Washington
Araújo: A guerra ultrapassa o limite, a paz torna-se inevitável
Menos
de vinte e quatro horas bastaram para que o cessar-fogo anunciado com pompa por
Donald Trump e aceito por Teerã, sob mediação do Paquistão, revelasse sua
natureza: não um acordo sólido, mas um intervalo precário entre duas vontades
inconciliáveis. A trégua mal havia sido apresentada ao mundo quando Israel
lançou sobre o Líbano a maior onda de ataques desde o início dessa etapa da
guerra, enquanto o Irã endurecia novamente sua postura no Golfo e reabria a
crise no estreito de Ormuz.
No
papel, cessar-fogo. No chão, bombas, alerta aéreo, navios parados e acusações
mútuas de violação.
Não se
trata de um acordo que falhou; trata-se de um acordo que nunca chegou a existir
como compromisso efetivo entre as partes.
É nesse
descompasso entre discurso diplomático e realidade militar que se deve ler o
momento atual. O acordo nasceu defeituoso porque jamais houve consenso sobre
seu alcance. O Paquistão sustentou que a trégua deveria abranger também o front
libanês; Israel e a Casa Branca disseram o contrário. O vice-presidente J. D.
Vance afirmou que incluir o Líbano seria um “mal-entendido”. Benjamin
Netanyahu, por sua vez, declarou que a guerra contra o Hezbollah continuaria.
Quando
um cessar-fogo começa sem definição comum sobre quem está incluído, ele já
nasce com todas as condições para ser um fracasso. E quando nasce corroído, não
se sustenta — apenas simula estabilidade enquanto prepara a próxima ruptura.
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Escalada no Líbano
Os
fatos que se seguiram ao anúncio da trégua reforçam esse diagnóstico com
números que não permitem relativização. Em poucas horas, Israel conduziu uma
operação de grande escala no Líbano, lançando aproximadamente 160 mísseis em
cerca de dez minutos, numa ofensiva descrita por autoridades militares como a
mais intensa desde o início do conflito. O governo libanês acusou Tel Aviv de
ignorar esforços diplomáticos internacionais, enquanto imagens de destruição
urbana ampliaram a pressão sobre a comunidade internacional.
No
terreno, equipes de resgate enfrentavam cenários de colapso estrutural, com
bairros inteiros atingidos, o que evidencia que a guerra continuava a produzir
vítimas em ritmo acelerado e sem distinção entre alvos militares e áreas
densamente povoadas.
O
primeiro ponto que emerge é o descompasso entre vitória militar e resultado
político.
Após
cerca de quarenta dias de bombardeios intensos conduzidos por Estados Unidos e
Israel, instalações iranianas foram atingidas, infraestrutura degradada e
capacidades parcialmente reduzidas. Ainda assim, o regime permaneceu intacto.
Não houve colapso interno, nem ruptura significativa na cadeia de comando. Para
Teerã, isso basta para reivindicar êxito político.
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A estratégia em ruínas
A
leitura não é isolada. O cientista político Robert Pape, referência no estudo
de coerção militar, vem argumentando que a campanha ocidental produziu um
impasse estratégico previsível. Em suas análises recentes, ele sustenta que
Washington entrou numa lógica de dilema: ou escalava o conflito para níveis
potencialmente descontrolados, ou aceitava um recuo tático que preservaria o
regime iraniano.
Em
avaliações amplamente repercutidas na imprensa internacional, Pape sugere que o
resultado pode ser interpretado como o mais severo revés estratégico americano
desde a Guerra do Vietnã — não pela escala militar, mas pela incapacidade de
converter poder bélico em resultado político duradouro.
Essa
avaliação ganha peso quando confrontada com os objetivos iniciais da ofensiva.
A narrativa predominante — amplamente documentada em análises do The New York
Times e do The Washington Post — indicava a expectativa de enfraquecimento
decisivo do regime iraniano.
Em
alguns momentos, falou-se abertamente em mudança de regime. Nada disso ocorreu.
