Malafaia
critica pastora que incentiva mulheres a denunciarem violência doméstica
Um
trecho com a pregação da pastora Helena Raquel, realizado durante o 41º
Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora,
onde ela incentiva as mulheres a denunciarem violência doméstica e critica
igrejas que silenciam diante de tais casos, viralizou nas redes.
No
corte que viralizou nas redes, a pastora afirma:
“Pare
de orar por ele hoje e comece a orar por você. Você precisa ter coragem para
sair, denunciar e buscar um lugar seguro. E não acredite em pedidos de
desculpas, porque quem agride mata.”
Em
outro momento, a pastora Helena criticou o silêncio de líderes religiosos
diante dos crimes de pedofilia e violência motivada por gênero:
“Pedófilo
não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na
mesma figura um pastor e um abusador. Ou é pastor, ou é abusador.”
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Malafaia ataca pastora: “safadeza”
Aos
gritos, o pastor Silas Malafaia surgiu em um vídeo nesta sexta-feira (8), onde
afirma concordar com o alerta da pastora Helena Raquel, mas a acusou de
generalizar e classificou o discurso da religiosa como uma “tremenda safadeza
em ano eleitoral”.
“Vir
com essa conversa de que na igreja evangélica se bate, [de que] as mulheres
sofrem mais violência do que lá fora, falácia! Safadeza para nos denegrir
diante da opinião pública. Jogar a opinião pública contra pastores e a igreja.
Esse que é o jogo e eu não vou me calar!”
Malafaia
continua e acusa a pastora de “conversa fiada”:
“Vamos
deixar conversa fiada. Não estou criticando a mensagem da pastora. Concordo.
Tem que denunciar o pecado e eu faço isso. Agora, vir pra cá, querer
generalizar, como se a igreja evangélica cobrisse homens que são espancadores
de mulheres, aí não, essa não dá não e eu não vou engolir essa, porque é uma
tremenda safadeza no ano eleitoral para nos denegrir diante da opinião pública.
Tenho dito!”
• Quem é Helena Raquel, pastora que
incentiva evangélicas a denunciarem maridos abusadores
A
pastora Helena Raquel tem se consolidado como uma das vozes mais contundentes e
respeitadas do cenário evangélico brasileiro contemporâneo. À frente da
Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), no Rio de Janeiro, ao lado do
marido, o pastor Eleomar Dionel, com quem é casada há mais de 25 anos, Helena
construiu sua trajetória a partir de pregações marcadas por intensidade
emocional e clareza de posicionamento. Sua atuação ultrapassa os púlpitos
tradicionais e alcança grandes congressos e plataformas digitais, onde dialoga
com milhares de seguidores.
Durante
o Congresso Internacional de Missões dos Gideões, realizado em Camboriú (SC),
na tarde deste sábado (02), a pastora fez um apelo direto e sem concessões. Em
um ambiente historicamente marcado por reverência às lideranças (em sua
maioria, homens), Helena rompeu com a lógica da proteção institucional ao
afirmar que “não existe unção que justifique abuso” e que qualquer autoridade
espiritual que agride “não representa Deus”. Sua mensagem não apenas confrontou
comportamentos individuais, mas também questionou estruturas que, muitas vezes,
encobrem violências em nome da fé.
A
repercussão foi imediata. Trechos de sua pregação circularam amplamente nas
redes sociais, acompanhados de debates intensos entre fiéis, líderes e críticos
do meio evangélico. Ao incentivar vítimas a denunciarem seus agressores e
buscarem proteção (inclusive citando canais como os números 100 e 180), Helena
tocou em uma ferida profunda: a cultura do silêncio dentro de comunidades
religiosas.
Mais do
que uma fala pontual, seu posicionamento revela uma linha de atuação
consistente. Em suas redes sociais, a pastora reforçou a mensagem com um texto
incisivo, no qual afirma que “pecado não se protege, se confronta”. A
declaração sintetiza uma mudança de abordagem que vem ganhando espaço entre
lideranças evangélicas mais sensíveis às questões sociais: a recusa em
relativizar violência sob justificativas espirituais.
Outro
aspecto que fortalece sua imagem pública é a coerência entre discurso e
prática. Recentemente, ela e seu marido adotaram Maria Clara, uma jovem de 18
anos. A decisão chama atenção por romper com um padrão ainda predominante no
Brasil, onde a maioria das adoções se concentra em crianças pequenas. Ao optar
pela chamada adoção tardia, o casal não apenas ampliou sua família, mas também
levantou um debate relevante sobre acolhimento, responsabilidade social e amor
cristão na prática.
