As
guerras na Ucrânia e no Irã são parte de uma mesma guerra mundial, diz
professor americano
Desde o
início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, em fevereiro, o mundo
assiste a um fenômeno que muitos analistas ainda relutam em nomear: uma guerra
mundial.
Não nos
moldes da devastação dos dois conflitos do século 20, mas com os ingredientes
que historicamente definem o conceito — dois grandes conflitos simultâneos em
continentes diferentes, grandes potências envolvidas diretamente em ambos, e
cada uma delas apoiando o adversário da outra no conflito oposto.
É essa
a tese de Paul Poast, professor de Relações Internacionais e Ciência Política
da Universidade de Chicago.
Poast
argumenta que as guerras na Ucrânia e no Irã deixaram de ser conflitos
paralelos para se tornar eventos interligados de uma disputa global entre
grandes potências — com consequências econômicas que já se fazem sentir em todo
o mundo, do preço da gasolina ao custo dos alimentos.
Autor
de quatro livros sobre segurança internacional e fellow não residente do
Chicago Council on Global Affairs, Poast também entrou no debate sobre a teoria
da guerra justa, após o vice-presidente americano, J.D. Vance, justificar a
guerra no Irã invocando essa tradição teológica — e ser rebatido pelo próprio
papa Leão 14.
Na
entrevista a seguir à BBC News Brasil, Poast fala sobre o que define uma guerra
mundial, os riscos de uma escalada global e por que, na sua avaliação, a guerra
no Irã não passa no teste da guerra justa.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Desde que o conflito no Irã começou, o
senhor tem dito que estamos vivendo uma nova guerra mundial. Por quê?
Paul
Poast - O ponto de partida foi reconhecer que vivemos num mundo de conflitos
intensificados há vários anos. Já havia escrito sobre isso antes — não chamava
de guerra mundial, mas de um mundo em guerra, em referência ao aumento dos
conflitos armados que começou em meados dos anos 2010.
Em
2023, o mundo registrou mais guerras do que em qualquer ano desde o fim da
Segunda Guerra. Em 2024, esse recorde foi superado. Em 2025, houve uma
estabilização nesse novo patamar elevado. O que mudou foi o início da guerra no
Irã, há dois meses. A partir daí, senti que as condições estavam dadas para
dizer que estamos diante de uma guerra mundial.
Primeiro,
temos duas grandes guerras simultâneas em dois continentes — a Ucrânia e o Irã.
Segundo, essas guerras envolvem diretamente grandes potências: os Estados
Unidos no Irã e a Rússia na Ucrânia. Mas há um elemento ainda mais
significativo: cada uma dessas potências está apoiando o adversário da outra no
conflito oposto.
Os EUA
continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem tudo
menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã: fornecendo
armas, informações de alvejamento e assistência de planejamento. E não para por
aí.
O
próprio Irã esteve envolvido nos dois conflitos — forneceu drones à Rússia para
uso na Ucrânia. E agora a Ucrânia vai ao Golfo ajudar a derrubar drones
iranianos, porque acumulou muita experiência com isso. Para mim, tudo isso
preenche a definição de guerra mundial.
• Mas essa comparação não pode ser um
exagero, dado que a escala dos conflitos atuais é muito menor do que a das duas
guerras mundiais do século passado?
Poast -
É um questionamento legítimo, e deixo claro que não estamos diante de nada na
escala da Primeira ou da Segunda Guerra. Mas é importante reconhecer que talvez
nem devêssemos chamar aqueles conflitos de Primeira e Segunda Guerra Mundial —
porque não foram realmente a primeira e a segunda.
Houve
outras guerras mundiais que não atingiram aquela escala, mas que preencheram
todos os outros critérios. Um exemplo é a Guerra dos Sete Anos, em meados do
século 18. Nos Estados Unidos, ela é ensinada como a Guerra Franco-Indígena —
mas isso só cobre o teatro norte-americano. Havia simultaneamente um conflito
em curso na Europa, envolvendo França, Grã-Bretanha, Prússia e Áustria.
