O
peso da comparação: o complexo de inferioridade na nova geração
Nas
redes sociais, as aparentes vidas perfeitas vendem a ideia de que muitos
chegam, mas alguns outros, não. As impecáveis rotinas, quase que inalcançáveis,
carregam uma face oculta: uma parcela da população luta contra o peso de se
sentir incapaz. Entre o real e a idealização, nasce o complexo de
inferioridade, que é definido pela dificuldade de ser aceito ou reconhecido
socialmente, além de não conseguir se encaixar em determinados padrões.
Assim,
essa espécie de vulnerabilidade, que, vez ou outra, é comum às pessoas, pode
não ser um incômodo passageiro. Segundo o psicólogo Edilson Oliveira, o
conceito, explorado inicialmente por Alfred Adler, define uma percepção de
vulnerabilidade que, muitas vezes, nasce ainda na infância. "É um
sentimento recorrente em que a pessoa se percebe com dificuldade de atingir
lugares compreendidos como ideais dentro de um grupo social", explica o
especialista.
Na
prática, esse quadro se manifesta por meio de uma visão profundamente negativa
de si mesmo, dificultando inclusive o acolhimento de elogios. Para Gabrielly
Oliveira (nome fictício), 20 anos, essa realidade é um peso cotidiano. De
acordo com a jovem, o complexo a acompanha desde o ensino médio, alimentado
pelo distanciamento entre sua rotina e o que vê nas telas no dia a dia.
Play
Video
"Sempre
me senti inferior com relação às garotas da minha escola por ter sobrepeso.
Tenho redes sociais e chega, às vezes, a ser uma tortura abrir. Você vê
mulheres com corpos perfeitos e jovens de 15 anos faturando milhões e se
pergunta: o que estou fazendo de errado? Tem gente que levanta para correr
cedo, vai almoçar em restaurantes caros e lê livros em cafeteria. Às vezes, mal
consigo respirar", desabafa.
Para
sanar essa sensação de impotência, Gabrielly desativou as redes sociais e tenta
não se comparar tanto com as outras pessoas. Além, é claro, de ter buscado
ajuda terapêutica. Mesmo ausente na internet, ainda confessa dificuldades fora
das telas, uma vez que os dilemas antes vividos no mundo virtual já se
internalizaram. Assim, os desafios em se comunicar persistem, mas aos poucos
está conseguindo melhorar.
<><>
As faces do complexo
A
origem desse sentimento costuma estar, geralmente, atrelada a ambientes
familiares de alta cobrança ou superproteção. Segundo Edilson Oliveira, quando
figuras de influência exercem críticas constantes, a insegurança é
interiorizada e reproduzida em outros contextos sociais. Isso, de certo modo,
pode gerar dois comportamentos opostos: a insegurança paralisante, na qual se
busca reconhecimento constante, ou a aparência de controle excessivo e
superioridade, usada como mecanismo de defesa para esconder a sensação de não
estar à altura dos demais.
Com
isso, a transição da infância para a fase adulta também altera a forma como o
quadro se manifesta. Enquanto crianças podem apresentar comportamentos
regredidos, agressividade e medo de errar, os adultos tendem a buscar alívios
imediatos em válvulas de escape. "A diferença está na maturidade do
processo. Uma criança ansiosa pode ter enurese noturna, já o adulto tende a
responder comendo ou utilizando substâncias químicas para buscar uma satisfação
imediata de alívio", detalha Edilson Oliveira.
Apesar
de o complexo de inferioridade não ser um diagnóstico nosológico (de descrição
com CID), ele é um fenômeno presente na experiência da subjetividade humana que
vai influenciar no desenvolvimento pessoal e que precisa ser compreendido e
trabalhado dentro de um contexto de psicoterapia, para superação do quadro e
tratamento adequado. "O agravamento pode se dar no desenvolvimento de
quadros depressivos ou ansiosos de moderados a graves, impactando negativamente
em atividades que envolvem exposição, decisões, enfrentamento de
situações."
De
acordo com o doutor em psicologia Vladimir Melo, quando o complexo de
inferioridade se converte em autossabotagem e excessivo controle, a pessoa pode
desenvolver uma forma rígida de se relacionar, evitando qualquer possibilidade
de conflito, ou buscar insistentemente validação dos outros. "O prejuízo é
essencialmente social e pode levar ao isolamento, pois o excesso de demandas
provoca sobrecarga nos mais próximos", alerta o especialista.
Um
combustível para o agravamento do quadro são, sem dúvidas, as redes sociais.
Estar exposto a comentários críticos que desqualifiquem ou comparem podem
desencadear esse tipo de complexo, além de agravá-lo. Segundo o profissional,
pessoas mais expostas correm um risco maior, mas é preciso levar em
consideração a história pessoal e o contexto em que cada um está inserido.
Para
que o paciente consiga se desvencilhar desse sentimento, a melhor maneira é
compreender em quais ambientes essa pessoa se coloca e quais os padrões de
relação que ela construiu. "De modo geral, ela tende a reproduzir esse
espaço de críticas excessivas. A psicoterapia e, eventualmente, um tratamento
psiquiátrico podem contribuir para desenvolver a confiança necessária e, assim,
estabelecer relações saudáveis", acrescenta Vladimir.
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário