A
sexualidade como dimensão material
A
sociedade brasileira – nascida a partir de um projeto colonial – sempre se
organizou em torno da espoliação e do roubo da riqueza produzida. A exploração
colonial impôs formas específicas de organização social no território que viria
a ser chamado de Brasil, sustentadas por formas de explicar o mundo destinadas
a legitimar o projeto político do colonizador.
Desde a
chegada dos primeiros invasores, a exploração do trabalho esteve articulada a
critérios socialmente construídos que hierarquizam pessoas e grupos, definindo
quem pode ocupar determinados lugares, quem é reconhecido como legítimo e quem
pode ser tratado como excedente (seres descartáveis) ou ameaça a um projeto
político-econômico específico. Essas dinâmicas estruturais não permanecem
confinadas ao plano da formação histórica ou das abstrações teóricas, pois elas
ecoam em práticas políticas concretas do presente, modos de organização e
relações cotidianas, inclusive no interior dos campos que se reivindicam
emancipatórios.
Escreve-se
aqui desde uma posição situada no campo da esquerda, no interior do debate
sobre suas potencialidades de se afirmar como força transformadora. A posição
que sustenta este texto se ancora em experiências vividas e testemunhadas
dentro desse campo, nas quais práticas reiteradas de discriminação, violências
diversas e silenciamento atingiram não apenas quem escreve, mas também dezenas
de outros militantes e ativistas.
Em
muitos desses contextos, tais práticas operaram de forma não nomeada ou
publicizada, produzindo processos persistentes de hostilização que afetaram a
integridade subjetiva e, por vezes, física de ativistas e militantes. A partir
dessa posição, tornam-se visíveis contradições políticas que fazem parte de
algumas correntes das esquerdas, contradições que não podem ser tratadas como
de menor importância em um contexto no qual a extrema direita não somente se
posiciona de forma contundente sobre essas questões, mas as mobiliza ativamente
como eixo de agitação, organização e produção de coesão política.
Longe
de serem apenas resíduos do passado, os mecanismos coloniais continuam operando
no presente, organizando vínculos, pertencimentos e conflitos concretos na vida
cotidiana, impactando diariamente a concretude das relações sociais, as
acomodações e disputas das forças políticas, em diversos níveis e locais, e
criando as condições reais sobre as quais diferentes projetos passam a disputar
organização, adesão e hegemonia.
É sobre
essa base real que forças alinhadas à direita e à extrema direita têm atuado
historicamente e, de forma mais aberta, desde 2017. A extrema direita não nega
a concretude do processo de formação do povo brasileiro e suas contradições, as
heranças da colonização e as tecnologias sociais de dominação historicamente
constituídas. Ao contrário, a extrema direita assume tudo isso como parte
constitutiva de seus projetos políticos, reconhecendo o papel fundamental dos
supremacismos na organização da vida social e seus enraizamentos contraditórios
no povo brasileiro.
Ao
mobilizar essa concretude, as direitas, e sobretudo as facções de extrema
direita, estruturam lealdades, produzem inimigos internos, reivindicam uma
memória afetiva do seu lugar histórico, buscam reafirmar mitos reacionários de
fundação e constroem formas estáveis de coesão política que repercutem na sua
potência de agrupamento político no presente.
Ressentimentos,
medos e pertencimentos socialmente produzidos não são tratados como efeitos
colaterais pela extrema direita, mas convertidos em matéria-prima
importantíssima da organização política, transformando desigualdades
historicamente construídas em base ativa de agitação, aglutinação e sustentação
interna, articulando de forma orgânica interesses econômicos, projetos de poder
e coesão de massas. Assim, ganham força, a partir de uma análise política mais
assertiva do que parte das esquerdas.
Por
outro lado, práticas supremacistas que se realizam concretamente por meio do
racismo, da normatização das sexualidades e das hierarquias étnico-culturais –
e que organizam a vida social brasileira em múltiplos espaços de relação,
públicos e privados – ainda encontram resistência quando colocadas como objeto
de enfrentamento político em determinados setores das esquerdas.