Para
mim, essa é uma analogia muito melhor para pensar o conceito de guerra mundial:
um conflito sério, com múltiplas potências, em múltiplos teatros, mas sem
atingir a escala devastadora do século 20.
• O impacto econômico reforça essa tese?
Poast -
O impacto global desta guerra é profundo. Com o fechamento do Estreito de
Ormuz, já estamos vendo os efeitos econômicos se desdobrando — e eles vão
continuar nos próximos meses.
Os EUA
não dependem tanto do petróleo do Golfo Pérsico, mas 20% do petróleo mundial
passa pelo estreito. Muito disso vai para economias asiáticas e europeias. E,
como o petróleo tem preço global, o impacto chega a todos — na gasolina, nos
plásticos, nos fertilizantes. É um fator inflacionário muito forte, que a
Europa e os EUA já estão sentindo.
Há
também o que chamamos de efeitos de segunda ordem. A Rússia é uma grande
exportadora de petróleo e tem conseguido vender para China, Índia e outros
países que não impuseram embargo. Isso a manteve economicamente à tona. Com os
preços subindo, é uma mina de ouro para Moscou — o que vai complicar a
capacidade da Ucrânia e de seus parceiros de vencer a guerra.
• E a Guerra Fria? Pode ser classificada
como uma guerra mundial?
Poast -
Há estudiosos que a classificaram assim, como Eliot Cohen, ex-diretor da Escola
de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, nos Estados
Unidos. Mas a maioria não o faz, e eu concordo. Para a Guerra Fria ter atingido
o nível de guerra mundial, seria necessário que houvesse a simultaneidade de
conflitos integrados que estamos vendo agora.
O
exemplo que daria: se a guerra do Vietnã e a invasão soviética do Afeganistão
tivessem ocorrido ao mesmo tempo, sim, teríamos tido uma guerra mundial. Você
teria duas guerras simultâneas, grandes potências envolvidas diretamente em
ambas, apoiando os lados opostos, com coordenação cruzada entre elas. Mas não
foi o que aconteceu. Os dois conflitos foram separados no tempo — e essa
separação é exatamente o que os distingue do que vivemos hoje.
• Mais países podem ser arrastados para
esses conflitos atuais?
Poast -
O grande país que todos estão tentando entender é a China. Na guerra da
Ucrânia, tenho chamado a China de "facilitadora" da guerra russa —
comprando energia russa, fornecendo tecnologia de duplo uso. O que a China
oferece é uma tábua de salvação econômica, que é exatamente o que a Rússia mais
precisa. Armas ela consegue em outros lugares, pessoal também — a Coreia do
Norte tem demonstrado isso. Mas a sustentação econômica é o que a China provê,
no âmbito do acordo de "parceria sem limites" assinado às vésperas da
invasão da Ucrânia.
A
questão mais preocupante, para mim, não é se a China vai escalar seu
envolvimento nos dois conflitos existentes. É se ela vai olhar para a situação
e dizer: "Os EUA estão atolados no Irã e na Ucrânia, retirando capacidade
de defesa aérea da Coreia do Sul, cancelando remessas de armas para Taiwan —
talvez seja a hora de agir." Isso seria o grande ponto de inflexão. Mesmo
quem não concorda com minha tese reconheceria que, se isso acontecesse,
estaríamos claramente diante de uma guerra mundial.
• Você escreveu recentemente que a guerra
entre os EUA e o Irã, apoiada por Israel, não passa no teste da teoria da
guerra justa. Por quê?
Poast -
Entrei nesse tema por conta do debate provocado pelo vice-presidente J.D.
Vance. O papa Leão — que é de Chicago, e estamos muito orgulhosos disso —
condenou a guerra, como qualquer papa faria. Vance reagiu dizendo que o papa
precisava entender a tradição milenar da teoria da guerra justa. Imediatamente,
muita gente apontou a ironia: o papa é agostiniano, foi chefe dos agostinianos,
escreveu sua tese de doutoramento sobre Agostinho — o mesmo Agostinho que
fundou essa tradição dentro do catolicismo. Pode ter certeza de que o papa
conhece a teoria da guerra justa.