O regime não caiu, não cedeu e não foi isolado de forma irreversível.
Ao
contrário, o Irã demonstrou capacidade de absorção e adaptação. Mesmo sob
ataques, manteve estoques relevantes de material nuclear — estimativas recentes
indicam cerca de 400 a 450 quilos de urânio enriquecido a níveis próximos a
60%. Não se trata de capacidade imediata de armamento nuclear, mas é um ativo
estratégico que amplia poder de barganha e sustenta a posição iraniana nas
negociações que se aproximam. Sobreviveu sob pressão máxima — e isso, em
geopolítica, não é detalhe.
A
crítica mais incisiva talvez venha de dentro do próprio campo israelense. O
analista Danny Citrinowicz tem sido categórico ao questionar a lógica da
operação. Ele destaca que o núcleo do poder iraniano permaneceu intacto,
enquanto os custos regionais se multiplicaram. Sua pergunta — Que
resultado concreto essa guerra entregou? — sintetiza um desconforto
crescente entre especialistas de segurança e diplomatas ocidentais que começam
a revisar, com atraso, as premissas que sustentaram a escalada.
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Ormuz como arma
Se há
um ponto concreto obtido por Washington, ele se concentra no Estreito de Ormuz.
A via marítima, responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo,
voltou a operar parcialmente, mas sob ameaça constante. O Irã não apenas
manteve influência sobre a passagem como reforçou sua capacidade de controle
indireto — e, sobretudo, sua capacidade de interromper o fluxo quando desejar.
Nas
horas seguintes ao cessar-fogo, essa influência tornou-se explícita.
A
Guarda Revolucionária anunciou novas restrições à navegação e declarou que
qualquer embarcação sem autorização poderia ser alvo militar. Dados de
monitoramento indicavam centenas de navios parados em ambos os lados do
estreito, interrompendo um fluxo que, antes da guerra, chegava a cerca de 130
embarcações por dia. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi,
afirmou que os Estados Unidos precisariam escolher entre sustentar a trégua ou
admitir sua sabotagem por meio de ações indiretas conduzidas por Israel. Vemos
aqui — novamente, — a guerra de narrativa e a falência da verdade factual.
É nesse
contexto que emerge uma proposta que redefine o eixo econômico do conflito.
Teerã trabalha com a possibilidade de instituir um pedágio de até 2 milhões de
dólares por navio petroleiro que atravesse o estreito de Ormuz, em acordo com
Omã. Projeções indicam que essa cobrança poderia gerar receitas próximas de 1
bilhão de dólares por dia.
Não é
apenas uma medida econômica. É a transformação de uma rota energética global em
instrumento permanente de poder político.
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O custo da guerra
O
impacto mais duradouro, contudo, recai sobre os próprios Estados Unidos.
Estimativas de centros de análise e relatórios do Congresso indicam que os
custos diretos e indiretos da campanha — mobilização militar, reposição de
armamentos de alta precisão, manutenção de forças na região e impacto sobre o
mercado energético — já ultrapassam dezenas de bilhões de dólares.
Esse
valor não inclui efeitos secundários: inflação energética, encarecimento do
transporte marítimo, pressão sobre alimentos e desorganização de cadeias
logísticas globais. O barril de petróleo, que orbitava a faixa de 70 dólares
antes do conflito, superou os 117 dólares em poucos dias, refletindo a
vulnerabilidade estrutural do sistema energético internacional.
Nesse
contexto, a relação entre Washington e Tel Aviv entra em uma zona de tensão
controlada. O governo de Benjamin Netanyahu foi um dos principais defensores da
escalada, sustentando a viabilidade de um golpe decisivo contra Teerã.
A
realidade mostrou-se “ligeiramente muito distinta”— e mais resistente do que o
cálculo inicial sugeria.
