terça-feira, 12 de maio de 2026


 

As guerras na Ucrânia e no Irã são parte de uma mesma guerra mundial, diz professor americano

Desde o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, em fevereiro, o mundo assiste a um fenômeno que muitos analistas ainda relutam em nomear: uma guerra mundial.

Não nos moldes da devastação dos dois conflitos do século 20, mas com os ingredientes que historicamente definem o conceito — dois grandes conflitos simultâneos em continentes diferentes, grandes potências envolvidas diretamente em ambos, e cada uma delas apoiando o adversário da outra no conflito oposto.

É essa a tese de Paul Poast, professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Chicago.

Poast argumenta que as guerras na Ucrânia e no Irã deixaram de ser conflitos paralelos para se tornar eventos interligados de uma disputa global entre grandes potências — com consequências econômicas que já se fazem sentir em todo o mundo, do preço da gasolina ao custo dos alimentos.

Autor de quatro livros sobre segurança internacional e fellow não residente do Chicago Council on Global Affairs, Poast também entrou no debate sobre a teoria da guerra justa, após o vice-presidente americano, J.D. Vance, justificar a guerra no Irã invocando essa tradição teológica — e ser rebatido pelo próprio papa Leão 14.

Na entrevista a seguir à BBC News Brasil, Poast fala sobre o que define uma guerra mundial, os riscos de uma escalada global e por que, na sua avaliação, a guerra no Irã não passa no teste da guerra justa.

LEIA A ENTREVISTA: 

        Desde que o conflito no Irã começou, o senhor tem dito que estamos vivendo uma nova guerra mundial. Por quê?

Paul Poast - O ponto de partida foi reconhecer que vivemos num mundo de conflitos intensificados há vários anos. Já havia escrito sobre isso antes — não chamava de guerra mundial, mas de um mundo em guerra, em referência ao aumento dos conflitos armados que começou em meados dos anos 2010.

Em 2023, o mundo registrou mais guerras do que em qualquer ano desde o fim da Segunda Guerra. Em 2024, esse recorde foi superado. Em 2025, houve uma estabilização nesse novo patamar elevado. O que mudou foi o início da guerra no Irã, há dois meses. A partir daí, senti que as condições estavam dadas para dizer que estamos diante de uma guerra mundial.

Primeiro, temos duas grandes guerras simultâneas em dois continentes — a Ucrânia e o Irã. Segundo, essas guerras envolvem diretamente grandes potências: os Estados Unidos no Irã e a Rússia na Ucrânia. Mas há um elemento ainda mais significativo: cada uma dessas potências está apoiando o adversário da outra no conflito oposto.

Os EUA continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem tudo menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã: fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento. E não para por aí.

O próprio Irã esteve envolvido nos dois conflitos — forneceu drones à Rússia para uso na Ucrânia. E agora a Ucrânia vai ao Golfo ajudar a derrubar drones iranianos, porque acumulou muita experiência com isso. Para mim, tudo isso preenche a definição de guerra mundial.

        Mas essa comparação não pode ser um exagero, dado que a escala dos conflitos atuais é muito menor do que a das duas guerras mundiais do século passado?

Poast - É um questionamento legítimo, e deixo claro que não estamos diante de nada na escala da Primeira ou da Segunda Guerra. Mas é importante reconhecer que talvez nem devêssemos chamar aqueles conflitos de Primeira e Segunda Guerra Mundial — porque não foram realmente a primeira e a segunda.

Houve outras guerras mundiais que não atingiram aquela escala, mas que preencheram todos os outros critérios. Um exemplo é a Guerra dos Sete Anos, em meados do século 18. Nos Estados Unidos, ela é ensinada como a Guerra Franco-Indígena — mas isso só cobre o teatro norte-americano. Havia simultaneamente um conflito em curso na Europa, envolvendo França, Grã-Bretanha, Prússia e Áustria.