Helena
também não hesita em criticar práticas comuns em algumas igrejas que, segundo
ela, acabam perpetuando ciclos de violência. Ao alertar mulheres para que não
confiem apenas em pedidos de desculpa de agressores: “quem agride pode matar”,
ela confronta uma cultura que, por décadas, incentivou a manutenção de
relacionamentos abusivos em nome da preservação da família.
No
cenário evangélico brasileiro, marcado por sua diversidade e complexidade,
figuras como Helena Raquel representam uma transição em curso. Sua liderança
combina elementos clássicos, como a defesa da fé e da autoridade bíblica, com
uma postura contemporânea diante de questões sociais urgentes. Ao afirmar que a
igreja precisa voltar a ser “lugar de cura, não de medo”, ela aponta para um
ideal que resgata a dimensão acolhedora da fé, sem ignorar suas
responsabilidades éticas.
Entre
púlpitos, congressos e redes sociais, a pastora constrói uma trajetória que vai
além da pregação tradicional. Sua voz, hoje amplificada, ecoa em um momento em
que instituições religiosas são cada vez mais cobradas por transparência e
responsabilidade. E, ao que tudo indica, ela não pretende recuar.
Ao
contrário: sua mensagem é clara, direta e difícil de ignorar. Onde há silêncio,
ela propõe denúncia. Onde há medo, ela insiste em coragem. E onde há abuso, ela
afirma, sem rodeios, que não há Deus que o justifique.
• Frei Gilson é denunciado ao MPSP por
falas contra gays e mulheres
Frei
Gilson da Silva Pupo Azevedo foi denunciado ao Ministério Público de São Paulo
por supostas falas discriminatórias contra pessoas LGBT+ e mulheres. A
representação foi apresentada por Brendo Silva, ex-noviço, jornalista e
escritor, e aponta declarações feitas pelo sacerdote em homilias, entrevistas e
redes sociais. O caso ocorre em São Paulo e agora depende de análise do MPSP
para eventual abertura de apuração.
A
informação foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles. Até a publicação
desta reportagem, não havia divulgação pública localizada do MPSP sobre
eventual instauração de procedimento. Por isso, a denúncia deve ser tratada
como representação em análise, e não como ação penal, investigação formal
concluída ou condenação.
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Frei Gilson é acusado de associar homossexualidade a “depravação grave”
Segundo
o teor da denúncia relatado pelo portal, a representação afirma que Frei Gilson
teria usado, em conteúdos religiosos, termos como “homossexualismo” e associado
a homossexualidade a expressões como “desordem”, “contrariedade à lei natural”
e “depravação grave”. Para Brendo Silva, as falas ultrapassariam o campo da
manifestação religiosa e reforçariam estigmas contra pessoas LGBT+.
“Liberdade
religiosa não é liberdade para odiar.”
A frase
aparece em trecho atribuído à denúncia. Brendo sustenta que discursos
religiosos de grande alcance não podem naturalizar a ideia de inferioridade,
doença ou desvio em relação à orientação sexual de pessoas LGBT+.
A
representação também afirma que o impacto das falas deve ser analisado no
contexto brasileiro de violência contra minorias sexuais e de gênero. O Disque
100, canal nacional de denúncias de violações de direitos humanos, recebe
registros relacionados à população LGBTQIA+ e é operado pela Ouvidoria Nacional
dos Direitos Humanos.
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Denúncia contra Frei Gilson também cita falas sobre mulheres
A
denúncia contra Frei Gilson também menciona declarações sobre mulheres. Em
abril, vídeos de uma pregação do sacerdote voltaram a gerar reação política nas
redes sociais. A Fórum mostrou que a senadora Soraya Thronicke reagiu com
dureza às declarações do religioso, chamou o frei de “falso profeta” e
classificou a fala como ataque às mulheres.
O
histórico de controvérsias em torno do religioso não é recente. Em março de
2025, a Fórum publicou vídeo em que Frei Gilson defende a submissão das
mulheres aos homens, em discurso que provocou forte reação nas redes sociais.
A nova
denúncia amplia a pressão sobre Frei Gilson porque reúne, em uma mesma
representação, falas atribuídas ao religioso sobre sexualidade, mulheres e
papéis de gênero.
