A
defesa do pluralismo nas universidades
Um
grupo de professores lançou recentemente um manifesto em defesa do pluralismo
nas universidades brasileiras. O documento, assinado por muita gente cujo
trabalho conheço, respeito e admiro, suscitou algumas reações exaltadas. A
defesa do pluralismo, segundo essas reações, seria uma reação contra o avanço
de grupos minoritários.
A
situação é complexa, mas eu acredito que existem, sim, bons motivos para
preocupação com o fechamento do espaço de discussão de determinados temas nas
universidades do Brasil.
Já
falei aqui de uma forma de macarthismo adotada por gente que, dentro dos campi,
acredita que tem o monopólio, se não da verdade (quem se importa com ela, não é
mesmo?), pelo menos das boas intenções. Campanhas de cancelamento, vetos à
participação em eventos ou à publicação, boicote à citação de trabalhos ainda
que eles sejam relevantes, processos judiciais, pressão para demissão… Ocorre
de tudo.
Eu já
fui alvo: na lista negra de uma revista ou outra, o convite para publicação de
um livro por editora importante desfeito sem qualquer motivo, um curso em uma
plataforma “cult” cancelado sem sequer me avisarem, campanha intermitente de
difamação por youtubers famosos ou semifamosos. Isso por gente que se diz de
esquerda. Pela direita, censura, processos, incitação à violência contra mim,
pedidos de demissão.
Cheguei
a uma etapa da minha carreira em que posso me dar ao luxo de não ligar. Para
muitos colegas, porém, é mais difícil.
Múltiplas
pesquisas têm mostrado que, entre estudantes, há receio de se pronunciar em
público, por medo de dissentir das opiniões hegemônicas – é a perfeita
ilustração da espiral do silêncio, de que falava Elisabeth Noelle-Neuman. Com
certa frequência, sou procurado por alunos que manifestam essa preocupação. Uma
graduanda em ciência política me perguntou se ela deveria expor, em seu
trabalho de conclusão de curso, sua concordância com algumas teses alinhadas
àquilo que, nos debates das redes sociais, é estigmatizado como “radfem”.
Eu tive
que dizer a ela que, para o bem de seu futuro profissional, no mercado de
trabalho ou na academia, ela devia evitar o tema. Uma exposição prematura
poderia prejudicar suas chances de entrar numa pós-graduação ou de ser
contratada por uma ONG feminista ou alguma organização internacional (caminhos
para continuar trabalhando com a pauta de gênero). Seria irresponsável da minha
parte fingir que essa não é a realidade.
As
principais reações contra o manifesto vieram exatamente daqueles que se
esforçam para calar determinadas vozes dentro das universidades. Um professor
da Universidade Federal da Bahia publicou nas suas redes sociais uma diatribe
em regra contra os autores, a quem acusou de serem racistas, misóginos,
homofóbicos, transfóbicos e mesmo necrófilos. Para ele, já existe pluralidade
suficiente na universidade.
Esse
mesmo professor, porém, é um dos mais eloquentes propagadores da caça às bruxas
nos campi. Publicou, faz poucos meses, um texto em que defende simplesmente que
devem ser levados às ouvidorias das universidades, para sofrerem processos
disciplinares, todos aqueles que criticam as fragilidades das teorias
identitárias. Essa crítica, diz ele, consistiria em “assédio epistemológico”,
um tipo penal que ele mesmo inventou.
Não
acredito que seja má fé. É dissonância cognitiva mesmo. Nas seitas cristãs do
início da Idade Moderna, era comum que os adeptos dessem a si mesmos o nome de
“os perfeitos”. Sendo perfeitos, podiam fazer qualquer coisa, sem medo de
errar. Os herdeiros destas seitas são hoje os arautos dos identitarismos. Eles
creem sinceramente que são as vítimas do sistema (ou seria cistema?), o que
justifica que exerçam de forma despreocupada seu poder intimidatório.
Está
muito errado um ambiente universitário em que as pessoas tenham medo de se
expressar. Aqueles que se sentem satisfeitos com isso encampam a violação de um
princípio essencial da universidade, sem o qual ela perde sua razão de ser. Mas
há dois pontos complementares à discussão, aliás estreitamente ligados entre
si, que creio que devem ser acrescentados.
O
primeiro é que a exigência de pluralismo não significa que qualquer discurso
deve estar dentro da universidade. A defesa abstrata da pluralidade pode dar
essa impressão, sobretudo nos tempos de “pós-verdade” que sofremos. Mas não é
isso.