Para mim, essa é uma analogia muito melhor para pensar o conceito de guerra mundial: um conflito sério, com múltiplas potências, em múltiplos teatros, mas sem atingir a escala devastadora do século 20.

        O impacto econômico reforça essa tese?

Poast - O impacto global desta guerra é profundo. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, já estamos vendo os efeitos econômicos se desdobrando — e eles vão continuar nos próximos meses.

Os EUA não dependem tanto do petróleo do Golfo Pérsico, mas 20% do petróleo mundial passa pelo estreito. Muito disso vai para economias asiáticas e europeias. E, como o petróleo tem preço global, o impacto chega a todos — na gasolina, nos plásticos, nos fertilizantes. É um fator inflacionário muito forte, que a Europa e os EUA já estão sentindo.

Há também o que chamamos de efeitos de segunda ordem. A Rússia é uma grande exportadora de petróleo e tem conseguido vender para China, Índia e outros países que não impuseram embargo. Isso a manteve economicamente à tona. Com os preços subindo, é uma mina de ouro para Moscou — o que vai complicar a capacidade da Ucrânia e de seus parceiros de vencer a guerra.

        E a Guerra Fria? Pode ser classificada como uma guerra mundial?

Poast - Há estudiosos que a classificaram assim, como Eliot Cohen, ex-diretor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Mas a maioria não o faz, e eu concordo. Para a Guerra Fria ter atingido o nível de guerra mundial, seria necessário que houvesse a simultaneidade de conflitos integrados que estamos vendo agora.

O exemplo que daria: se a guerra do Vietnã e a invasão soviética do Afeganistão tivessem ocorrido ao mesmo tempo, sim, teríamos tido uma guerra mundial. Você teria duas guerras simultâneas, grandes potências envolvidas diretamente em ambas, apoiando os lados opostos, com coordenação cruzada entre elas. Mas não foi o que aconteceu. Os dois conflitos foram separados no tempo — e essa separação é exatamente o que os distingue do que vivemos hoje.

        Mais países podem ser arrastados para esses conflitos atuais?

Poast - O grande país que todos estão tentando entender é a China. Na guerra da Ucrânia, tenho chamado a China de "facilitadora" da guerra russa — comprando energia russa, fornecendo tecnologia de duplo uso. O que a China oferece é uma tábua de salvação econômica, que é exatamente o que a Rússia mais precisa. Armas ela consegue em outros lugares, pessoal também — a Coreia do Norte tem demonstrado isso. Mas a sustentação econômica é o que a China provê, no âmbito do acordo de "parceria sem limites" assinado às vésperas da invasão da Ucrânia.

A questão mais preocupante, para mim, não é se a China vai escalar seu envolvimento nos dois conflitos existentes. É se ela vai olhar para a situação e dizer: "Os EUA estão atolados no Irã e na Ucrânia, retirando capacidade de defesa aérea da Coreia do Sul, cancelando remessas de armas para Taiwan — talvez seja a hora de agir." Isso seria o grande ponto de inflexão. Mesmo quem não concorda com minha tese reconheceria que, se isso acontecesse, estaríamos claramente diante de uma guerra mundial.

        Você escreveu recentemente que a guerra entre os EUA e o Irã, apoiada por Israel, não passa no teste da teoria da guerra justa. Por quê?

Poast - Entrei nesse tema por conta do debate provocado pelo vice-presidente J.D. Vance. O papa Leão — que é de Chicago, e estamos muito orgulhosos disso — condenou a guerra, como qualquer papa faria. Vance reagiu dizendo que o papa precisava entender a tradição milenar da teoria da guerra justa. Imediatamente, muita gente apontou a ironia: o papa é agostiniano, foi chefe dos agostinianos, escreveu sua tese de doutoramento sobre Agostinho — o mesmo Agostinho que fundou essa tradição dentro do catolicismo. Pode ter certeza de que o papa conhece a teoria da guerra justa.