Autoridades
americanas reforçaram que os objetivos militares teriam sido atingidos, mas o
discurso revela fissuras. O secretário de Defesa Pete Hegseth falou em sucesso
operacional. O general Dan Caine adotou um tom mais prudente ao afirmar que a
prontidão militar permanece elevada. Já a porta-voz Karoline Leavitt —
porta-voz da Casa Branca — deixou explícito que o Líbano não integra o
cessar-fogo. A guerra, portanto, foi parcialmente suspensa e seletivamente
mantida.
Em
Teerã, o presidente Masoud Pezeshkian relatou ataques a infraestruturas
energéticas logo após o anúncio da trégua, enquanto Mohammad Bagher Ghalibaf
acusou Washington de violar compromissos antes mesmo do início das negociações.
Do lado americano, J. D. Vance advertiu que eventuais violações iranianas
trariam consequências severas. A linguagem é de cessar-fogo. A lógica continua
sendo de confronto.
Nesse
tabuleiro, o Líbano surge como o elo mais vulnerável. Sem capacidade de defesa
proporcional, com instituições fragilizadas e economia em colapso prolongado, o
país absorve impactos que não controla. A guerra, para o Líbano, não é escolha.
É imposição.
Tenho
lido com atenção redobrada o noticiário impresso dos Estados Unidos nas últimas
horas — especialmente análises e editoriais — exatamente porque não disponho
com a mesma facilidade de acesso ao que se publica em Tel Aviv ou em Teerã.
Essa assimetria exige disciplina intelectual. Exige cuidado para não reproduzir
versões parciais, para não aceitar como totalidade aquilo que é apenas
narrativa. Em guerra, a informação também é campo de batalha.
O que
se observa, ao final, é um cessar-fogo que não encerra a guerra — apenas a
reorganiza.
A
lógica do conflito permanece ativa, alimentada por desconfiança estrutural,
interesses divergentes e ausência de uma arquitetura diplomática capaz de
sustentar compromissos duradouros.
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A escolha que resta
Não
vejo, neste momento, qualquer evidência de que a continuidade da guerra produza
um resultado mais estável do que a negociação. Vejo o contrário.
Vejo,
isso sim, um sistema internacional pressionado, economias tensionadas, cadeias
de suprimento instáveis e sociedades expostas a um risco crescente que não é
abstrato — é mensurável, diário e cumulativo. Vejo também lideranças que ainda
operam sob a ilusão de controle, quando na verdade administram um processo que
já escapou dos limites convencionais da previsibilidade estratégica.
Sustentar
a paz não é um gesto moral. É uma decisão estratégica.
Custa
menos, exige mais inteligência e produz mais estabilidade.
Sustentar
a guerra é o oposto: consome recursos, amplia incertezas e reduz a margem de
erro a níveis perigosos. E quanto mais se prolonga esse cenário, mais se
estreita o espaço para soluções racionais, substituídas por respostas
automáticas, reativas e potencialmente desastrosas.
Eu
insisto: é preciso dar uma chance real à paz. Não como retórica, mas como
cálculo. Persistir na guerra não é firmeza — é insistência em um erro que se
amplia a cada novo movimento. O sistema internacional já opera sob pressão
extrema, como uma estrutura tensionada além de sua capacidade segura.
Em
algum momento, essa pressão encontra um ponto de ruptura. E quando isso
acontece, não há contenção possível, não há narrativa que organize o caos, não
há liderança que recupere o controle perdido.
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Ormuz, Líbano e mais: confira pontos frágeis do acordo de
cessar-fogo entre EUA e Irã
Os
Estados Unidos e o Irã firmaram um acordo de paz temporário de duas semanas na
noite de terça-feira, 7, após o governo Trump ameaçar impor um “ultimato” caso
os líderes iranianos não aceitassem um cessar-fogo. No entanto, a fragilidade
do acordo ficou evidente já na manhã desta quarta-feira, 8, com ataques
registrados em ilhas iranianas e no Líbano. O acordo em questão tem como base
dez tópicos elencados pelo Irã, mas o cenário segue incerto. Entenda mais sobre
os pontos de indefinição e divergência.
