Adhemar
Bahadian: Um Estadista em Washington
A
polarização política interna no Brasil cega a dimensão do país nesta hora de
angústia e guerras no mundo.
A
visita de trabalho de Lula a Trump teve dimensão igual, ou talvez maior, do que
a visita de Estado do Rei Charles III que a antecedeu de poucos dias. Certo,
por ser visita de trabalho e não de Estado, Lula não teve a possibilidade de
falar ao Congresso americano. Charles III não foi submetido às sempre
arriscadas entrevistas à imprensa no Salão Oval. Lula também não. As
semelhanças não terminam aí.
O Rei
nem de longe abordou os terríveis rumores de que os Estados Unidos poderiam se
tornar neutros ou até apoiar a reclamação argentina sobre as Ilhas Malvinas.
Lula jamais questionou a eventual intrusão de Trump na corrida eleitoral
brasileira em outubro próximo.
Os
governos passam e os Estados permanecem. As relações históricas entre os
Estados Unidos e o Reino Unido tornam impensáveis eventuais traições ou
artimanhas. Nossas relações com os Estados Unidos não são da mesma dimensão.
Porém, são estreitas e igualmente históricas. Os Estados Unidos foi o primeiro
país a reconhecer nossa independência e assumimos o nome de Estados Unidos do
Brasil. Durante a Primeira República foi inquestionável a “aliança não-
escrita“ entre os dois países, o que muito ajudou em nossos pleitos jurídicos
de limites territoriais em tribunais internacionais. O Brasil foi o único país
latino-americano a enviar tropas para ajudar os aliados na Segunda Guerra
Mundial, além de facilitar a aviação militar norte-americana com bases no
nordeste brasileiro, indispensáveis para os ataques no “front” africano.
Tivemos
e continuamos a ter problemas de natureza econômica e política com os Estados
Unidos e fomos sempre adversários leais e competentes em órgãos multilaterais
de comércio, sobretudo depois dos anos 1960 no GATT, na OMC e na ONU. Nada,
porém, nos fez tratar os Estados Unidos de forma arrogante ou capciosa. Da
mesma forma que nunca igualmente pleiteamos “relações carnais” ou qualquer
outro tipo de temor reverencial.
Ernesto
Geisel e Antônio Francisco Azeredo da Silveira aprofundaram nosso diálogo com
os Estados Unidos resguardando sempre nossa universalidade diplomática.
Kissinger telefonava para Silveira sempre que estavam em jogo os processos de
independência de Angola e Moçambique em que nossas posições eram divergentes.
Nunca houve ameaças de pressões indevidas.
Nada do
que recordei acima foi preciso Lula recordar a Trump. A marca do Estadista se
revelou desde o primeiro instante. Revejam as fotos do cumprimento de mãos que
Lula faz a Trump na entrada da Casa Branca. Observem o toque de Lula no braço
de Trump. O sorriso imediato de Trump. O degelo.
A
imprensa brasileira fica a perguntar: mas, não houve resultado? Foi só papo?
Lamento
esta atitude. Esperava-se uma briga de galos e havia até os que torciam por uma
“bronca” de Trump em Lula. Ledo engano. Lula falou pelo Brasil, mas deixou uma
mensagem que interessa a todo o mundo democrático.
O
respeito a soberania dos Estados, pedra angular da Diplomacia brasileira desde
os tempos da Conferência de Haia com Rui Barbosa. Falou de comércio sem
fronteiras em que se comercia com países e não com ideologias e falou no
direito ao desenvolvimento e nossa disponibilidade de receber o concurso do
capital estrangeiro desde que em conformidade com as leis brasileiras.
Lula
representa, queiramos ou não, o melhor do Brasil. Sua história pessoal é um
atestado de que um homem pobre, um torneiro mecânico pode se tornar um
Estadista de dimensão internacional. Está no nível de grandes homens do século
XX como Nelson Mandela.
A maior
riqueza do Brasil não é apenas as terras raras. A maior de nossas riquezas é
nosso povo que elegeu Lula três vezes e certamente o reelegerá pela quarta.
Ele
está acima dos partidos de esquerda ou de direita. Mas, nunca jamais em tempo
algum se meteu a Messias. Que Deus o guarde.
• Trump embaralha as cartas com
‘presidente dinâmico’ em referência a Lula. Por Gilberto Menezes Côrtes
Já
disse aqui várias vezes, lembrando o ex-governador mineiro José de Magalhães
Pinto, também conhecido como fundador do ex-Banco Nacional, que “a política é
como nuvem”; cada vez que a pessoa a vê, ela está de um modo; na vista
seguinte, o cenário já mudou.
Há 10
dias, após duas acachapantes derrotas do governo Lula no Congresso – a
indicação do AGU Jorge Messias, derrotada por 44 votos dos 81 senadores, e o
veto do presidente Lula à redução das penas dos condenados pela trama golpistas
do 8 de janeiro de 2023 (na Câmara dos Deputados foram 318 votos contra o veto
e 144 a favor, com 5 abstenções, e no Senado foram 49 votos pela rejeição do
veto e 24 contra, no dia 30 de abril) -, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
indicado pelo pai em outubro, para disputar a Presidência, se apressou a
decretar que “o governo Lula acabou”.
