Por
que a popularidade de Freud e da psicanálise cresce em épocas de crise e
autoritarismo como agora
A
psicanálise está em alta. Contas no Instagram dedicadas à teoria freudiana
acumulam quase 1,5 milhão de seguidores. Programas de TV como o Terapia de
Casal, de Orna Guralnik, tornaram-se fenômenos. Artigos de opinião em
publicações como The New York Times e The Guardian apontam para um
"renascimento" da psicanálise.
Para
muitos, esse retorno é uma surpresa. Ao longo dos últimos 50 anos, a
psicanálise — movimento intelectual e prática terapêutica criada por Sigmund
Freud (1856–1939) na Viena de 1900 — foi rejeitada e menosprezada em muitos
círculos científicos.
Especialmente
no mundo anglófono (países de língua inglesa), o avanço da psicologia
comportamental e a expansão da indústria farmacêutica empurraram terapias
baseadas na fala, como a psicanálise, para as margens.
Mas há
uma história global mais complexa. Durante a vida de Freud, foram criados 15
institutos psicanalíticos em todo o mundo, incluindo os da Noruega, da
Palestina, da África do Sul e do Japão. Em várias partes do planeta — de Paris
a Buenos Aires, de São Paulo a Tel Aviv —, a psicanálise floresceu ao longo do
século 20.
Em toda
a América do Sul, ela continua a exercer grande influência clínica e cultural.
Na Argentina, é tão popular que se brinca que não se embarca em um voo para
Buenos Aires sem que haja ao menos um psicanalista a bordo.
Há
várias razões para a psicanálise ter se tornado popular em alguns países e não
em outros. Uma delas está ligada à história da diáspora judaica no século 20.
Com a
expansão do Terceiro Reich, muitos psicanalistas e intelectuais judeus fugiram
da Europa Central antes do Holocausto. Cidades como Londres, que acolheu Freud
e toda a sua família, foram culturalmente transformadas por esse fluxo de
refugiados.
Mas há
outro fator, talvez menos evidente: a ascensão do autoritarismo. A psicanálise
pode ter surgido e se difundido no contexto da Europa em guerra, mas sua
popularidade cresceu em paralelo a crises políticas.
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Resposta à opressão
Veja o
caso da Argentina. À medida que o peronismo autoritário de esquerda deu lugar a
uma "guerra suja" apoiada pelos Estados Unidos, esquadrões
paramilitares sequestraram, mataram ou fizeram "desaparecer" cerca de
30 mil ativistas, jornalistas, líderes sindicais e dissidentes políticos.
Perda, silêncio e medo passaram a marcar o mundo emocional de muitos.
Ao
mesmo tempo, porém, a psicanálise — com seu interesse por trauma, repressão,
luto e verdade inconsciente — tornou-se uma forma significativa de lidar com a
opressão.
Espaços
de escuta e fala sobre trauma e perda passaram a funcionar como uma estratégia
de resposta — e talvez até de resistência — a esse desastre político. Em uma
cultura de mentiras de Estado e silêncio imposto, simplesmente dizer a verdade
era um ato radical.
Muitos
dos primeiros seguidores de Freud usaram a psicanálise de maneira semelhante.
Diante
dos horrores inexplicáveis do fascismo europeu, pensadores como Wilhelm Reich,
Otto Fenichel, Theodor Adorno e Erich Fromm viam a psicanálise, frequentemente
associada ao marxismo clássico, como uma ferramenta para compreender como se
formam e se desejam personalidades autoritárias.
Do
outro lado do mundo, na Argélia, o psiquiatra e ativista anticolonial Frantz
Fanon recorreu à psicanálise para denunciar os regimes raciais opressivos do
colonialismo francês. Para todos esses médicos e filósofos, ela era uma
ferramenta essencial de resistência política.
Algo
semelhante parece estar acontecendo hoje. À medida que novas formas de
autoritarismo multinacional emergem, imigrantes são demonizados e genocídios
são transmitidos ao vivo, a psicanálise volta a ganhar força.
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Uma forma de dar sentido ao que parece não ter sentido
Para
alguns, neuropsicanalistas como Mark Solms forneceram os elementos necessários
para retomar a psicanálise.
Em seu
novo livro, The Only Cure: Freud and the Neuroscience of Mental Healing (A
Única Cura: Freud e a Neurociência da Cura Mental, em tradução livre), Solms
usa a neurociência — especialmente seu trabalho sobre os sonhos — para
argumentar que a teoria freudiana do inconsciente estava correta desde o
início.
Segundo
Solms, embora possam ser eficazes no curto prazo, medicamentos oferecem apenas
soluções temporárias. Somente os tratamentos psicanalíticos, afirma ele,
proporcionariam efeitos duradouros.
Solms
faz parte de um grupo crescente de clínicos e intelectuais cujo trabalho
recolocou a psicanálise em evidência cultural. Enquanto Solms se aproxima da
neurologia, outros, como Jamieson Webster, Patricia Gherovici, Avgi
Saketopoulou e Lara Sheehi, recolocam a dimensão política da psicanálise no
centro do debate.
O
trabalho deles mostra como conceitos da psicanálise — o inconsciente, a
"pulsão de morte", a bissexualidade universal, o narcisismo, o ego e
a repressão — ajudam a interpretar o momento contemporâneo, principalmente
quando outras teorias se mostram insuficientes.
Em um
mundo de crescente mercantilização, a psicanálise resiste a definições
comercializadas de valor.
Ela
valoriza o tempo profundo em um contexto de atenção cada vez mais fragmentada e
insiste na importância da criatividade e da conexão humanas em um cenário de
saturação por inteligência artificial.
Também
questiona concepções convencionais de gênero e identidade sexual e prioriza as
experiências individuais de sofrimento e desejo.
As
razões para o ressurgimento da psicanálise refletem aquelas que impulsionaram
suas ondas anteriores de popularidade: em momentos de instabilidade política,
violência de Estado e traumas coletivos, ela oferece ferramentas para dar
sentido ao que parece não ter sentido.
A
psicanálise fornece um quadro para compreender como impulsos autoritários se
enraízam nas subjetividades individuais e se disseminam pelas sociedades.
Além
disso, em uma era dominada por soluções rápidas e intervenções farmacológicas
na saúde mental, a psicanálise insiste no valor de uma atenção prolongada à
complexidade humana.
Ela se
recusa a reduzir o sofrimento psíquico a desequilíbrios químicos no cérebro ou
a sintomas a serem apenas controlados. Em vez disso, trata o mundo interno de
cada indivíduo como algo digno de exploração profunda.
O
interesse coletivo renovado pela psicanálise também está desafiando o próprio
campo a se transformar. Suposições antigas, como a ideia de neutralidade do
terapeuta ou de que a heterossexualidade é a norma, vêm sendo questionadas.
A
prática psicanalítica também está sendo repensada em diálogo com diversos
movimentos de justiça social e solidariedade. É um momento em que muitos buscam
redefinir o que a psicanálise pode ser.
Resta
saber se esse renascimento vai perdurar. Mas, por ora, enquanto as crises
políticas se intensificam e as abordagens terapêuticas tradicionais parecem
insuficientes, as ideias de Freud sobre a psique humana encontram novos
públicos ávidos por compreender a obscuridade dos nossos tempos.
Fonte:
Por Carolyn Laubender, para The Conversation

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