De qualquer forma, isso me levou a verificar se a guerra realmente passa nesse teste. A teoria diz que uma guerra justa precisa ter uma causa justa e ser conduzida de forma justa. Para a causa ser justa, a guerra precisa ser de autodefesa e ser o último recurso. Este conflito claramente não satisfaz essas condições.

Quanto ao último recurso: havia negociações em andamento. No dia anterior ao ataque americano com Israel, o mediador omani — o ministro das Relações Exteriores de Omã — disse que as conversas estavam sendo muito produtivas e que as partes haviam concordado em continuar negociando. Na manhã seguinte, Trump atacou. A diplomacia não havia se esgotado.

A outra condição essencial é ter um plano razoável de sucesso — uma perspectiva realista de que a guerra criará uma situação melhor do que a anterior. Os objetivos de guerra do governo Trump mudaram o tempo todo. O próprio Trump disse que "ninguém esperava" que o Irã fechasse o Estreito de Ormuz tão facilmente. Só que especialistas no assunto sabiam que isso era totalmente previsível. É exatamente por isso que presidentes americanos anteriores decidiram não ir à guerra contra o Irã. Eles sabiam que iam piorar a situação — e foi o que aconteceu.

¨      As empresas que estão ganhando bilhões com a guerra no Irã

Enquanto as famílias de todo o mundo contam os prejuízos gerados pela guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, algumas empresas vêm contabilizando altos lucros.

As incertezas ocasionadas pelo conflito e o fechamento do estreito de Ormuz pelos iranianos estão aumentando o custo de vida e prejudicando o orçamento das empresas, famílias e governos.

Mas, enquanto alguns enfrentam dificuldades, outros vêm registrando altos ganhos, com negócios que são mais lucrativos em tempos de guerra ou se beneficiando da instabilidade dos preços da energia.

Aqui estão algumas das empresas e setores da economia que estão ganhando bilhões com a continuidade do conflito no Oriente Médio.

>>>> 1. Petróleo e gás

O principal impacto da guerra à economia mundial, até aqui, foi o forte aumento dos preços da energia.

Cerca de 20% do petróleo e do gás do mundo são transportados através do estreito de Ormuz. Mas este tráfego foi efetivamente interrompido no final de fevereiro.

O resultado foi uma montanha-russa de oscilações de preços nos mercados de energia. E algumas das maiores empresas do setor de petróleo e gás do mundo lucraram com essas oscilações.

Os principais beneficiários foram as gigantes petrolíferas europeias. Elas têm setores especializados na compra e venda de ativos (trading), que as permitiram ganhar com as fortes oscilações de preços, impulsionando seus ganhos.

Os lucros da BP (British Petroleum), por exemplo, mais do que dobraram nos primeiros três meses do ano, atingindo US$ 3,2 bilhões (cerca de R$ 15,7 bilhões). Este resultado foi possível graças ao desempenho da sua divisão de trading, que a empresa considerou "excepcional".

A Shell também superou as expectativas dos analistas, relatando um aumento dos lucros no primeiro trimestre do ano, atingindo US$ 6,92 bilhões (cerca de R$ 33,9 bilhões).

Outra gigante internacional, a TotalEnergies, viu seus lucros saltarem em quase um terço, atingindo US$ 5,4 bilhões (cerca de R$ 26,4 bilhões) no primeiro trimestre de 2026. O aumento foi causado pela volatilidade dos mercados de petróleo e energia.

Já as gigantes americanas ExxonMobil e Chevron tiveram queda dos ganhos, em comparação com o mesmo período do ano passado, devido à interrupção do fornecimento do Oriente Médio.

Mas as duas empresas superaram as previsões dos analistas e esperam que seus lucros cresçam ao longo do ano, com os preços do petróleo ainda significativamente superiores aos níveis praticados no início da guerra.

>>>> 2. Grandes bancos

Alguns dos maiores bancos do planeta também viram seus lucros dispararem após o início da guerra no Irã.

A receita de trading do JP Morgan atingiu o nível recorde de US$ 11,6 bilhões (cerca de R$ 56,8 bilhões), o que ajudou o banco a atingir o segundo maior lucro trimestral da sua história.

