recuperação de áreas degradadas."
Zepeda
destaca que, enquanto no passado o foco era produzir calorias suficientes,
agora a questão é: como garantir que todos tenham os nutrientes necessários?
Com as
mudanças climáticas e as secas, acrescenta, é muito mais difícil produzir em
campo aberto para fornecer esses nutrientes à população.
"Estamos
ficando sem água e solo, e há muitos eventos climáticos extremos."
A
produção intensiva nos Países Baixos pode indicar um caminho a seguir.
"Vejo
que a horticultura tem um valor imenso", diz Zepeda. "Porque com uma
estufa você pode produzir mais em uma área menor e proteger suas
plantações", ressalta ela.
"O
desafio, claro, é como adaptar a tecnologia à situação em cada parte do
mundo."
Fonte:
BBC News Mundo

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