Quando
o professor da UFBA inventa essa história de “assédio epistemológico”, o que
ele está querendo é se blindar contra as críticas que são feitas às derivas
identitárias – uma série de perspectivas que acabaram sendo acolhidas na
universidade, que oscilam entre ingenuidade, misticismo e charlatanismo, e que
não são sustentáveis diante dos parâmetros adequados de discussão acadêmica.
Contra
estes parâmetros, fazem a crítica da universalidade. Seriam parâmetros
eurocêntricos, masculinistas, heteronormativos. Como se indígenas ou negros,
mulheres, gays ou lésbicas, fossem endogenamente incapazes de sustentar o
discurso científico. Como se a ciência, produzida aliás também por muitos
integrantes de todos esses grupos, não tivesse sido, ao longo da história,
aliada de suas reivindicações emancipatórias.
E como
se, pelo fato de que as pretensões à universalidade são muitas vezes
desvirtuadas pelos grupos dominantes, nós tivéssemos que abandoná-la – em vez
de lutar por uma universalidade genuína.
Tudo
aquilo que a ciência construiu deve, sim, ser visto como parte do patrimônio
comum de toda a humanidade. Fazer de Isaac Newton, de Charles Darwin ou de Karl
Marx um totem tribal ajuda em que na tarefa de construir um mundo mais
igualitário e mais solidário?
O que a
denúncia desse patrimônio ajuda é outra coisa – é garantir o espaço do
pesquisador incompetente, preguiçoso ou picareta, que embrulha seu material no
papel reciclado da “epistemologia alternativa” e foge do debate sério apontando
o dedo para os críticos, com gritos de “eurocêntrico” ou “heteronormativo”.
Por
paradoxal que possa parecer à primeira vista, as campanhas de intimidação e
silenciamento que ocorrem nas universidades, que reduzem a pluralidade interna
e impedem o debate livre, estão ligadas à redução dos critérios de validade
científica que nelas deveriam imperar.
Em
suma: o pluralismo no ambiente universitário não significa que um departamento
de astronomia deva receber quem acredita no terraplanismo ou que um
departamento de biologia deva dar espaço para defensores do criacionismo.
Embora a gente saiba que nenhum debate científico está encerrado de uma vez por
todas, ainda assim a ciência garante seu progresso por meio de consensos bem
fundados.
É – em
teoria – possível que alguém reabra o debate sobre a terra plana (improvável,
mas vamos lá, pelo bem da discussão). Só que para isso não basta requentar tudo
aquilo que a ciência já descartou; seria necessário encontrar novas evidências
e/ou produzir uma nova síntese teórica, de forma suficientemente robusta para
recolocar a discussão.
As
ciências sociais são mais complexas, mas ainda assim existem procedimentos que
são aceitos como válidos na construção de argumentos – posso discordar do que
está sendo dito, mas reconhecendo que tem lugar no debate. Outros argumentos,
porém, são desprovidos de qualquer sentido. Mas criou-se um discurso
pretensamente radical que afirma que qualquer critério de validade científica
deve ser rejeitado, porque seria uma demonstração de eurocentrismo ou algum
outro tipo de preconceito.
Daí o
mergulho na subjetividade, o apelo à “ancestralidade”, o solipsismo, o império
da experiência incomunicável, a recusa das evidências, a negação dos
encadeamentos lógicos, o triunfo da crença sobre a observação, tudo está
liberado. É o negacionismo científico dos progressistas, tão nocivo quanto a
cloroquina dos bolsonaristas. Ou mais.
E daí
cada um inventa uma “epistemologia” para chamar de sua e, com base nela, vale
tudo. Já falei disso muitas vezes. É uma completa desmoralização dos critérios
do debate acadêmico, com base em pretensas visões que deveriam ser aceitas com
condescendência porque são contrárias às opressões. No final do processo,
chegamos a absurdos como a inclusão das “práticas integrativas complementares”
no SUS, com o dinheiro público da saúde pagando por rezas e placebos, quando
não um charlatanismo de inspiração nazista como a “constelação familiar”, tudo
já descartado pela ciência, tudo saudado como vitória “contracolonial”.
E isso
me leva à segunda questão, que, como disse, está intimamente ligada a esta
primeira. A universidade que deve aceitar apenas discursos que sejam
compatíveis com as regras elementares do fazer científico não é uma
universidade despreocupada com a transformação social.
Eu
creio firmemente que a universidade, como instituição, precisa ter um
compromisso com a produção de um mundo melhor – o que não significa alinhamento
partidário. Mas esse compromisso só se realiza caso ela seja capaz de produzir
conhecimento sólido sobre este mundo…
Fonte:
Por Luis Felipe Miguel, em A Terra é Redonda

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