De
qualquer forma, isso me levou a verificar se a guerra realmente passa nesse
teste. A teoria diz que uma guerra justa precisa ter uma causa justa e ser
conduzida de forma justa. Para a causa ser justa, a guerra precisa ser de
autodefesa e ser o último recurso. Este conflito claramente não satisfaz essas
condições.
Quanto
ao último recurso: havia negociações em andamento. No dia anterior ao ataque
americano com Israel, o mediador omani — o ministro das Relações Exteriores de
Omã — disse que as conversas estavam sendo muito produtivas e que as partes
haviam concordado em continuar negociando. Na manhã seguinte, Trump atacou. A
diplomacia não havia se esgotado.
A outra
condição essencial é ter um plano razoável de sucesso — uma perspectiva
realista de que a guerra criará uma situação melhor do que a anterior. Os
objetivos de guerra do governo Trump mudaram o tempo todo. O próprio Trump
disse que "ninguém esperava" que o Irã fechasse o Estreito de Ormuz
tão facilmente. Só que especialistas no assunto sabiam que isso era totalmente
previsível. É exatamente por isso que presidentes americanos anteriores
decidiram não ir à guerra contra o Irã. Eles sabiam que iam piorar a situação —
e foi o que aconteceu.
¨
As empresas que estão ganhando bilhões com a guerra no
Irã
Enquanto
as famílias de todo o mundo contam os prejuízos gerados pela guerra dos Estados
Unidos e Israel contra o Irã, algumas empresas vêm contabilizando altos lucros.
As
incertezas ocasionadas pelo conflito e o fechamento do estreito de Ormuz pelos
iranianos estão aumentando o custo de vida e prejudicando o orçamento das
empresas, famílias e governos.
Mas,
enquanto alguns enfrentam dificuldades, outros vêm registrando altos ganhos,
com negócios que são mais lucrativos em tempos de guerra ou se beneficiando da
instabilidade dos preços da energia.
Aqui
estão algumas das empresas e setores da economia que estão ganhando bilhões com
a continuidade do conflito no Oriente Médio.
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1. Petróleo e gás
O
principal impacto da guerra à economia mundial, até aqui, foi o forte aumento
dos preços da energia.
Cerca
de 20% do petróleo e do gás do mundo são transportados através do estreito de
Ormuz. Mas este tráfego foi efetivamente interrompido no final de fevereiro.
O
resultado foi uma montanha-russa de oscilações de preços nos mercados de
energia. E algumas das maiores empresas do setor de petróleo e gás do mundo
lucraram com essas oscilações.
Os
principais beneficiários foram as gigantes petrolíferas europeias. Elas têm
setores especializados na compra e venda de ativos (trading), que as permitiram
ganhar com as fortes oscilações de preços, impulsionando seus ganhos.
Os
lucros da BP (British Petroleum), por exemplo, mais do que dobraram nos
primeiros três meses do ano, atingindo US$ 3,2 bilhões (cerca de R$ 15,7
bilhões). Este resultado foi possível graças ao desempenho da sua divisão de
trading, que a empresa considerou "excepcional".
A Shell
também superou as expectativas dos analistas, relatando um aumento dos lucros
no primeiro trimestre do ano, atingindo US$ 6,92 bilhões (cerca de R$ 33,9
bilhões).
Outra
gigante internacional, a TotalEnergies, viu seus lucros saltarem em quase um
terço, atingindo US$ 5,4 bilhões (cerca de R$ 26,4 bilhões) no primeiro
trimestre de 2026. O aumento foi causado pela volatilidade dos mercados de
petróleo e energia.
Já as
gigantes americanas ExxonMobil e Chevron tiveram queda dos ganhos, em
comparação com o mesmo período do ano passado, devido à interrupção do
fornecimento do Oriente Médio.
Mas as
duas empresas superaram as previsões dos analistas e esperam que seus lucros
cresçam ao longo do ano, com os preços do petróleo ainda significativamente
superiores aos níveis praticados no início da guerra.
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2. Grandes bancos
Alguns
dos maiores bancos do planeta também viram seus lucros dispararem após o início
da guerra no Irã.