As
nuvens pareciam carregadas para o governo Lula, que nem fez comemorações
ostensivas na sexta-feira, 1º de maio. Mas, no fim de semana veio uma notícia
inesperada que encheu de esperança o clã Bolsonaro e a ultradireita: o
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o republicano tido como aliado,
convidou Lula para um encontro na Casa Branca. As notícias espalhadas pelo clã,
irradiadas pelo filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atua nos
EUA conspirando contra o Brasil na companhia do economista Paulo Figueiredo,
neto do último ditador do país, general João Batista de Figueiredo, diziam que
Trump poderia enquadrar os traficantes brasileiros como terroristas (as trocas
de informações entre a Polícia Federal e o FBI seriam concentradas na CIA, e
que poderia haver interferência no Brasil) e mais, que o Pix estava na marca do
pênalti, como as sanções americanas às exportações brasileiras (mais tarifas à
vista).
O clã
não escondia a torcida para Trump repetir as grosserias contra os presidentes
da Ucrânia e da África do Sul. Mas Lula é um negociador escolado desde a
representação sindical, quando negociava salários e conquistas trabalhistas com
as multinacionais do ABC na ditadura. Presidente, com o apoio da competência
diplomática do Itamaraty, que sobreviveu ao governo (?) Bolsonaro, recuperou o
“status” do Brasil no concerto das nações. Trump percebeu que Lula é diferente
quando assistiu parte do seu discurso na ONU, em setembro do ano passado, e em
seguida tiveram uma “boa química” numa rápida troca de gentilezas de 29
segundos. Passo seguinte foi a marcação de uma conversa na Malásia, em
novembro. O encontro na Casa Branca estava previsto para março, mas foi atropelado
pela guerra de Israel-Estados Unidos contra o Irã, que começou em 28 de
fevereiro. Uma trégua temporária abriu espaço na agenda para o encontro de
quinta-feira, 7 de maio.
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Trump vira trunfo de Lula
Não sei
se Lula joga truco. Mas ele foi para a reunião preparado para tirar partido do
seu maior trunfo (o 3 de paus no jogo de truco) que era o presidente Donald
Trump (em inglês quer dizer trunfo). A empatia mútua entre os dois seria
explorada por Lula, que tinha a oportunidade de um diálogo franco e igual entre
as duas maiores democracias das Américas. Isso, após sete anos de quase
interrupção nas relações diplomáticas entre Brasil-EUA (congeladas no governo
Bolsonaro, que batia continência para a bandeira americana e que, após
reabertura nos governos Biden e Lula (2023-24), ficaram travadas no segundo
governo Trump, quando o clã Bolsonaro agiu de sabotador dos interesses
nacionais e da soberania brasileira.
Quem
não se lembra como Eduardo e Flávio, além do governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas (o candidato inicial do clã nas eleições presidenciais de outubro)
comemoraram o tarifaço que infligiu bilhões de dólares de prejuízo às
exportações brasileiros, o que resultou em perdas de emprego?
Lula e
o Itamaraty queriam o maior tempo possível para a troca de pontos de vistas e
aparar arestas criadas por terceiros. Escolado, para não repetir a coletiva de
imprensa antes do encontro em Kuala Lumpur – quando, tanto a imprensa americana
como a brasileira, queriam saber de temas domésticos, sobrando pouco tempo para
a conversa “tête a tête”, lenta pela necessidade de tradução mútua - Lula
propôs a Trump falar com a imprensa só depois do encontro, que “foi muito
produtivo” e continuou pelo almoço, somando três horas. Tudo encerrado com
sorrisos. Mas a agenda de Trump, a seguir, cortou a coletiva. Que ficou
restrita a Lula na Embaixada do Brasil em Washington.
Assuntos
espinhosos, como as divergências sobre a balança comercial e tarifas (os EUA
acusam o Brasil por altas tarifas de importação [que serão reduzidas com a
União Europeia], mas têm superávits bilionários há uma década) foram deixados
para solução com grupo de trabalho, que entra em campo na próxima semana. Lula
entregou um longo dossiê com posições claras do Brasil para cooperação na
exploração de terras raras, envolvendo investimentos americanos na sua
transformação em minerais críticos, com ganho de valor. Desafiou os Estados
Unidos a participarem - como a China - de projetos de infraestrutura no Brasil.
Os EUA ainda são o maior investidor estrangeiro no Brasil, mas, nos últimos
anos, perderam terreno para a Espanha, a Holanda (Países Baixos) e a China.
Trump disse na sexta-feira, à Globonews, que “discutiu tudo num ótimo encontro
com Lula e o Brasil”. O sucesso decepcionou os bolsonaristas.