Trata-se
de um bloqueio persistente, que se mantém em diferentes períodos históricos,
apesar da longa duração dessas opressões e de décadas de lutas e enfrentamentos
protagonizados pelas populações que vivenciam situações específicas de opressão
e espoliação. Persiste, inclusive, apesar dos custos humanos, materiais e
políticos acumulados ao longo desse processo, entre os quais se contam derrotas
sucessivas das próprias esquerdas.
Estaria
a extrema direita mais materialista que as esquerdas? Esse bloqueio das
esquerdas não se expressa somente como desconhecimento, ignorância ou atraso
teórico. Ele se apresenta, no plano da prática política, como um mecanismo de
negacionismo que opera bloqueando deslocamentos históricos necessários à
construção de esquerdas capazes de disputar hegemonia, ao mesmo tempo em que
preserva posições consolidadas e formas estabelecidas de organização e
reconhecimento interno.
Essa
recusa de se posicionar sobre as feridas do perene processo de colonização
assume formas distintas, manifestando-se, por exemplo, em alguns casos, pelo
silenciamento ou pela negação da realidade; em outros, pelo reconhecimento
formal de sua existência, acompanhado da afirmação de que tais questões não
devem ser tratadas politicamente; e, ainda, por incrível que pareça, em alguns
setores minoritários das esquerdas – que atuam muitas vezes sob a lógica de
seitas – na reivindicação ativa e consciente de uma identidade de esquerda que
defende a manutenção de posicionamentos discriminatórios e supremacistas.
A
organização política de esquerda, por sua própria natureza, exige
solidariedade. Mas solidariedade não se decreta, se constrói como vínculo
efetivo, cotidiano, entre pessoas concretas, atravessadas por trajetórias,
valores, crenças, marcas de origem e experiências sociais distintas –
inclusive, obviamente, no terreno da sexualidade, da racialização e das
culturas populares. Quando essas dimensões são tratadas como “anexos”,
silenciadas ou reduzidas a um incômodo a ser administrado, o que se produz é uma
forma de artificialidade na vida interna das organizações e movimentos
populares, pois cria-se uma unidade apenas formal, que não sustenta confiança,
nem pertencimento, nem disposição real de luta.
Do
ponto de vista das organizações dos trabalhadores, por exemplo, isso é
decisivo: vínculos frágeis geram estruturas frágeis, e estruturas frágeis não
resistem às formas combinadas de dominação, exploração, opressão e violência
que atravessam a sociedade brasileira – da exploração do trabalho à
expropriação territorial, da repressão estatal à ofensiva moral e cultural
organizada pelas direitas. Nesse ponto, a questão deixa de ser “um debate” e se
torna também um problema organizativo – exceto, claro, para aqueles que atuam
conscientemente como seitas e têm como horizonte seguir como seitas.
Mas,
desde o ponto de vista das esquerdas que verdadeiramente têm qualquer
compromisso com a emancipação, o que deveria estar em jogo aqui não é apenas um
debate abstrato ou finca-pés sobre purezas epistemológicas, fundamentadas em
dogmatismos, mas a forma como nosso campo político se posiciona diante da vida
concreta do povo brasileiro – não como aplicação de esquemas prévios, mas como
ponto de partida da própria elaboração política. Essa questão poderia – e
deveria – ser tratada desde a ótica de uma ética da esquerda, pois diz respeito
a um posicionamento político elementar de compromisso com os setores
historicamente oprimidos, incontornável para qualquer projeto que se pretenda
emancipatório e transformador.
Em
contextos de atuação política incipiente, a defesa de valores que
desnaturalizem supremacismos pode entrar em tensão com percepções cristalizadas
do senso comum. Assumir esse conflito – mesmo com perdas conjunturais – não é
apenas exigência moral, mas escolha política estratégica. A insistência no
justo, no coerente e no ético, ainda que minoritária em momentos específicos e
localizados, não seria condição para que as esquerdas se consolidem, no longo
prazo, como forças capazes de disputar hegemonia de maneira real e duradoura?