A
receita de trading do JP Morgan atingiu o nível recorde de US$ 11,6 bilhões
(cerca de R$ 56,8 bilhões), o que ajudou o banco a atingir o segundo maior
lucro trimestral da sua história.
Entre
todos os demais bancos do grupo dos "Seis Grandes" (Bank of America,
Morgan Stanley, Citigroup, Goldman Sachs e Wells Fargo, além do JP Morgan), os
lucros aumentaram substancialmente no primeiro trimestre do ano.
Ao
todo, os bancos relataram lucros de US$ 47,7 bilhões (cerca de R$ 233,4
bilhões) nos três primeiros meses de 2026.
"Os
altos volumes de trading beneficiaram os bancos de investimentos,
particularmente o Morgan Stanley e o Goldman Sachs", afirma a
estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, Susannah Streeter.
O forte
aumento da demanda de trading favoreceu os principais credores de Wall Street.
Investidores correram para se desfazer de ações e títulos de maior risco e
depositar seu dinheiro em ativos considerados mais seguros.
Os
volumes de trading também aumentaram devido aos investidores que buscaram se
capitalizar em função da volatilidade dos mercados financeiros.
Para
Streeter, "a volatilidade desencadeada pela guerra gerou um pico de
trading, pois alguns investidores venderam ações com medo da escalada do
conflito, enquanto outros compraram em baixa, ajudando a alimentar a corrida
pela recuperação".
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3. Defesa
O setor
de defesa é um dos beneficiários mais imediatos de qualquer conflito, segundo a
analista sênior da consultoria RMS UK, Emily Sawicz.
"O
conflito reforçou as lacunas da capacidade de defesa aérea, acelerando
investimentos em defesas contra mísseis, sistemas de combate a drones e
equipamento militar em toda a Europa e nos Estados Unidos, declarou ela à BBC.
Além de
destacar a importância das empresas do setor de defesa, a guerra cria entre os
governos a necessidade de reabastecer seus estoques de armas, o que aumenta a
demanda.
A
empresa BAE Systems, fabricante de produtos como os componentes dos jatos de
combate F35, declarou em uma atualização comercial na quinta-feira (7/5) que
espera forte crescimento das vendas e lucros em 2026.
Ela
mencionou o aumento das "ameaças de segurança" em todo o mundo, o que
impulsiona os gastos governamentais com a defesa e, por sua vez, cria um
"cenário de apoio" para a companhia.
Três
dos maiores fornecedores do setor de defesa do mundo, a Lockheed Martin, a
Boeing e a Northrop Grumman, relataram atrasos recordes dos pedidos no final do
primeiro trimestre de 2026.
Mas as
ações das empresas do setor, que tiveram fortes altas nos últimos anos, vêm
caindo desde meados de março, em meio aos temores de que o setor possa estar
supervalorizado.
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4. Energia renovável
O
conflito também destacou a necessidade de diversificar as fontes de energia e
reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, segundo Streeter.
Este
fator "potencializou o interesse no setor de energia renovável",
segundo ela — mesmo nos Estados Unidos, onde o governo Trump incentivou o uso
de combustíveis fósseis, popularizando o slogan "perfurar, baby,
perfurar".
Streeter
afirma que a guerra fez com que os investimentos em energias renováveis fossem
considerados cada vez mais importantes para a estabilidade e a resiliência aos
choques.
Uma
empresa que recebeu forte impulso foi a NextEra Energy, com sede no Estado
americano da Flórida. Suas ações se valorizaram em 17% este ano, com os
investidores se unindo à sua missão.
As
gigantes dinamarquesas da energia eólica Vestas e Orsted também relataram
aumento dos lucros, destacando como as consequências da guerra no Irã também
estão impulsionando as empresas de energia renovável.
No
Reino Unido, a empresa Octopus Energy declarou recentemente à BBC que a guerra
trouxe "enorme impulso" para a venda de placas solares e bombas de
calor. As vendas de painéis solares aumentaram em 50% desde o final de
fevereiro.
A alta
dos preços da gasolina também aumentou a demanda por veículos elétricos. E os
fabricantes chineses, particularmente, vêm aproveitando melhor esta
oportunidade.
Fonte:
BBC News

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