Entre todos os demais bancos do grupo dos "Seis Grandes" (Bank of America, Morgan Stanley, Citigroup, Goldman Sachs e Wells Fargo, além do JP Morgan), os lucros aumentaram substancialmente no primeiro trimestre do ano.

Ao todo, os bancos relataram lucros de US$ 47,7 bilhões (cerca de R$ 233,4 bilhões) nos três primeiros meses de 2026.

"Os altos volumes de trading beneficiaram os bancos de investimentos, particularmente o Morgan Stanley e o Goldman Sachs", afirma a estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, Susannah Streeter.

O forte aumento da demanda de trading favoreceu os principais credores de Wall Street. Investidores correram para se desfazer de ações e títulos de maior risco e depositar seu dinheiro em ativos considerados mais seguros.

Os volumes de trading também aumentaram devido aos investidores que buscaram se capitalizar em função da volatilidade dos mercados financeiros.

Para Streeter, "a volatilidade desencadeada pela guerra gerou um pico de trading, pois alguns investidores venderam ações com medo da escalada do conflito, enquanto outros compraram em baixa, ajudando a alimentar a corrida pela recuperação".

>>>> 3. Defesa

O setor de defesa é um dos beneficiários mais imediatos de qualquer conflito, segundo a analista sênior da consultoria RMS UK, Emily Sawicz.

"O conflito reforçou as lacunas da capacidade de defesa aérea, acelerando investimentos em defesas contra mísseis, sistemas de combate a drones e equipamento militar em toda a Europa e nos Estados Unidos, declarou ela à BBC.

Além de destacar a importância das empresas do setor de defesa, a guerra cria entre os governos a necessidade de reabastecer seus estoques de armas, o que aumenta a demanda.

A empresa BAE Systems, fabricante de produtos como os componentes dos jatos de combate F35, declarou em uma atualização comercial na quinta-feira (7/5) que espera forte crescimento das vendas e lucros em 2026.

Ela mencionou o aumento das "ameaças de segurança" em todo o mundo, o que impulsiona os gastos governamentais com a defesa e, por sua vez, cria um "cenário de apoio" para a companhia.

Três dos maiores fornecedores do setor de defesa do mundo, a Lockheed Martin, a Boeing e a Northrop Grumman, relataram atrasos recordes dos pedidos no final do primeiro trimestre de 2026.

Mas as ações das empresas do setor, que tiveram fortes altas nos últimos anos, vêm caindo desde meados de março, em meio aos temores de que o setor possa estar supervalorizado.

>>>> 4. Energia renovável

O conflito também destacou a necessidade de diversificar as fontes de energia e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, segundo Streeter.

Este fator "potencializou o interesse no setor de energia renovável", segundo ela — mesmo nos Estados Unidos, onde o governo Trump incentivou o uso de combustíveis fósseis, popularizando o slogan "perfurar, baby, perfurar".

Streeter afirma que a guerra fez com que os investimentos em energias renováveis fossem considerados cada vez mais importantes para a estabilidade e a resiliência aos choques.

Uma empresa que recebeu forte impulso foi a NextEra Energy, com sede no Estado americano da Flórida. Suas ações se valorizaram em 17% este ano, com os investidores se unindo à sua missão.

As gigantes dinamarquesas da energia eólica Vestas e Orsted também relataram aumento dos lucros, destacando como as consequências da guerra no Irã também estão impulsionando as empresas de energia renovável.

No Reino Unido, a empresa Octopus Energy declarou recentemente à BBC que a guerra trouxe "enorme impulso" para a venda de placas solares e bombas de calor. As vendas de painéis solares aumentaram em 50% desde o final de fevereiro.

A alta dos preços da gasolina também aumentou a demanda por veículos elétricos. E os fabricantes chineses, particularmente, vêm aproveitando melhor esta oportunidade.

 

Fonte: BBC News


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