O que
se tenta delinear, a partir do que foi exposto, é a existência de um duplo
problema no interior de algumas correntes ou setores de esquerdas; problemas
distintos, mas profundamente articulados entre si. O mais grave deles diz
respeito à recusa, por parte de alguns setores, de assumir um posicionamento
ético radical e consequente em defesa dos grupos historicamente oprimidos,
mesmo quando se reivindica uma identidade de esquerda.
Essa
recusa não permanece circunscrita ao plano dos valores, ela se desdobra
politicamente na abdicação da disputa concreta sobre essas questões. É aí que
emerge o segundo problema, de grande repercussão político-organizativa: a
produção de um vazio que não permanece neutro e que tem sido sistematicamente
ocupado pela direita e, principalmente, pela extrema direita, com efeitos
profundos sobre a massificação, a coesão e a capacidade de enraizamento nas
massas que têm afinidades com a esquerda.
Em
períodos anteriores, talvez tenha predominado em muitos círculos de esquerda
certo silenciamento sobre a questão racial brasileira e, principalmente, sobre
as sexualidades e identidades de gênero. Em casos mais extremos, esse
silenciamento chegou à formulação de posições que flertam abertamente com o
eugenismo social, seja em ideias esdruxulamente supremacistas que tratam as
sexualidades dissidentes como “degenerações do capitalismo” (sic) ou como
posturas “contrarrevolucionárias” (sic), seja em leituras igualmente
supremacistas que associam a população negra ao atraso (primitivo), à
desorganização ou à incapacidade política. Quando se observa a realidade desde
a experiência social concreta dos setores oprimidos – ainda que esse olhar não
seja necessariamente o de quem ocupa todas essas posições – torna-se evidente
que essas formas não desapareceram em alguns círculos de esquerda.
Ao
mesmo tempo em que essas formas persistem, observa-se hoje a incorporação de
uma nova forma de intervenção ideológica, que se soma às anteriores: tornou-se
comum o uso indiscriminado do rótulo “identitarismo” – frequentemente
acompanhado da “acusação” de “pós-modernismo” – para desqualificar demandas que
emergem de processos históricos de colonização, expropriação e hierarquização
social, anteriores e constitutivos da própria formação das relações
capitalistas no Brasil. O que demonstra que o incômodo com as questões que
envolvem racismos e sexualidades permanece e o que se transforma, mais
recentemente, é a forma de recusá-las.
Tomando,
ao menos neste ponto, o materialismo histórico-dialético como instrumento de
análise, não é possível negar a história nem seus efeitos prolongados no tempo,
posto que negar a colonização é negar o processo histórico e negar seus ecos no
presente é negar a dialética. Fingir que esse problema não existe, ou tratá-lo
como irrelevante, equivale a abandonar o materialismo em favor de um idealismo
que separa a teoria do movimento real da história.
Há um
vazio real de escuta e elaboração nesse terreno, ainda distante das práticas e
ideias que organizam pertencimentos no campo das esquerdas, produzindo um
descompasso entre a complexidade da vida social e as ferramentas políticas
operantes.
Este
texto parte dessa constatação e de um mal-estar vivido e reiterado, que não se
explica apenas por desacordos teóricos ou divergências táticas, mas pela
permanência de supremacismos, baseados em critérios coloniais de humanidade
operando no interior de alguns grupos e círculos de esquerda como se fossem
neutros ou universais.
Não se
trata aqui de uma defesa teórica ou de uma querela epistemológica, mas de um
posicionamento ético diante da história e de suas continuidades materiais.
Pois, se existe algum acordo entre as diferentes – e por vezes abertamente
antagonizadas – correntes das esquerdas, ele se dá sobretudo no plano ético das
ideias: a recusa, ao menos em nível abstrato e formal, de qualquer forma de
opressão ou hierarquização do humano – recusa essa que nem sempre se converte
em prática política consequente.