Os
países concordaram em cessar-fogo por duas semanas enquanto, em contrapartida,
o Irã reabriria o Estreito de Ormuz, via marítima fundamental para o mercado de
petróleo. Para isso, o Irã exigiu que dez pontos fossem seguidos. Conforme
divulgado por representantes iranianos, os pontos são:
-
Garantia de que não haverá novos ataques contra o Irã;
-
Continuação do controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz;
-
Aceitação do programa de enriquecimento de urânio;
-
Suspensão de todas as sanções primárias;
-
Suspensão de todas as sanções secundárias;
-
Rescisão de todas as resoluções do Conselho de Segurança da ONU;
-Rescisão
de todas as resoluções do Conselho de Governadores da Agência Internacional de
Energia Atômica (AIEA);
-
Pagamento de indenização ao Irã;
-
Retirada das forças de combate dos EUA da região; e
-
Cessação da guerra em todas as frentes, inclusive contra a heroica Resistência
Islâmica do Líbano.
Por
mais que o governo iraniano tenha confirmado que o acordo teve como base estes
tópicos, e que o próprio Donald Trump tenha confirmado que receberam a proposta
– que chamou de “base viável para a negociação” –, nesta quarta, a porta-voz da
Casa Branca, Karoline Leavitt, mudou o discurso.
"O
plano de 10 pontos apresentado pelos iranianos era fundamentalmente ridículo e
inaceitável e foi completamente rejeitado por Trump”, disse Leavitt durante
coletiva de imprensa em Washington. De todo modo, a ideia é que negociações
aconteçam na sexta-feira, 10.
O
Estreito de Ormuz segue sendo um tópico de disputa. Desde o início do conflito
no dia 28 de fevereiro, o Irã fechou o Estreito de Ormuz, o que paralisou cerca
de 97% do tráfego comercial de combustíveis e elevou o preço da gasolina e do
diesel em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.
Os
Estados Unidos querem que o canal seja liberado para livre circulação, sem
quaisquer limitações ou pedágios. Já o Irã segue firme na condição de manter o
controle do tráfego. Com o cessar-fogo, o estreito chegou a ser reaberto, mas
novos ataques fizeram com que o Irã fechasse Ormuz novamente após poucas horas.
Para eles, a trégua foi violada.
Essas
violações também dão tom ao cenário de instabilidade. Segundo informações
divulgadas pelas mídias estatais do Irã, o dia começou com explosões próximo a
uma refinaria de petróleo na ilha de Lavan, no Golfo Pérsico, e na ilha de
Siri, mais a sudeste, perto da entrada para o Estreito de Ormuz.
A
Companhia Nacional Iraniana de Refino e Distribuição de Petróleo confirmou o
ataque à refinaria, que disse ter sido alvo de um ataque inimigo. A instalação
teria sido atingida por volta das 10h no horário local, mas não foi feita uma
acusação sobre quem seria o autor do ataque.
O
porta-voz militar israelense Tenente-Coronel Nadav Shoshani foi perguntado
sobre o caso e negou qualquer participação de Israel. "Não estivemos
envolvidos", disse.
O
Líbano também foi alvo após o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu,
contrariar o anúncio de um dos mediadores do conflito, o Paquistão, de que
todos os ataques seriam interrompidos. Para Netanyahu, no entanto, o
cessar-fogo acordado com Irã e EUA não envolveria os libaneses. Até o momento,
são os ataques de Israel ao Líbano que mais ameaçam a continuidade do acordo de
cessar-fogo.
Para o
presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Baqer Qalibaf, três cláusulas-chave
da proposta foram violadas. Para além do ataque ao Líbano,
ele também cita a entrada de um "drone invasor" no espaço
aéreo iraniano e a negação
do direito do Irã ao enriquecimento de urânio –
que fazia parte do acordo, mas que Trump segue dizendo que não
ocorrerá.
O
urânio é um dos principais tópicos do conflito, pois o governo Trump alega que
um dos motivos do início da guerra é impedir que o Irã desenvolvesse uma arma
nuclear, o que o país nega.
Fonte: Brasil247/Portal
Terra

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