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O que o MPSP pode analisar no caso Frei Gilson
O MPSP
mantém canais digitais para recebimento de denúncias e notícias de fato por
meio do Atendimento ao Cidadão e à Cidadã. A análise inicial pode verificar se
há elementos mínimos para apuração, se os vídeos e declarações citados existem,
qual foi o contexto das falas e se há indícios de prática discriminatória.
O
Ministério Público paulista também possui o Gecradi, grupo que atua na
identificação, prevenção e repressão de delitos de intolerância, preconceito e
discriminação contra pessoas ou grupos.
A
eventual tramitação da representação não significa culpa do religioso. Em casos
desse tipo, o órgão pode pedir complementação de informações, encaminhar o
material ao setor competente, instaurar procedimento ou arquivar a notícia caso
entenda que não há base para apuração.
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STF enquadrou homofobia e transfobia na Lei do Racismo
O
principal marco jurídico nacional para casos de LGBTfobia é a decisão do
Supremo Tribunal Federal que, em 2019, enquadrou a homofobia e a transfobia
como crimes de racismo até que o Congresso aprove legislação específica. A
decisão foi tomada no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade por
Omissão 26 e do Mandado de Injunção 4733, conforme informou o STF.
A Fórum
acompanhou a decisão do STF que criminalizou a homofobia e a transfobia no
Brasil. O entendimento segue como referência para debates sobre discursos
discriminatórios contra pessoas LGBTQIA+.
Em São
Paulo, a Lei Estadual 10.948/2001 pune manifestações atentatórias ou
discriminatórias praticadas contra cidadãos homossexuais, bissexuais ou
transgêneros. No município de São Paulo, a Lei 17.301/2020 veda discriminação
em razão de orientação sexual ou identidade de gênero.
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Alcance digital de Frei Gilson aumenta repercussão da denúncia
Frei
Gilson é um dos religiosos brasileiros de maior alcance nas redes sociais. Seu
canal oficial no YouTube reúne pregações, músicas e transmissões de oração. Ele
também lidera o ministério Som do Monte, citado no portal oficial dos
Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo.
Esse
alcance é um dos pontos centrais da repercussão. A denúncia não mira apenas
falas privadas, mas declarações atribuídas a um sacerdote com audiência
massiva, capaz de influenciar debates religiosos, políticos e culturais.
Frei
Gilson ganhou projeção nacional com transmissões ao vivo de orações na
madrugada, especialmente o rosário, e passou a ocupar espaço crescente no
debate público. Nos últimos anos, suas falas sobre comportamento, família,
sexualidade e política passaram a provocar reações fora do campo religioso.
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Quem é Brendo Silva
Brendo
Silva é jornalista, escritor e ex-integrante de ambientes religiosos. Segundo a
denúncia, ele afirma ter convivido por mais de uma década em espaços
eclesiásticos, incluindo seminários, e diz ter presenciado contradições entre
discursos públicos de exclusão e a presença de pessoas LGBT+ dentro da própria
estrutura da Igreja.
Na
representação, Brendo sustenta que a liberdade religiosa deve ser protegida,
mas não poderia servir como escudo para falas que, na avaliação dele, reforçam
preconceito contra gays, mulheres e outros grupos vulnerabilizados.
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O que diz Frei Gilson
Até o
fechamento desta reportagem, não havia manifestação pública localizada de Frei
Gilson sobre a denúncia ao MPSP. O site Metrópoles informou que procurou a
defesa do religioso, mas não obteve retorno até a publicação original.
O
espaço segue aberto para manifestação de Frei Gilson ou de sua defesa.
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Violência contra mulheres e pessoas LGBT+ pesa no debate
A
denúncia também se insere em um cenário de alta violência contra mulheres no
Brasil. A Fórum mostrou os dados por trás do feminicídio no país, com base em
levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que registrou 1.568
mulheres assassinadas em 2025.
São
Paulo também enfrenta escalada nos indicadores. A Fórum mostrou que as vítimas
de feminicídio aumentaram 96% em quatro anos no estado, que é justamente o
local onde a representação contra Frei Gilson foi apresentada.
Para
Brendo Silva, esse contexto reforça a necessidade de responsabilização de
discursos públicos que possam alimentar exclusão, inferiorização ou hostilidade
contra grupos historicamente atingidos por violência.
A
análise do MPSP deverá definir se a representação contra Frei Gilson tem
elementos para avançar. Até lá, o caso permanece como denúncia apresentada ao
Ministério Público e sem decisão pública conhecida.
Fonte:
Fórum

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