A
ferida da colonização se manifesta na maneira como determinados sujeitos e
grupos sociais são percebidos como mais legítimos que outros; na forma como
certos modos de falar, desejar, circular e existir passam a ser reconhecidos
como “normais”, enquanto outros são empurrados para a margem, para o exótico ou
para o tolerável apenas sob vigilância ou silêncio. A colonização instituiu um
padrão de humanidade que se apresenta como universal, mas que tem endereço
histórico preciso – europeu, branco, masculino, heterossexual, cristão ou
secularizado à moda europeia. Tudo o que escapa a esse molde passa a carregar,
explícita ou implicitamente, uma marca de inferioridade, desvio ou imaturidade.
Por
isso, a colonização não deveria ser entendida apenas como um processo econômico
ou militar, mas como uma tecnologia ampla de organização da vida social, que
atua, sobretudo, produzindo hierarquias entre humanos – definindo quem encarna
o “universal” e quem aparece como particular, identitário ou excessivo.
Talvez,
enquanto essa estrutura não for enfrentada como problema real, qualquer projeto
político que se reivindique emancipatório seguirá operando dentro dos limites
impostos pelo próprio processo colonial, mesmo quando declara abstratamente a
pretensão de rupturas profundas. A colonização não é externa à economia
política, pois ela incidiria diretamente sobre a forma como o trabalho é
distribuído, explorado, desvalorizado, sobre como territórios são ocupados etc.
A
hierarquização colonial do humano não apenas antecede a generalização das
relações capitalistas no país, como participa ativamente de sua sustentação
material, definindo quem, entre as massas, é mais facilmente empurrado para a
superexploração, quais grupos são mantidos sob regimes permanentes de
precariedade e quais vidas são tratadas como descartáveis no interior da
dinâmica produtiva e de ocupação territorial. O capitalismo se organiza e
integra, contraditoriamente, os supremacismos para colocá-lo a serviço de suas
demandas.
É por
isso que as heranças coloniais que ecoam no presente não poderiam ser tratadas
como um “tema de comportamento”, uma “questão cultural” ou um conjunto de
“pautas” laterais. O que está em jogo é o próprio solo histórico sobre o qual
seguem se erguendo as formas brasileiras de exploração do trabalho, de
expropriação territorial e de organização da legitimidade social. E é
justamente por isso que, quando parte das esquerdas trata raça, sexualidade e
cultura como anexos, o efeito não é apenas uma falha ética, mas também uma
perda objetiva de capacidade política, organizativa e de enraizamento real na
vida concreta do povo.
Embora
a colonização organize um conjunto vasto de hierarquias, este ensaio, em suas
quatro partes, escolherá puxar, com maior insistência, o fio das sexualidades,
buscando pensá-lo de forma contextualizada. Pois, esse é um dos pontos em que o
negacionismo interno de algumas correntes das esquerdas costuma operar com mais
violência e com menos custo simbólico, pois parte das esquerdas parece gostar
de surfar em ondas conservadoras ocasionais.
Por sua
vez, a questão racial, por exemplo, ainda que frequentemente incorporada de
forma superficial, ritualizada ou mecânica, já conquistou um grau maior de
“aceitabilidade”, ao menos discursiva, em parte do campo, inclusive porque pode
ser enquadrada com relativa facilidade em certas leituras economicistas sobre
escravidão, formação do trabalho e desigualdade de classe – ainda que, muitas
vezes, leituras superficiais.
Já a
sexualidade segue sendo tratada, muitas vezes, como desvio moral a ser
combatido e erradicado, como tema menor, como “pauta”, como questão de
“costumes”, como “identitarismo”, ou como algo que deveria ser adiado em nome
de uma unidade abstrata. Mas nessa questão também se poderia medir o alcance
real de qualquer horizonte emancipatório, pois é um ponto em que as esquerdas
precisariam escolher entre preservar valores dos colonizadores ou romper com
eles.
Para
pensar essas questões, este ensaio se desdobra em outras três partes, voltadas
ao debate sobre identitarismo nas esquerdas, sexualidades, colonização e
pertencimento como dimensões articuladas da vida social.

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