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Barata voa nas hostes da direita
Para
piorar, enquanto as nuvens se moviam em Washington e ofereciam um céu de
brigadeiro a Lula e a Trump, na mesma manhã de quinta-feira o tempo fechou para
o ex-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, o senador piauiense Ciro
Nogueira, que é o presidente do PP, um dos esteios do Centrão, que está em
negociação para uma fusão com o União, quando a Polícia Federal cumpriu mandado
de busca e apreensão nos endereços do senador em Brasília.
O autor
da emenda que elevaria, em 2024, o aval do Fundo Garantidor de Crédito (FGC),
bancado pelos grandes bancos, a aplicações financeiras como CDBs e outros
papéis de renda fixa, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão (a emenda foi redigida
pelo “staff” do Banco Master), foi alvo na residência que ocupa em Brasília, de
propriedade do “amigo de toda a vida”, Daniel Vorcaro. Trechos transcritos dos
celulares do dono do Master indicaram mesadas de R$ 300 mil a R$ 500 mil para o
presidente do PP.
Apanhado
com a boca na botija, o senador que foi cogitado no começo do ano para ser vice
na chapa de Flávio Bolsonaro, depois de um dia desnorteado quando sua casa caiu
(na verdade a casa é de Daniel Vorcaro, repito, que também pagou os custos de
viagens de turismo pela Europa), na sexta-feira, certamente instruído por seu
experiente advogado, o senador, acusado de graves infrações ao decoro do
Senado, reagiu com indignação: “Estão querendo manchar a minha honra” (sic). Há
dois meses, quando seu nome surgiu nas conversas do celular de Vorcaro, em
entrevista em seu estado disse que renunciaria se algo fosse encontrado que o
desabonasse. “Mas, que cara de pau”, diria o saudoso Leonel Brizola. Será que a
casa de Vorcaro não tem espelhos?
O fato
provocou declarações desencontradas do candidato Flávio Bolsonaro.
Quinta-feira, disse que as apurações deveriam ir até o fim. Na sexta-feira, já
cogitava uma mulher para vice e evitava falar em Ciro Nogueira.
E
também abalou a campanha do governador Tarcísio de Freitas à reeleição. Um
evento que selaria nesta semana a adesão do PP à sua candidatura foi cancelado,
esperando as nuvens carregadas passarem.
As
eleições estão longe, mas as pesquisas eleitorais da semana vão mostrar se as
nuvens mudaram as intenções de voto.
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Juros altos explicam a concentração de renda
Quem me
acompanha aqui aos domingos ou na semana, na coluna O Outro Lado da Moeda, sabe
que sou um crítico feroz aos altos juros praticados no Brasil. Não fazia
sentido a Selic (o piso dos juros no país) fechar 2025 a 15% ao ano para uma
inflação de 4,29% (como não faz agora a Selic estar em 14,50% com a inflação de
4,14% e, mesmo com as projeções de que pode fechar o ano acima de 5%, devido às
pressões inflacionárias da Guerra do Golfo). Juros reais mínimos de 10% travam
a economia, endividam as famílias e as micro e pequenas empresas e oneram o
Tesouro. O pior é a concentração de renda. O ganho real dos rentistas é o dobro
do ganho dos assalariados.
O IBGE
divulgou na sexta-feira que a concentração de renda aumentou em 2025 e vem
aumentando desde 2019. A razão é clara: o elevado nível dos juros reais no
Brasil. Mas os economistas e gestores de fortunas da Faria Lima, que nadam de
braçada com os juros altos, vivem criticando os gastos dos programas sociais e
calam sobre juros. Apenas alertam que o tamanho da dívida chegou a 80% do PIB.
Só em
juros, no ano passado, a dívida pública custou R$ 1 trilhão e 7 bilhões. A
dívida é rolada com novos títulos que engordam os ganhos dos 1% mais ricos. Nos
últimos 12 meses terminados em março, os gastos chegaram a R$ 1,080 trilhão.
Isso representa 8,35% do PIB. Era de 7,7% em março de 2025. Segundo o Orçamento
Geral da União de 2025, os salários do funcionalismo e os programas sociais
consumiram 5,61% dos gastos. Mas a conta dos juros somou 12,19%, mais que o
dobro.
Não é
de se admirar que o IBGE diga que “a análise da distribuição de renda indica
que, embora a desigualdade tenha recuado em relação aos anos anteriores à
pandemia, ela segue elevada”. Em 2025, os 10% da população com rendimentos mais
elevados recebiam, em média, 13,8 vezes o rendimento dos 40% com menores
rendimentos.
Além
disso, a fatia dos 10% da população com os maiores rendimentos em 2025, que
atingiu 40,3% do total da massa de rendimentos domiciliares, superava a fatia
(32,8%) dos 70% da população com os menores rendimentos. Está precisando um
“Desenrola” para a dívida pública, com redução de juros reais.
Fonte:
Jornal do Brasil

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